Ser gay na adolescência


Dando continuidade ao post “Adolescência gay – Meu amigo é gay?! Como saber?! Estou surtando! =O” e parafraseando dezenas de casos de adolescentes gays, veio a memória meu período de 12 a 18 anos , da ingenuidade mais comum à minha geração até o deparar de frente com a minha homossexualidade, real, tangível.

Dos 12 aos 13 anos é impossível dizer que a minha homossexulidade era definida, embora soubesse que me encantasse por meninos. Mas era encantamento ainda. Transitava por minhas vontades numa punhetinha no chuveiro pensando em alguns amigos do ginásio, mas estava longe de me entender como gay. Perceber os pêlos nascendo em meu corpo, minha voz modificando e espinhas brotando em meu rosto me enchiam de timidez. Era definitivamente um adolescente tímido nessa época e os conceitos de brincar eram ainda muito mais relevantes. Nesse período, o prazer mesmo era juntar os vizinhos ou os amigos de praia para jogar Nintendo ou SNES, dar rolês de turma em mobiletes, walkmachines e minbugs, construir casa em cima de árvore, mergulhar, fazer trilhas na serra e me divertir com os episódios do Changeman. Sexo? Beijo? Não passava pela minha cabeça essa possibilidade e não era nenhuma virtude ter acesso a outros corpos. Pelo menos na minha realidade. O bacana era ver o por-do-sol na praia de Toque-Toque Pequeno e esperar o céu estrelar para as meninas espicharem suas cangas e a gente ficar viajando olhando para o universo, um cutucando o outro.

Dos 14 aos 16 anos, não lembro qual idade exatamente (e se defini em algum outro post me confundi – rs) foi a primeira vez que me senti envolvido por um menino. Ele era um ou dois anos mais novo do que eu e nos encontrávamos em feriados, fins de semana ou férias na mesma praia de TTP. Adorávamos brincar de cartas e ficar caminhando pelo condomínio conversando. O sentimento de estar ao seu lado me dava prazer, não propriamente o sexual, mas um tipo de paz e aconchego pela companhia. Certa vez, num fim de semana frio e com garoa, resolvemos cortar o caminho por uma trilha, em uma de nossas muitas andanças para encontrar gravetos e madeira para a fogueira que acendíamos todas as noites. Terra cheia de lama e mato molhado, o amigo escorrega em minha direção e me abraça. Pude sentir seu rosto encostando no meu e a maciez da sua blusa de moletom. Ficamos cara a cara, olho no olho, ele com um sorriso meio tímido e eu achando mais engraçado. Veio à tona um sentimento bom, daqueles que a gente tem quando se está apaixonado e é correspondido. Difícil descrever com precisão, mas é como se fosse a sensação de uma brisa fria em dias quentes de verão (como sentimos nas últimas semanas em São Paulo ao entardecer ou durante a noite), ou o contemplar do por-do-sol na areia, à beira da praia.

Paixão? Não tenho dúvidas, mas regada de afeto e carinho, e sem ainda dar nome a minha sexualidade.

Dos 17 ao 19 anos o mundo e a minha identidade passavam a ser reais e palpáveis. Até então, viver e sonhar caminhavam juntos, num tipo de mistura jovem, da falta de compromissos e responsabilidades de quem estava passando entre o ginásio e o colegial. A vida naquela época era fácil e dava para criar muito tempo. Quando se entra na faculdade, pelo menos no meu tempo de 1996, as pessoas, as ruas, os movimentos, os sons e os relacionamentos parecem começar a ficar reais: passamos a ver o mundo. Uma atmosfera de “Peixe Grande” foi dando espaço para uma vida mais próxima do “American Pie” rs. Pelo menos, como espectador dos meus amigos heterossexuais que chegaram a transar com as minas na lavanderia da casa, a sensação era essa rs.

Foi uma fase das descobertas. Principalmente das descobertas do mundo e dos nomes que se dão para as coisas. Conceitos, valores, preconceito, diversidade, universidade. Tudo isso junto, num turbilhão de deveres e um senso de responsabilidade que crescia. Descobria a maconha, o prazer pela cerveja, lança perfume, viagens repletas de ressaca moral e física. Descobria assim o início da vida adulta e, consequentemente, uma necessidade geral das pessoas atestarem sua sexualidade.

Do mundo do sonho da adolescência até os 17 anos, da vida de um gay que não tinha compromisso nenhum com a própria sexualidade, a partir dos 17 anos me via pressionado pela sociedade da faculdade que estava justamente exteriorizando e firmando a própria sexualidade. Os caras gostavam de transar. As minas gostavam de beijar e, sexo, não eram sutilezas da vida, mas temas para festas, cervejadas, Juca e Economíadas. Via a minha própria sexualidade querendo gritar. E quanto mais ela me pressionava para fora, maior era o medo do mundo pressionar para dentro.

Resisti com firmeza e lembro de dois ou três casos de “papos estranhos” de alguns meninos que chegavam a mim na balada da ESPM. Estava na cara que eram gays. Mas eu, na época, não era gay, não era nada. Preferia ser fortemente assexuado. Lembro das meninas, meio amigas, meio interessadas, chegando bêbadas para um abraço mais caloroso no meio da festa. Mas eu, na época, não era heterossexual, não era nada. Preferia ser fortemente assexuado!

Não me sentia nada a vontade de tirar a homossexualidade de dentro de mim naquela época. Não entendia direito e acreditava totalmente que a sociedade da ESPM jamais entenderia aquela possibilidade. O adolescente sonhador, que vivia mais a fantasia que a realidade, em dois anos teve que trazer para o real aquilo que era apenas uma probabilidade sem compromissos. E quando trouxe, fora dos padrões, tentou enforca-lo e amarra-lo do lado de dentro. Achava feio, estranho, esquisito! Achava que aquilo que morava dentro de mim poderia me descaracterizar, que poderia virar uma “mulherzinha” e fugir do meu controle.

Controle. Até hoje tendo a ser mais racional e controlado. Características importantes para quem assumiu há 12 anos a própria empresa e que por “coincidência” assumiu no mesmo tempo a homossexualidade. E me peguei tantos anos nesse controle que virou mania. Só nos últimos dois anos que aprendi a jogar luz à minha intuição. A combinação hoje é boa, mais próxima da minha totalidade.

Não virei flor e não sou mais concreto. Busco viver a vida, talvez, como a brisa fria em dias quentes de verão.

9 comentários Adicione o seu

  1. Sammy disse:

    Lendo esse texto, comecei a ter uns ‘insights’… Agora que comecei a me assumir, sempre vem aquela pergunta: desde quando você sabe? Saber, acho que bem lá no fundo a gente sabe desde sempre, mas eu nunca sequer pensava se eu era gay. Nem pro sim, nem pro não. Desde a adolescência (ou pensando bem, talvez até desde a infância…) sabia da minha atração por homens, mas era só uma atração, pra mim não queria dizer muita coisa. Mesmo na faculdade, lembro de dois caras que chegaram em mim (um mais direto, o outro mais sutil), mas na época, eu não era gay. Também não era exatamente um modelo de heterossexual. Usando as suas palavras, “preferia ser fortemente assexuado”. Vendo alguns relatos de gente que fica encanado com a sexualidade desde o começo da adolescência, agora estou começando a entender por que sempre fui tão tranquilo quanto à minha sexualidade: porque ela não existia.

  2. Luis disse:

    Que post bonito hein?! Não posso deixar de dizer que me emocionei com ele. Eu não sei se estou ainda na fase da adolescência ou no final dela, que seja. Quando eu tinha meus 7 anos mais ou menos, já sabia que eu era diferente, sempre convivi muito com primos heterossexuais e “pegadores”, ou seja, hora ou outra havia piadas de gays, foi quando comecei a entender o que eram as palavras gay, “bicha”, “viadinho”, e consequentemente a descobrir de maneira sucinta a diferença entre eu e eles. Na fase dos 12 anos até os meus 17 anos, negava-me fortemente, dizia que como eu não conseguia sentir atração sexual por mulheres, não ficaria nem com mulheres e nem com homens, foi uma fase estranha, de longas horas por dia pensando sobre o que fazer, meus amigos me questionando sobre namoradas, ficantes… e eu dizia que me importava apenas com os estudos! Bobagem, eu procurava gays nos intervalos da escola, pelo menos só para olha-los, observar o comportamento deles, me masturbava pensando em amigos, colegas, ou o rapaz da novela… Foi uma época conturbada internamente, não gostava de tocar no assunto, não queria saber sobre as experiências dos meus amigos. Olhando hoje para esse passado não tão distante, vejo como as coisas mudam, como existe tempo certo para tudo! Foram épocas estranhas, mas essenciais para quem eu realmente sou hoje rs.

  3. joe disse:

    Nossa trajetória tem muitos elementos parecidos, nao? Mesma cultura/etnia, mesma ESPM, mesmo ano e nesse periodo sentimentos muito parecidos. Ainda bem que despertamos =D

    1. minhavidagay disse:

      Oi querido Joe!
      Que bom mesmo que despertamos e continuamos a despertar para novas realidades sempre! :)
      Benvindo ao Blog MVG! :D

  4. PMAS disse:

    Estava dando uma passadinha aqui novamente e vi este post, a continuação do post q me trouxe aqui, tenho minhas duvidas ainda, pq cmo eu ds eu estou apaixonado por um menino (q ja sei q é hetero) + tmb ja tive meus interesses por meninas, cmo minha propria prima, q foi a 1a pessoa q amei d verdade, mas nunca consegui namorar c ela. Mes q vem eu faco 14 anos, semana trazada meu namorado terminou cmg, foi qndo descobri q ele tinha outro namorado, fiquei mto mal, so tv 2 relacoes serias ate hj, e tds duas com um garoto e sempre mais velhos q eu. Agora estou me semtindo um pouco mais livre, pq fazia isso escondido e hj a maioria dos meus colegas ja sabem q sou bi. Acojteceu da seguinte forma, minha colega tinha a senha do meu face, e n deletei a conversa c meu namo, e 1 dia dps dele teinar cmg, q foi pela net, ela entrou em meu face e leu tds as minhas mensagens com ele..
    Ela descobriu tud, ai fomos conversar sobre isso na aula e alguns amigos meus quizeram saber o q era.
    Hj em meu ask, apareceu uma pergunta assim: vc está louquinho para transar com o ****, n é? Ele é um dos meus melhores amigos…
    Preferi n responder, pq minha familia n aceita isso!!! Espero + conselhos cmo esse, sobre a homossexualidade na adolescencia…

  5. Bruno disse:

    Olha, eu gostei muito do seu post e acho q vc escreve muito bem ^^, eu ainda tenho 17 anos e tudo oque vc escreveu eu me identifico, acho dificil ainda, mas sei q sou gay desde criança ^^.
    Me aceitar nunca foi dificil, mas me assuimir para os outors é.Tenho amigos homens q sabem, e isso torna tudo muito mais facil.

    Comecei a ler o “Minha Vida Gay” a pouco tempo, mas acho muito bom viu ^^

  6. edgar disse:

    Me identiquei com tudo… Aceitar que sou gay é facil, dificil é assumir perante a sóciedade. Se eu estivese no brasil assumiria.

  7. Carlos Rodrigues disse:

    Ver você (aos seus 36 anos) comentando uma passagem de sua vida (adolescência) meche bastante com meu lado mais sentimental.
    Envelhecer pra mim, se torna sinônimo de lembranças…. E lembranças, sendo elas boas ou más, nos fazem olhar o nosso passado, sendo que, olhar o passado me deixa um pouco triste…

    Quem sou eu para comentar sobre minha adolescência gay, um adolescente de 16 anos que acaba de se assumir para os amigos que conviveram com ele por mais de 10 anos?

    Apesar da maioria dos homossexuais afirmarem que: “Eu sempre soube” “Eu sempre senti atração por meninos”, eu me torno um caso a parte. Eu nunca soube que eu era homossexual, talvez isso acontecesse pelo fato de eu não me importar com isso durante a minha infância. Nunca olhei diferente para meninas e nem meninos, eu apenas estava preocupado em brincar na rua, agradar a minha mãe tirando notas boas etc… Em fim, apenas viver uma infância sem preocupação.
    Essa “não preocupação” se tornou tão verdade, que assim que descobri uma forma de me satisfazer sozinho (deu pra entender né?), apenas seguia o rótulo da sociedade : “Homem e Mulher”. Sim… Eu me imaginava com outras garotas e até achava bom…
    Posso dizer que minha homossexualidade começou ou que eu descobri minha homossexualidade por um simples ato de curiosidade: Aos meus 12 anos, por curiosidade, decidi ver um vídeo homossexual. E, por incrível que pareça, eu só descobri que existiam homossexuais através desse vídeo… Homossexualidade pra mim, nunca havia existido e eu fazia parte deste “novo mundo”.
    E ver vídeos assim, se tornou uma “rotina”, já não via mais vídeos héteros e apenas homos. Até que um dia, meio que caiu a ficha: Eu também sou homossexual.
    Foi tudo muito confuso… Eu não tinha nenhuma informação sobre este “mundo” desconhecido.
    Então…. Eu “viví” mais um período de infância em minha vida…. Deixei essa realidade lado por apenas 2 anos… Nos meus 13 anos eu decidi esquecer isso e deixar pra depois.
    Até que… Aos meus 15 anos… Eu comecei a viver a minha primeira grande paixão… E o problema, era que durante esses (mais ou menos) 2 anos, as informações que passaram para mim, eram:
    – Homossexualidade é pecado… É errado…
    E toda a pressão ficou nas minhas costas… Claro que durante os 2 anos eu tinha vivido um período de depressão… Mas a depressão ficou ainda maior quando eu me apaixonei, pois aí sim, eu já tinha certeza de que eu era Homossexual…
    Até, em Novembro de 2012… Eu conheci o MVG. Não sei, mas para mim, foi a luz no fim do túnel…
    Hoje eu sou assumido para a maioria das pessoas da sala…. Eu fui bem aceito sabe? Eu convivi com a mesma turma por mais de 13 anos! (Estou na mesma escola por 13 anos… Entrei lá no maternalzinho!)
    Acredito que todos esses anos de convivência com essa turma, “facilitou” a aceitação dos mesmos quanto aos meus gostos… Claro que saíram vários conhecidos e entraram vários novatos… Os novatos, aos poucos, vão sabendo sobre mim….
    Talvez você pergunte: E a paixão, ainda existe?
    – Foi só uma paixão platônica que durou por 1 ano e alguns meses… Ainda estudo com ele, mas agora só resta um pequeno desejo…
    Atualmente estou mais preocupado em como será minha vida gay daqui para a frente. Estou a procura de uma grande amizade gay… Preciso de um pequeno exemplar dessa vida, pois ainda existem muitas dúvidas que só serão tiradas se forem convividas aqui fora…
    Como eu disse… Estou preocupado com o meu futuro…

    Bom… Esse meu relato acaba aqui.
    Sou apenas um garoto de 16 anos (que irá completar 17 brevemente), que se assumiu para a turma que convive a bastante tempo, que está em busca de referenciais e que está com um futuro incerto… Pelo menos ainda…

    Vlws por ler até aqui!
    Abraços!

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