Caso gay – A história do irmão de MC

“MC” é o estagiário da empresa e tem se mostrado bastante eficiente e em sintonia a vaga que ocupa hoje. Tem superado bastante as minhas expectativas, principalmente em se tratando de alguém de 18 anos, da famosa geração Y que é cheia de virtudes, mas com uma grande dificuldade para adaptação e assiduidade para com o trabalho! rs

Assim como todos meus contatos mais próximos, MC ganhou um pouco da minha intimidade e soube da minha sexualidade. Com isso, soube que tem uma “meia irmã” que é lésbica e uma desconfiança grande do irmão que tem 16 anos.

O irmão de MC, segundo ele próprio, tem alguns trejeitos e anda numa fase muito grande de discurso: “precisamos respeitar as pessoas como elas são”.

Em nossas conversas eu dizia que não existia nenhum indício que o qualificasse como gay. Sugeri que buscasse um papo tranquilo com ele a respeito dessas questões sexuais. Essa fase de 16 anos é bastante complexa, momento que os jovens estão despertando para a sexualidade, a exemplo das dezenas de comentários de adolescentes dessa faixa de idade no post “Como saber se meu amigo é gay?” que se notam em paixões platônicas, apaixonites agudas por um ou mais amigos, entre outras situações até onde a criatividade permite (rs). Uma conversa franca, mostrando que MC como irmão estaria aberto a essa realidade, não cairia mal. Sugeri.

Até que em nossos últimos papos MC veio até a mim dizendo: “estou achando que ele é mesmo”.

Questiono o por quê da afirmação e ele responde: “primeiramente que uma amiga da escola se referiu a ele como ‘ah, o gayzinho'”. “Depois, resolvi trocar uma ideia com ele quando cheguei em casa. Ele estava deitado e o questionei por que ele não se assumia gay? Disse que não haveria problema, que seria melhor se assumir e que não tinha porque ficar escondendo”.

O irmão de personalidade naturalmente calada parece que ficou resmungando, dizendo que não tinha nada a ver aquilo e se esquivou da conversa. No outro dia pela manhã, segundo MC, o irmão acordava feliz, cantarolando e segundo as palavras do próprio MC, “como estivesse mais leve”.

Esse caso fica mais interessante pelo fluxo de relacionamentos que aconteceu. O responsável da empresa que MC trabalha, eu, é gay. Desde o primeiro dia que o vi percebia que meu estagiário teria uma naturalidade para tratar sobre o assunto. A meia-irmã é lésbica e suspeita-se do irmão. O bacana nesse processo todo é o tipo de ajuda indireta que tenho dado ao irmão de MC, caso ele realmente seja gay.

Imagino o quanto é nebuloso e confuso as questões das sexualidades para quem tem 16 anos, por mais que essa geração seja muito mais precoce que a minha. Aconselhei ao estagiário que falasse com o irmão numa boa e ele teve a conversa. Por mais rápido ou furtivo que tenha sido o diálogo, tudo indica que, a partir de agora os irmãos poderão falar sobre o tema da sexualidade com muito menos barreiras. MC deu a abertura, aquele pontapé fundamental para que o irmão se sinta mais a vontade para falar, se quiser, se fizer sentido.

A gente ainda acredita muito que o Brasil tem as restrições do machismo, da influente religião má pregada e do preconceito. Com tudo isso e mais um pouco, temos medo desse “monstro social”. Mas esses exemplos, como do MC revelam um lado real, de pessoas muito mais esclarecidas e abertas à diversidade sexual. Fico me questionando se os próprios gays que estão querendo se assumir têm a sensibilidade ou dão a atenção necessária para enxergar que existem pessoas que não têm problema nenhum em reconhecer e incluir um indivíduo gay.

Ficamos as vezes tão presos ou seduzidos nessas máximas sociais de que o mundo é preconceituoso, opressor e ponto final que nem se quer paramos para realmente avaliar se o amigo do lado, o irmão ou a irmã não são pessoas esclarecidas suficientemente para compreender e até aceitar com naturalidade. Em outras palavras, pelos nossos medos, acabamos subjulgando o outro e até agindo com preconceito.

Para o MVG que tem 35 anos, é assumido há mais de uma década e se sente relativamente em paz com tudo isso da própria sexualidade, foi quase que imediato reconhecer um MC aberto a minha realidade, sem neuras. Mas para o próprio irmão de 16 anos, que convive diariamente com ele, essa possibilidade de uma pessoa aberta – talvez – nem tenha sido cogitada, não fosse as minhas conversas com o MC e consequentemente sua tranquilidade de abordar o tema com o próprio irmão que, supostamente, é gay.

Nesse momento o leitor poderia perguntar: “Ah, mas você é o chefe dele”. E eu responderia: “Assumo meu papel de chefe na minha empresa em determinadas situações mais críticas. Mas de fato, a filosofia aqui é tão horizontalizada que no dia a dia nos colocamos todos importantes e praticamente no mesmo nível. Claro que, as vezes, alguém precisa puxar as rédeas e definir o sentido para podermos caminhar. Claro que esse alguém precisa ir avaliando a caminhada, para ver se estamos num ritmo bom e para ver se estamos atentos ao trajeto. Mas não me sinto ou pelo menos não evidencio isso para o MC por enquanto (rs)”.

Nessas práticas entre eu, MC e seu irmão, a gente acaba se nutrindo de referências e enxergando um mundo diferente desse “cristalizado”, que afirma com todas as forças que a sociedade brasileira machista é totalmente intolerante, preconceituosa e discriminatória.

Nessas práticas simples, de naturalidade e conversa, temos a oportunidade de ver um mundo muito mais evoluído dentro desse mundo-monstro.

Será que essa situação é única e só acontece aqui? Creio que não. Já parou para notar MESMO a pessoa do seu lado sem enxergar com preconceito ou medo?

1 comentário Adicione o seu

  1. Paulo disse:

    Acredito que somos uma mistura de medos e desejos, ambos no sentido mais amplo da palavra, e que um desenvolvimento de vida salutar deve ser pautado no equilíbrio entre as partes, quando sentimos muito medo acabamos paralisados, não saímos do lugar, quando sentimos muito desejo acabamos atropelando as coisas e fatalmente fazendo algo errado, motivo de posterior arrependimento. É engraçado que todo mundo teve aquele momento da vida em que por algum motivo houve um grande medo de enfrentar certa situação, mas que foi enfrentada, e depois, com as coisas no seu devido lugar, olhamos para trás e pensamos “nossa, como eu fui tonto de ficar com tanto medo, a coisa foi mais simples do que eu imaginava”, eu mesmo já enfrentei várias, inclusive me assumir para meus pais. Medo nós sempre vamos sentir, mas controlar esse medo é o caminho para seguirmos a diante. Não dá para negar que se assumir é fonte quase inesgotável de medo, sem dúvida, mas nunca deve ser suficiente para ficarmos paralisados numa vida infeliz e com os desejos adormecidos.

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