O dilema de ser homossexual é histórico, mas será eterno?


O site Disponível, em ação para ampliar sua visibilidade, pediu gentilmente para lançar um texto dedicado ao público gay no Blog MVG. Para quem não sabe, o Disponível é um site de relacionamento ancorado no portal UOL que tem as mesmas finalidades do Manhunt e Gaydar. 

Para possibilitar essa parceria entre Blog Minha Vida Gay, Disponível e a empresa que está trabalhando na visibilidade do site, fui bastante crítico quanto ao tema pois, sabemos bem que portais do tipo Manhunt e Gaydar fogem bastante com conceito desse blog que é um espaço para gays que procuram por momentos sem a manifestação de nossos hormônios! rs

Assim, segue o texto “O dilema de ser homossexual é histórico, mas será eterno?” com uma análise crítica do MVG logo em seguida, como se fosse um relato de um leitor acompanhado na sequência do ponto de vista do MVG, padrão que se segue por aqui em outros posts.

A Bíblia é a autoridade final em muitas das relações humanas. Ali se proclama que só existe um tipo de união na terra: a do amor e do casamento entre um homem e uma mulher. A Bíblia deixa claro que uma relação homossexual é pecado (Romanos 1:26-27) e deliberadamente continuar nesse sentido se está em pecado constante, o que leva à morte eterna de quem comete esse tipo de pecado.

Mas esta é a lei dos Homens, proclamada na Bíblia, também escrita por Homens. Mas será este mesmo o desejo dessa força espiritual que é Deus? As únicas pessoas ditas “perfeitas” do mundo foram Adão e Eva, mas reza também a Bíblia que eles entraram em pecado, pois comeram a maçã e acabaram sendo expulsos do paraíso. Houve o pecado do incesto, entre outros relatos de pecado, que podem ser lidos na Bíblia. Então muitos estão se perguntando agora: mas Deus não nos criou à sua imagem e semelhança? Então nascemos e somos imagem dele, certo? Portanto, se é assim Deus não nos criou seres perfeitos de modo algum e sim seres diferentes uns dos outros, com personalidades e feitios diferentes. E, claro, gostos diferentes também. Assim, é possível uma pessoa nascer homossexual ou heterossexual não sendo isso um pecado e sim uma diferença, tal como a cor do cabelo, dos olhos e outras mais. Cada um de nós é um ser diferente com um íntimo diferente.

Segundo Cristo, temos o poder e a liberdade da escolha e podemos decidir o nosso destino. (Gálatas 5:16-25). Existe já muita discussão religiosa sobre esse tema, mas mais uma vez me questiono, não será a religião dos Homens demasiado complexa?

Mais importante que tudo não deveria ser: ter orgulho de saber amar um pai, uma mãe, amigos, namorado ou namorada? Ter a capacidade de amar, rir, viver feliz com nossas escolhas não deveria ser muito superior a tudo o que a religião discute, e o referido pecado?

Mais uma vez se prova que desde o início da criação que um dos princípios da evolução de qualquer espécie é a sobrevivência do mais apto. Então, toda a criatura, de todas as espécies, tenta possuir a melhor qualidade e adaptações para ser dominante e prosperar ao longo da luta da vida. Pão e manteiga, casa, roupa por si só não são a necessidade básica para todos.

A palavra sexo tem um papel vital e fundamental em um processo de vida de um ser humano, como também, em outras criaturas. No ponto de vista evolutivo o sexo é uma necessidade básica, que quando satisfeita ajuda muitos outros aspetos do corpo humano. Portanto, sexo não se justifica apenas na hora de procriação! Muitos são os especialistas que defendem que o sexo é necessário para combater a doença, para a boa disposição, para se levar a vida de uma forma mais leve.

Muitas são já as relações que começam muito baseadas em sexo e na necessidade básica, do ser humano. Isso acontece com relações hetero e homossexuais. A verdade é que cada vez mais a vida que levamos nos impede de podermos cultivar a afetividade, por falta de tempo, pelo estresse que vivemos no dia a dia e também porque muitos são já aqueles e aquelas que optam por viver sozinhos na sua tranquilidade. E por isso mesmo procura relações de curta duração, onde a afetividade não é o foco dessa mesma relação e sim a procura de algo físico e a mais pura satisfação de uma necessidade básica. Nos textos de Ayurveda, a ciência médica mais antiga do mundo, há três necessidades básicas ou instintos que são inevitáveis e não devem sempre ser suprimidos. Estes três são: Alimentação, sono e sexo. Se qualquer um destes três acaba sendo distorcido, o desenvolvimento pleno da felicidade não estaria completo. Portanto, se aquilo que procura em seu parceiro é puramente sexo, não ache isso estranho, pois se trata da necessidade mais básica do ser humano.

Freud foi um dos que avançou uma teoria do desenvolvimento da personalidade que se centrou sobre os efeitos da unidade de prazer sexual na psique individual. De acordo com a teoria de Freud: A frustração ocorre quando essas necessidades não são satisfeitas; se a criança se fixa numa fase particular, o método de obtenção de satisfação que caracteriza, a fase irá dominar e afetar a sua personalidade adulta.

Toda a base de nossa felicidade, bem como a nossa existência na Terra, depende da sensação plena da satisfação de nossos desejos, principalmente básicos; se não estiver satisfeito, não pode prosperar. Além de precisar do ar que respira, comida e água outras necessidades biológicas básicas são: amor, abrigo e relacionamento, sexo e toque.

Quando não satisfizer suas necessidades desencadeia uma cascata de emoções, muitos são os sentimentos negativos corrosivos, que vão do medo à vergonha, que fazem um indivíduo sentir-se injustiçado. Quando nossas necessidades básicas e reais são satisfeitas, isso anima a nossa vida com uma série de bons sentimentos que incluem felicidade, sentimentos como se sentir vivo, contentamento e liberdade – sem falar, é claro, no amor.

Portanto, a saúde e a felicidade estão diretamente relacionadas com o fato das nossas necessidades se estão sendo atendidas ou não. Assim, o sexo é um elemento inevitável que controla a consciência de um indivíduo, desenvolvimento e manifestação da personalidade. Mesmo que alguns cultos advoguem sobre devemos erradicar a indulgência sexual de nossa vida para obtermos a iluminação do conhecimento, quem seria realmente capaz de fazer isso? No estômago com fome não se pode pensar sobre religião e assim também sem os seus desejos básicos cumpridos, não pode iluminar uma alma.

MVG:

“No estômago com fome não se pode pensar sobre religião e assim também sem os seus desejos básicos cumpridos, não pode iluminar uma alma”.

Desejos básicos. Não há dúvidas que sexo, alimentação, sono e vestuário fazem parte do “pacote” básico de um indivíduo que passou da puberdade. E realmente entendo que não precisamos ter vergonha ou parcimônias por desejar coisas básicas. Ao contrário, se são desejos básicos tratemos como fundamentais para serem vivenciados!

O que coloco sempre em questão e obviamente contraria um pouco (ou muito) os hábitos de frequentadores de sites como Manhunt, Gaydar e Disponível é que uma grande parcela desses usuários gays utilizam-se desses recursos de maneira compulsiva, exclusiva, como um vício (e que atire a primeira pedra quem discordar!). Esse efeito é bom para esses portais que contabilizam visitas e frequências. Ruim para os usuários que não se percebem numa circunferência de intimidade limitada como já expus no post “O vício de Gaydar, Mahunt e Grindr”.

Contestação: de maneira nenhuma abdicamos de um relacionamento mais íntimo pelo stress ou falta de tempo ou whatever da vida moderna! What a fuck absurdo! (rs) Achei capciosa a colocação, mas o homem gay hoje não vive de relacionamentos mais afetivos pela própria falta de jeito com as intimidades que é mais psique do que hábito. Hoje é mais prático fazer sexo por sexo, mas é obviamente mais mecânico, quase produto que não nos apresenta pleno para o outro, ideia que explico um pouco mais abaixo.

Outro ponto que “quase me confunde” é quando – em trechos do texto – existem comparações diretas entre sexo e amor. Sejamos francos: podemos fazer sexo todos os dias por intermédio dessas ferramentas de encontro, em saunas, banheirões e cinemões sem sequer cultivar um valor amoroso pelo outro! Ficar nu ou semi nu, nos tempos modernos, tem pouco a ver com o íntimo e muito menos com amor! Amor é básico como afirma o texto acima, mas tem um processo de envolvimento que se leva tempo e exposição. Vai além da embalagem. O sexo, hoje, é quase uma compra mas que não há troca de moeda: rasga a embalagem e a vontade se realiza.

Sugerir a “pressão” religiosa como “monstro” que incentiva a explosão de nossos desejos gays e sexuais é uma ideia um pouco antiga. Talvez nos anos 70 e 80 a sociedade religiosa fosse a responsável mais óbvia para levar a culpa pela repressão aos gays, quando o acesso à informação era muito mais tímida. Mas hoje, me parece muito mais esclarecido perceber que a repressão ou pressão vem muito mais na maneira que sentimos por dentro as influências do que vem de fora. Em outras palavras, como apresento em outros posts, chega uma fase da vida que é até infantil culpar “o mundo” pelas nossas dores. Chega uma fase da vida que, com tantas informações ao nosso alcance, dizer que a “culpa” disso ou daquilo é da religião é simplesmente uma desculpa. Existem as influências sim das coisas externas, como a religião, e não tiro o peso. Mas hoje, mais do que tudo, existe uma clareza de que podemos nos tornar autores de nossas próprias vidas sob a influência da diversidade e do que buscamos colher dessa diversidade, de contornar os problemas de formas pessoais, de colher cultura, religião, hábitos daqui e dali, de opinar diferente e resolver o que não está resolvido, influência inclusive dos conceitos de Lacan que fala muito de “conhecer as nossas próprias bordas”. (Para quem não sabe, Lacan é tão influente quanto Freud no universo da psicanálise).

Precisamos ter vergonha sim, da possibilidade de nos tornar “máquinas” de sexo atrás de outras “máquinas” a toda hora sem vincular amor ou intimidade algumas vezes na vida. Sem querer conhecer histórias e valores de outros, e nos dignificar como indivíduos. Máquinas com máquinas é uma reação mais óbvia do homem se fazendo de produto-animal e negando a própria essência da humanidade que confere consciência, sentimentos, valores e, sim, vontade de ir além.

Assim, ficar no nível básico do sexo, de comer, dormir e se vestir não nos sustenta e concordo com essa afirmação. Esse básico era a vida na época dos feudos e iluminava bem aqueles tempos remotos. E hoje a consequência dessa realidade do além do básico não é querer transar “basicamente” para ser feliz, num cenário de falta de tempo e estresse para um relacionamento mais íntimo e contínuo. A consequência dessa realidade, de gays mais ricos de informação que desejam o além do básico, diz respeito às questões de realização e plenitude como indivíduos. O convívio íntimo nos aproxima dessa plenitude. E quem seria capaz de fazer isso? Qualquer um de nós, exceto aqueles que não visam se resolver e que preferem viver de baixa auto estima e sexo, baixa auto estima e sexo, baixa auto estima e sexo, como numa eterna masturbação.

De qualquer forma o texto do Disponível é válido no MVG e ficará registrado aqui para a posteridade! (rs) Essa abertura faz parte da diversidade e do não preconceito que o blog sugere.

O dilema já não é mais eterno e não precisamos mais, somente, descarregar no sexo.

Blog MVG vs. Disponível. É assim que se dá! :P

4 comentários Adicione o seu

  1. Alexandres disse:

    Bárbaro o texto de hoje! como muitos que já li aqui. Estou com 38 anos e por mais que já me sinta resolvido na minha cabeça e na minha vida, ainda tenho muito que aprender e muitas questões a resolver. Gosto da clareza e coerência com que vc escreve, meus parabéns! Um grande abraço MVG!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelos comentársio Alexandres!
      Muito bom ter alguém acima dos 30 também deixando um registro por aqui.

      Forte abraço,
      MVG

  2. Mateus disse:

    Bom, conheci o blog há mais ou menos um mês e nunca comentei, então vamos lá.
    Confesso que quando vi o tamanho do texto, comecei a fazer leitura dinâmica e já vinha aqui criticar o MVG. Mas reli, e com atenção. Só tenho a concordar com a posição do MVG, porque é praticamente a minha.
    O texto do Disponível está escrito de uma maneira tal como se eu tivesse uma existência tão insignificante, que me restaria a contentação com possibilidades de sexo “artificiais”. Me nego a crer nisso, apesar de o mundo me dar as porradas de sempre dizendo que estou errado. Não me acho careta, mas essa minha ideia é algo em que não quero deixar de acreditar, sabe? “Sobrevivência do mais apto”… É, acho que não será minha vez mesmo.
    Fora isso, sou leitor diário. Parabéns pelos textos.
    Abraço

    1. minhavidagay disse:

      Por pouco não levei uma porrada, Mateus? rs
      Obrigado pelas suas considerações e acho muito importante os pontos de vistas desse post, tanto do Disponível quanto do MVG. É repertório e referência para quem quiser escolher seus caminhos que são várias, incluindo os que ilustramos nos textos.

      Abraço,
      MVG

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