Vida Gay – Reunião entre amigos

Vida gay – Um pouco mais sobre ir além

A primeira lição que retomei foi a seguinte: nos últimos dois anos e meio, senão três, revi muitos valores ao dar de frente com a minha realidade de vida. Primeiramente, e certamente o mais importante, foi chegar num estado de paz ou trégua com meu pai. Como comentei em outros posts, nossa relação sempre foi turbulenta, para além das questões da minha homossexualidade. Para isso foi necessário esforço. Não foi algo natural, leve ou tranquilo pois exigiu bastante racionalidade, psicologia e respeito ao tempo. Poder enxerga-lo com amor e fazer brotar esse amor foram fatos importantes em minha vida, agora com 35 anos, gay e dono de empresa.

Falando em empresa, nos últimos dois anos e meio olhei para dentro de novo e vi que algumas mudanças eram fundamentais para que esta, fonte de conhecimento, relacionamentos e parcerias profissionais, experiência e capital continuasse a evoluir com mais independência de mim. Para isso, tive que pegar firme (muito firme), rever valores, remodelar relacionamentos há anos viciados e trazer a três dos meus “seguidores” a possibilidade de sociedade. Uma delas não aguentou as transformações e seguiu seu caminho. Dois deles passaram a ser sócios e hoje nos encaramos de maneira bem diferente.

E por fim e não menos importante, sair do aluguel vivido durante sete anos para a casa própria me deixou bastante recolhido, curtindo esse “prêmio” que veio em boa hora para sediar tantas mudanças.

Paralelamente a tudo isso, tenho um namoro que logo completará 3 anos e uma imensa devoção para com meu namorado e seus “singelos” 60 parentes, entre tios e primos, todos sabendo de sua realidade homossexual pela materialização de “euzinho”, seu namorado, nesse período.

Já contei que chegou um momento importante na minha vida que me despeço dessa fase que termina, retomo alguns velhos hábitos e descanso para um novo ciclo que deve começar em breve.

Para falar a verdade meu ano de 2012 já acabou. Tenho só ponderado um pouco aqui e ali – o que inclui o Blog MVG – mas confesso não estar depositando nenhuma grande energia nessas frentes, numa necessidade absoluta de descanso de mente. E a vida, graças a muita labuta, sorte e fé está me permitindo seguir dessa maneira, com essa autonomia.

Assim, além de alguns reencontros e encontros que se realizaram nos últimos meses e há de se realizar de hoje para o final do ano, fiz uma importante viagem para uma prainha de acesso somente por barco ou trilha, no sul do Rio de Janeiro, praticamente divisa com São Paulo. Prainha chamada Ponta Negra, que considero um dos meus “retiros de contemplação”.

Quase como uma continuação do post anterior, reunimos eu, meu namorado, um casal de amigas lésbicas e o Ding, amigo com mais de 40 anos. Enforquei minha quinta e peguei estrada de madrugada. A boa sensação começou com o amanhecer de céu azul na estrada.

A primeira surpresa que tive: foi a primeríssima vez, em quase três anos de namoro, que meu namorado fez uma viagem comigo e com meus amigos! Da parte dele, entre amigos e parentes, o número de viagens são realmente incontáveis! Nos demos conta disso ontem, quando voltávamos da viagem.

A primeira e fundamental reflexão nessa fase de vida foi essa: “As responsabilidades e o estilo de vida urbana nos colocam à disposição do tempo. Tem lugares e situações que colocam o tempo a nossa disposição. É sempre bom lembrar dessa possibilidade”.

Assim, com esse pensamento brotando em minha mente nos dias que passei em Ponta Negra – claro que levaria a filosofia comigo na bagagem – faz tempo que não estava tão felizmente só, mas tão bem acompanhado. Com o tempo em minhas mãos, meu namorado querido, o Ding – “chefe dos escoteiros”, minha amiga Ela (do Blog “Que Gay Sou Eu”) e sua namorada.

A praia era nossa e dos moradores locais. A trilha era nossa, a cachoeira era nossa e esse tal de tempo estava totalmente rendido, sob o nosso controle.

Ding, o “capitão”, é gay mas foi muito mais naqueles dias. Vai para Ponta Negra há 16 anos, o que deixa minhas três idas com cheiro de amadorismo! Conhece cada morador, cada trecho da trilha e sabe dos detalhes de cada praia, morro ou curva. Talvez, por ser mais velho, é o que sempre acaba tendo mais restrições para algumas escolhas, ou melhor dizendo, as escolhas principais normalmente são sempre as dele! Talvez, por ser canceriano, quando quer alguma coisa e recebe um “não” ou um “talvez” costuma fazer “bico”, seja o físico ou o psicológico (rs). Ding cuidou dos churrascos e evitou lavar a louça da turma com uma “ótima” desculpa: “Ah, eu não lavei com medo de acordar vocês com o barulho (…)”. Dei risadas “internas” nessa hora.

O Ding é gordinho. Mas na hora da trilha, do sobe-desce-morro, ele é a criança mais valente, primeiro da fila e que – se bobear – não espera os outros mais ofegantes. Tudo pela vibração e pelo momento que conhece há 16 anos. Se é para mergulhar próximo as pedras para ver tartaruga, tente dizer não!? Como disse, faz bico! rs

Meu namorado, o fotógrafo oficial, é gay mas foi muito mais naqueles dias. Levou sua câmera profissional e registrou fotos lindíssimas, fora os experimentos criativos com a máquina. Até ajudou a lavar as louças, embora se assustasse com as pilhas que se formavam depois de nossos jantares a luz de vela – luz de vela porque em Ponta Negra não tem luz elétrica e banho frio é a máxima.

Combinamos antes de viajar que em alguns momentos, em muitos menos momentos do que das últimas vezes, eu fumaria da erva em companhia do Ding. Aceitou a ideia e entendeu a minha forte necessidade de “estar só, mas bem acompanhado” depois desse longo debruçar perante seus amigos e parentes. Foi um companheiro e tanto. Dormimos de conchinha, embora o desconforto do tipo de cama não ajudasse muito. Trocamos diversos olhares e sorrisos à distância, daqueles que só pessoas que se conhecem há alguns anos decodificam.

Interagiu com a turma e, nas coisas de assuntos de intimidade e de vida que as minhas turmas costumam trocar, foi bem. Diferente das turmas dele que, quando o assunto é intimidade, a tendência é sinal fechado. Cada grupo tem seus valores. Os meus costumam ser arregaçados! :P

“Ela” e sua namorada, casal de rachas perdidas em Ponta Negra, são gays mas foram muito mais naqueles dias. Está certo que vivem o começo de relacionamento, no vai e vem das ondas do mar, no vai e vem das histórias entre casais recém formados. Elas foram ótimas para lavar as louças e não cozinharam um dia se quer! Inversão de papéis? Imagina.

Parrudas, aguentaram firme o trecho de barco na ida, que estava fichinha para qualquer um, e com ondas de dois metros na volta.

Ela levou uma super câmera recém adquirida e fez par com meu namorado nas sessões de fotografia.

Fina que só Ela, no primeiro dia, buscou um cantinho esperto que houvesse um ponto de sinal no celular para fazer um call com seu cliente em São Paulo. Passou uma hora no cantinho, fora de nossas vistas, enquanto bebericávamos caipirinhas e degustávamos camarão e lula à beira da praia.

Encorajamo-nos, todos, a entrar na cachoeira – afinal, a piscina natural era nossa, exclusiva. Foi na cachoeira que algo de espiritual, para quem acredita, me pegou e me fez sentir a limpeza da alma.

Ding e Ela ganharam nas partidas de buraco. No Mau-Mau meu namorado levava a maioria. Agora, no Truco, faz anos que não sei o que é perder uma “melhor de três bois”! rs

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Quando digo que precisamos ir além, é sobre esse tipo de situação que tenho falado e ilustro com um exemplo concreto, que não é nem o melhor, nem o pior, mas um exemplo que ocorreu por afinidades entre amigos.

Tirar a homossexualidade da cabeça é importante, seja para o enrustido, seja para o assumido frequentador das principais baladas. Ser gay não deve ser tanto uma característica que defina nossas atitudes, formas de vestir, forma de olhar, idades a se julgar, lugares para frequentar, hábitos, consolo ou vício, seja para o gay que assume hoje uma referência negativa ou positiva da homossexualidade.

Não me gabo por esse post, mas busco dar mais sentido para a ideia de que mais próximo da plenitude, resolução e emancipação é quando esquecemos que somos gays. Afinal, para que precisamos lembrar disso se o melhor é viver desse tipo de intimidade e além? Como digo, cobramos uma naturalidade da sociedade mas ao mesmo tempo perdemos a nossa.

Por onde começar é com cada um. Mas digo que vale a pena. O que não vale é ficar nos reduzindo demais em preconceitos, esteriótipos e, inclusive, sem a real consciência de respeito a diversidade.

Ser humano tem medo de ser humano, não é verdade?

 

3 comentários Adicione o seu

  1. Excelente texto, gatha! Pensei que eu era o único gay trilheiro desse Ryo de Janeiro, rs! Não conheço Ponta Negra… vou estudar sobre :p

    1. minhavidagay disse:

      Amigue, fica perto da Praia do Sono! Da um gúgol! rs

  2. Fernando Sad disse:

    Claro, antes de sermos gays, somos humanos e seres vivos, penso dessa mesma forma. Devemos aproveitar o que a vida tem de melhor e principalmente administrar corretamente o que ela nos oferece…

    Abraços carinhosos!!

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