Vida Gay – O eterno conflito do gay brasileiro entre religião e homossexualidade

As vezes a gente acha que não, mas a questão da religiosidade incutida na cultura brasileira influencia ainda bastante os processos de aceitação de nossa homossexualidade. Em outras palavras, homens que vivem uma realidade religiosa muito no cotidiano acabam reprimindo mais suas questões quando gays.

Conheçam o relato do P. A., numa troca de e-mail até que bem descontraída, tom dado pelo próprio leitor.

Relato de P. A.:

Olá,

procurei no Blog seu nome, mas nao descobri (rs), li alguns posts e achei bem interessantes. Recentemente estou passando por uma situação “complicada”:

Moro em Guarulhos com meu irmão, tenho um outro irmão, casado, em Goiânia e minha mãe mora me Brasilia. Fui criado em lar cristão, sempre frequentei Igreja aos domingos e outros dias, filho de pais pastores. Cedo percebi que tinha atração por homens, na puberdade tudo se desencadeou (internet, pornografia, essas coisas). Aos 14 tive minha primeira experiência (com um garoto de programa, a única possibilidade que conseguia pensar na época), depois disso descobri as salas de bate-papo e passei a encontrar caras eventualmente. Eu ficava, mas depois me arrependia e parava, mas depois voltava pra net, até que descobri uma sauna em Goiânia (onde morava na época) e ia pra lá as vezes, já que não dava pra ir em baladas. Sempre vivi de “ups and downs” tentando ser um bom cristão e largar essa vida “gay e bandida”. Resultado: este ano fiquei praticamente “ileso” tive uma ou outra “recaida” em se tratando de masturbação e pornografia. Estive bem firme na Igreja, orando por uma mulher e tudo.

A questão é: eu gosto da Igreja, tenho bons amigos, pessoas de confiança, etc. Maaaaas esse sábado, meu irmão saiu para visitar um amigo e me grudou na cabeça a ideia de “dar uma saída”… resumo: fui pra República em uma clube “tipo sauna” mas que não tem sauna. Peguei uns carinhas, mas o último que fiquei virou a noite toda. O sexo foi ótimo (dentro do possivel, porque lá tinha muita plateia rsrs) e também pudemos conversar um pouco. Ele é de BH, 35 anos, bem resolvido (eu tenho 24, publicitário que nunca atuou na área, e meio-resolvido); as 5h da manhã saimos do clube, de maõs dadas, caminhamos e fomos comer no McDonalds. Eu lhe falei um pouco de minha história e de algumas “aventuras” que já tive.

Que merda, já passei por isso antes. Sempre que acontece sabe qual é minha vontade? S-U-M-I-R! Porque eu sei que no momento em que assumir a vida gay não vou aguentar ficar perto das pessoas com as quais convivo hoje e também terei que me separar de minha familia. Todos de minha casa sabem de mim, mas sempre encaramos como algo a se vencer, e tudo está bem desde que eu mostre “estabilidade”. Mas mesmo nesses dias em que tenho estado “consagrado” (orando, lendo, etc) eu fiz o que fiz. To bastante triste. Ao mesmo tempo que não quero deixar tudo o que já construí na Igreja (eu toco na banda e sou líder de célula e tenho discípulos) eu também me canso dessas idas e vindas na minha vida sexual. Eu simplesmente adorei esse cara, o que é outro dilema, porque não sei no que vai dar e tenho pensado demais nele (a última vez que fiquei obsecado por um cara eu literalmente tentei fugir de casa, mas tinha 18).

Quando falei para esse cara sobre minha familia e a Igreja ele simplesmente disse que tenho que fazer minha escolha, o que faz muito sentido. Não tenho experiência com relacionamentos porque os meus nunca duraram mais de 6 encontros onde no final eu acabava me arrependendo e me desconectando da pessoa. Eu não sei o que pensar desse cara, curti muito ele, achei ele lindo, mas não o conheço de verdade e não sei se foi apenas uma “noite casual” para ele ou se de fato as coisas que ele me disse (sobre me achar bonito, me convidar pra ir à BH) eram honestas. Creio que o fato de ele ter saído comigo, andarmos de mãos dadas (que foi super lindo rs) de ele ter me passado os números dele e de ter respondido meu torpedo demonstram algo, não acha?

De qualquer modo não posso me enganar ao ponto de decidir minha vida só por causa de um cara, tem que ser algo separado disso, maaas a única coisa que está me deixando assim é o fato de estar gostando dele e de ter a “expectativa” em nos conhecermos melhor. Não sei se ligo para ele, nao sei o que dizer, como dizer, não quero parecer interessado demais, sabe? Vai que ele já tem uma “fila” atrás dele, sei lá, é dificil. Também não consigo disfarçar minha “tristeza” no trabalho nem na Igreja. Logo logo meu pastor vai ver e vai me chamar pra conversar (ele também sabe) e me da desespero só de imaginar que estou a ponto de largar tudo, tudo que sempre acreditei, tudo pelo qual sempre lutei e sonhei para seguir uma vida “incerta”…

Enfim, desculpe escrever tanto (acredite, eu resumi bastante) mas não sei exatamente o que fazer em relação à Igreja e família nem em como reagir com esse cara (se fosse por minhas emoções eu já estaria com tudo encaixotado rumo à BH, só pra você ter uma ideia, mas sei que assim também não dá… tem q pegar leve).

Um abraço meu caro.

MVG:

Caro P. A.,
tudo bem?

Seu relato é muito interessante e me sinto no “direito” de compartilha-lo no MVG, claro que respeitando a sua imagem como faço com alguns dos e-mails que recebo dos leitores e lanço como post.

Essa questão da Igreja VS. Homossexualidade deve se refletir em inúmeros lares de brasileiros, afinal, somos uma grande sociedade cristã em diversos níveis de sacerdócio (rs).

Você está falando com alguém formado pela religião católica em origem. Estudei no Colégio Pio XII em São Paulo, de freiras americanas, do pré à 7a. série. Tínhamos aula de religião em português e inglês para você ter uma ideia. Mas, com o passar do tempo e com a minha natural curiosidade pelo mundo e pelas relações humanas fui dando um direcionamento próprio do que entendo como religião.

Nenhuma doutrina, nem dos budistas, espíritas ou cristãos tem em suas palavras uma verdade absoluta que eu concorde. Aliás, se formos pensar nesse mundo cada vez mais de acesso a informação e globalizado, qual é a grande verdade absoluta fora o envelhecimento e a morte? E olha que até o envelhecimento as pessoas já estão tentando postergar para lá dos 100 anos!

Eu penso uma coisa e creio que você buscou por esses conselhos para uma opinião: acho que você está radicalizando com você mesmo. Quando você diz que “ou assume sua sexualidade e trilha esse caminho ou continua cristão e fervoroso a sua fé” logo me vem uma sensação: “nem oito nem oitenta”.

Deus, acima de todas as palavras dos homens que fizeram a bíblia, tendenciados pelo cenário o qual viviam e tendenciados por suas próprias realidades psicológicas em tempos diferentes, fala do amor. Do amar ao próximo.

Você acha mesmo que, se você seguir pelo desenvolvimento da sua homossexualidade, as pessoas que te amam irão te abandonar? Ou será que aqueles que amam não abandonam?

Obviamente que algumas concessões você terá que fazer porque a igreja, e não você, não daria acesso a tudo que você tem hoje assumindo que é gay.

Por outro lado, não ache que você terá uma paz de espírito imediata logo depois que começar a dar seus primeiros passos convictos da homossexualidade! Você passará a se relacionar com pessoas novas, diferentes dos modelos e padrões que a igreja define para quem é fiel. Pessoas novas que lhe apresentarão outros valores, outras condutas e outros modos de pensar que para você, hoje, são meio cristalizados nos ditados da sua religião.

Você “namora” há anos com a sua religião. Hipoteticamente vai terminar e assumirá uma vida solteira. Pode colher flores, mas vai ter que comer grama também para depois chegar num nível de consciência maior sobre a sua nova realidade. A paz se conquista e vem com o tempo. E creio que, a princípio, você terá tudo de bom e ruim do “inferno” no sentido figurativo, ok? (rs)

Não é nada diferente de alguém que namore, por exemplo, 7,5 anos (:P) desde a adolescência e resolva terminar para viver a vida solteira ou diferente. A pessoa precisa se contextualizar de outras realidades àquelas que outrora confortou ou acomodou.

Mas de qualquer forma, essa ideia de “tudo ou nada”, “ame ou odeie” ou é coisa da sua cabeça ou valores “ensinados” pela sua doutrina. Vinda de um ou de outro não faz bem a ninguém.

Acho totalmente possível seus amigos da igreja, seus pais e irmãos te aceitarem pelo amor que tem por você com o tempo, e o tempo de cada um. O primeiro grande passo na “lua” você já deu assumindo para seus familiares que existe essa sua atual “tendência”. Até o “chefe” da igreja sabe de você! Falta dizer, talvez, que não é tendência coisíssima nenhuma e que você é gay mesmo! (rs)

Brincadeiras a parte, se você tiver o amor das pessoas importantes para você, próximas ou não da igreja, por que você precisaria carregar toda a doutrina junto com a sua nova realidade? Nem combina! E não combinar não é pecado. É a oportunidade de você viver melhor e feliz, sem o incômodo, o peso de estar fazendo algo errado e a culpa por ter esse “demônio” dentro de você que busca por perversões de vez em quando!

Meu conselho é que você mate seus demônios e, nesse caso, para matar esses demônios você terá que abrir mão de alguns anjos também.

Mas não, não acho e repito: não precisa ser tudo ou nada!

Ah, sim! Sobre o “cara”, P. A., sinto em dizer mas ele é apenas um bode expiatório para seu desejo de se assumir, ser mais pleno, sabe? É normal a gente ficar projetando inúmeras expectativas em uma pessoa idealizada quando se reprime tantas vontades e, de certo, se está carente por não conceber nenhuma relação de maneira mais completa a vida toda!

Isso de idealizar “um cara” e ficar “viajando” se ele isso, aquilo, X, Y ou Z é normal para qualquer indivíduo que se reprime por suas circunstâncias, seja a doutrina, a educação ou os próprios valores internos que não nos deixam ir além na coisa de sermos gays e felizes!

Abraços,
MVG

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1 comentário Adicione o seu

  1. AE disse:

    Olá querido P.A.
    Quero te dizer que já passei pelos mesmos conflitos, porque sempre fui da igreja apaixonada por Deus e pela obra, sempre participei ativamente da igreja e quando começei o meu primeiro e unico até hoje, relaciomamento gay, fiquei com a conciencia pesada e acabei me afastando da igreja largando o ministerio e tudo o que havia construido e sonhado.
    Porém nunca larguei o Senhor, nunca deixei de orar, ler a palavra e colocar principalmente minha vida sentimental diante de DEle. Afinal nunca entrou na minha cabeça que é correto ter que se fazer uma escolha entre amar a Deus ou amar uma pessoa, ou ter
    um relacionamento ou ter um ministério. Isso não pode ser escolha pra ninguém, Deus não faria isso com a gente porque Ele sabe que todo ser humano orecisa de todos estes meios para ver feliz e completo: igreja, familia, amigos, casamento, trabalho. Resultado: Deus não nos abandonou, jamis faria isso. E o que Ele esta fazendo agora em nossas vidas depois de 9 anos de relacionamento, são coisas que olgos não viram, ouvidos nunca ouviram e jamais penetrou na mente e no coração de homens. Gostaria de te contar tudo com.mais detalhes e te ajudar se alguma forma a viver o que Deus planejou pra vc. Entre em contato comigo para conversarmos melhor ou por email ou pelo Faceboock. Fik com Deus. Bj. Anne Flores annefflores@gmai

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