Conversa entre gays


Um dos leitores do blog constantemente manda e-mail para mim, apresentando suas percepções sobre os textos que são lançados no MVG. Tivemos uma troca de ideias sobre a minha frequente colocação: “nos tempos atuais, temos que ‘culpar’ menos as nossas dores, revoltas e sofrimentos pela pressão do mundo externo. De fato, hoje em dia, buscamos uma consciência maior. Uma consciência que nos revela que os problemas quando existem estão menos pelas imposições e barreiras externas, mas pelos bloqueios e inseguranças internas que cultivamos ou não”.

Assim, apresento aqui o trecho desse bate-papo entre “amigues” (rs), ele mostrando seu ponto de vista e eu revelando o meu para argumentar os por quês d’eu achar que não podemos mais ficar culpando tanto a sociedade, religião, machismos, pelas nossas condições.

Leitor do Blog MVG:

Você costuma insistir muito nesta questão de que lançar a responsabilidade no lado externo não é correto.

Nesse ponto divirjo totalmente de você. Na minha percepção, o lado externo tem uma responsabilidade muito grande pelos sofrimentos que nós como gays passamos sim!

Sim, os outros, sim, os heterossexuais homofóbicos, sim, a sociedade em geral. E não é amargura minha não. Não é uma tendência de acomodação a modelos preexistentes.

Exemplo concreto: Berlim nos anos 20 do século passado era um oásis para os homossexuais. Magnus Hirschfeld começara a lutar pelos direitos dos homossexuais em 1897, era uma situação ímpar. O que aconteceu?

Com a ascensão do Nazismo tudo isso foi varrido do mapa, embora houvesse uma forte subcultura gay no Nazismo: Ernst Röhm, chefe das SA, colaborador de Hitler, era homossexual assumido. Acabou como? Morto por ordem de Hitler porque estava atrapalhando os planos políticos dele. Além disso, a própria Hitler Jugend (Juventude Hitlerista) tinha um aspecto gay, é só bater os olhos…

Aonde quero chegar? Um de nós naquele contexto, não importa o que fizesse seria morto, mais cedo ou mais tarde acabaria em um campo de concentração. Então o fator externo pode pesar e pesa muito. Dependendo do ambiente, declarar-se gay pode ser mortal, foi assim no passado e ainda é em muitos países. Experimente dialogar com um tribunal iraniano, você termina na forca. E o que falar de Uganda?

Em resumo, uma andorinha não faz verão, e no nosso caso é morta à bala.

Você pode argumentar que são exemplos muito extremos, de regimes ditatoriais, mas nem com o fim da segunda guerra as coisas melhoraram. Ser gay continuou sendo crime no pós-guerra e até hoje quase não se fala do holocausto gay, afinal de contas foram só uns maricas que morreram…

Veja a terrível história de Pierre Seel, homossexual francês deportado durante a segunda guerra para o campo de Schirmeck-Vorbrück, único a relatar os abusos que sofreu. O que aconteceu com ele? Depois de idoso, após aparecer em um programa da TV francesa, foi atacado e espancado por jovens gritando frases homofóbicas.

O que ele poderia ter feito diferente?

Mais recentemente (1998), o assassinato de Matthew Sheppard, preso a uma cerca de fazenda no Colorado, após ser espancado e estuprado.

Os suicídios de jovens gays nos States, as centenas de gays assassinados anualmente aqui no Brasil?

Tudo isso me mostra como o fator externo pode ser terrível nas nossas vidas.

Há também estudos mostrando que revelar-se gay dificulta significativamente conseguir emprego nos EUA. Será que só lá?

Desculpe-me a veemência, mas isso tudo me dói muito.

MVG:

Seu ponto é bastante claro, “F”. Eu mesmo fui “vítima” de uma educação paternal extremista. Extremista no sentido de rudez, competição, cobrança, agressões e desqualificação, por exemplo, como profissional. Quantas vezes não ouvi meu pai – em seus surtos até então incompreensíveis – esbravejar que eu era incapaz, burro e que jamais seria um bom profissional na vida? Dezenas de vezes durante um longo período de nosso relacionamento. Ele foi objeto externo que provocou um punhado de traumas, baixa auto estima e um sentimento de incapacidade tremendo que refletia no meu físico e principalmente na minha cabeça. Porém, aos 23 anos me propus batalhar para reverter esse processo. Tinha tudo para que eu e ele repetíssemos um modelo de relacionamento “dramático” e intolerante que se deu na relação entre ele e meu avô. Já vi meu avô vir com uma faca na mão dizendo ao meu pai: “Se não está feliz com o pai que tem, então me mate!”.

Não queria seguir com essa “herança” e consciente disso, busquei meus meios para resolver as minhas dificuldades com meu pai. O externo, materializado pelo meu pai me agredia constantemente. O interno, numa busca de compreensão e auto consciência, fez superarmos todos esses bloqueios. Eu mudei primeiro para depois ele mudar.

Hoje consigo encontra-lo sem raiva ou rancor. Sempre que estamos juntos, assim quando estou com a minha mãe, sinto uma paz que sempre idealizei mas que outrora não sabia se seria capaz de tirar. Passei a compreende-lo e busquei modificar determinadas atitudes, abaixei a guarda tão fortemente enraizada justamente pelo modelo vivido desde a infância e revi toda a maneira de encara-lo.

Agora posso dizer que não fosse esse cenário externo de repressão e desvalorização, com o efeito interno de querer superar e evoluir, muito provavelmente eu não seria essa pessoa que expressa, inclusive, ideias em textos para os leitores do Blog, dono de empresa, autônomo, realizado como gay e com a auto estima satisfatoriamente no lugar.

Não fosse o efeito interno, numa vontade incrível de transformar a minha relação com ele, mediante minhas vivências únicas e pessoais, possivelmente seria um cara “lacrado”, gay enrustido, nerd, assexuado e muito provavelmente tomando alguma tarja preta! rs. Naquela época pensava em me matar uma vez por mês pelo menos.

“Todo mundo carrega a pedra que pode suportar”, ou melhor, os piores problemas de uma pessoa são os próprios problemas. Enxergando do ponto de vista de fora, todos esses relatos “extremistas” como você mesmo entitulou, ou, nos colocando no lugar das pessoas que passaram por toda essa violência, o espírito possível da compaixão ou da aversão a esses fatos vêm naturalmente pois somos humanos e, no geral, temos valores firmes que abominam atrocidades. É como se assistíssemos a “Lista de Schindler” como telespectadores emocionalmente envolvidos com cada cena porque ver e ouvir a representação de tudo aquilo tem uma intensidade que mexe com a “nossa alma”.

Mas para quem viveu aquilo, ou para mim que vivi o relato que te coloquei acima, ou para você que viveu suas dores, essas sim foram as piores sensações que passamos na vida e não se compara com nenhuma pois não vivemos as experiências dos outros de fato. Será que todos que esteviram em Auschiwitz e sobreviveram levaram a amargura, o ódio, o trauma e o rancor por dentro até o fim da vida? Duvido pois, é também da natureza humana, a possibilidade da força da superação sob todas as amarguras e sofrimentos que tivemos em alguma etapa da vida. Tudo pode nos traumatizar, até uma simples mordida de um cachorro doido na rua, até uma martelada no dedo, dependendo de quem vive a experiência e de quem é a pessoa. Mas o quanto levamos os traumas, as amarguras e os sofrimentos de casos vividos, ou o quanto superamos é o que vai fazer toda a diferença no final.

Abraço!

1 comentário Adicione o seu

  1. Ali disse:

    Oi sou eu de novo! rsrs
    Olha,eu li,reli e ainda não entendi a “proposta” do texto.O texto iniciou com uma abordagem e acabou com outra totalmente diferente.

    Primeiro porque eu acho que tanto a interferência externa e interna de certas instituições individualmente,interferem na vida e aceitação de um GLBT na sociedade.A sociedade no geral,não nos dá nem nos tira, são as manifestações simbólicas transmitidas através das instituições,que na verdade impõem cultura e convenções numa sociedade.

    Segundo,eu acho que a frase:” o inferno são os outros”,ainda tem,sempre teve e ainda terá,muito significado na vida de quem estiver fora dos padrões dessas instituições.

    Religião,sociedade,Estado etc…
    São termos muito abrangentes e relativos,eu prefiro me basear em:
    Igreja,Governo,Política,Família.
    Que são termos mais específicos e diretos.
    Há religiões que aceitam bem um GLBT e não consideram suas práticas sexuais um pecado,há governos que não consideram a homossexualidade um crime,há novos arranjos de família hoje em dia que diferem do modelo tradicional, por isso que esses termos não são instituições,porque eles são muito abrangentes.

    A interferência das instituições criadas pelo homem ao longo da história e cujas normas são seguidas até hoje,é notável,é algo até “normal”, a diferença é entre cada um perceber se essas interferências culturais são benéficas ou maléficas para o indivíduo.

    A DECLARAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS foi criada justamente para tentar suavizar essas disparidades culturais,para que cada um tivesse um modelo de dignidade a ser seguido.

    Obrigado!

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