Relato de um gay que namorava uma menina e que agora se assume gay

Um dos posts mais clicados no Blog MVG, “Relato de um gay que namora uma menina”, deve refletir uma realidade entre muitos jovens que namoram, vivem uma vida heterossexual mas que são na realidade gays que reprimem esse contato com a homossexualidade, quando não liberam esse reprimido por meio do sexo furtivo. A repressão é tema bastante recorrente no MVG e diz respeito ao modelo social padrão em que vivemos, sobre a heterossexualidade predominante, sobre religião e sobre a tradição que reside em nossos lares.

Na sociedade não se ensina sobre homossexualidade. Não aprendemos sobre esse assunto nas escolas de maneira lúcida e inclusa, nem os pais educam os filhos abertos a essa possibilidade. Em outras palavras, a regra é a heterossexualidade e, se somos gays, precisamos buscar nosso próprio conhecimento por aí, na prática, em sites, terapias ou com amigos que já vivenciaram experiências. Assim, um dos propósitos do Blog Minha Vida Gay é trazer mais próximo essa realidade, desmistificando um pouco os esteriótipos e indo além do que nossa imaginação ou achismo podem chegar.

Esse propósito tem gerado alguns efeitos muito benéficos a alguns leitores, no sentido de assumirem a homossexualidade e terem contato com a realidade gay rompendo com fantasias, preconceitos e inseguranças. Enquanto alguns apenas espiam o Blog e tentam entender onde se encontram diante tantos conceitos e assuntos por aqui, outros como o “P”, que tive o privilégio de conhecer e começar a construir uma amizade, resolvem por em prática suas vontades, tirar do que está reprimido os desejos e viver a vida gay com mais clareza, “as flores e os espinhos”.

Pensei em pedir ao amigo para criar seu próprio relato desses últimos três ou quatro meses depois do post “Relato de um gay que namora uma menina”, mas achei melhor descrever os pontos principais de sua história – que acompanho de perto – e, ele complementar se sentir-se a vontade.

Assumir a homossexualidade à ex-namorada

Depois de 7 anos e meio de namoro heterossexual, a primeira atitude que “P” tomou foi assumir que era gay a sua namorada. Muitos gays preferem inventar um assunto a expor essa realidade de maneira clara, para evitar mais transtornos e dores de cabeça projetando as culpas nas namoradas e as encheções nas mesmas. Mas a prudência, honestidade e maturidade são valores contidos na atitude de assumir dessa forma, mesmo que isso tenha gerado alguns “sustos”, transtornos e mal estar. Mesmo que essa revelação tenha colocado em pauta questões como masculinidade, rejeição e preconceito. Honestidade, mesmo que as vezes traga algum incômodo a princípio, no final eleva as relações para a transparência e revela sim maturidade. E foi assim que o amigo preferiu fazer há 3 ou 4 meses atrás. Hoje, ele e ex-namorada, já voltam a se falar e começam a trazer a afetividade e o amor que realmente existiram para o plano da amizade.

Assumir a homossexualidade para seus pais

Nesse processo, o amigo assumiu a homossexualidade para seus pais numa conversa franca e, também, honesta. Pais e mães costumam a transitar entre culpa, tristeza, entre querer bem ao filho e rejeição e, conforme o livro que ganhei do “P”, da Edith Modesto, quando os filhos resolvem sair do armário os pais tendem a entrar. O valor do tempo de cada um nessas horas, que pode durar semanas, meses ou anos é fundamental para se ter consciência antes de se assumir. Mediante a sociedade que conhecemos, ninguém tem obrigação de aceitar de imediato. Cada filho sabe os pais que tem e pode ter certeza que vice-versa. Nesse ponto, não quero dizer que o “caso bem sucedido de P” será igual para todos. É necessário pesar e ver o quanto cada um quer ou pode chegar com essa história de homossexualidade.

Sair da casa dos pais e morar sozinho

O próprio amigo resolveu sair de sua casa no interior de São Paulo para morar na capital depois de tudo revelado. Postura madura, diga-se de passagem. Assim, poderia ter maior contato com a realidade gay sem algum tipo de preocupação ou ressentimento. Encontrou na Internet algumas possibilidades e viu que uma das vagas para dividir um apartamento colocava a condição de dar preferência à gays. Achou curioso, foi sem medo até o local para uma “entrevista”, conhecer o lugar e assim se estabeleceu na cidade, junto com outro gays em fases de vidas diferentes.

Os primeiros contatos com outros gays

Por meio do Blog Minha Vida Gay, “P” conheceu Sammy, outro leitor. Encontraram-se pessoalmente uma, duas, três vezes e hoje começam uma amizade. “P” também conheceu outro usuário, do “Relato gay – Tantas pessoas na busca do tal grande amor”, conheceu a mim, “Fernando Lima ‘GC'” e assim vai conhecendo pessoas, gays, numa situação que não tem receios ou limitações para conhecer outros gays. Assim, vai entrando em contato com novíssimas referências de vida, costumes e estilos que há bem pouco tempo atrás não passavam de imaginação ou esteriótipos.

Nesse fluxo tem conhecido algumas Baladas GLS: Bubu Lounge, The Society e The Week e vem se aventurando em casos, e desventuras que o meio tanto exala. Certa vez, antes de entrar em sua primeira balada gay, fez referência a mim do post “Minha vida gay: do céu ao inferno. E depois no céu de novo”, no qual narro um ano que efetivamente realizei minhas fantasias. Assim, e em suas proporções e medidas particulares tem deixado se levar até determinado ponto, das ondas e marés dos hábitos e costumes do meio gay.

Nesse relato de hoje, nota-se um “P”, acima de tudo decidido, corajoso e honesto. Teve a benção por ter pessoas importantes a sua volta que trataram e tratam do assunto da homossexualidade com respeito, maturidade e equilíbrio. Não são todas as pessoas próximas a nós, mesmo os pais, que entendem nossa sexualidade e orientação com essa estabilidade emocional ou abertura. De qualquer forma, esse relato gay é uma referência saudável e madura, principalmente nos pontos que dizem respeito sobre honestidade, transparência e clareza na conduta de indivíduos para indivíduos. Valores e características que almejamos sempre dos outros, dos amigos, dos pais, dos colegas de trabalho, de políticos e da sociedade, mas que também precisamos construir em nós antes de mais nada. A mim, essas ideias formam o “coração” desse texto. Quando evitamos alguém, evitamos a nós mesmos.

Com quase dois anos de Blog MVG me deparei com um tipo de papel social, que não tem a ver somente com textos e opiniões sobre modelos, tendências e padrões de hábitos gays. Relatos pessoais, relatos de leitores e alguns conceitos amplamente narrados e reescritos no Minha Vida Gay tem contribuído para que algumas pessoas se sintam mais encorajadas, preparadas e acima de tudo conscientes de suas realidades sem o falso moralismo.

O MVG é um tipo de despertar de senso crítico de quem somos, qual é a nossa hoje e o que queremos para o amanhã, do contexto familiar de cada um e das possibilidades que cada indivíduo gay que tem acesso ao Blog e ao hábito de leitura pode conquistar a si, ou não, querendo ou não ser um gay além do que se é hoje. Assim, o papel não é apenas informacional, mas de movimentações sociais também, mesmo que em conta gotas.

A ideia, na medida do possível de cada indivíduo, cada lar e cada realidade conhecida e desconhecida, é que outros gays encontrem um “norte” com o MVG. A ideia é que outros “Ps” se identifiquem com esse blog e passem a encarar a questão da homossexualidade com mais desenvoltura e de maneira mais lúcida, que não tem necessariamente a ver com o consentimento de pais, familiares ou amigos, mas com o consentimento claro e bem aceito de si mesmo sob os próprios valores.

Posso estar enganado, mas creio que o maior ganho que “P” teve com o Blog foi de encontrar a si mesmo e encontrar possibilidades. Possibilidades além dos modelos que outrora família e sociedade definiam como as atitudes a se tomar ou posturas a se seguir.

Nesse ano de MVG, acompanhar “P’s” e “Fernandos” tomarem decisões importantes na vida para uma maior plenitude, sem esconderijos ou disfarces, sem nomes propriamente ou aparências sociais, foi um grande presente. Essas decisões apontam para uma emancipação e um amadurecimento como cidadãos que não são definidos pelo nome “gay”, mas pelo nome “ser humano”.

Cada coisa no seu devido lugar à medida de cada um, mas no devido lugar.

6 comentários Adicione o seu

  1. Felipe disse:

    Achei legal a historia de vida do “P” foi corajoso e se ele acha que o que fez foi bom para sua vida ótimo.
    Sou gay mas nem sempre compartilho e concordo com este modo de vida gay que este blog incentiva e promove, a homossexualidade não é facil de se entender mas tambem nao é tão complicada, as pessoas comentam e os textos se embasam em tantos argumentos que falam e falam e nao chegam a lugar algum. Sou da turma dos gays que não precisa sair do armario, que é maduro e emocionalmente saudavel e feliz, que se relaciona com outro homem estando contente com esta escolha de vida (dentro do armario).

    MVG gosto do seu blog (apesar de ter alguns textos e comentarios cansativos de tão grandes e acha-lo pretensioso quando vc se refere a missão do seu blog), como leitor gostaria de ler e que voce explorasse o outro lado da moeda, os homens gays que vivem fora do meio LGBT, que são muitos, que se envolvem, amam e até vivem com outros homens mas que nao necessitam se assumir perante o mundo (que tambem acho digno, corajoso e respeitoso!) e em sua maioria não são problematicos, imaturos e nem infelizes como a maioria dos gays torcem o nariz por estar no armario.

    É isso aí, vivamos a vida da forma que acharmos mais conveniente e comoda. Pra que complica-la?

    Felipe

    1. minhavidagay disse:

      Certo Felipe!

      Achei suas colocações bem sensatas. Seria interessante você falar dessa “turma” pois não vivo no armário há anos e o tenho como a minha antiga “prisão” mesmo. Interessante perceber que existem pessoas que tem o armário como um porto seguro de paz e equilíbrio. Isso é novo a mim. Gostaria de entender até melhor essa ideia. Poderia explicar?

      Como disse, você me pareceu mais sensato, apesar de sugerir que eu incentivo as pessoas a frequentarem o meio e não é bem verdade, mesmo porque estar no meio não quer dizer assumido no meu ponto de vista.

      Tenho bastante dúvidas sobre essa “turma” por desconhecimento mesmo e seria gentileza sua se pudesse esclarecer ao invés de apenas “atacar” meu ponto de vista:

      – como você conhece outros gays?
      – você costuma ter amizades com outros gays?
      – em que nível você está no armário, ou melhor, o que você considera como viver no armário?
      – você nega totalmente conhecer até um bar na Augusta? Se sim, por que?
      – quando namora que pessoas você inclui para compartilhar a relação? Amigos heterossexuais apenas?

      Entendo que você não pretende falar por todos, mas gostaria de entender um pouco mais sobre seu estilo de vida quando o assunto é homossexualidade no armário e feliz por ser assim.

      É para isso que o MVG serve, para oferecer referências novas também e entender melhor o que humildemente desconheço.

      Confesso ter ficado um pouco chateado por taxar como pretensioso minha postura de ajudar alguns leitores a ir além com a aceitação da própria sexualidade. Pretensão de que? De virar um “salva-gays”? Desculpe, mas acho que nesse ponto você se equivocou. Minha única pretensão é escrever meu Blog. Agora, fico feliz com os casos relatados e mais feliz pelo MVG ter ajudado algumas pessoas como eles mesmos relatam.

      De qualquer forma, Felipe, seria de grande utilidade que você relatasse um pouco o seu estilo de vida gay. Quanto mais referências lúcidas melhor!

      Obrigado pelo post!

      Abs,
      MVG

  2. fernando fázio disse:

    bom muito bom! MVG tem várias idéias e até deve ser muito útil para os jovens que nao tem as vezes a tranquilidade necessária para assumir a sexualidade e se aceitar inclusive!

  3. minhavidagay disse:

    Valeu Fernando! :)

  4. Marcos Freitas disse:

    Interessante, gostei muito.

  5. P disse:

    Apesar de parecer ousado e destemido, eu não me julgo assim com relação a essa parte da minha vida, acho que todos os amigos leitores não assumidos podem fazer o mesmo ou até mesmo mais, acho importante apenas uma boa dose se confiança nos seus valores, compreensão de que ser gay não é motivo para vergonha e principalmente confiança no amor construído com as pessoas importante da sua vida, quando colocamos tudo isso na mesa, assumir a homossexualidade começa a ficar menos pesado, flui melhor, claro que sempre dá um frio na barriga, mas vai diminuindo com o tempo.

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