Relato gay – Fases de um namoro

Na quinta-feira, véspera de feriado, resolvi dar um toque para meu ex-primeiro namorado, o Lutier. São 12 anos de amizade e, depois que ele casou e eu namorei, estamos talvez um ano sem falar exceto algumas trocas de mensagens rápidas.

Há 10 meses entrei numa imersão no trabalho, no curtir da minha casa nova e no namoro. Trabalho traz um pacote de responsabilidades, novos clientes, ex-funcionários tornando-se sócios, processo de formação dos mesmos, novos serviços, além de outras demandas. Tenho trabalhado das 8h às 20h há um ano.

A casa nova resgatou um prazer de ficar em casa, decorar, cuidar da minha dog que está doente e curtir cada canto do novo lar. E por fim e não menos imortante (rs) assumi um namoro há dois anos e meio. A fase inicial de estar naturalmente grudado está passando e, nesse bolo todo, a vontade de alguns resgates também.

Depois de 10 meses voltei a fazer academia. São 8 anos que pratico exercícios, exceto umas “entre safras” que fiquei parado. Agora com 35 anos não são apenas os valores estéticos que me impulsionam a ter uma frequência. É hora de pensar na saúde, do lado de dentro, com mais atenção pois não tenho 20 poucos anos e meu fígado, coração e metabolismo não têm a mesma resposta como antigamente! Nesse retorno, foi bom perceber que meu coração se manteve mais firme nesse tempo parado que meus músculos (rs).

Liguei para o Lutier na quinta por volta das 20h30 e, coincidentemente ele estava iniciando sua festa de seu aniversário naquele momento, adiantado da data. Disse que tinha mandado dois e-mails para mim, mas eu realmente não havia recebido. Depois da conversa, por sms, tentou enviar para mim o endereço de sua casa, que também não chegou. Ligou novamente em seguida e eu brinquei: “Acho que realmente não é para ir nessa festa!”. Ele: “Meu Deus, acho que minha festa vai explodir!”.

Puxei meu namorado e soube também que o Ding e o Tablito estariam lá. A festa rendeu até umas 3h da manhã e tomei alcóolicos como não fazia há um tempo! (rs)

Lutier está hoje com 30 anos e o conheço desde os 18. Nunca deixamos de ter uma boa sintonia, o que não quer dizer que sempre estivemos juntos nesses 12 anos. Esse ano, por exemplo, foi a primeira vez que nos encontramos pessoalmente e foi bem legal. Alguns amigos do seu marido, frequentadores assíduos do Gourmet estiveram por lá. Relembramos alguns fatos que presenciei, agregamos outros gays presentes na conversa e pude viver um pouco mais da minha individualidade e meus amigos, mesmo na presença do meu namorado.

Meu namorado é relativamente tranquilo com esses encontros sociais. Mas uma coisa que sempre pegou nessa relação em específico é que, quando estamos com seus amigos ou sua família em encontros, festas e bares, existe sempre uma tendência a querer ficar até o último minuto. A situação é até óbvia já que os amigos e parentes do meu namorado têm as afinidades naturais de pessoas que se conhecem há anos. Do contrário, quando eram encontros com meu grupo social, meu namorado antes de ir levantava normalmente a questão: “Mas vamos ficar até muito tarde?”.

Dessa vez eu respondi: “Até a hora que eu não aguentar mais”.

Não sei se consciente ou inconscientemente “abdiquei” um pouco dos meus círculos sociais pelo fato de ser natural meu namorado estar totalmente a vontade com seus grupos. E como me sinto uma pessoa bastante sociável e curiosa para conhecer gente nova, durante esses dois anos e meio de namoro, foi fácil entrar de cabeça nas relações dele.

Só que agora, nesse sentimento de resgate, rever Tablito, Ding, Lutier e qualquer outro amigo sem “freios” e com a intimidade que gosto de cultivar, acontecerá com a naturalidade que sinto importante para mim. Não estou afirmando que nessa fase voltada para o namoro não foi importante e gostoso comparecer e reconhecer as “pessoas do meu namorado”. Sempre é enriquecedor e sempre é desafiador quando se entra numa família no momento que o namorado está se assumindo gay. Encontrar um espaço, o respeito e a compreensão nos enriquece de experiências e dignidade. Não foi a primeira nem a segunda vez que passei por situações como essa.

Mas tem coisas em cada mundo individual que é específico e não rebate negativamente em um relacionamento sério, como o meu e do meu namorado.

A exemplo disso, conheço o Lutier há 12 anos. Nesse período, os dois primeiros anos foram de namoro e os 10 anos acumulados foi de amizade. O que vale mais nessa relação? Acredito eu que os dois anos vividos de namoro nos deu intimidade e um tipo de relação que só pelo olhar já se traduz algumas palavras. Os demais 10 anos consolidou um status de amizade de uma fluência importante e que acima de qualquer suspeita é respeitosa.

Foram então, até agora, 12 anos vividos de intimidade e amizade. Estava com saudades dessa combinação com ele, assim como tenho com Tablito e Ding.

De quebra, eu, Ding e Tablito combinamos uma viagem para o mês que vem, numa praia que é um cantinho do litoral do Rio que já foi cenário importante e emblemático para fases da minha vida. Meu namorado entra no pacote! (rs).

De fato, nessa brincadeira de “pacote”, entrei com força e vontade no pacote do meu namorado nos últimos anos. A exemplo disso, nunca a galeria de fotos do Facebook foi tão recheado de amigos do meu namorado, primos e tios (rs). Entreguei a minha individualidade, abri concessões e estou querendo recuar um pouco sem grandes traumas ou necessariamente um rompimento.

Estou nesse momento, que não é intenso nem impulsivo, mas é um momento para “me resgatar um pouco” e me preencher de intimidades de meus amigos.

Relacionamento, gay ou heterossexual, tem dessas coisas. Parte de nós são individualidades, parte são entregas e concessões e, de certa maneira, a gente pode sempre mexer um pouco daqui e dali, possibilitando a preservação da relação com vontades mais individuais. Num relacionamento, estamos sempre sujeitos a mudanças. Mudanças individuais e do próprio namoro que irão influenciar ou não a relação.

O modelo heterossexual, talvez machista e instituído na sociedade brasileira deposita muito no casal uma “ideia de imersão para o resto da vida a dois”. Até que os casais não aguetem mais e se libertem da “prisão”, num modelo meio “ou tudo ou nada”.

Ou talvez isso seja coisa da minha cabeça, do meu próprio modelo. O fato é que dá para conciliar as individualidades, desde que exista um concenso e as vezes até uma imposição. Quando a gente entra na vida do outro com prazer e é isso que a pessoa espera, ela nem sempre percebe com clareza algumas importâncias do outro lado. Amigos para mim as vezes são mais família do que meus próprios parentes. Para meu namorado, o nível de intimidade com amigos as vezes é diferente com pais e primos. Para mim não.

Não estou pedindo para que meu namorado tenha a mesma naturalidade e fluência com meu universo. Mas é importante que eu, de dentro de mim, com o sentimento dessas vontades íntimas que estou precisando, reviva essas experiências sem me sentir inseguro. Não posso mais assumir cada “Mas vamos ficar até tarde?” como a desculpa externa para as minhas inseguranças ou como as minhas desculpas que influenciam meu distanciamento.

12 anos de amizade ou 7 anos com Tablito e Ding têm valores inestimáveis. Afinal, esses caras que conheci na vida são também o que entendo de família.

Resgates, mesmo namorando, são fundamentais. Caso contrário, o que costuma acontecer é o bode até o término.

4 comentários Adicione o seu

  1. Paulo disse:

    Lendo este post eu me recordei de uma situação que eu passei com a minha ex namorada, semelhante ao caso que você acaba de relatar com o seu namorado, ela numa situação semelhante a você e eu numa situação semelhante ao seu namorado. Ela tem um grupo de amigos que eu, mesmo saindo com certa frequência, numa tive grandes afinidades, que somada a algumas manias antissociais que tenho, me fazia não gostar muito de estender programas com eles, as vezes eu não queria nem sair com eles. Num sábado a tarde eles marcaram um churrasco, eu não estava a fim de ir, ao contrário da vontade dela Eu precisava ajudar meu pai no seu restaurante, que funcionava de Sábado a noite, meu pai me liberaria da ajuda sem problemas, mas eu acabei indo para ter um álibi para não ir ao churrasco. Ela me ligava de hora em hora perguntando se o movimento estava fraco no restaurante, para eu ir lá ficar com ela no churrasco, eu dizia que ainda não, que estavam precisando da minha ajuda, mesmo não sendo verdade. Até que por volta da uma da madrugada, ela sabendo que não haveria mais como ter movimento, começou a questionar por que eu não estava querendo ir, eu falei que estava cansado e que queria ir para casa dormir, um amigo dela pegou o telefone e começou a falar para eu ir, eu falei que estava cansado, ele disse que havia acordado as quatro da manhã e que nem por isso não estava lá, se eu não me engano era aniversário de alguém do grupo. Eu acabei não cedendo, até que ela muito triste falou que então não ficaria mais lá, eu insistir para que ela ficasse, mas ela tinha desanimado de ficar, eu disse que iria então, mas ela disse que nem a minha presença iria anima-la mais a ficar. Eu fui para casa como era minha vontade, mas com um gosto amargo na boca, fiquei mal com isso, comigo mesmo, com as minhas manias antissociais. Ela não me ligou no dia seguinte, o que não era normal, ela estava muito magoada, o que ajudava a me deixar com mais raiva de mim mesmo, de não ter tomado a atitude certa na hora certa. Durante esse período de autopunição, eu vi que meu desejo de agrada-la era maior do que o meu desejo de satisfazer um medo interno, decidi naquele momento que nunca mais iria falar um não com relação aos programas sociais que ela faria com seus amigos, que ela não ficaria sabendo desse meu acordo interno. Dito e feito deixei de recusar programas e o resultado foi de fato muito satisfatório, a vontade querer ficar em casa continuava comigo, mas eu deixei de dar margem para isso, e ela respondia com muita felicidade a isso, o que me deixava mais contente que atender ao meu medo. Cheguei a um ponto de insistir para irmos num programa que ela mesma estava cansada para ir, depois ela disse para uma das amiga, “Foi o Paulo que insistiu” com um certo orgulho no tom de voz. Eu mesmo passei a “sofrer” menos com o tempo com relação a essas situações, sem perceber eu também estava me ajudando com essa atitude.

    1. minhavidagay disse:

      É bem por ai, amigo Paulo.
      Mas ficou uma dúvida: qual era seu medo?

  2. Paulo disse:

    É engraçado que uma pergunta simples que nem essa tem uma carga muito significativa para mim. Este medo é simplesmente a personificação do freio puxado que eu tenho com relação à maioria dos assuntos que envolvem a minha vida, freio este que agora eu estou me dando o direito de afrouxar.
    Quando começamos a tomar consciência sobre alguns assuntos em nossas vidas podemos ter reações diversas, mesmo em assuntos mais encorpados como quando descobrimos que somos homossexuais, muito provavelmente nos introduzindo um difícil processo interno que pode nos acompanhar para o resto da vida, tendo diversos desdobramentos de pessoa para pessoa.
    Eu senti muita vergonha quando comecei a perceber que era homossexual, uma vergonha que veio junto com um medo muito grande, não sei classificar exatamente o que motivava o medo, mas era uma junção de exclusão social, desprezo, anormalidade entre outros sentimentos, ou seja, eu tinha medo das consequências de ser gay, principalmente quando percebi que não haveria mudanças.
    Para uma criança (ou um pré-adolescente) isso trouxe muitas consequências práticas para a minha vida, duas delas eu destaco, ações antissociais e assexuadas, acreditei que ambas contribuiriam para que o meu segredo estivesse em segurança. Claro que isso não foi uma decisão consciente, ela foi acontecendo naturalmente, assim como foi natural para mim a adaptação as situações da minha vida uma vez que eu caminhava para este desdobramento específico no assunto.
    Acredito que algumas características natas da minha personalidade contribuíram para um exagero no esforço para guardar esse segredo, tornando-me alvo fácil para brincadeiras de todos os tipos durante anos no colégio. O ciclo vicioso estava formado, eu e o ambiente a minha volta confabulavam para que eu tivesse cada vez mais medo de me relacionar com pessoas. Mesmo não sendo tímido, mesmo sendo uma pessoa divertida e agradável eu me fechei para o mundo, com poucas válvulas de escape.
    Tudo começou com a vergonha de ser gay, transformou-se em medo de ser gay, culminando em ações antissociais e assexuadas. Ao longo de anos isso foi crescendo, modificando-me e me fazendo perder o controle de quem eu realmente era. Mas a vida foi benevolente comigo, colocando pessoas muito especiais no meu caminho, o estopim para que eu pudesse arrumar muitas coisas dentro de mim.
    Hoje vejo que carregarei por muitos anos as consequências dessa parte da minha história, mas a vontade de querer mudar é o meu maior apoio, vontade de querer ser eu mesmo, vontade de superar o meu passado, olhar para trás e deixar de ficar triste, ver que foi difícil, mas o que não me mata me deixa mais forte, olhar para o futuro e ver a bonança depois da tempestade.
    Esse medo, meu caro amigo moderador, é o alvo das mudanças da minha vida.

    1. minhavidagay disse:

      Perfeita explicação, Paulo!
      E que fique registrado aqui para o gay que passa por suas questões quanto a própria aceitação. ;)

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