Relato gay – formação livre de julgamentos

Meu segundo namorado comemora hoje 28 ou 29 anos. Entrou numa fase de carências, que percebo que vem de tempos em tempos, num ciclo, em todos esses 10 anos que o conheço. Fomos namorados quando eu tinha uns 25 anos e ele acabava de completar 17 e, hoje, mantemos um contato por GTalk, nesses períodos que ele entra em “crise” e gosta de pedir por atenção. Mora em Hortolândia e estou aqui em São Paulo. Depois que terminamos, nos vimos apenas uma vez, como relato no post “Meu segundo namoro“.

Nesse contato de duas semanas recentes, leonino como ele é e ariano como sou, os assuntos ficam intensos e engraçados. Longe, muito longe de qualquer recaída ou sentimento mal resolvido, me divirto muitíssimo com seu jeito travesti, ou bicha louca, das gírias, termos e determinados assuntos do personagem que incorpora nessas fases descontroladas. Personagem que de fato faz parte dele e que as vezes era irritante lidar, principalmente quando eu buscava puxar assuntos para a seriedade!

Quando me assumi, aos 23 anos, minha única referência de ser gay era aquela que passava na tevê, a bichinha da “Escolinha do Professor Raimundo”, o tio de uma amiga que usava quase fio dental na praia e outros esteriótipos que a tela teima ainda hoje em criar. Porém, essa imagem caricata, que fomenta inclusive o preconceito, nunca foi motivo de aversão da minha parte. Não tinha consciência nem referência para julgar e o que entendia e confesso continuar entendendo até hoje é que, afeminados ou masculinizados, somos todos farinha do mesmo saco. A minha vontade naquela época era me relacionar com gays e ponto, livre dos julgamentos superficiais das maneiras, ou melhor, do receio da sociedade me taxar de A ou Z por ter contato íntimo com um gay afeminado (de fato muitos gays deixam de se relacionar ou limitam a relação pelo receio da impressão que o outro pode causar).

Desse namoro, percebia um certo constrangimento por parte dos meus amigos heterossexuais devido a algumas atitudes e discursos que vinham do meu ex-namorado. Mas aquilo tudo não era motivo para me chatear pois, acima de tudo, havia o meu reconhecimento como gay, a paixão e a vontade de convívio com a figura que foi e é esse meu ex. Não posso deixar de expressar que algumas vezes a maneira que alguns assuntos eram abordados me tirava bastante do sério. Era um exposição desnecessária, as vezes uma vulgaridade, mas que se paro para pensar hoje lembro com muito humor.

O constrangimento dos meus amigos se revelou em algumas conversas meses ou anos depois do final do namoro. E foi aí que meu senso de julgamento começou a ter novas referências, da maneira que meus amigos percebiam meu ex. Já não era mais preconceito e sim conceito: alguns amigos heterossexuais e gays conviveram frequentemente conosco.

Consecutivamente, meu próximo namorado virou marido. Carregava novamente algumas ou muitas características afeminadas, expansivas e delicadas cujos constrangimentos e estranhamentos vieram também em argumentos de meus amigos posteriormente ao término, daqueles que frequentavam a nossa casa.

Assim fui somando as percepções dos outros e notando que realmente os trejeitos afeminados, assuntos e costumes de “bichas” para o mundo heterossexual e para o gay que não se identifica com essa feminilidade gera um tipo de estranheza ou desconforto. Hoje entendo com uma certa naturalidade todas essas percepções. Mas era muito importante para mim conviver com pessoas diversas que me mostrassem maneiras e formas diferentes das minhas. Concluia que a feminilidade em um homem não era problema para mim. Foi assim comigo me relacionando entre namoro e casamento durante 4 anos e meio com gays afeminados.

Não sei se isso é uma qualidade ou uma falta de filtro, mas sei dos benefícios da ausência da limitação que normalmente temos para lidar com o diferente. Durante 4 anos e meio ex-namorado e ex-marido me revelaram percepções e intensidades sobre as coisas, valores sobre a existência e tudo mais, bem diferentes das minhas. Ao contrário do discurso clichê dos gays que vivem relações curtas justificando a validade de relacionamentos rápidos na intensidade, esses meus ex definitivamente eram e ainda são de personalidade muito intensa. Com eles, as emoções corriam muito mais a flor da pele para o bem e para o mal. O envolvimento com uma música, uma cena de filme ou um fato da vida, e a ânsia por desejar ou desgostar de alguma coisa eram muito mais expressada. De fato sentidas e nada simuladas. Tantos gays “machões” são duros, frios, inexpressivos e as vezes até apáticos. Com gays afeminados, como foram meus ex-namorado e ex-marido, apatia estava fora de questão!

Aprendi com eles a ser menos “quadrado” e até mesmo menos hipócrita. Nem sempre o discurso é mais válido que a atitude e, esses dois, resguardadas as diferenças de valores e educação, colocavam em jogo a minha introversão. Me tiravam definitivamente do sério e o tirar do sério me levava a conhecer características, bloqueios e inseguranças em mim que não fazia ideia da existência.

Não me poupei de conviver com eles e vice-versa. Livre de julgamentos me tornei uma pessoa mais autônoma hoje, mais consciente de mim mesmo, convivendo intimamente e inevitavelmente-intensamente com gays afeminados.

A gente deixa de estar com algumas pessoas porque no fundo temos medo do que elas podem provocar dentro da gente. Temos medo do espelho, temos medo das nossas verdades mais íntimas, temos medo da rejeição. Conviver com gays tão abertos e expansivos é uma oportunidade de nos livrar de nossas hipocrisias e deixar de lado o discurso mascarado.

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