Pensamentos sobre a bissexualidade


Até hoje não conheço nenhum bissexual pessoalmente, mas conheci algumas pessoas que eram bissexuais. Ex-namorados e boa parte de amigos tiveram relações sexuais e até mesmo afetivas – com namoros heterossexuais estabelecidos – antes de encontrarem-se como gays.

Muitos artistas de visibilidade local e mundial, aqueles que optam por expor a intimidade – revelam-se inicialmente como bissexuais, provavelmente para amortizar o impacto da mídia frente aos públicos, para depois apresentarem-se definidos como gays.

Com essas referências tenho mais certo que o bissexual vive uma transição, são gays ainda incertos quanto a assumir firmemente a própria homossexualidade, ou se protegem nessa classificação para se camuflar e amortizar o peso do impacto social. Eis um dos aspectos.

Um outro aspecto sobre o tema da bissexualidade: um tempo atrás, em conversa na mesa de bar, estava com um amigo heterossexual que é educador do nível primário. Apresentei a ideia de que a tendência de uma sociedade mais aberta e escolarecida, que se desprende dos valores hierárquicos tradicionais de sexualidade, são jovens iniciando a vida sexual pela bissexualidade. Em outras palavras, existe uma forte tendência – pelo menos nas grandes capitais – dos jovens terem menos rigidez em experimentar envolvimentos com meninos e meninas, antes mesmo que os rótulos e esteriótipos façam parte do seu universo de compreensão. Meu amigo, educador, concordou com a minha afirmação, comentando que essa situação já é bastante comum em âmbitos escolares.

Complementando essa ideia, a naturalidade que se vê algumas dezenas de jovens de 12 a 17 anos aqui no MVG em expressar afetividade e atração por colegas do mesmo sexo nas escolas, sem distinção de valor – se gay, bissexual ou heterossexual – reforça um pouco mais essa ideia da concessão e autonomia existentes para o jovem que pode se sentir envolvido por meninos ou meninas.

E ainda bastante importante e novo para mim, um dos leitores tem explanado com bastante lucidez uma condição de apreciar a vagina assim como o pênis, de gostar do sexo femino e masculino (embora se envolva afetivamente apenas por mulheres),  tornando-se o primeiro bissexual atual e assumido que eu possa conhecer, mesmo que apenas por intermédio virtual.

Imagino que outras pessoas como o leitor devem se colocar de tal maneira, como bissexuais, de transitar pelo corpo do outro, seja o feminino como o masculino, quando o assunto é sexo e, quando o assunto é afetividade, paixão e envolvimento, apenas por mulheres. Não somente se colocar, mas ter clareza de ser assim sem tantos receios ou culpas pois, no final o que importa é não ter culpa.

Será então que um indivíduo adulto pode gostar do sexo bi e ter a tendência de conseguir desenvolver valores afetivos apenas por mulheres? Creio que sim. E aqueles que transam mulheres e homens mas constróem valores afetivos apenas por homens? Devem existir também. E será que homens que gostam do sexo com homens e com mulheres podem e conseguem alcançar um nível afetivo tanto com homens quanto mulheres? Também acho possível.

Um exemplo desse último, se não me falha a memória, foi o Laerte Coutinho – cartunista e representante da cultura nacional – que casava com mulheres e namorava homens: envolvimento sexual e afetivo com mulheres e homens.

Laerte vivia esse tipo de “bissexualidade plena” de relação sexual e afetiva com ambos os gêneros.

Hoje se define como cross dresser, transgênero ou travesti e namora uma mulher. O que não quer dizer que todos “bissexuais plenos” tornar-se-ão transgêneros ou que isso seja um problema no meu ponto de vista. Sexualidade é mais plural do que muitos gostariam!

Alguns leitores do MVG podem “levantar a bola” de que um homem que namora uma mulher mas que gosta do sexo com outros homens na realidade não são bissexuais e, sim, gays mal resolvidos. Tenho que concordar que à primeira vista essa é a minha percepção. Mas, num segundo momento, pensando mais a fundo sobre a diversidade, será mesmo que não existem homens que vivem as variantes da bissexualidade? Será que pensar assim, de que todo bissexual tende a ser gay, não é um pensamento fruto dos modelos e valores instituídos? Será que não é um preconceito ou um conceito definido com pouca vivência ao lado de bissexuais? Mas onde estarão os “bissexuais assumidos” e realizados assim?

Outrora coloquei aqui que a bissexualidade, a mim, me cheirava apenas a transição ou falta de resolução.

Os heterossexuais são a regra social a milênios. Os gays, cada vez mais, conquistam espaço na sociedade em diversas frentes. E os bissexuais são tidos como mal resolvidos, escondidos pois em termos de moral para nossa sociedade, fica complicado um homem casado gostar de “ter uma fodinha” com outro homem de vez em quando. Mexe com valores de fidelidade, princípios e caráter. Assim, mediante a nossa sociedade, tendem a ficar mais calados e contidos do que expostos.

Mas afinal, bissexualidade é um estado sexual definido assim como heterossexualidade ou homossexualidade? Ou tende a ser uma eterna transição que conflitará sempre com os valores morais de sociedade, indo de contra inclusive aos valores de heterossexuais (fundalmentalmente as esposas e namoradas) e gays (fundalmentalmente os amantes)?

No meu ponto de vista, os jovens das novas gerações passam a viver da bissexualidade com essa naturalidade como expressei acima, antes mesmo da noção dos julgamentos rotulados que se adquire com a idade. Já os bissexuais que hoje são adultos, mediante a nossa sociedade atual, tendem a viver na obscurecência como “indefinidos”, denominados assim por eles mesmos as vezes e pela sociedade heterossexual e gay.

Até onde vai o nosso preconceito ao bissexual, preconceito de taxar veementemente como gays mal resolvidos, e até onde essa sexualidade é possível, real e tangível assim como heterossexualidade e homossexualidade?

Volto a ter dúvidas sobre esse assunto. Ideal que os bissexuais se manifestassem mais com a certeza e a objetividade do que são. Bem ou mal é do ser humano se apegar a conceitos e definições. Como ficam os bissexuais nessa situação?

15 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Sad disse:

    Caro MVG,

    Simplesmente penso que ser gay, vai além do ato sexual, é a tendência afetiva pelo mesmo sexo (se é que posso dizer assim), é a necessidade de um homem estar com outro homem; complemento da alma, entende? Dormir e acordar juntos, dividir momentos felizes e os ruins também, enfrentando as dificuldades e colhendo os frutos da relação, claro que o sexo é muito importante e isso em qualquer relação. Mas, não podemos confundir um homem que gosta de sexo com outros homens, com ser gay! Caso contrário, como poderemos classificar as pessoas que praticam sexo com animais e pior ainda com crianças? Será que é possível existir afetividade nesses casos?

    Grande abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Fernando!

      Para você ver que sexualidade é um campo vasto e boa parte dele um tanto “estranho”.

      Mas numa concepção original de homossexualidade, trata-se da atração sexual pelo outro do mesmo sexo. Não desconsidero os valores afetivos que você coloca como importantes. Mas para mim, essa definição de homossexualidade é um ponto de partida.

      Abs!

      1. Fernando Sad disse:

        Olá,

        Claro, compreendo a definição de homossexualidade como sendo seu ponto de partida, mas não podemos esquecer da evolução do homem e seus sentimentos que, nem sempre conseguem ser traduzidos em palavras, tanto é que, como gays, nós deixamos de lado a palavra “homossexualismo”, não é mesmo? Por este motivo eu prefiro a “homo-afetividade” como definição para os gays, independente de sua sexualidade. Então, as pessoas talvez possam se relacionar sexualmente, homo ou hétero, sem que isso interfira na sua afetividade.

        Respeito muito seu ponto de vista, que tem muitos fundamentos e como você mesmo diz: ” sexualidade é um campo vasto e boa parte dele um tanto “estranho”.”

        Abs.

  2. Dark disse:

    Boa tarde, MVG

    Não tenho muito tempo para formular um bom argumento agora, mas acredito mais na bissexualidade como sólida, permanente, do que como transitória. Creio que essas pessoas que se dizem bissexuais em um primeiro momento e depois se assumem gays são confusas. Creio que existam pessoas realmente bissexuais, mas que são poucas. Não acho que os bissexuais sejam gays mal resolvidos. Acho que aqueles que se dizem bissexuais são gays mal resolvidos. Ou até mesmo héteros, afinal o ser humano é tão complexo que isso pode acontecer.

    Não os culpo por se ocultarem diante da sociedade. Se eu fosse bi, faria o mesmo. Talvez por isso eu tenha nascido gay: se eu fosse bi, não seria capaz de lutar pelos bissexuais. Assumiria uma vida heterossexual e reprimiria esse desejo, afinal, na minha opinião, é muito mais fácil fingir ser hétero quando a verdadeira condição do indivíduo é a bissexualidade do que fingir sendo gay. Porém, eu creio que no futuro talvez seja realmente possível que a sociedade rompa com suas próprias barreiras e experimente relações sexuais e/ou afetivas com ambos os sexos. O que não significa necessariamente que elas seriam bissexuais, afinal, eu creio que a bissexualidade seja permanente. E assim, elas estariam apenas “explorando novos prazeres.”

    É uma questão muito complexa. Vale o debate.

  3. Ali disse:

    Oi sou eu de novo rsrs.

    Bom, nem preciso dizer que eu acredito sim em Bissexualidade “fixa”,não transitória entre a homossexualidade e a heterossexualidade, tenho vários amigos bi.

    O leitor acima,fez o seguinte cometário:

    “Porém, eu creio que no futuro talvez seja realmente possível que a sociedade rompa com suas próprias barreiras e experimente relações sexuais e/ou afetivas com ambos os sexos. O que não significa necessariamente que elas seriam bissexuais, afinal, eu creio que a bissexualidade seja permanente. E assim, elas estariam apenas “explorando novos prazeres.”

    Mas uma reflexão importante que quero deixar é a seguinte:

    “Por que hoje em dia,ninguém mais quer ser “pecador”? Quando a perca da culpa passou a ser algo estimulante?”

    Entenda-se o termo “pecado”,sem o conceito teocrático/religioso.

    Eu penso o seguinte:
    “O que aconteceria se algum dia, o governo decidir promulgar uma lei em que é expressamente permitido,LIVRE, para todos fazerem sexo indiscriminadamente em lugares públicos?”

    Alguns de acordo com seus julgamentos morais,vão achar isso uma tremenda “safadeza” e “depravação”.

    Mas outros vão achar ótimo, que bom que todos vão poder exercer a suas sexualidades livremente,sem esteriótipos.

    Mas EU,penso da seguinte forma:
    Essa bendita lei vai acabar criando uma nação de “BROCHAS”!!
    Quem já leu Nelson Rodríguez, vai se lembrar da “Síndrome do Crioulo da Grapette”,que é mais ou menos o seguinte:

    Grapette: é a marca de um refrigerante com sabor de uva/framboesa pertencente à “The Grapette Company”.

    Era um homem que vendia Grapette na praia de Copacabana, e todos os dias ele via as mesmas coisas,as mesmas pessoas, admirava as mesmas mulheres bonitas,mas com o passar do tempo,toda essa situação foi-se mostrando enfadonha e tirando-lhe o desejo outrora latente e novo.No fim, tudo isso que ele via e admirava em algumas semanas,no mês seguinte já não lhe apeteciam mais.

    Essa é a “Síndrome do Crioulo da Grapette”.

    Essa história de que devemos experimentar isso ou aquilo, o Free-love, a afetividade e sexualidade sem barreiras, mostra-se infrutífera e “brochante”.

    A culpa em certo ponto é AFRODISÍACA, é um pacto entre as pessoas que se relacionam, é algo que essas pessoas dividem,tem em comum,sem precisar transar em lugares públicos,sem precisar gritar aos quatro ventos,basta o aconchego a confidência de quatro paredes.

    O que quis dizer acima de tudo rsrs.

    É que, ame quem ama você por completo,ame aquilo que te define e te completa.Não tente se convencer que é bom,aquilo que depois que acaba, você se sente tão vazio quanto um deserto.

    Eu sei bem,que o ser humano busca classificar algo que não entendo como sendo isso ou aquilo, se isso for aquilo,isso não pode ser aquilo.
    NORMAL,NECESSÁRIO.

    O importante é ser feliz?

    kkkkkkk me poupe,viu?

    Acreditar que felicidade é o “bem maior” e acreditar em um mundo melhor,sem barreiras,soam nos meus ouvidos como uma criança que ainda acredita em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa.

    Abraços.

  4. Guh disse:

    Conversando sobre isso com um amigo, chegamos a conclusão de que os bi sao apenas mal resolvidos ou fazem de ser bi mesmo sem que eles percebam para se mostrar ou para ir se acostumabdo e acostumando sua famila do fato q ele gosta de pessoas do mesmo sexo.
    Mas outro dia eu entrei numa resoluçao que pra mim ja é muito clara (eu posso estar errado). Se no final das contas iremos ficar com a pessoas que amamos , nao ira ter essa dela ser homem e mulher ela era uma só ou homem ou mulher. Na minha opinião os bi são mal resolvidas, e nao tem certeza do que se sentem atraidos. Eu nao aceito a bissexualidade, pois acho que cada um tem que ter sua definição concreta . Eu nao acho certo mas nao os julgo por serem ass
    Abraços

  5. Fábio disse:

    Bom, eu não acredito na bissexualidade plena. Pra mim, ou você sente atração por homem ou por mulher. O que pode ocorrer são héteros que tem releções homossexuais por puro prazer, mas gostar, realmente sentir atração por um homem, não. Já concheci gente assim, mas nunca conheci um bissexual pleno. Até eu mesmo antes de me aceitar como gay me declarava bissexual pelo sinples fato de eu já ter tido relações como mulheres. A homossexualidade vai além de com quem vc faz sexo, tem a ver com o que vc sente, os desejos mais sinceros.

    1. Alan disse:

      se um “hetero” que tem relações homossexuais por prazer não é bi o que ele é ?se sente atração por homens a ponto de fazer sexo mais não a ponto de sentir afeto é bi do mesmo jeito pois o que define a bissexualidade é a atração por pessoas de ambos os sexos

  6. minhavidagay disse:

    Realmente, amigos do Blog MVG.

    Alguns acham que a bissexualidade é uma “orientação fixa”. Outros já encaram como um modelo transitório ou de valores mal resolvidos. Afinal, por ondem andam os bissexuais para manifestar suas opiniões e esclarecimentos? Mais do que psicólogos ou sexólogos, não seriam os próprios bissexuais as pessoas ideais para apresentar um pouco dessa referência?

    Sabemos onde encontramos gays, sabemos onde encontramos os heterossexuais. Nos falta sim referências da bissexualidade, de pessoas comuns como são os leitores do MVG.

  7. Caio disse:

    Não mesmo. Bissexualidade não é uma orientação sexual, iguais as outras que são definidas como a forma de expressão do desejo afetivo/sexual entre humanos. Vejo a bissexualidade como um comportamento sexual, que nos homens é muito mais para encobrir seu verdadeiro desejo. Gays podem sim ter transado várias vezes com mulheres ao longo da vida, mas sabem que seu desejo maior, sua realização afetiva completa só se dá com outro homem. E outra: estes caras que são casados que “pulam a cerca” com outros caras, é claro que dizem que gostam de suas esposas, porque se estão com elas mesmo por “pressão social”, um pouco devem gostar (ter carinho, admiração, pois convivem juntos) mas sabem que no fundo um homem o satisfaria mais. Além disso, a maioria diz que só se interessa pelo envolvimento carnal com um homem porque não se deixaram experimentar se envolver amorosamente, pois é tido como fora do padrão para eles. Afinal o desejo pelo corpo eles não conseguem reprimir totalmente, de vez enquando precisam se “aliviar”, lógico no sigilo.

    Além disso, quanto a esse lance de ficar experimentando os dois lados na adolescencia, óbvio que muito provável tais garotos se assumam gays no futuro ou fiquem no “armário” (preferência de cada um), héteros não fazem “troca-troca” (imagina se alguém descobre, eles pensam bem, até porque eles já são bem definidos quanto aos que gostam). Na minha adolescencia, apesar de não me definir como gay (sabia que era diferente, mas não entendia o que era), pois não tinha um auto conhecimento disso, sabia muito bem o que não queria e me estabelecia como “assexual”.

    Por fim, essa “teoria queer” que sabe lá que povinho de bar que inventou kkkkkkk, dizendo que todos no mundo são bissexuais e depois a maioria se define para um lado ou por outro, por oprimir querer ficar com os dois, pra mim não existe, pois sou homossexual e tenho isso bem definido pra mim.

    E para quem aí acima disse que precisamos experimentar e sentir as diferentes sensações sexuais cortando de ambos os lados, existem muitos homens no mundo pra isso, cada um diferente do outro….não preciso de mulheres e nem as quero. Para você deixo a seguinte frase: NÃO PRECISO EXPERIMENTAR UM HOMEM PARA SABER QUE SOU GAY MUITO MENOS UMA MULHER PARA COMPROVAR ISSO.

    Abraços e boa semana!

  8. Alan disse:

    eu sou bissexual e sinto atração tanto por mulheres quanto por homens só que caras como eu na maioria das vezes estão vivendo uma vida hetero escondendo seu desejo homossexual da sociedade por puro comodismo e saindo com homens as escondidas ,não faço isso mais tbm não assumo pq a sociedade não respeita um cara que seja bissexual os caras heteros vão falar que eu sou um gay enrrustido e eu vou perder a chance com 99% das mulheres e até mesmo os gays tem preconceito , aposto que se agente tivesse falando das mulheres bissexuais o papo ia ser outro ninguem ia falar que bissexuais não existem tudo que vale pras mulheres bissexuais vale pros homens bissexuais tbm

    1. minhavidagay disse:

      Legal Alan!
      Precisamos de mais referências de quem se sente bissexual. Você narrou resumidamente, mas não tinha pensando nessa questão de que, quem é bissexual fica também “velado” porque se contar para os amigos héteros, vão te chamar de gay e aí corre o risco até de espantar as mulheres. Isso realmente faz sentido e não fosse sua breve descrição não teria pensado!

      Valeu,
      MVG

  9. Thiago disse:

    Olá pessoal!
    Eu sou homem bissexual, (me considero assim devido as minhas experiencias afetivas e sexuais), tenho 27 anos e sempre me relacionei com qualidade sexualmente e afetivamente com ambos os sexos. Bem, a bissexualidade é um tema delicado pra muitos e principalmente para os próprios bissexuais. Eu mesmo já fui muito alvo de críticas duras quanto as minhas escolhas de relações, meus amigos gays me chamavam de mau resolvido e imaturo, e outras pessoas (héteros) me diziam a mesma coisa. Cheguei a refletir por muito tempo se eu realmente não era um gay mau resolvido, demorei um pouco pra chegar numa conclusão, mas cheguei. Sim, a bissexualidade existe, e se dá em um número de variantes maior do que nas orientações homo e heterossexuais. Eu conheci homens gays que são homossexuais de forma convicta, nunca se relacionaram com mulher (ou tiveram poucas experiências) e sempre tiveram muito claramente o desejo sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo. Conheci homens heterossexuais que jamais pensariam em se envolver físicamente com outro homem, mas, eu mesmo, já fui uma “excessão” para alguns deles.

    Sexualidade é, como o MVG já disse, um campo imenso, estranho e desconhecido. Os padrões homo e heterossexuais não são bem definidos, pra justificar isso, usamos aquela frase já clichê: Existem gays viris e heteros delicados. Agora pensemos qual é o padrão do bissexual? É ainda menos definido em relação aos homo e heterossexuais.

    Primeiro, quero refletir sobre uma questão: Existem duas formas de se envolver com uma pessoa, que podem acontecer isoladamente ou simultaneamente, são essas as formas carnal e afetiva. Essa separação clara de sexo e sentimento é uma habilidade masculina, independente de orientação sexual, homens gays e heteros sabem bem quando estão apenas fazendo sexo e quando estão se envolvendo em sentimentos além de sexo. No caso de envolvimento emocional, este pode ocorrer sem que a busca da satisfação carnal seja um primeiro passo para ter sentimentos por alguém, nesse caso, a busca da satisfação sexual/carnal será construída com o comprometimento de uma construção de uma relação afetiva. Quando nos envolvemos apenas para satisfação da carne/sexo, não visamos uma construção de afeto com a pessoa, e volto a dizer, isso é uma habilidade masculina independente de sexualidade. Não é diferente para os bissexuais, aliás, afirmo que tal separação do que é sentimento e do que é puramente carnal é uma habilidade ainda maior dos bissexuais em relação a heteros e gays. Essa habilidade maior entre outras orientações sexuais é um dos fatores que faz o bissexual ser legítimo.

    O bissexual masculino (o feminino também) quando é convicto e bem resolvido, não precisa mostrar nada pra ninguém e nem pra sociedade, este se envolve com ambos os sexos sem preocupações secundárias, sem intenções de ganhar uma imagem para as pessoas de seu convívio, esta é sim, a postura do bissexual confuso (gay enrustido). OS bissexuais vivem suas histórias com homens e mulheres de forma sigilosa, e sabem do grande preconceito que existe com a bissexualidade, tanto da parte dos homo quanto da parte dos heterossexuais. OS bi’s entendem o preconceito que sofrem com menos sofrimento, pois assim como entre homos e heteros, um tem fobia em relação ao outro por não entenderem como funciona o universo do outro, ambos, naturalmente, sentem fobia pelo universo bissexual, pois não entendem esse terceiro universo por não fazerem parte dele, que aliás é ainda mais amplo que os dois primeiros.

    Os bissexuais, em suma, se relacionam afetivamente e sexualmente com ambos os sexos, mas de forma saudável sempre. Os bissexuais apreciam as diferenças entre um homem e uma mulher e sabem diferenciar bem o que é o prazer que se obtém com uma pessoa do mesmo sexo e o que é um prazer que se obtém com uma pessoa do sexo oposto. Os bissexuais de verdade, não procuram parceiros(as) pensando em atender as expectativas de terceiros, por exemplo, pra mostrar ou provar algo pra alguém, volto a dizer que essa atitude é que é típica daqueles que são homo enrustidos que se dizem bissexuais. Eu estou reforçando isso porque eu comprovo a legitimidade da bissexualidade usando a mim e outras pessoas como referências, e ao mesmo tempo, eu concordo que tem muitos gays enrustidos (homossexuais) com problemas de auto aceitação e que se rotulam como bissexuais para se sentirem confortáveis. É como se os homos com essa dificuldade almejassem de verdade serem bissexuais, e até acabam vivendo como um, porém, este grupo quando se relaciona com alguém do sexo oposto acaba trazendo frustrações pra si e pra outra pessoa, pois verdadeiramente não consegue corresponder-se sexualmente e afetivamente com alguém do mesmo sexo. O bissexual legítimo consegue levar verdadeiro prazer sexual a ambos os sexos, e sem precisar de entorpecentes pra isso! rs

    Os bissexuais, como já disse, se relacionam com ambos os sexos discretamente. Nós também somos capazes de nos envolver afetivamente com ambos os sexos, e quando nos envolvemos assim, quando estamos apaixonados por alguém, nosso corpo (enquanto centro de prazer sexual) se completa com aquela pessoa somente. Isso não significa que o bissexual mudou sua orientação sexual, que quando está numa relação se torna efetivamente homo ou hetero. Os bissexuais são capazes de serem felizes num relacionamento monogâmico sim, embora, exista a possibilidade eminente de aventuras com o outro sexo. Admito que essa última idéia sobre os bi’s esbarra no conceito sobre fidelidade e monogamia. Para os bi’s a fidelidade e monogamia ganham uma definição diferente, até porque, os bi’s entendem com total naturalidade a necessidade de contato sexual com ambos os sexos.

    Tem formas diferentes de viver a bissexualidade, e em todas as formas há condições de ser feliz. Para os bi’s o que conta para um relacionamento afetivo ter sucesso não é exatamente o gênero do parceiro(a), mas sim as suas buscas internas. Quando eu falo de buscas internas, eu falo do que o individuo idealiza no seu íntimo com a figura que deve ser sua companhia fiel. Existem aqueles que idealizam que sua companhia deve ser do sexo oposto, por mil e um motivos, se formos nos aprofundar neste tópico, iremos falar de personalidade, formação de caráter, anseios, valores familiares e etc. Também existem aqueles bi’s que idealizam sua companhia como sendo alguém do mesmo sexo, e pelos mesmos mil e um motivos que o outro idealiza alguém do sexo oposto. E por último, podemos citar aqueles que vão realmente transitar entre um gênero e outro quando buscarem a satisfação de sua vida sentimental, e neste caso, os fatores que levam a bissexual a escolher um homem ou mulher estão mais ligados ao momento de vida do bissexual, sua maturidade e suas experiências já tidas.

    Para desmistificar a figura do bissexual como sendo um gay enrustido aí vão algumas reflexões minhas:

    1o) O que eu ganharia, se não somente a incompreensão de algumas pessoas, em assumir pra elas que me relaciono sexualmente com umA colega de trabalho?

    2o) Porque eu me relacionaria afetivamente com um homem se eu não me sentisse bem e feliz ao lado dele?

    3o) Porque eu me relacionaria afetivamente com mulheres mesmo depois de assumir pra minha família minha tendência homoerótica?

    4o) Quase todas as mulheres que EU fiquei e fico sabem que me relaciono com homens também, mesmo assim me apaixonei por algumas delas e essas se apaixonaram por mim, não parece ser saudável e honesto?

    5o) Sou ser humano igual a qualquer outro. Minha intimidade de vida sexual é minha e de quem está comigo, não interessa a
    ninguém qual o gênero de quem está comigo. Você acha mesmo que estou interessado que você defina se sou hetero ou homo?

    Pensem!!!

    1. Thiago disse:

      correção: “…e até acabam vivendo como um, porém, este grupo quando se relaciona com alguém do sexo oposto acaba trazendo frustrações pra si e pra outra pessoa, pois verdadeiramente não consegue corresponder-se sexualmente e afetivamente com alguém do mesmo sexo…” #alguém do sexo oposto#

    2. minhavidagay disse:

      Olá Thiago!
      Em dois anos de MVG seu post foi o que me pareceu mais franco, resolvido e esclarecedor sobre o tema da bissexualidade! Existem alguns pontos que merecem meus comentários e algumas dúvidas, mas vou transformar esse texto num post para falarmos por lá e dar visibilidade para um tema tão tabu senão mais do que a homossexualidade.

      Obrigado por esse relato! Precisamos de mais bissexuais saindo da caverna e/ou do armário para buscar uma compreensão maior.

      Abs,
      MVG

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