Afetividade entre gays


Nos últimos posts do MVG o tom das conversas levou a uma discussão mais séria sobre sexualidades, convergências de opiniões, divergências, conflitos entre valores de juízo, rótulos e esteriótipos e os assuntos transitaram em discussões reflexivas sobre modelos. Até a própria felicidade foi contestada! Pesado!

Eis que no meio de tanta seriedade, o leitor “RB” me enviou por e-mail um curta metragem sensível e que no meu sincero ponto de vista reflete a tal da naturalidade que – cada vez mais – adquirimos com o amadurecimento da sociedade e com a nossa clareza como indivíduos gays inseridos em contexto, que hoje inclui muito mais o homossexual que antigamente. Homossexual que busca muito mais pela afetividade do que prioritariamente o sexo em suas relações.

O tom pueril do vídeo não me confunde: apesar de colocarmos o homem gay extremamente conectado ao sexo, a conquista e o desenvolvimento de afetividade recíproca – gay com gay – é uma possibilidade para quem procura. Os gays mais “machões” ou rígidos podem dizer ao contrário mas – tirando o efeito cinematográfico do filme – é extremamente real dois homens gays, até mesmo adultos, atingirem níveis de afeto como esse vídeo busca transmitir. Isso a mim soa como atingir uma naturalidade na relação.

“Bobinho” por um lado, e reflexo de uma realidade por outro. Ofereço uma reflexão sobre esse curta reforçando que sexo nós conseguimos todos os dias, praticamente 24 horas, no meio gay. Agora, o desenvolvimento de afetividade entre dois homens gays ainda é muita questão por aí e me cheira a falta de resoluções. Não foi apenas uma vez que fui a “festas fechadas” de amigos de amigos, reunindo uma cambada de homens gays, que – depois de alguns tragos a mais de cerveja – levantavam assuntos sobre a dificuldade de relacionamentos. Lembrando que o efeito do álcool faz a gente liberar o nosso lado mais “solto”, certo?

Alguns repudiam, outros sonham com tal, outros acham ilusório e infantil e mais alguns “sofrem”, inclusive, por não conseguir chegar num tom de envolvimento mais efetivo, do carinho, do desejo que não é somente o sexual, mas da abertura para a afetividade e para a intimidade.

A dificuldade de se criar afeto e carinho, mesmo entre homens gays, é definitivamente uma questão, é real e lanço os motivos para isso sob a nossa grande dificuldade de nos desprender dos valores heterossexuais de sociedade, do preconceito, de educação, de família, que nos confundem, enganam e até nos acomodam. Alguns acham algo impossível e utópico, colocando o homem gay como aquele que vive atrás somente da “carniça”, da frieza na relação, ou de um tipo de “discrição oculta”. Outros já acham que não é necessário porque “com homem é diferente mesmo, pronto e acabou” e não precisamos de coisas desse tipo.

Mas afetividade, queridos leitores, me parece menos conectado com “coisas de homem” ou “coisas de mulher” e muito mais relacionado como coisas de “seres humanos”.

Por que alguns gays são tão rígidos para essas emoções? Por medo de se “feminilizar”? Essa deve ser a principal resposta para muitos: “essa coisa de afetividade é coisa de viado. Eu não sou bicha”. Por que entre dois homens essas coisas são realmente diferentes? Por que a tradição dos valores familiares não permitem carícias e carinho e a coisa deve ficar só na pegada forte?

Antes de mais nada, só o fato de sermos gays já temos um despredimento para exercitar nosso “lado feminino”, se essas características de carinho e afetividade são realmente compreendidas no universo das mulheres (para quem acredita, eu não). Praticar carinho e afeto por um namorado, por exemplo, não é o oposto da imagem de masculinidade que alguns gays buscam preservar. Mas tem gente que acredita que é! E esses, muito provavelmente, não vivem relacionamentos além dos famosos “6 meses de namoro”! Aliás, que namoro é esse que não passa de meses? Reclamam da dificuldade de formar um relacionamento mas negam construir laços afetivos.

Quantos não são os pais, homens, carinhosos com os filhos, que se cumprimentam com um beijo no rosto, com um abraço e entonam suas conversas demonstrando afetividade? Por que para alguns gays esse jeito assusta?

Bem, amigos leitores, de maneira alguma encaixoto esses valores de carinho e afetividade como “coisa de mulher”. Homens heterossexuais ou gays podem ser carinhosos, mulheres podem ser carinhosas e a demonstração de carinho e afeto é diferente de pegada e sexo. São universos distintos e fundamentalmente complementares para a consolidação de relacionamentos. Acredite quem quiser.

O curta metragem é uma representação, é símbolico e obviamente está sujeito a inúmeras críticas como qualquer produção audiovisual. Mas basta notar o número de views que – para o tema – tem muita gente interessado nesse assunto.

Quantos gays não buscam esse tipo de sentimentalidade numa relação? Muitos. Quantos evitam ou taxam como frescura? Muitos também. Assim, aqueles que buscam – que não são poucos e podem ser masculinizados e afeminados – tendem a encontrar. Aqueles que acham um “exagero” ou “desnecessário” naturalmente não vão provocar esse tipo de situação. Normal. Cada um no seu quadrado, alguns mais estreitos, outros mais amplos.

Eu que já vivi algumas vezes situações semelhantes desse tipo, digo que é humanamente fundamental cultivar afetividade e intimidade.

Como comentei ontem para o “P”, no meio gay no geral, ficar pelado a frente do outro num quarto de hotel e motel não tem nada de afetivo ou íntimo. Para o gay, no geral, chega até a ser banal esse tipo de situação. Agora, virar essa página, ah, isso sim são outros quinhentos!

Não dizem que a gente precisa ser muito macho para se assumir gay? Eu digo que a gente deveria ser mais que gay para aprender sobre afetividade.

1 comentário Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Concordo com suas palavras. E que bom que eu não tenho esse perfil de homem que evita afetividades, pois me pego eventualmente pensando em estar com um homem bacana daqui a algum tempo e compartilhar momentos com ele. No momento presente não é o que busco pois quero ter algumas experiências, curtir a vida e só depois sossegar rsrs. Pelo menos sei que não terei barreiras para amar quando de repente me encontrar nessa situação. Já amei uma vez mas não fui correspondido, mas mesmo assim isso não me fez desistir de sonhar com a união, diferente de uns que vemos por aí, que só porque tiveram um relacionamento que não deu certo, desistem de ter outro alegando que o amor não é para eles.

    Quanto ao curta já assiti duas vezes e gostei, achei muito interessante a ideia e compartilho da mesma expressão de conteúdo que ele demonstra.
    Foi muito bem feito, e como muitos dos comentários que estão no Youtube, também reforço que o único defeito era que poderia durar mais /

    Abraço e boa sexta feira.

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