Um gay que assumiu a vida heterossexual e agora revê sua condição


Recentemente postei um relato gay do “Fernando Sad”, leitor do MVG e que descreveu sua história: casado, pai e marido e de vida heterossexual seguindo os moldes mais ortodoxos da religião e de como a sociedade entende como bem definida. Durante sua juventude teve um grande envolvimento afetivo e sexual por outro jovem, homem gay. Viveram juntos até que – por ingenuidade ou excesso de confiança – revelou a sua mãe, que concentia muito bem com aquela “amizade” e que, quando vieram à tona as verdades, definiu assim: “prefiro estar morta a ter um filho gay”.

Rejeição de um lado, repressão e imposição por outro, Fernando buscou resgatar a confiança de sua mãe e de sua família e pôs a se enquadrar no modelo mais padrão possível. Casou-se com uma mulher, teve um filho e assumiu essa “vida parcial” por alguns longos anos.

Essa história está bem narrada e bem representada no post “Relato gay – Um gay que assumiu a vida heterossexual”.

“Nando Sad” escreveu um e-mail ao MVG complementando sua história. Resolveu depois de 15 anos retomar contato com “seu grande amor” que no “alô” reconheceu imediatamente sua voz. Soube que, além da repressão advinda do preconceito ao gay que é, foram separados também pelo fato de sua família ser descendente de alemães católicos e a do ex-namorado, de alemães judeus. Preconceito sobre preconceito e, além de tudo, de um modelo da época Hitleriana. Pode isso? Pode tudo e mais um pouco quando falamos de apegos, educação e valores rígidos e tradicionais.

[É nessas horas que penso que alguns valores da tradição, como os da cisão de cultura, religião e raça, deveriam entrar direto na boca do lixo].

Esse post retrata a continuação de um relato real porque não tem ficção aqui no Blog MVG. Há bem pouco tempo atrás tinha um fim assim: “sou gay, já cultivei uma afetividade definida por outro gay, vivo uma vida heterossexual para não confrontar a realidade da minha educação, de meus pais, da minha família, de amigos e do que eles entendem como saudável e honesto perante a sociedade, e estarei eternamente reprimindo essa verdade – de que um dia cultivei uma afetividade autêntica por outro homem – esperando que outros gays que vivam casos semelhantes ao meu, ou até mesmo os leitores do blog que não queiram seguir esse exemplo, busquem outros caminhos que não esse que assumi, temendo os rótulos, a repressão social e valorizando as aparências”.

E realmente esse era o fim da história, até receber seu e-mail e ter a boa notícia do contato, da retomada do envolvimento que congelou no dia em que Fernando e seu namorado se distanciavam por força do preconceito, da repressão, dos valores arcáicos e, sim, das aparências que não correspondiam ao que alguns pais idealizam tão “dignamente” a nós ou a eles mesmos.

Fernando está se desprendendo das aparências, se livrando dos medos do que os outros podem pensar e, acima de tudo, se libertando dos modelos egoístas e individuais de seus pais. Está se dando a oportunidade de sair do “resguardo” e da “discrição” que tão “honestamente” sua família idealizou, e ele arduamente seguiu para não decepcionar ou magoar, para ser exemplo. Primeiro ponto: vale mais os pais passarem por momentos de chateação e frustração por ter que encarar a nossa verdade ou devemos nos limitar – cada um a sua medida – para poupar a família de ter que assumir conosco essa realidade? Uns estão mais para lá, outro estão mais para cá, mas a luz está certamente em nossa autonomia e emancipação. Acredite quem quiser.

Fernando provavelmente terá que lidar com as questões morais perante esposa e filho. Essa parte – a mim – é a mais complexa e dolorosa e no final não existem culpados. Mas no choque dessa realidade homossexual frente ao modelo social heterossexual, a primeira coisa que o ser humano faz é buscar por culpas. Segundo ponto: Fernando foi até então “vítima” de um modelo escarrado pela família e o seguiu com o medo da rejeição, medo esse tão comum e frequente para a maioria dos seres humanos. Constituiu família com base cristã-heterossexual e gerou um fruto dessa união que nada tem a ver com isso. Pela sensibilidade que pude notar do Fernando que sim, construiu essa relação com bases verdadeiramente afetivas com sua companheira, o caminho será dificultoso, mas imagino que o tempo dirá com sabedoria. Isso se Fernando resolver assumir para esposa e, se assumir, as questões morais que dizem respeito a ele e sua família são particulares, específicas e individuais e não cabe a mim levantar ou colocar em debate.

O que coloco com o sentimento de que cabe no Blog MVG, e com boa satisfação, é que essa história do leitor é exemplo claro e mensurável da afetividade entre dois homens gays. Houve total reciprocidade no primeiro contato após 15 anos, de algo que foi vivido, intenso e real e que se congelou no tempo por todas as questões, valores, responsabilidades, impressões alheias e modelos que pairaram sobre esse relato.

O fato é que Fernando se permitiu ir além, na tal busca da felicidade que todos nós devemos ir atrás sem nos ludibriar com o estado atual que nos encontramos, sem nos envolver excessivamente aos rótulos ou tentar nos desprender totalmente dos mesmos. Do ponto de vista do Blog, que se chama “Minha Vida Gay – Vida gay e orientação para gays, pais e amigos”, o que existe aqui é ganho, somatória, esclarecimento, amadurecimento e conquista. Existe conscientização, que é o oposto de alienação. Existe construção dos próprios modelos e valores na base da vivência e da clareza de conceitos que é diferente de seguir a “cartilha familiar” vivida por outros, que muitas vezes confunde discrição com anulação, que muitas vezes nutre o preconceito.

Existe acima de tudo, CORAGEM, do que estava enrustido, acomodado e oculto, para a abertura, para o esclarecimento e a emancipação.

Esse post é praticamente continuação do anterior: onde é que homens gays ou heterossexuais não podem cultivar valores de afetividade? Somos seres humanos acima das classificações sexuais ou de gêneros. As experiências de afetividade (ou do amor, como preferirem nomear), as vezes, é tão forte que nos enche de medo. Outros já lidam com naturalidade e, mais alguns, negam veementemente por verbalizar que “com homem é diferente”, reprimem. Diferente são os tamanhos dos monstros e de fato de que tamanho são. Cada um é diferente e esse caso é apenas um exemplo.

Diferente são os valores que são repassados ou absorvidos. Diferente é o nível de consciência de si e de sociedade. Diferente é quanto se tem coragem para imprimir mudanças perante grupos. Diferente é o que cada um dos leitores quer acreditar ou pretende realizar.

Para aqueles que acreditam ou querem acreditar na possibilidade de afetividade entre dois homens gays, taí o exemplo que nada tem a ver com programa popular de tevê. Tem a ver com realidades de muitos lares, ocultos. Ocultos porque os modelos milenares querem assim.

Já parou para pensar no que você quer ao invés de ir conforme a maré?

Tamanho exemplo de conscientização e superação, Fernando Happy! :)

6 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Sad disse:

    thanks for…

    MGV, amigos que acompanham este blog, que é nosso porto seguro, onde encontramos pessoas como nós, muitas vezes com pensamentos diferentes e também com muitas coisas em comum. Sempre estarei por aqui lendo e opinando, mas agora vou seguir meu caminho rumo a verdadeira felicidade, vivendo o meu amor puro e em sua plenitude.

    Torço por todos nós gays.

    1. Caio disse:

      Olá Fernando, que ótimo você poder viver sua vida como realmente deseja e principalmente por você ter adquirido seu “lugar ao sol” depois de passar por tanto sofrimento. Isso aconteceu porque você teve determinação e coragem para seguir em frente e ver que mesmo depois de anos ainda está vivo e não se deixou entregar a uma vida sem emoção, sem gosto, sem o verdadeiro prazer de viver.

      Além disso, se considere um felizardo, mais do que pela razão dessa sua “libertação”, mas por já ter alguém que o ama e que lhe esperou, pois são vários os que querem alguém assim e não têm.

      Felicidades e aproveitem bem o melhor da vida.
      Abraços.

      1. minhavidagay disse:

        Faço das palavras do Caio as minhas! :)

  2. Wicked disse:

    Fico feliz por você, Fernando.

    Dá um trabalho olhar pra si mesmo como um amigo e tentar ajuda-lo assim como a gente faz com as outras pessoas numa facilidade até estranha no meu ponto de vista. De qualquer maneira, vale a pena.

    Não deixa de ser um caminho de autoconhecimento e ter de encarar alguns monstros criados pela gente ou pelos outros. Mas assim como os monstros criados pela gente ou pelas pessoas que nos contam quando crianças, é só uma ilusão boba. Siga em frente, querido, e muita luz.

    1. Fernando Sad disse:

      Muito obrigado,

      Como é bom saber que, mesmo não me conhecendo, exitem pessoas com bons sentimentos e que me desejam boa sorte !!!
      E pra quem acredita no amor digo que vai ficar tudo bem…

      Fernando Sigh von Adler

  3. Rogger disse:

    boa tarde a todos. por muitas vezes entro em chats gay e as pessoas com quem mais converso são homens casados, infelizes e dispostos a realizar o que consideram uma fantasia, transar com outros caras. Sempre me pergunto por que, as pessoas decidem se casar, mesmo sabendo de sua orientação sexual e assim, sofrem e fazem sofrer seus parceiros, no caso citado, esposas e filhos. como exemplo, mantenho contato por msn com um cara que, casado ha mais de 10 anos, não apenas sente atração, como assume ser um homo casado. essas coisas fazem com que reflita sobre minha vida, pois, aos 36 anos, ainda solteiro e sem filhos, assumo não ter a menor vontade de me casar, primeiro por que minha familia não cobra e depois, por que curto minha solteirisse, faço as coisas que gosto e, acima de tudo, porque, no lugar destes caras, não teria coragem de me enganar e enganar outra pessoa, mesmo que fosse pra agradar minha familia. desejo sorte a todos e grande abraço! Amigo do Rio de Janeiro.

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