Vida gay – Quando assumir para os pais?


É muito delicado definir um prazo exato para assumir que somos gays para os pais. Os vínculos familiares, na sociedade em que vivemos, são o que temos de mais sagrado ou sacramentado por inúmeras influências históricas de nossa cultura predominantemente ocidental. Influência da religião, das tradições específicas de cada família fazem os pais ficarem numa espécie de altar, imexível e quase que plenamente admirável, naquela situação de que ninguém pode criticar esses seres, pai e mãe, que são vigorosamente uma das maiores importâncias nas relações humanas e afetivas.

Existe também o amor, o apego e o medo de, por sermos gays, desequilibrarmos toda a estabilidade existente em nossa casa.

Alguns mediante a essa imagem soberana dos pais se revoltam. Outros se fecham em si mesmo. Carregamos um tipo de culpa por nascer assim e buscamos compensar essa diferença ou tornando-nos filhos revoltados, raivosos, ou excessivamente contidos. Alguns compensam sendo filhos exemplares na escola, numa tentativa de compensar essa “falha” que, sim, vem de uma naturalidade por sermos gays, não é uma escolha, nem um botão que a gente aperta para ser como é, mas na sociedade em que vivemos é colocado como algo a parte, não comentado, não ensinado.

Existe uma falta de naturalidade de tratar sobre um assunto que em essência é natural e espontâneo. Não escolhemos ser assim.

Se falar de sexo já é um grande tabu entre pais e filhos, imagine então a homossexualidade?

Dessa maneira, não existe um momento certo para se revelar aos pais, ou melhor, cada filho gay deve ir tomando consciência para esse momento sem a empolgação ou o medo influenciados por outras pessoas. A decisão normalmente é processual e deve ser carregada de serenidade e confiança.

Conheço casos de amigos de 40 anos e leitores que até hoje não se revelaram para os pais mas vivem a vida gay em paralelo. O contexto dessas pessoas, quando jovens, era bem diferente do que entendemos hoje. A consciência da sociedade na década de 70 era diferente do que é hoje embora seja tão perto.

Existem jovens de 20 e poucos anos que reprimem profundamente essa realidade de ser gay. Sentem-se excluídos, diferentes, ou até mesmo errados por ser assim.

Tenho um amigo que se revelou da seguinte maneira: estava no banho e sua mãe ouviu o celular tocar algumas vezes. Resolveu atender e do outro lado da linha falou um ficante do amigo. Ao sair do banheiro a mãe questionou quem era a pessoa. Meu amigo se esquivou e a mãe um pouco desconfiada insistiu. De súbito ele responde: ” É meu namorado!”. Sabe quando uma pessoa desmaia por levar uma pancada? Foi algo do tipo! rs

E claro, como é possível notar em registros pessoais e de alguns leitores pelo Blog MVG, o revelar para os pais tem saído melhor que a encomenda porque as vezes nossos temores se tornam menores do que a crença na afetividade entre pais e filhos.

O fato é que não existe uma fórmula mágica igual para todos. Hoje mesmo, nessa minha fase de resgate de contato com alguns amigos da comunidade, estive com o “Charosk” que quase concedeu a revelação para os pais mas preferiu voltar atrás. Esse fato não é impedimento para que viva a homossexualidade, como viveu intensamente durante 5 anos até assumir um primeiro namoro sério e gay. Já são seis meses de relacionamento. Saiu da casa dos pais faz dois e prefere preservar sua intimidade assim por enquanto.

No meu caso, vivi um primeiro namoro dos 23 aos meus 25 anos sem meus pais saberem da minha homossexualidade. E a revelação veio “inesperadamente” e partiu de minha mãe que descobriu um bilhete do meu segundo namorado!

Cada filho gay deve prestar bastante atenção e buscar uma consciência do tipo de família que vive. As vezes realmente os pais são tradicionais, preconceituosos e homofóbicos. As vezes é mais fruto da nossa mente, ou melhor, o “monstro” é grande porque fazemos dele maior do que realmente é. O machismo, as vezes, é hábito meio de “osmose” e piadas preconceituosas sobre gays acontecem sem a carga real. As vezes sim, as vezes não.

Nessa reflexão sobre assumir a homossexualidade para os pais é importante pensar na questão do amor e do afeto que existe normalmente na maioria das relações entre pais e filhos. Pais são essencialmente preocupados com o bem estar do filho e todos, na maioria, querem que os filhos sejam felizes.

Se existe revolta dentro da gente, culpa, se temos preconceitos com nós mesmos, se nos encaramujamos ou nos rebelamos, é porque socialmente nos sentimos excluídos e com medo, e normalmente muito medo. Exclusão e medo podem gerar revolta, culpa, introversão, entre outros sintomas. Mas não são nem os filhos nem os pais necessariamente culpados por esses sentimentos.

A sociedade, os valores herdados durante gerações e o costume das famílias são elementos invisíveis em nosso cotidiano e as vezes praticamos sem perceber ou questionar. Vir a tona a homossexualidade nesse contexto, normalmente, gera susto, insegurança e falta de tato para lidar porque ainda hoje ser gay não é um tema compreendido com naturalidade.

Pouco se ensina sobre diversidade sexual na escola e deveria ser obrigatoriedade. Ao contrário, normalmente vemos reforçar o conceito de que homem gosta de mulher e mulher gosta de homem, e essa fórmula é o que é e ponto.

Mas não é ponto. São três pontos, vírgula e ponto e vírgula. Estamos falando de gays. E os transgêneros? E os transexuais?

Aos poucos a sociedade está tomando formas diferentes e absorvendo essa realidade.

Confesso que assumir para os pais nos dá uma segurança especial e falo isso pela minha própria vivência. Nos sentimos mais plenos e a carga positiva da compreensão de pais e mães nos garante uma paz especial, tão especial quanto o amor que sabemos que existe por eles (mas nem sempre assumimos). Assim, vou sempre ser um idealista para que os gays se assumam para os pais porque nos faz um bem sem tamanho, um tipo de bem conquistado, processual, que respeita o tempo de cada um. Um bem que nos torna mais fortes e mais vivos, mais espertos.

Mas em que momento devemos revelar, cabe a cada filho gay definir.

14 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    Excelente texto, como sempre!

    Eu considero essa “saída de armário” para os pais uma roleta russa… Por mais que existam famílias bem “descoladas”, pode morar sim aquela filosofia “na família do outro, tudo bem, mas na minha…”. Reação pós-revelação sempre tem, quase sempre ruim…

    Tenho um conceito de momento certo, que seria quando o filho deixa a casa dos pais, se torna independente. Não digo isso pros casos de violência ou expulsão do ninho… claro, funciona sim como um porto seguro caso as coisas deem errado, mas só o fato de ser independente já mostra a maturidade pra lidar com a vida, com as escolhas. Assim, frases como “é só uma fase” ou a proteção exagerada por parte dos pais, tendem a esvacer…

    Abraços, e ótimo final de semana!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Peter!
      Quanto tempo, hein?
      Andou sumido…rs

      Vou lançar uma dica para você: o Paulo e o Sammy, como você pode ver no post “Efeito positivo de um blog gay para além das telas” se conheceram pelo Blog, estão iniciando uma amizade e estão ajudando a “ampliar” o efeito positivo do MVG. Que tal tentar um contato? Talvez valha a pena, de leve.

      Ótimo final de semana para você também!

      Abs!

  2. PNIPM disse:

    E se meus pais n aceitarem de jeito nenhum???

    1. Paulo disse:

      PNIPM eu acredito que não aceitar de jeito nenhum é uma atitude que não combina com ser humanos. Agora você pode identificar com o tempo que talvez terá mais dificuldade com os seus pais nesta temática. Eu diria que nessa caso o comentário do Peter sobre sair de casa antes pode ser adequado, afinal demonstra maturidade e as consequências diretas da reação dos seus pais não reflete tanto no seu cotidiano. Mas antes de tudo lembre-se que estamos falando de pais, do amor incondicional de pai e mãe para filho, aproxime-se mais dos seus pais, tenha um bom relacionamento com eles, seja amigo deles, devolva o amor que eles tem por você, ajude eles também nos problemas deles, seja um bom filho, não por interesse, mas por que isso vai te fazer um bem enorme, tenha certeza que para eles também, quando você menos perceber assumir a sua sexualidade será algo bem menos pesado, me arrisco dizer que a reação deles também será. Não seja precipitado, você tem todo o tempo do mundo a seu favor. Boa sorte!

  3. Luis disse:

    Creio eu que quando chega a nossa hora de se assumir para os pais, é porque já entendemos o que pode acontecer. Não concordo que seja uma espécie de roleta russa, creio que seja apenas uma questão de conhecimento.

    Conhecimento esse que se refere aos hábitos e visão de mundo dos pais, antes de mais nada, é importante conhece-los, saber que é tão difícil para eles quanto para nós. Para nossa sociedade, a homossexualidade é ainda um tabu. Só é encarado como errado e anormal porque nos ensinaram desde tenra idade que é errado e anormal, seja por tradições e dogmas passados pela religiosidade ou simplesmente pelo machismo presente ainda em algumas famílias.

    Como o MVG, sou totalmente a favor de que os gays se assumam para os pais, claro que cada um em seu tempo. Mas jamais será perfeito, do tipo ” eu sempre quis ter um filho gay.”, será um momento um tanto quanto especial para quem se assume, e um tanto quanto estranho e esquisito para os pais.

    Para finalizar, acho totalmente importante que o filho gay conheça muito sobre seus pais antes de se assumir,conheça um pouco de visão de mundo deles. É importante também (na minha opinião) o filho passar antes de se assumir, segurança e responsabilidade para os pais. Não importa a idade, ou o estilo de vida. Se assumir é uma decisão importante, uma questão a ser trabalhada com responsabilidade, é importante conhecer a realidade e visão de mundo dos pais, só assim saberá “montar” estratégias para tratar o assunto, para dar a segurança que eles precisam.

    Ótimo fds para vocês todos também!

    E mais uma vez, parabéns pelo blog MVG (=

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis!

      Olha, você pode ter apenas 19 anos, mas tem uma consciência de muita maturidade.
      Obrigado pelo complemento ao post que apresentou detalhes importantes do se assumir para os pais!

      Abs!
      MVG

      1. Paulo disse:

        Faço minhas as palavras do MVG com relação ao teor do seu comentário Luis, aproveito para dizer que concordo com você, minha opinião sobre o assunto está alinhada com a sua.

  4. Marcelo disse:

    Antes de mais nada, quero parabenizar o blog pelo excelente trabalho que presta à sociedade, tanto aos gays quanto aos não gays. Aos gays, com suas vivências bem sucedidas ou não, insere-os em um grupo de iguais, fazendo com que percebam-se não como anomalias, mas sim como um ser humano como outros sete bilhões deles, nesse extenso e variadíssimo leque de personalidades, biotipos, conflitos e culturas que moldam nossa espécie. Aos não gays, oferece uma oportunidade maior de conhecer o que realmente é o gay, diminuindo em muito e talvez até erradicando seus preconceitos e, assim, irradiando o seu novo modo de pensar por toda a sociedade.
    Conheci o blog há poucos dias. O meu comentário talvez se preste mais como um desabafo do que alguma espécie de ajuda para quem venha a lê-lo. De imediato, peço desculpas se não estou sendo construtivo, mas nesse momento estou sentindo a necessidade de abrir meu coração e acho que o blog, pela sua estrutura, me permite essa licença.
    Tenho 33 anos e percebo que a questão da homossexualidade em minha vida é extremamente complexa, extremamente psicológica. Apesar de já não ser tão jovem, o contexto em que estou inserido não me permite viver de maneira saudável. Resolvi escrever porque o tema “Quando assumir para os pais” veio em meio a um momento em que acredito ter feito uma descoberta.
    Sou de origem de famílias muitos simples. Meus avós eram semi-analfabetos e proletários. Meus pais não tem ensino fundamental completo. Porém, conseguiram proporcionar a mim algum conforto. Não estudei em escolas particulares, não estudei línguas e nem viajei para o exterior. No entanto, conseguiram com que eu tivesse um padrão muito melhor do que foi proporcionado à eles, ao passo em que sempre pudemos ter um carro novo, uma boa alimentação, vestuário e eu pude cursar uma faculdade.
    Perdoem-me se estou sendo muito extenso nessas considerações, Ocorre que as acho necessárias para que possam compreender melhor o que se passa comigo.
    Não poder contar com o apoio dos pais no tocante à compreensão sobre a homossexualidade é simplesmente horrível. Nunca contei nada à eles. Quando criança, era muito ingênuo, só queria saber de estudar, ler gibi, brincar e assistir desenhos animados. Não passava ainda por mim qualquer drama referente a este aspecto da minha vida. Quando fiz 11 anos, iniciou-se a minha puberdade e o desejo sexual. E iniciou-se também o meu calvário que já dura 22 anos. Fui ter meu primeiro contato com um homem ( meu primeiro beijo) somente aos 22 anos. Até essa idade vivi uma profunda depressão. Choros e desejos de morrer eram recorrentes. Ainda o são, porém não tão frequentes. Meus pais são extremamente preconceituosos. Meu pai, até mesmo pela idade e pela época em que formou seus conceitos, é machista demais. Só para ter uma idéia, ele diz que mulher deveria usar saias, e não calças, diz que mulher não é homem para usar calças (!!!). Para a minha mãe a coisa é um pouco mais suave, mas de qualquer modo para ambos a repugnância por gays é grande. Percebo claramente que esses modos de pensar são fortememente influenciados pela baixa instrução e pelo ambiente em que foram criados. Mas sinto uma enorme dor por nunca ter podido contar para eles sobre mim. Sinto dor por saber que são ótimos pais, mas incapazes de me compreender; sinto dor por ser uma pessoa insegura, por ter tropeçado em pedras que talvez não existissem se eu tivesse tido desde adolescente o apoio e o carinho que uma pessoa em formação necessita; sinto dor por já estarem velhos e com a saúde frágil, e saber que provavelmente em poucos anos não mais os terei, e levarei a vida sem saber como ela teria sido se eu tivesse tido a coragem de me abrir. Não tenho certeza sobre qual seriam suas reações. Razoáveis? Talvez. Péssimas? Provavelmente. Conhecendo como os conheço, acredito que meu pai talvez até cometesse suicídio. O fato é que levo a minha vida de adulto com a fragilidade e a insegurança de um adolescente, pois, por circunstâncias diversas, ainda moro com eles, e não consigo viver de maneira saudável minha sexualidade. Nem amigos tenho, coisa que sinto muita, mas muita falta, talvez até mais do que de um companheiro.
    Novamente, perdoem-me por me extender demais. Mas, como mencionei lá no início, acredito ter feito uma descoberta hoje. Meu pai, desde pequeno, foi sempre muito ríspido e grosseiro comigo. Nesse ponto vou procurar ser mais conciso senão passaria horas escrevendo. Bem, ocorre que há dois dias ele me falou uma coisa que me ofendeu demais, cheguei até a pensar em sair de casa. Vendo o quanto eu estava tocado, sem dirigir-lhe uma palavra sequer, veio a mim e me pediu desculpas com a voz embargada, num início de choro, e se retirou. Foi a primeira vez na vida que meu pai me pediu desculpas. Revisitei minha história, os diversos epísódios de ofensas e grosserias desde a infância e sabe o que descobri? Que meu pai sabe que sou gay desde pequenininho. Não sou afeminado, nem tenho aparência demasiadamente delicada. Mas sempre fui muito quieto, educadinho, carinhoso e acho que essas características incomodaram meu pai, que queria um filho mais firme, mais moleque. Meu pai tem traços fisionômicos muito marcantes, corpo muito másculo, voz grossa; geneticamente, sou mais parecido com a família da minha mãe, ou seja, sou mais clarinho, tendência a ser gordinho, traços mais suaves. Sou até bonito, mas não tenho esses traços fortemente masculinos. Então o que penso é que eu teria uma pré-disposição genética para ser gay, e o meu pai, querendo com seus modos grosseiros comigo tentar me tornar mais forte, acabou por aniquilar minha masculinidade, fazendo com que eu me aproximasse cada vez mais da minha mãe. Eu teria muitas e muitas outras coisas para dizer, afinal, são 22 anos de sofrimento. Mas, para concluir, quero dizer que nesse pedido de desculpas que o meu pai me fez hoje eu acredito ter percebido que ele sempre soube que sou gay. Ele me pediu desculpas num início de choro, sentindo isso como uma derrota, sentindo como se estivesse se humilhando para um gay, para o filho gay, Ele chorou porque pela primeira vez eu não fui submisso aos seus ataques, eu me mostrei magoado, e com isso ele se sentiu derrotado na sua tentativa de evitar que eu me tornasse um adulto gay. Ao mesmo tempo, pediu desculpas para não me perder, porque me ama, pois sou seu filho. Complexo, não é mesmo? Pois é nesse turbilhão de complexidades que eu levo a minha vida, triste por ter ótimos pais nos demais aspectos e órfão neste, tão crucial para o meu desenvolvimento pleno como homem. O único alento que tenho é que algumas coisas estão acontecendo e, se tudo der certo, ano que vem devo ir trabalhar no Rio de Janeiro( moro no Rio Grande do Sul ), e aí morarei sozinho e quem sabe consiga construir uma estrutura mais saudável ao meu redor, talvez com amigos que venha a conhecer, talvez até alguém para viver ao meu lado.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Marcelo,
      tudo bem?

      Uma história real bastante tocante e que deve se refletir em diversos outros lares.

      Fico até um pouco sem jeito em como cuidar desse seu desabafo já que me identifiquei bastante com a minha realidade na relação com meu pai no passado.

      Pensei em não comentar nada mas acho interessante eu apresentar meu ponto de vista, narrando um trechinho do que foi a minha realidade com um pai duro e agressivo, e poder te dizer que a situação está resolvida.

      Te admiro pela força por aguentar o contexto e preservar-se no modelo que seus pais instituíram. Por outro lado, acho realmente fundamental desligar um pouco o vínculo, seja nessa oportunidade de trabalhar distante dessa realidade ou modelo do seu núcleo familiar, seja numa outra oportunidade que você mesmo pode criar.

      Tive inúmeras crises de relacionamento com meu pai, por “n” motivos que não tangia a minha sexualidade propriamente. Meu pai teve uma educação bastante complexa somada a sua personalidade também, um tanto difícil, numa mistura de baixa auto estima, orgulho e projeção de suas próprias frustrações no filho mais velho, eu.

      Filho mais velho costuma ser mais cobrado pois os pais idealizam mais expectativas no primeiro. O primeiro filho é o “teste” da capacidade de paternidade de nossos pais. Consequentemente depositam muito orgulho e expectativa em nossa imagem. Filho único, que acredito que seja seu caso, é isso e mais um concentrado de tudo pois é o único representante de um tipo de “herança” da família, do “objeto” que vai continuar uma história. Imagino que assim as cobranças e a projeção do idealizado do seu pai sobre você foi bastante martelado durante a vida toda, mas porque também martelou a vida toda dentro dele.

      Com meu pai foi na última grande discussão que tivemos, que faz mais de um ano, que o vi sair em prantos e desespero. Foi a primeríssima vez que ele veio cheio de ataques e grosserias e eu não comprei a briga na mesma moeda. Resolvi verbalizar e questioná-lo incessantemente: “Por que você me trata dessa maneira?”, “Por que reclama das minhas escolhas em ser dono de empresa?”, “Por que está sempre reclamando da maneira que eu sou?”, “Por que reclama se eu faço academia ou se gosto de me vestir bem?”, “Pai, você gosta de mim? Eu preciso de uma resposta definitiva, de adulto para adulto”.

      Ter conseguido levar o estado de truculência da situação para esse nível de diálogo e questionamentos simplesmente “quebrou” um padrão que ele estava acostumado, e eu também. Ele, sem querer, estava esperando uma reação na mesma medida, com agressividade e foi a primeira vez que baixei minha guarda e o questionei sobre os sentimentos que tinha por mim, os sentimentos reais, de maneira racional, firme, porém equilibrada. Essa minha atitude o levou ao desespero. Saiu de cena e chorou quase feito uma criança.

      As minhas complexidades com meu pai vieram muito antes da minha própria descoberta da sexualidade, fato é que nossos desentendimentos e brigas intensos, com agressividade e estupidez de ambos os lados, existiam desde que eu era muito jovem. E sabe por que ele brigava tanto comigo, Marcelo? Sabe por que me cobrava tanto e criticava tanto e sem querer buscava reduzir a minha auto estima? Porque para meu pai foi muito difícil reconhecer que eu conseguia ser de fato boa parte das coisas que ele gostaria de ter sido, de ter conquistado. Ele não era capaz de reconhecer o orgulho que tinha de mim, atrás de um forte personagem que o conduzia para que eu fizesse as coisas do jeito que ele idealizava para mim, do jeito que o ensinaram para ser e que ficou tão fortemente enraizado em sua própria percepção de mundo. Percebendo que eu fui crescendo diferente dele (e ao mesmo tempo tão igual), pouco a pouco ele foi reconhecendo que o meu jeito dava certo mas jamais assumia. Ele “duramente” teve que reconhecer que “eu estava dando certo na vida buscando um jeito diferente de ser do que ele gostaria”. Que eu não precisaria seguir o modelo herdado – que em sua cabeça – era o único jeito de “me dar bem”.

      Por outro lado eu idealizava um pai compreensivo, amigo e muito menos autoritário. Assim, ambos criavam expectativas enormes um pelo outro… idealizar desejos pelo outro assim é um amor sem tamanho.

      Algo me diz que seu pai tem um orgulho IMENSO de você, Marcelo. E isso vai muito além das nossas questões de sexualidade. Aliás, nossas questões de sexualidade viram uma gota no oceano quando o assunto é a importância de pais para filhos e de filhos para pais. O que vocês tiveram, talvez, foi um primeiro ato de redenção. Quando pai e filho, depois de diversas “batalhas”, resolvem hastear pela primeira vez a bandeira branca de ambos os lados para começar a acabar com a guerra…

      Tranquilize-se, Marcelo, e viva um dia depois do outro. NUNCA ou JAMAIS é tarde para nos conceder novas oportunidades! :)

      Para te consolar e dar umtom menos dramático para a nossa conversa, você beijou pela primeira vez com 22 anos. Eu beijei com 23 anos. 1 a 0 para você! rs. Você teve uma crise com seu pai com 33 anos. Eu tive a última crise definitiva com 34 anos! 2 a 0 para você rs.

      Abs,
      MVG

      1. Marcelo disse:

        Prezado MVG:

        Ontem à noite, quando enviei meu comentário, estava simplesmente estourando de dor de cabeça e resolvi me recolher. Logo em seguida, ansioso por verificar se meu texto já estava publicado, acessei o blog pelo meu celular e foi grande minha surpresa ao ver que você já havia mandado uma resposta. Quero lhe deixar meu muito obrigado, do fundo do coração, pela atenção que teve comigo não só por responder imediatamente, mas também por ter compartilhado um pouco da sua experiência de vida, principalmente por se tratar desse lado tão íntimo que é nossa relação com nossos pais.

        MVG, só para deixar esclarecido, não sou filho único, porém, sou o mais velho, assim como você. Com o meu irmão, que é quatro anos mais jovem, meu pai tem um relacionamento muito melhor. Acredito que isso se deva tanto por terem personalidades e gostos mais parecidos, como pelo próprio fato de ser o caçula, o qual geralmente é mais acarinhado. No mais, tudo que você relatou fez total sentido para mim, Curioso é perceber que, por trás de toda essa crueldade que os pais cometem conosco, o que existe na verdade é um grande amor. Uma forma muito torta de amar, mas enfim, cada um é como é. Embora a cada vez que ocorre um embate com meu pai eu sinta uma dor que corrói lá no fundo, parece que a idade vai criando em nós uma couraça que amortece o impacto. A ofensa, os gritos, ferem, desestabilizam momentaneamente. Porém, já não são mais tão fatais a ponto de mexer mais ainda com a minha auto-estima nem me levar a desejos de suicídio, como era mais comum no passado. Hoje, com meus 33 anos, quando essas coisas ocorrem, simplesmente penso: “Que pena, poderia ter sido tão diferente, tão mais bonito, tão mais agradáveis as lembranças de meu pai”. Hoje, mesmo com as minhas imperfeições emocionais, um pouco de insegurança aqui, alguma timidez ali, algum grau de medo de enfrentar as situações com as quais hei de me deparar, procuro olhar a vida de frente e ter uma atitude positiva diante dela. Simplesmente porque a nossa vida é feita de fases, e o meu momento agora é de tomar as rédeas do meu destino.

        Tudo na vida tem um tempo. Há um tempo para ser criança, um tempo para concluir cada etapa escolar, um tempo para a formação da nossa personalidade e um tempo para acomodar as peças desse quebra-cabeça que se chama relacionamento com os pais. Depois de uma determinada época, tudo está sedimentado, não há mais muito espaço para mexer no que está configurado. Você também acertou em cheio ao dizer que os pais depositam muitas expectativas em nós, e, em contrapartida, nós também as depositamos neles. Assim é com os nossos relacionamentos em geral: esperamos que nossos amigos sejam amigos o tempo inteiro, esperamos que alguém com quem marcamos um compromisso chegue pontualmente, esperamos que um namorado seja bonito, carinhoso, dedicado, inteligente, e por aí vai. Mas tenho aprendido a não esperar demais das pessoas, e que ser feliz depende muito mais das minhas atitudes do que da influência que qualquer outra pessoa possa exercer na minha vida. Não lembro onde li, ou de quem ouvi, um ensinamento que é mais ou menos assim: “Nós somos a única pessoa que vai nos acompanhar do início até o fim da vida”. Então, quem melhor do que nós mesmos para saber o que nos faz bem, e que caminhos tomar para que esse bem venha a fazer parte de nós?

        Nossos pais não são perfeitos; aliás, ninguém é. Sentimo-nos culpados por não corresponder aos seus anseios por terem sido eles nossas referências na base de nossa formação. Mas é uma coisa lógica, e de certo modo até necessária, que não sejamos iguais a eles, e isso tem até uma certa beleza, porque nisso está o sentido da evolução. Somos imperfeitos, e é necessário que assim sejamos, já que é da natureza humana buscar sempre ser melhor do que já fomos. Ultrapassar barreiras sempre foi dolorido, mas sempre foi preciso para que o mundo, bem aos pouquinhos, fosse se tornando – e continua, pois é um processo contínuo – cada vez mais um lugar melhor. Assim foi quando os cientistas desafiaram a Igreja; assim foi quando iniciaram-se as grandes navegações; assim foi quando os negros, logo após o fim da escravidão, buscaram seu espaço na sociedade e deixaram a marca de sua cultura no que hoje entendemos por Brasil; e assim é hoje, quando nós gays estamos procurando encontrar nosso espaço e buscando o respeito de nossas famílias e da sociedade em geral.

        Mais uma vez, muito obrigado pelas palavras de orientação, apoio e conforto. Ainda bem que vc respondeu, fico feliz quando as pessoas retornam, seja um e-mail, uma mensagem de celular, enfim, sinto que de algum modo fui importante, fui notado, que não falei baboseira e que instiguei a pessoa do outro lado a refletir sobre o que eu disse. Estou gostando muito do seu blog, tenho lido diversos outros posts e me identificado com este espaço de aprendizado e troca de ideias entre pessoas inteligentes, as quais é muito difícil encontrar em nosso cotidiano; pelo menos eu encontro dificuldades em achá-las. Aqui, sem o superficial atrativo da beleza dos corpos ou da seleção entre classes sociais, conhecemos a alma das pessoas, o que realmente somos, o que realmente pensamos, o que realmente desejamos. Com certeza daqui pra frente acompanharei tudo que houver de novo por aqui, e procurarei dar minha contribuição sempre que possível. Ficarei também muito feliz se, através deste meio, puder conhecer pessoas e formar um círculo de amizades, mesmo que, a princípio, virtual. Um grande abraço a você MVG, e a todos que acompanham o blog!

  5. Sammy disse:

    Um post já rico que acabou sendo enriquecido com tantos comentários interessantes… Tenho 25 anos, ainda não me assumi pros meus pais e, sinceramente, não vejo a necessidade de fazer isso no momento. Também não fico pensando “vou me assumir quando… sair de casa, arranjar um namorado etc.”. Não acho que precisa ter um gatilho pra isso. A única certeza que eu tenho é que vou contar sim. Quando? Quando eu achar que chegou a hora de eles saberem.

    Durante um tempo, sofri pensando o que eles iam fazer se descobrissem… se eu ia ser expulso de casa… mas, pra falar a verdade, tenho condições de me sustentar sozinho. Outra preocupação é não ter mais o carinho deles, mas cada vez mais vejo que isso não vai acontecer. Seguindo o conselho do Paulo, tenho tentado cultivar uma boa relação com meus pais. Gestos simples como sentar junto à mesa pra conversar já fazem toda a diferença. Sempre fui um bom filho e tenho me esforçado um pouco mais no sentido de obedecer e às vezes até engolir alguns protestos porque depois, mesmo que não gostem de saber que eu sou gay, vão lembrar que, apesar disso, eu sou um bom filho e uma ótima pessoa, que é o que importa.

    Conheço um cara que foi até expulso de casa quando a mãe descobriu sobre ele por meio de um bilhete do namorado do filho. Depois a mãe se arrependeu de ter sido tão radical e ficou tão bem com isso que começou até a acompanhá-lo nas baladas gays (o que eu acho um exagero também rs). Outro cara quando se assumiu foi o maior escândalo na família e demorou 5 anos (5 anos!) para os pais finalmente aceitaram. E realmente aceitaram, tanto que acolhem o companheiro do filho como se fosse o próprio filho. Compartilhei essas duas breves histórias porque mostram que às vezes a reação dos pais pode ser bem ruim sim, mas não podemos nos desesperar por isso. Mesmo que demore um tempo, eles acabam aceitando o filho como ele é. Ou pelo menos respeitando isso.

  6. Matheus Ivin disse:

    oi tudo bem MVG entao sou gay desde aos 12 anos e nunca falei para ninguem exeto meu primo e nao sei se vou ter coragem de falar para meus pais que sou gay entao eu falo ou nao?
    me ajudem

  7. João Victor disse:

    Boa noite MVG,
    sou o joão Victor acabei de comentar neste poste sobre oq esta acontecendo comigo para ver se vc pode me ajudar, acabei de mandar um email exatamente como esta o comentário e por isso gostaria que vc não aprovasse esse comentário meu
    agradeço desde já.

    Parabéns pelo blog att,

  8. Nathan disse:

    Oi eu me identifiquei muito com a história do marcelo, eu tenho 15 anos e ainda não assumi para os meus pais, mas é como se na historia do marcelo eu me visse no passado no presente e talvez no futuro, meus pais me amam muito mas sempre deixaram claro que não aceitariam ter um filho gay principalmente o meu pai, ele sempre me deu muito carinho porem quando alguem trás o assunto a conversa ele diz que se um filho fosse gay, para ele o filho estaria morto . Como o marcelo falou aanteriormente que era carinhoso com os pais eu tambem sou assim e meus pais nunca apresentaram nenhuma desconfiança em relação a esse assunto, na verdade eu queria que eles dessem uma brecha para que eu pudesse me abrir com eles, é horrivel esconder isso . A unica pessoa da minha familia que sabe e apoia é minha prima ela me entende sabe o que eu sinto. Agora eles estão me cobrando para arrumar uma namorada, só que para vocês terem uma ideia eu nunca nem sequer dei o primeiro beijo, nem em homem nem em mulher. Bem é isso se puder queria que MVG ou marcelo respondessem gostei muito do blog.

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