Relato gay – Um gay dá uma breve lição sobre relacionamento e preconceito

Mais um relato recebido por e-mail de um leitor gay que narra um pouco de sua vivência real. O detalhe, se posso chamar de detalhe, é que ele é cego. Me fez lembrar do filme “Ray”, que narra a vida do artista Ray Charles, da luta para estabelecer um senso de igualdade social perante àqueles que o acompanhavam. Obviamente a comparação é simplória e só quem realmente é cego (e gay) poderia relatar esse post com veracidade.

Relato de G. M.

Olá amigo,
sou do interior de SP, tenho uma certa idade, nem velho, nem um menino. Faz parte da vida o envelhecimento.

Já procurei o amor perfeito, mas como o ser humano perfeito não existe, acabei não encontrando.

Hoje em dia não procuro mais, ou seja, como diz John Lennon “a metade da laranja não existe pois todos somos seres humanos completos e passar algum tempo da vida ao lado de outra pessoa é mais agradável, só isso”.

As coisas tornam-se mais complicadas, só um pouquinho, por ser além de gay, também ser portador de deficiência visual. Por sofrer duas linhas de preconceitos, a referente a homossexualidade e a referente a deficiência visual. No começo ficava confuso, pois ia nas baladas e as pessoas tratavam-me como um herói, só por estar lá. Aproveitava a ocasião para puxar alguma conversa e ver o que acontecia.

O mundo homossexual, embora sofra preconceitos também possui muitos preconceitos e aos poucos fui percebendo que o que criava dificuldades era o estereótipo de que o deficiente visual não tem sexualidade.

Depois de ir continuamente nas baladas comecei a pegar amizade com os funcionários e os frequentadores de carteirinha.

Aí perguntava a eles porque quase nunca conseguia sair com ninguém. Alguns deles disseram: “porque as pessoas tem medo”.

É diferente, ria muito e falava a eles: “os meus amigos heterossexuais falam a mesma coisa dos gays”.

Acredito que o preconceito é pura ignorância porque pouco a pouco vão caindo aquelas concepções e o diferente passa a ser indiferente.

Assim, com o tempo, fui experimentando, namorando, ficando, etc., etc, nem muitas vezes, nem poucas. Algumas pessoas que fiquei falaram-me que notaram que a sensação tátil do toque é mais sentida, mais intensa em um deficiente visual e que o parceiro não precisava se preocupar tanto com a estética. Talvez seja assim, ou talvez não seja, eu não sei.

Em um relacionamento, seja homoafetivo ou heteroafetivo, aos poucos fui percebendo que as afinidades são fundamentais: troca de experiência, isto é, um ensinar ao outro; amor, ou seja, afeto; e um relacionamento sexual saudável.

Muitos desejam a felicidade a dois, mas poucos assumem as atitudes necessárias para que isto efetivamente aconteça. Na medida em que palavras são apenas palavras, carregam um significado, mas dizer-se que se é uma pessoa carinhosa, não a faz ser carinhosa. Por isso o que vai demonstrar ao companheiro um afeto real vai ser, por exemplo, chegar do trabalho, cumprimenta-lo com um beijo carinhoso, não mecânico e rotineiro, sentar cansado do trabalho no sofá, carinhosamente colocar a cabeça do parceiro no colo e acariciando seus cabelos, perguntar como foi o dia, o que fez de bom no trabalho, ou na escola ou mesmo em casa, cada vida é uma vida.

Mas o interessante é que mesmo o que estou dizendo agora é um mero discurso, isto é, só palavras, as minhas palavras ou seja, a minha concepção de afeto, porque falar que se quer namorar sério, não é só falar para que isso aconteça. Alguns aprendem de maneira mais fácil, outros como eu, só aprendem sofrendo as consequências, mas cedo ou tarde se aprende.

Preconceitos todos nós temos, até mesmo os homossexuais, porque somos pessoas como qualquer outra e os deficientes não são os únicos que sofrem dupla carga de preconceito. Há também as mulheres homossexuais; os negros homossexuais, e as mulheres negras homossexuais ainda sofrem tripla carga. Imagine então, uma mulher deficiente, negra e homossexual?

Nós vivemos, segundo valores de uma sociedade anterior e nem percebemos isso. Certa vez, em um curso sobre um filósofo chamado Michael Foucault, a professora tentando provocar os alunos contou que certa ocasião esse famoso filósofo foi pego em uma relação sexual com um mendigo na calçada de San Francisco, contando que ele era homossexual.

Como eu era homossexual, nem aí para a homossexualidade dele; e aquele murmúrio entre os alunos com o fato. Voltei para casa e não consegui dormir pensando porque ele tinha feito aquilo: não fazia sentido um filósofo daquela natureza transar com um mendigo.

Foi aí que percebi com imenso desgosto que tinha preconceito dos mendigos, pois não aceitava eles como gente, mas sim como objeto da urbanidade.

Abraços,

G. M.

5 comentários Adicione o seu

  1. Sammy disse:

    Que belo relato! Esse texto dá umas cutucadas, mas não chega a causar desconforto. É o tipo de texto para se apreciar em silêncio e refletir…

    1. minhavidagay disse:

      Diferente dos meus que cutucam, né, Sammy? rs :P

      1. Sammy disse:

        Hehehe, olha, eu nem falei nada, mas você sabe que é bem por aí mesmo :P

  2. Jean disse:

    esse texto é simplesmente maravilhoso! deu pra ver bem que a percepção de “mundo” dele são bem mais sensíveis que a nossa. lindas palavras!

  3. Daniel disse:

    Belas palavras que nos ajuda a pensar sobre nossas atitudes, não apenas como gays, mas também como seres no mundo… Não tenho nem um pouco da experiência de vida deste leitor, mas reconheço o imenso preconceito existente também dentro do “mundo gay”, fazendo com que nossas experiências sejam pautadas por uma constante sensação de estar numa corda bamba… Que um dia tudo isso possa mudar e possamos ser realmente abertos a diferença!

Deixe uma resposta