Relato gay – Um gay que assumiu a vida heterossexual

No post anterior, o “Fernando” deixou um relato comovente e apresenta a sua realidade, de ter optado por viver uma vida heterossexual, casar com uma mulher, ter filhos e suprimir sua homossexualidade. Quantos homens gays não resolvem seguir por esse caminho para não ter que enfrentar a realidade social, a tradição da família e o forte sentimento de rejeição daqueles que são mais importantes? Quantos não optam por esse caminho por não ter a coragem dessa busca de autonomia?

Vivemos nossa vida gay, na maior parte do nosso tempo, com tanta libertinagem ou, pelo oposto, nos punindo e nos reprimindo categoricamente. Esquecemos que, sejamos gays assumidos ou gays enrustidos, temos também um tipo de dever e responsabilidade de apresentar uma identidade homossexual mais íntegra perante a sociedade. Se viciamos no meio gay ou GLS, se respiramos somente os “guetos”, temos uma tendência de pactuar com os esteriótipos e os modelos. Se estamos acuados, escondidos em nossa “casca” também não contribuímos em nada frente a sociedade pois somos até omissos a nós mesmos. O relato gay do leitor “Fernando” leva a essa reflexão. A reflexão de que, muitas vezes e como já lancei em outros textos, não adianta apontarmos o dedo para a sociedade se nós mesmos sucumbimos nos próprios padrões do meio ou repreendemos demasiadamente essa nossa realidade.

Por um lado, o Fernando submeteu-se a forte pressão do seu grupo famíliar, do repúdio e das ameaças de rejeição. Outros gays submentem-se aos próprios medos e não assumem nem uma vida heterossexual, nem uma vida homossexual. Reprimem sob todas as formas. E por fim, e o que na maioria das vezes não enxergamos, é que aqueles que se entregam ao meio podem facilmente se submeter aos modelos esteriotipados, aos vícios comportamentais e a permissividade que, inclusive, colabora para a alienação e o preconceito social em relação ao que somos. No final, são três “exemplos clássicos” que, ao que me parece, estão rendidos e não contribuem de maneira efetiva para as mudanças para a “normalidade” que tanto esperamos.

Acredito cada vez menos em grandes movimentos sociais e passeatas. Admiro demais, por exemplo, Harvey Milk, mas não acredito mais no modelo de protesto. O processo de conscientização, de luta pela igualdade, se posso dizer “luta”, deve partir de cada indivíduo perante a cada “pessoa importante”, pais, tios, primos e mais moderadamente os amigos, que costumam a aceitar com mais naturalidade porque a “pimenta não arde nos olhos”. Deixem esses amigos terem filhos e, por ventura, os filhos serem gays… a história de aceitação pode ser bem diferente!

Ler esse tipo de texto no MVG é a possibilidade de lembrar que a busca pela identidade brasileira tem dessas coisas. No dia a dia estamos tão ocupados com nossas dores ou alegrias, nossos objetivos profissionais e materiais, nossas vontades de auto afirmação e auto estima, e nosso tesão que não lembramos que, um incidente de agressividade homofóbica na Paulista é também de nossa responsabilidade. Esquecemos que, se nossos pais não entendem bem o teor da homossexualidade é parte de “culpa” deles por não buscarem informação ampliada sobre um assunto que teoricamente repele, mas obviamente está estampado todos os dias. Mas, no meu ponto de vista, é muita responsabilidade nossa, do gay, apresentar essa história de maneira autêntica, ampla e longe dos esteriótipos.

Somos muito mais do que gays mas normalmente nos condicionamos a muito disso. Como esperar a benevolência alheia perante a nossa homossexualidade se, ou nos contemos demais por sermos gays, ou nos tornamos excessivamente rendidos aos hábitos do meio por sermos gays, ou assumimos uma sexualidade que nem é nossa justamente por sermos gays?

O enfrentamento, de maneira consciente e coerente, é necessário. Que seja em conta gotas, mas que seja.

O Relato de Fernando é um tipo de recomendação. Recomendação para que fiquemos atentos e busquemos pela nossa plenitude independentemente se somos enrustidos, avessos a nossa própria sexualidade, assumidos, adoradores do meio ou “heterossexuais”. Viver de parcialidade – para qualquer que seja nosso estado gay hoje – é uma escolha dentre diversas escolhas que o ser humano opta durante a vida. Mas o que você quer pra você daqui pra frente?

Relato de Fernando:

QUEM SABE UM DIA! (eu possa também me encontrar…)

Nestes últimos dias venho pensando muito sobre minha vida. Como as nossas decisões do passado influenciam o nosso futuro; sempre incerto. Por esse motivo, decidi expor um pouco da minha dor condicionada por minhas próprias escolhas, afim poder ajudar pelo menos uma pessoa no mundo, assim tornar minha válida e um dia dizer: “acho que valeu a pena”.

Venho de uma família cristã e muito puritana, seus preconceitos e ideais vem de uma criação reservada à submissão da igreja. De forma alguma os culpo e muito menos os julgo, ainda mais por estarem feliz assim. A questão é que haviam duvidas em minha vida, as quais eles não poderiam me ajudar. Com isso a solidão foi se tornando minha companheira e conselheira. Nessa altura eu já completava 17 anos, muito jovem e muito imaturo e esta situação (solidão), se tornou insustentável. Não era possível ser o único no mundo; garoto que pensa em garotos, que quando sonha em um amor para sempre, vem a imagem de outro homem. Tinha me esforçado muito para mudar esses sentimentos, já havia namorado garotas, mas sempre sentindo vontade de beijar o meu melhor amigo, e acredite, em vários momentos ele parecia querer o mesmo. Só que aquela voz condenatória sempre repreendendo, isto é errado, você não pode gostar de meninos… Foi neste ponto que tudo começou.

Conheci uma moça, com gestos rudes e grosseiros, mas seu coração era bom e muito compreensiva, tornava-se ali uma amiga e confidente, contei-lhe meus segredos abomináveis. Confesso que no início fique chateado, ela riu de mim. Terminou suas gargalhadas dizendo: “Porque você acha que tentei me aproximar de ti, somos iguais, eu também sou gay…” Neste momento eu chorei muito e pedi para que ela me ajudasse, eu realmente não sabia o que fazer, era um novo mundo. Naquele ano conheci muitos rapazes como eu, fomos a muitos clubs e pubs, mas era ainda tudo muito artificial, parecia que aquelas pessoas esperavam o fim do mundo e assim não podiam peder tempo; sexo, drogas e paixões momentâneas, era tudo o que eu tinha na minha frente, mas não era aquilo que eu esperava. Sonhava com o príncipe encantado, e eu encontrei alguns nesses caminhos, mas eu não podia encarar que aquilo iria fazer minha família infeliz.

Dias e meses se passaram, terminei meus estudos e era hora de ir para universidade. Fui aprovado em uma das melhores e estava de mudança. Nova vida, mais liberdade e talvez a chance de conhecer o verdadeiro amor, eu já estava conformado com condição de viver uma vida dupla, mas não imaginava o quanto isso iria ser difícil. Na verdade as coisas não eram tão simples como eu imaginava que iriam ser, estudar e trabalhar me tomavam muito tempo, e nas horas livres, eu estava cansado. Voltava a ter a solidão como a única companhia embora morava em um condomínio de estudantes, não tinha conseguido fazer amigos, todos aparentemente eram normais.

Acredito que era o dia mais triste que eu estava passando, muitos estudantes estavam indo para casa passar a férias de inverno e os apartamentos ficavam silenciosos, eu não podia ir o dinheiro da viagem iria fazer falta e minha família não podia me ajudar. Então, fui comemorar sozinho sabe-se lá o que, mas mesmo assim sentei na porta da minha Kit Net com um litro de vinho e quando estava já pela metade e meio alto pelo álcool, nunca tive o costume de beber, uma voz com o tom de ternura falou comigo, até hoje não sei o que ele disse, me lembro apenas de termos conversado amenidades por toda a noite, ali mesmo sentados no chão e foi muito agradável. No dia seguinte nos encontramos novamente, a conversar a partir dali começou a ficar mais pessoal, ele me contou do drama que estava passando, sua namorada estava grávida e talvez tivesse que deixar os estudos. Foi quando veio sua proposta de dividirmos as despesas. Aceitei, eu precisava economizar!

Nossa amizade começou a se estreitar a cada dia mais a ponto de ficarmos íntimos. Acredito que errei muito com isso. Meus sentimentos fraternos por ele se transformou em uma grande paixão. Tinha certeza que eu iria me machucar, ele acabava de ser pai e estava muito contente. Bebemos muito, foi quando ele tocou meu rosto e perguntou o que estava acontecendo, eu realmente naquele momento não sabia o que dizer, somente fechei os olhos e ele tocou outra parte em mim, o meu coração… Ele beijou de forma suave e doce, sussurrando em meu ouvido que me amava tanto que até doía, então nos entregamos, era a primeira vez que eu fazia amor realmente, foi lindo, só que foi o início do fim. Eu já não conseguia esconder nosso amor, as pessoas começaram a notar algo diferente em nossa relação. Até que um dia meus pais vieram nos visitar, e minha mãe gostou tanto dele que chegou a dizer que havia ganhado mais um filho. Como fui tolo, por um momento achei que eu poderia confessar a ela qual era a nossa verdadeira relação, que não éramos irmãos e sim um casal feliz e cheio de planos para o futuro. Naquele momento me arrancaram de lá e me levaram embora. Nunca quiseram me entender, sequer queriam ouvir como eu me sentia. Bem ao contrário, aquela famosa frase que os pais dizem quando descobrem: “Prefiria vê-lo morto…” não, eu não ouvi isso e sim “Prefiro estar morta, do que ter um filho bicha”, isso ainda me fere muito. Eu a amo tanto, jamais conseguiria deixa-la morrer de desgosto.

O tempo foi passando e nunca mais pude vê-lo, a saudade aumentava tanto quanto a minha tristeza. Ainda assim eu tinha que continuar vivendo e deixar minha mãe novamente orgulhosa de mim, como era antes. Decidi então, tentar levar uma vida como ela acredita ser a correta, me casei. Tenho uma filha linda e adoro minha companheira, mas é isso que ela é, minha companheira, não o grande amor da minha vida. Agora sei que estou condicionado a esta vida, muita gente já sofreu por eu ser gay. Não tenho alternativa, agora tenho mais duas pessoas que não podem sofrer por minha causa. Também não estou tentando me tornar um mártir, só não suporto ver quem eu amo infeliz, mesmo que isto custou a minha felicidade.

Com isso, o que posso fazer é relatar minha vida, para que você gay como eu nunca se esqueça. As escolhas que você faz hoje vão sim refletir no futuro. Não banalizem o sexo, deixem ele ser o complemento do amor, tente sempre ser o melhor gay que seja possível, para que as pessoas não nos julguem como abominações e que vejam que somos normais. Quero que os casais , Carlos e Rosa, Ana e Sandra e Eduardo e Roberto, sejam sempre tratados da mesma forma e em qualquer circunstancia.

E, QUEM SABE UM DIA, não exista mais histórias como a minha…

Obrigado!

5 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Sad disse:

    A primeira coisa que devo fazer aqui é agradecer profundamente. Pela primeira vez sinto-me realmente compreendido e sei também que muitos passaram por situações semelhantes a minha.
    O que fazer agora? Muitos devem perguntar isso. Creio que reformularmos nossos princípios e ideais seria os ponto inicial, em seguida descobrir qual será nosso verdadeiro objetivo. Sabe amigos, sinceramente espero que as pessoas deixem de ser rotuladas e apontadas por serem gays, que um dia um pai abrace seu filho para confortá-lo por que seu namorado o deixou, que uma mãe ajude sua filha a encontrar um presente especial para sua namorada… Acredito de verdade que isso é possível, que isso se torne realidade e que relatos como o meu se tornem coisas do passado.
    Sei que muita coisa já mudou, mas será que estamos no caminho certo? Será que não devemos agora mostrar que não somos nada diferente de ninguém, temos sonhos e queremos buscar o nosso lugar ao sol. Vamos mostrar que somos competentes no que fazemos, somos responsáveis pelos nossos atos e principalmente não somos sub-humanos e ao contrário disso também temos nossos valores. Vamos transformar a homossexualidade em algo apenas como a particularidade de algumas pessoas, assim como os que gostam de comida japonesa ou musica clássica.
    Bem, acho que é isso…
    Só não se esqueçam de buscar serem sempre pessoas boas, que amem e mostre que vale a pena serem amados, assim do jeitinho que cada um é!
    Um grande abraço a todos.

  2. Marcos disse:

    Fernando,sua história realmente tocou o coração de muita gente,um relato emocionante.Concordo plenamente com você,são poucas as pessoas que compreendem nossa opção,mas muitos do meio não se ajudam,preferem STATUS e baladas,quando na verdade há muito o que se preocupar em nossa volta.
    Por isso,parabenizo o site e também você Fernando,pela coragem e por termos a oportunidade de nos ajudarmos através de nossos relatos,pois muita gente ignora e prefere curtir os esterótipos.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Marcos,
      completo seu coomentário: não damos conta, mas tendenciamos a viver os extremos. Quem se enruste guarda bem escondido, reprime. Quem se assume tem uma tendência a viver padrões e assim deixar se rotular.

      A sociedade, em si, já é cega pois é uma “massa” que segue sem consciência. Imagine para ela enxergar todas essas nuances quando a barreira é o próprio preconceito?

      O MVG tenta também, modestamente, ser essa luz de encontro entre as partes, entre a própria diversidade dentro da diversidade gay. Não somos melhores nem piores por nos encontrar nas condições que nos colocamos.

      Abs,
      MVG

    2. Fernando Sad disse:

      Valeu Marcos,

      Realmente espero que as pessoas compreendam não só o que aconteceu comigo, mas também que isso acontece com outros e são obrigados a tomarem decisões contrárias a seus sentimentos. O pior é que em alguns casos, até de forma trágica. Temos que trabalhar a sociedade neste intuito; não há nada de errado conosco, não há nada para mudar. Só não concordo que tenhamos que radicalizar e muito menos escandalizar para mostrar quem somos, acredite hoje eu vejo que existe outras formas de garantir que nossos direitos e nossas escolhas sejam assegurados.

      Um grande abraço pra ti

  3. Lucas disse:

    Parabéns pela sensibilidade no qual relata sua historia, e também pela bondade que habita em seu coração. Emocionante.

    Obrigado.

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