Casos no Autorama


Um dos leitores do Blog Minha Vida Gay, participante ativo por e-mail, me questionou sobre o Autorama em São Paulo, quando me referi ao local num dos posts. De repente pensei que um breve relato sobre o lugar pode ser interessante aos usuários, sob minhas “percepções antropológicas” e um pouco de até onde pode ir a vida lá fora.

Nas minhas “épocas infernais” passei pelo Autorama algumas vezes e pratiquei desde a simples paquera ao sexo voyer com um ex-namorado. Trata-se do estacionamento do Detran que durante o dia as pessoas fazem testes de direção. A partir das 17h ou 18h – every fucking day – gays, travestis, garotos de programa, pseudo heterossexuais e derivados se reúnem para finalidades diversas: paqueras, esquenta para baladas, programa, sexo dentro dos carros, voyerismo, suruba e outras possibilidades longe das vistas dos guardas metropolitanos. Tudo ao céu aberto e tudo aberto ao público gay.

Hoje, sei que existe até uma infra para lanches, pastéis e bebidas.

A frequência lá é variada e os interesses também. Creio que o nome “Autorama” se deu pelo tipo de hábito: fora as pessoas que vão a pé ou estacionam seus carros, uma grande maioria fica circulando com veículos em todos os sentidos, com a janela aberta ou entre aberta, para sentir e perceber o movimento. Dentro dos carros e em direções opostas, os homens, gays ou pseudo heterossexuais, trocam olhares e, se bate aquela “química”, encostam seus respectivos carros, trocam aquela ideia (ou não) e, normalmente, um entra no carro do outro. Beijos, amassos e sexo.

Já transei com um ex-namorado por lá, dentro do carro. Furtivamente, um homem encostou na janela do meu lado e outro do lado do meu namorado e ficaram expiando para dentro, enquanto batiam uma. Voyerismo.

Outro amigo já pegou um rapaz, tido como hétero com namorada, mas que tinha o desejo de receber um “cunete” de outro homem. “Cunete”, queridos leitores, são carícias com a língua no ânus do outro.

(Hoje o MVG está mais dirty. Mas no universo gay, Autorama, saunas e cinemão fazem parte da realidade gay que está lá fora).

Já peguei um michê por lá, fomos até um hotel fuleiro e depois o deixei novamente no Autorama para que continuasse com seu trabalho.

E por fim, já vi uns cinco homens formando um círculo enquanto apenas um – agachado ao centro – fazia a famosa “chupeta” para os demais.

A vida gay, senhores e senhores, tem disso e mais um pouco. Por mais amedrontador, nojento ou excitante, dependendo do ponto de vista de cada um. A ideia aqui nem é escandalizar, mas nós, gays e leitores do MVG nos mais diferentes níveis de compreensão e entendimento da sexualidade, sabemos que lá fora existe muito da liberação sexual misturada com diversão. Está aí um exemplo: Autorama.

Nos sentimos, as vezes, tão comedidos para participar dessas “atrocidades”! Mas aquele bonito da balada pode encantar na pista, frequentar sauna e curtir um Autorama.

Talvez esteja bastante longe da nossa realidade e nos parece distante essa possibilidade. Sei que o Blog MVG tem foco no lado produtivo, fértil e saudável da vida, ou pelo menos busco priorizar esses valores. Trago filosofias, reflexões e uma visão otimista para a “fase gay” de cada leitor.

Mas como já narrei em posts bastante lúcidos, os anjos e os demônios habitam cada um de nós. Precisei viver meus “demônios”, sim, para poder dar ouvidos ao meu próprio amadurecimento. Alguns gays podem considerar o Autorama até tranquilo. E concordo que seja, dependendo de como enxergamos o entretenimento gay nas ruas, dependendo de como temos nossos valores.

A ideia aqui é informar: negar a existência do Autorama e as possibilidades nela contida é tentar encobrir um pouco dos “demônios” e, consequentemente, ofuscar os próprios “anjos”. O quanto somos capazes de enxergar os anjos e dos demônios que habitam a gente?

Não posso negar que, se tenho uma estabilidade emocional hoje, é porque me olhei de frente com essas curiosidades, vontades e fui atrás. Na minha lista, contabilizo esses feitos não propriamente com orgulho, mas com uma sensação de ter matado alguns fantasmas, rompido com alguns preconceitos, realizado algumas fantasias e superado alguns temores. Tive consentimento do ex-namorado em uma ocasião que participamos juntos e, em outras, realizei sozinho e solteiro. Viver um pouco do Autorama me trouxe, de maneira empírica, um pouco mais do meu auto-conhecimento. O que não quer dizer que todos precisam ver para crer.

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Esses dias um integrante da minha equipe me questionou se eu seria um pai que recriminaria meu filho por fumar maconha. Respondi assim: “Jamais assumiria a carapuça de um ‘pai ideal’ sendo que já fui um bom maconheiro. Acho que temos que criar filhos para adquirirem senso crítico e consciência dos atos; senso crítico construído desde muito pequeno. Acho que devemos realizar todos os prazeres que temos vontade, cientes de que o excesso pode machucar ou decepar, pode viciar e pode traumatizar. Não conseguiria vestir o personagem do ‘pai modelo’ incutindo hipocrisia na educação, sendo que já fumei muita maconha, por exemplo. Muitos dos meus amigos heterossexuais, ex-maconheiros natos, viraram a cabeça por personificar a identidade de ‘pai’ e por respeitar a identidade da ‘mãe’. Essas personificações não vão garantir em absoluto que o filho um dia também não experimente e goste. O erro desse ‘paizão modelo’ é querer ser perfeito e desumanizar a própria relação entre pai e filho. A vida lá fora, nas ruas, costuma sempre ir além de nossos valores de casa. Como garantir que um filho não tome gosto ou não tenha curiosidade sobre coisas ou situações que saem do que é considerado saudável dentro de casa e não resolva experimentar outras coisas?”.

Por acaso, esse modelo familiar, dos bons costumes e dos desejos íntimos e pessoais, traz alguma garantia de nossa heterossexualidade? Não garante porque um tanto de valores e princípios conseguimos transmitir de pais para filhos. O outro tanto, que pode ser bastante grande, muitas vezes está impresso no código genético, caráter e personalidade de cada indivíduo. A autonomia de pais sobre filhos não é para sempre.

Outro exemplo menos polêmico: meu avô paterno, filho entre 6 ou 7 irmãos vivia fora do Brasil e sonhava por aventuras e novas expectativas que, sua família e a sua terra, não pareciam poder oferecer. Tivera a mesma base educacional de todos. Porém resolveu sozinho, sem lenço nem documento, sem nenhuma companhia, pegar um navio, enfrentar 6 meses de viagem e cair num país totalmente estranho, de língua, clima e costumes totalmente desconhecidos. Como os pais podem ter controle de uma situação desse tipo? Até onde vai a autonomia dos pais e até onde vai a autonomia dos filhos? Até onde doutrinas ou valores tradicionais seguram alguém que, no íntimo, busca por outros conceitos e outras “fronteiras”? Costuma sofrer muito aqueles pais que criam os filhos para si.

Precisamos ter pé no chão, acima de tudo, independentemente das influências gerais. Pais, de fato, dão a base ou tendem a ser essa base para o começo da história dos filhos. Mas – numa média – passaremos metade de nossas vidas, senão mais, trilhando nossos próprios caminhos.

Inconsequente seria eu fazer ode ao Autorama ou dizer: “Vá lá que é demais!”. Acima dos julgamentos, acima do que entendemos como certo ou errado e acima do que as pessoas podem pensar, precisamos ir de encontro à nossa felicidade. Assumir a sexualidade perante aqueles que prezamos tem disso, não é mesmo? Onde cabe um “Autorama da vida” nesse processo? Cabe? Não cabe?

O grande problema é quando tudo isso é mais forte que a gente e nos leva ao vício. Se você desconfia hoje que “Autoramas da vida” podem te sulgar, convém não tentar. Nem todos descolados, impulsivos ou despojados tem consciência do que são, do que se está fazendo e do impacto que “brincadeiras” desse tipo podem trazer ou influenciar a si e a outras pessoas.

6 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Sad disse:

    Claro que não somos nós que vamos julgar as atitudes de outras pessoas. Mas de verdade, gostaria muito de entender, porque muitos gays vivem a procura sexo sem fronteiras ou limites de perigo. Sei que entre héteros também existe. Mas sinto que entre os gays é em maior proporção. Volto a dizer que isto não é um julgamento, até porque já tive vontade de participar de algumas “festinhas” assim. Realmente só procuro um entendimento para este comportamento!

    1. minhavidagay disse:

      Na minha concepção, Fernando, o homem-sexo é um concepção parte da natureza do homem e parte do modelo social.
      Nesse post, comento um pouco dessa minha teoria. Claro que é filosofia e não sou um estudioso a respeito. Mas acho muito rudimentar ficar justificando a tara do homem pelo sexo apenas na natureza animal.

      Abs!

    2. minhavidagay disse:

      Fernando, o post nem era esse, sorry! Depois vou procurar e te passo. Abs

  2. Dark disse:

    Pesquisei sobre o Autorama e encontrei essa notícia:

    Prefeitura quer fechar Autorama na madrugada

    SÉRGIO RIPARDO
    Editor de Ilustrada da Folha Online
    Após fechar bares, boates e saunas de freqüência homossexual, a Prefeitura de São Paulo quer agora acabar com as madrugadas calientes do Autorama, estacionamento mais famoso do parque do Ibirapuera (zona sul da capital).

    Daia Oliver/Folha Online

    Paquera esquenta a partir da meia-noite e atinge seu pico entre 2h e 3h
    A idéia em estudo é manter os portões trancados da 0h até 5h, como já ocorreu no passado, pontualmente, após registro de casos de violência. Hoje, o Autorama funciona durante 24 horas, mas o movimento de paquera gay (e também prostituição) costuma esquentar a partir das 22h, com auge entre 2h e 3h.

    A prefeitura já tirou do local o comércio ambulante, após denúncias de venda de bebidas alcóolicas para menores. Moradores da área também pressionam para o fechamento do Autorama na madrugada. Mas a decisão pode ter um efeito inverso, segundo habitués do local. Os carros podem passar a ocupar ruas próximas do local, como a IV Centenário e República do Líbano.

    Ativistas do movimento gay defendem o funcionamento do Autorama na madrugada, sob argumento de que se trata de um point tradicional de convivência homossexual na cidade.

    Neste ano, comerciantes de lugares freqüentados pelo público GLS reclamaram do maior rigor das fiscalizações, na comparação com outras regiões. Os clubes Ultralounge e Glória fecharam –o segundo tenta reabrir. A julgar pelas últimas decisões municipais, será mais uma vez uma batalha perdida dos gays para manter o corujão do Autorama.

    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/destaquesgls/ult10009u326113.shtml

    Data da notícia: 05/09/2007

    Pelo jeito não deu em nada, pois estamos em 2012 (notícia de 5 anos atrás). Não creio que seria prudente. É como a Cracolândia: se você os expulsa de lá, eles vão para os arredores, formando assim várias cracolândias fragmentadas. Jamais ia imaginar que no estacionamento do Parque Ibirapuera aconteciam essas coisas. rs

    1. minhavidagay disse:

      Se não for o Autorama, será um “Gaytódromo” ou qualquer outra situação semelhante porque faz parte de estilos e tendências de alguns gays. Não adianta reprimir. A repressão gera sim o efeito inverso. Precisamos é de conscientização do que fazemos ou deixamos de fazer. Nesse caso, faz parte de escolhas e opções.

  3. Caio disse:

    Olá pessoal, bem na minha opinião penso exatamente como MVG, temos que saber lidar com o que somos e queremos, sem julgamentos extremistas de certo ou errado. Não vou negar que tenho várias vontades que fogem do mundinho de coisas chamadas de “bem”. Vejo em muitos comentários de vários sites gente que reclama dos gays serem promíscuos demais exaltando que a “pegação” é pecado e outros adoram exaltar a vida de festas, “bagunça”, azaração e meio que “condenam” quem gosta de viver na tranquilidade, apenas no namoro firme, e no mundinho das coisas de “bem”….Vejo tudo isso como extremos. Pois qual é o problema em num dado momento da vida você querer se divertir, curtir um pouco, realizar umas fantasias rsrs, ver uma pornografia, dar risada disso, zoar falar umas besteirinhas??? Eu sinceramente não vejo problema algum, desde que saibamos o que estamos fazendo, que as façamos com responsabilidade (no caso usar preservativo, evitar drogas, bebidas em excesso) e não se viciar nesse modelo de vida. Por fim, é importante entender como funciona o mundo que queremos conhecer para depois termos uma opinião final sobre ele, melhor do que passar uma vida toda seguindo os “bons costumes” e sempre ficar desejando conhecer o outro lado, podendo se frustar, se deprimir e viver uma vida sem desejo. Resumo: as vezes precisamos passar por uma determinada situação, mesmo que todos digam que não se deva, para realmente saber como ela é pela nossa própria percepção. Bom fim de semana a todos, especialmente para você MGV rsrs!

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