Gays brasileiros da diversidade


O que se diga então do gay brasileiro?

Ao contrário de muitos países, o Brasil ainda não estabeleceu um padrão social, cultural e étnico. E essa padronização como é mais frequente em países europeus talvez seja uma tendência impossível. Vivemos em um terreno de muitas caras, muitas bocas, cores, valores, interesses e vivências diferentes. A falta de homogeneidade se resolve muito bem na diversidade. Mas preconceito também é fruto da diversidade, que embora essa seja rica, nutre o preconceito que a empobrece.

Nesse país existe gays que vivem em contextos familiares muito diferentes. Pais broncos e truculentos que não tem nível superior, pais sem nível superior mas com a sensibilidade de absorver o mundo com sabedoria, pais de descendência “nobre” mas quando o filho sai da “linha” agem com agressividade verbal ou física e pais que preferem sempre diálogo e as vezes até nos cansam de tanto falatório. Outros que são omissos, de canto e que as vezes não têm impulso para dar atenção. Pais machistas e preconceituosos, pais intelectuais e carinhosos. Pais excessivamente preocupados e outros que nos deixam largados. Uns que assumem muito fortemente o papel das “asas que nos resguardam” e outros que nem parecem pais. Uns que nos aceitam e outros que nos rejeitam. Uns que nos rejeitam no começo e depois aceitam e outros que, aceitam até bem como somos, mas implicam por outros inúmeros motivos.

Antes de mais nada, saiba qual é a vibe da sua família, certo?

Existem muitos gays brasileiros que vivem realidades totalmente diferentes quando o assunto é o núcleo familiar. Gays que nasceram em universos e contextos diversos de poder aquisitivo, educação, etnias e valores. Tem gay na periferia e na favela, tem gay numa mansão em Alphaville com casa de praia na Riviera de São Lourenço para os finais de semana. Tem gay descendente de árabe, português, espanhol, africano, japones, chinês, italiano, alemão, índio e coreano.

Como lidar com essa falta de padrão? Em essência, os bons costumes apontariam para a aceitação e para a reciprocidade afinal somos todos iguais, humanos acima de qualquer suspeita. Mas na prática, ao deparar com tantas diferenças, não agimos com essa abertura. Preferimos viver nossas “bolhas sociais” e, se possível, misturar o menos possível.

A verdade é que todos gays, no mais profundo íntimo, gostariam de poder ser gay na totalidade, independentementes das variantes e das centenas de milhares de bolhas. Ser gay no mundo não deveria ter restrições, preconceito e medos, não é verdade? O gay rico pode sofrer por ser gay. O pobre também. E nessas horas nos igualamos totalmente.

Afinal, nós gays não nascemos desse jeito porque definimos assim. Ou não nos tornamos assim por apontar e caminhar para uma escolha a dedo. Como ter poder sobre algo tão imponderável, sem controle e que simplesmente acontece quando nos reconhecemos atraídos verdadeiramente por outro do mesmo sexo?

Mas nesse universo misto, multicolorido, de pais e filhos, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como diria um baiano, que não é japonês, nem alemão e que é pai da imagem ultra cultural do movimento da Tropicália. E quem não sabe de quem estou falando, Googa!

O Brasil é tudo isso, amigos leitores. Quem me dera que todas as palavras, toques e conselhos que expresso por aqui soassem com efeito positivo, prazeroso e de resoluções para todos de maneira igualitária! Mas não é assim que funciona num Brasil gay e heterossexual e fragmentado. Eu também faço parte de uma bolha de contexto específico, vivo minhas dores e minhas delícias e, hoje, apesar dos pesares da minha própria vida, são mais delícias do que dores porque batalhei e batalho para manter assim. Já ouviram falar que a paz de espírito é conquistada?

Mas quem é que peita para chegar lá, no status de coração tranquilo? De espinha ereta e de alma quieta?

De qualquer forma, assumir sempre é bom. Assumir que errou, assumir que mentiu, que doeu, que invejou, que odiou, que sentiu, que desiludiu, que esqueceu e que se limitou é uma chance de ser mais verdadeiro consigo. E o tempo que você se dá nesse Blog Minha Vida Gay é a oportunidade de sair de sua rotina e de lembrar que tem que ir mexendo em alguma coisa, seja num chacoalhão, seja em conta gotas.

Assumir é um verbo que deveria ser mais praticado num sentido amplo, nas relacões de pais e filhos, professores e alunos, amigos e casais. E assumir implica numa ação coletiva – no mínimo de dois – de “assumir algo a alguém”, como diria mamãe, professora de português.

Acho TÃO, mas TÃO engraçado, ou esquisito ou whatever esses jovens de 20 e poucos anos que namoram na mais evidente representação da palavra “namoro” mas que preferem “não rotular a relação”. Morro de rir com essa pseudo autonomia, com essa pseudo modernidade!

Já não disse que felicidade só faz sentido quando é compartilhada? Assumir também. O ato de tornar verdadeiro, revelado de maneira honesta e aberta não funciona de carreira solo.

Enquanto não assumimos, e não digo somente a sexualidade que é tema tão óbvio por aqui, valorizamos nosso estado individual, de solidão e de todos os sentimentos que esse modelo favorece ou desfavorece. Já parou para pensar que é bom ir além todos os dias?

Podemos fortemente nos prender em pavores. O medo de uma rejeição porque houve mentira não deixa vir à tona a verdade. Medo de assumir que errou pode ser orgulho desnecessário. Medo de assumir que doeu é não assumir a própria fragilidade. Medo de assumir que invejou é fingir que você se basta. Medos… temos tantos, sobre tantas coisas, mas no geral não assumimos.

A gente pode até esconder nossos medos em estudos, discursos e referências datadas para abafar ou dissimular nossos próprios pavores. Podemos nos esconder na malhação, no videogame, na fisionomia obesa, zumbi, apática ou geek. Mas sempre vai haver alguém que abrirá uma fresta em nosso esconderijo e assim corroboramos a um estado de alerta constante.

Afinal, por que se esconder tanto se o contrário nos torna mais vivo, mais esperto, mais autônomo?

O ser humano, em essência, é um bicho esquisito. Vive negando completar-se a si e por consequência é difcílimo completar o outro.

1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo disse:

    Só tenho que te parabenizar pelo post, boas colocações e ótimos estímulos à reflexão. Vou apenas citar um dos ensinamentos de meu pai, sempre devemos buscar andar alinhados com a verdade, por mais difícil que seja, por que ela nos conforta e sempre irá refletir bons resultados, demore o quanto demorar.

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