Relato gay – Reunião e assuntos entre amigos

Minha vida social gay anda em baixa quando o assunto é amigos!

Nada que comprometa a minha auto estima no momento que essa minha vida adulta e gay de 35 anos me exige muito foco: namorado, trabalho e pessoas do meu trabalho. E esses “itens” tem sido bem suficientes.

Mas ontem tive a oportunidade de visitar um dos meus amigos da comunidade: foi festa de despedida de uma amiga em comum que vai embora do país durante um ano para estudos “naszoropa”. Assim, eu e meu namorado pudemos dar um tempo com os projetos (sim, estamos com um projeto em comum de prazo final para terça-feira e ficamos na frente dos computadores praticamente o final de semana inteiro!) e encontramos o “Tablito”, “Ding” e amigos que não víamos há alguns meses.

Muita bebida que nem precisava levar. Petiscos “triple A” e finesse! Esse meu amigo Tablito é uber! (rs).

Cenário de seu apartamento recentemente inaugurado, com pessoas que dividiram alguns anos, viagens e momentos especiais comigo no passado e que perpetuam a amizade hoje.

A situação atual de Ding

Rever o amigo Ding, com seus 40 e poucos anos, mereceu um abraço caloroso e apertado assim que chegamos. Saudades grandes desse amigo de conversas, de bar, de baladas, de viagens para Ponta Negra, de intimidade e de muitos momentos de alegria. O Ding anda em crise no trabalho. Não deve ser fácil chegar até onde chegou e não estar suficientemente feliz com a profissão. Estava aborrecido, frustrado e, assim como nossos tempos de troca de conversas íntimas mais frequente, pôs-se a contar um pouco da fase da vida. O Ding é de uma geração cujo tema da homossexualidade era muito mais velada do que hoje. Numa mistura de assuntos, bêbado um pouco além da conta, ressentia-se pelo falecimento de seus pais num tom do tipo: “eles nunca puderam me conhecer totalmente”.

Se serve de exemplo, chegar num nível de maturidade, esclarecimento e vivências como o Ding e ainda carregar esse tipo de chateação por dentro, de ter sido parcial para seus pais, não é nada recomendável para o gay que lê o MVG e ainda vive suas questões de aceitação e relacionamento familiar. Reforço bastante nos posts o quanto é importante assumir perante a família no sentido de “nos libertar a alma”. Para nós gays acaba sendo mais importante assumir do que ter propriamente a aceitação positiva alheia pois, assumir implica no “contrato assinado” e verbalizado da auto aceitação. Já a aceitação do outro não depende da gente de nenhuma forma. Podemos esperar o melhor mas não exigir ou obrigar o que queremos. Claro que é difícil dividir o assumir da aceitação externa. Mas esperar, postergar e evitar por muito tempo é a chance de carregar um vazio ou uma certa parcialidade por toda vida.

O Ding é um amigo querido e que, nos últimos anos, vem se queixado bastante das coisas. É o trabalho que não traz mais satisfação e é o estranho sentimento de ter encerrado o relacionamento com seus pais sem nunca ter sido pleno para eles.

Será que a insatisfação, acima de tudo, não é com ele mesmo?

Enquanto jovens, como a grande maioria dos leitores do Blog MVG, que passam por aqui e estão vivendo as questões primárias da sexualidade e sociedade, eu, Ding, Tablito, já vivemos outras etapas desse processo da vida. Quando se é jovem, ainda mal se começou a viver o mundo ou se está apenas começando agora, essas questões de crises dos 40 e poucos anos parece algo remoto, inatingível para a “beleza e energia da juventude”. Pois bem, fica aqui um caso para mostrar que, mesmo depois de anos a mais vividos, algumas frustrações podem nos atingir.

E atentem-se pois tempo passa rápido demais!

Obviamente que o Ding, como qualquer indivíduo na terra, pode mudar esse cenário. Apesar da clichê não tem jeito: a vontade e a disposição virá de dentro para fora.

Família e rancores

O encontro, além do carinho por esses amigos, proporcionou vivências rápidas mas interessantes para mim e para quem passa por aqui e busca por novas referências dessa vida gay. Pude conversar bastante com o “Rico”, integrante dessa turma, que é uma grande figura, divertido, “bicha” e com um carisma incansável/insubstituível. Certa hora da conversa, Rico – com seu 40 anos enrustidos (rs) – levanta a questão da proximidade que tenho com a grande família de meu namorado e do fato do contrário, do meu namorado com a minha família ser muito mais restrito. Explico tranquilamente para Rico que, a minha família, em número muitíssimo mais reduzido em relação ao meu namorado tem uma fluência boa com meu namorado quando é minha mãe e meu irmão. Já o meu pai, apesar de saber da minha sexualidade há anos, não se sente bem em se envolver com a minha realidade sexual. Por outro lado, viver abertamente a família do meu namorado, que é unida e unânime, tem também lá suas dificuldades: as vezes parece haver um protocolo para fazer parte da família e, normalmente, tem-se como uma regra estar perto deles como numa tradição. Negar dormir na casa de uma tia ou da “sogra” é, as vezes, quase que um insulto! (rs)

Rico ficou “perplexo” com o fato das barreiras do meu pai e insinuou que eu não poderia me submeter a essas limitações. A perplexidade foi tomando força, um envolvimento numa mistura de humor e sarcasmo, a ponto do Tablito e Ding falarem coisas do tipo: “não se deixe levar por essa bicha chata e mal amada (rs)”. A situação não foi constrangedora e, na realidade, foi uma oportunidade para apresentar a minha intimidade dessa maneira mais aberta como gosto de fazer.

Comentei que a minha situação com meu pai tem um buraco muito mais fundo e que hoje a relação está em num nível evoluído como nunca estivera. Essa coisa de levar meu namorado para perto da minha família já vem acontecendo e que quando meu pai conheceu meu namorado como amigo inicialmente foi tudo “lindo”. Depois, quando questionou a minha mãe se era meu namorado e teve a afirmativa, parecia que toda aquela boa percepção que teve, do tipo de conversa, do carisma, se perdeu no estigma “ser gay”. Que para mim é nada mais, nada menos, que lembrar que seu filho é gay.

Acontece que essa limitação é dele e não sofro com isso. De qualquer forma, o amigo Rico enfatizava a minha postura de “submissão” e eu reforçava a minha percepção: “estou em paz e sei como as coisas funcionam”.

Determinado momento, ele insistia tanto em me convencer que não poderia ser subjulgado daquela maneira, me privando de levar meu namorado para perto da minha família quando quisesse, parei e atingi o ponto central: “Rico, desculpe, mas você está projetando as suas frustrações com a sua família no meu caso. Tanto eu como meu namorado conversamos a respeito sempre e chegamos em acordos que nos leva à tranquilidade. Nem sempre meu namorado gosta e com razão, mas não posso tratar a questão de maneira adolescente. Quem está inconformado é você como se fosse um ultraje (rs). E eu estou bastante consciente de todo esse tema faz um tempo e para mim não é questão”.

No exato momento que me expressei, ele perdeu a graça, deu uma risada e foi a oportunidade que tive para dizer: “estamos excessivamente acostumados a ‘culpar’ pais ou outras pessoas pelo nosso sentimento de rejeição, desagrado e insatisfações com o mundo. Isso é um padrão mas para mim hoje é diferente. Eu estou em paz, mas pelo visto acho que você não tem essa paz, né?”.

Num instante seguinte, Rico se desconcerta e rapidamente recompõe o “personagem” bem humorado e ágil nos argumentos. Finalizo a conversa: “Numa oportunidade melhor, menos bêbados e fora de uma festa conversamos mais a respeito. Mas a imensa maioria das pessoas reclamam demais do outro, como se o ‘outro’ fosse motivo das nossas dores. Não podemos pedir sempre a clareza das pessoas e nem ficar eternamente esperando um tipo de retribuição pelo que sofremos. Precisamos seguir em paz com essas questões, mas a maioria não faz. A maioria é assim e não faz”.

Realmente, nunca estive em tanta harmonia com meu pai. O que pode parecer um conformismo para evitar uma crise, como uma das dezenas que já tive com meu pai, na realidade é a consciência de quem sou e de quem ele é. Relacionamentos, quando existem e são íntimos como de pai para filho, de amigos próximos ou de namorados, estão sempre plantando coisas uns aos outros. O ponto é que meu pai está mudando e jamais chegaria hoje para ele e “forçaria” uma aceitação sendo que obviamente tem limitações para isso. A aceitação vem, num processo, e não é uma condição do meu ego para que meu pai me aceite num esquema “ame-me incondicionalmente ou me deixe”.

E a importância do tempo em todos esse processos? Ele tem para lá dos seus 70 anos e já mudou TANTO nos últimos meses. Ainda estou me nutrindo positivamente dessas mudanças e do contentamento de ver alguém além do 70 se tornando ainda uma pessoa melhor! Isso sim tem bastante de orgulho.

Esse modelo, radical de “aceite-me plenamente e incondicionalmente porque sou seu filho” no meu ponto de vista, trouxe centenas de dificuldades e ruídos na relação com meu pai no passado que transbordou de culpas por todos os lados. Hoje, planto em silêncio e cultivo sem pressa, mas ciente que não estou parado, nem meu pai está.

Realmente foi muito tentador e necessário no passado “arrebentar” as amarras e sair peitando meu velho goela a baixo. Crises, insultos, xingamentos e mal estar. Mas eu tinha 20 e poucos anos e atitudes enérgicas assim combinavam com quem eu era. Hoje tenho 35 anos e cada vez mais consigo me ver menos sendo um pequeno jovem querendo provar X, Y ou Z para meu ego próprio, para me firmar como gente. Por hora, fico extremamente suprido por me sentir querido como filho.

Não parece suficiente? A mim é. O meu namorado tem os pais dele para buscar resolver as suas questões e não precisa do consentimento dos meus. No passado poderia usa-lo como “escudo” nesse enfrentamento de geração “pai vs. filho e a minha sexualidade”. Hoje não preciso mais disso porque de fato enfrentei deveras de carreira solo. Nunca “usei” um namorado como subterfúgio para assumir a minha sexualidade, mas já precisei dos pais dos meus namorados para reencontrar os meus.

Hoje, meus pais são suficientes e que satisfação que tenho em dizer isso.

O difícil é sentir na alma e perceber que as coisas funcionam melhor assim. Difícil para pais e filhos gays. Filhos gays de 20 anos ou 40, como o amigo Rico!

3 comentários Adicione o seu

  1. Lemo disse:

    Gostei muito dessa história e tenho certeza que ela servirá de inspiração para muitos gays que querem se revelar. Eu sou gay tenho 17anos e pretendo contar primeiro para minha mãe,e ano que vem vou embora para outro estado onde pretendo contar na minha festa de 18anos para os outros integrantes da minha família que sou gay !!!

    1. minhavidagay disse:

      Caramba! Será uma festa e tanto! :)
      Boa sorte amigo Lemo e assuma com juízo!

      Abs,
      MVG

  2. Paulo disse:

    Da mesma maneira que exigimos respeito das pessoas com relação a quem somos, devemos (e temos a obrigação) de respeitar os outros também, respeitar as opiniões, respeitar as vivências passadas, respeitar as referências de vida e principalmente respeitar o tempo das pessoas, é um erro querermos passar por cima como se fossemos um rolo compressor, estaremos sendo tão autoritários e insensíveis quanto às pessoas que não aceiram a diversidade sexual. Respeitemos para exigir respeito, dando primeiro o exemplo para depois cobrar atitudes.

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