Blog MVG – Teoria do Big Bangay

Em quase um ano e meio de Blog Minha Vida Gay ando próximo da intimidade de usuários que correspondem por aqui e por e-mail. Reunindo essas histórias de vivências gays com as minhas durante 12 anos me entendo como homossexual, existe um ponto em comum que acredito que não seja uma regra absoluta pois essa não existe, mas que é bastante recorrente para os gays que estão começando a se assumir e a ter contato com outros gays ou com o meio.

A “Teoria do Big Bangay” diz respeito as fases das vidas não vividas pelo gay por reprimir a sexualidade, os desejos potencializados, a carência existente que fica latente por passar anos sem contato mais aberto com o outro semelhante e as emoções contidas por todo esse tempo.

Esse tempo equivale ao período que cada gay reprime sua própria sexualidade. Imagine então que há gays com 17 anos, 24, 35 ou 42 anos que vão entender, assimilar e se encorajar a ter um contato mais real e próximo com um outro gay ou com o meio nessas idades e em outras também, cada um no seu momento. Até a fase de interação com o outro ou com o meio de maneira mais palpável, o indivíduo, gay, reprimiu sentimentos e concentrou uma energia de vida que fica fortemente potencializada.

Nesse período de “incubação”, cujo o tempo varia de indivíduo para indivíduo, o gay deixa de viver etapas da própria natureza. Só que as etapas não vividas ficam potencializadas dentro de cada um, é um tipo de acúmulo de vontades e uma sensação de estar atrasado, de dificuldade ou enfraquecido por isso, sensação de ser menos e uma ansiedade muito grande – e na maiora das vezes inconsciente – de “tirar o atraso”.

Assim, tal qual a Teoria do Big Bang, o indivíduo gay que está prestes a encarar sua realidade e disposto a viver experiências gays, é um concentrado em si de energia, idealizações, carências, vontades e desejos. Nesse processo do Big Bangay a grande explosão ocorre quando o indivíduo alcança a referência que mais se identifica, com o meio ou com um outro indivíduo.

Primeiro exemplo: gays que estão se assumindo e potencializam o desejo de namorar com outro gay (como foi o meu caso no começo da minha história de aceitação) ao primeiro sinal de afinidades com um outro semelhante, seja um aspecto de atração física ou algum hábito em comum, se percebem apaixonados em dias pelo outro, entram num tipo de compulsão de querer saber da pessoa a toda hora, projetam fantasias com a outra pessoa, ficam atentos para ver se a pessoa liga, manda sms ou deixa algum post no Facebook e passam a idealizar rapidamente o semelhante, como se fosse a “salvação” para arrebatar esses sentimentos quase incontroláveis da noite para o dia. Bom quando tamanha energia tem correspondência numa medida parecida. Mais frustrante pode ser, quando não correspondido.

Segundo exemplo: gays que estão se assumindo canalizam muito do reprimido e do não vivido no sexo.

Como se transar fosse a garantia de recuperar o tempo perdido, como se o sexo fosse a libertação de um tipo de “prisão” que nós mesmos nos provocamos. Tornamo-nos, então, compulsivos do sexo e só focamos nisso. Descobrimos as saunas, o Autorama, os michês, a facilidade que é encontrar um semelhante na balada numa mesma frequência de “libertação” e partimos para vivências, das mais comuns as mais exóticas em quatro paredes.

Terceiro exemplo: gays que descobrem a Internet como o meio mais próximo de liberar os desejos. Por um lado, a Web tem facilitado e muito o acesso à informações sobre a homossexualidade e a relação com a sociedade. Porém, pelo próprio conceito da Internet que oferece informação ampla e diversa, de conteúdo de qualidade e muitas vezes de qualidade totalmente duvidosa, encontramos muitíssimos sites voltados a temas sexuais e pornográficos (quase como um complemento do segundo exemplo). Nos sentimos tão necessitados e entusiasmados com o acesso as fantasias virtuais sexuais, que contribuimos sem muita consciência em nos tornar mais um “prato” do vasto “cardápio” que são os sites de relacionamento, por exemplo. Os famosos camarões são referências óbvias desse processo. Mas qualquer um que participa, mesmo mostrando o rosto ou uma campanha menos sexual, no momento que participa todas as semanas desses cardápios está “despejando” sua compulsão nesses meios.

Esses são três exemplos mais comuns que ilustram meu pensamento sobre a “Teoria do Big Bangay”, quando homens de todas as idades estão vivendo seus processos de superação do reprimido.

Acontece, porém, que o os desejos reprimidos são tão profundos que, quando explodem, vem a compulsão e o vício pelo que foi sempre tão desejado. Como se, se deixássemos de praticar, tivéssemos que conviver novamente com os horrores e a dores de antes, quando reprimido.

O Big Bangay deveria ser apenas a primeira grande explosão e não se tornar um modelo viciado. Quantos não são os gays que usam com o orgulho o termo “viver intensamente” para justificar? Mas no meu ponto de vista, a fundo, a compulsão que se estabelece depois da “grande explosão” não deixa de ser a nossa própria dificuldade de nos aceitarmos de maneira mais plena, com mais “normalidade”.

O Big Bangay parece ser libertário mas não quer dizer que não exista um chão pela frente para nos livrar de nossos próprios preconceitos e medos. Não existe um refúgio real do lado de fora. A estrutura que nos assegura se constrói dentro da gente.

O quanto vamos ainda justificar nossa “intensidade” pelo fato de termos sido tão reprimidos? O dignamente humano é resolver e não consolar.

4 comentários Adicione o seu

  1. Gustavo Sammy disse:

    Excelente reflexão!

  2. Wicked disse:

    Gostei da sua teoria

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Wicked! :)

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