Minha Vida Gay – Um pouco mais do que é o blog

Recentemente recebi comentários de alguns leitores. Foram alguns “puxões de orelha” protestando sobre o Blog MVG dando mais preferência para os gays que frequentam o meio ou os que são assumidos.

Na realidade, esse post é um pedido de desculpas para o caso se não me fiz entender: respeito as condições dos gays enrustidos, dos assumidos, dos afeminados, dos masculinizados, dos passivos, ativos, dos bissexuais, “indefinidos” e “confundidos”.

As desculpas não significam justificativas para pontos de vista pessoais que expresso aqui e ali, nos diversos posts que publico. Continuo e continuarei achando que os estados “assumido” e “receptivo aos estilos” me soam mais esclarecidos e mais abertos a diversidade, a própria diversidade. Continuo achando que viver na condição “dentro do armário” nos priva de crescer e ter contato com a nossa realidade de maneira mais ampla ou mais profunda. Ou melhor, quando a gente é enrustido, sempre vai existir uma desculpa pra deixar de fazer alguma coisa por ser gay.

Por fim e não menos importante, continuo achando que quem está bem do jeito que está e feliz com sua condição não precisa mudar. Afinal, por que mexer em estados, padrões e modelos que nos satisfazem? “Em time que se está ganhando não se mexe”, não é verdade?

É importante deixar claro que o tom, propósito, missão ou objetivo do Blog Minha Vida Gay não são de abordar assuntos de maneira superficial e apesar de me classificar como “blogueiro”, aplico alguns valores psicológicos, sociais e comportamentais – consequentemente, psique, relação entre pessoas e grupos, e comportamento perante família, amigos e sociedade no geral – apresentando centenas de referências pessoais ou de relatos gays de usuários. São referências, não são propriamente ideias certas que todos devem seguir e não são verdades absolutas porque nas relações e condições humanas não existem verdades absolutas. Nas ciências exatas, 2+2=4. Nas ciências humanas, 2+2 pode ser zero (anulação), quatro (estabilidade) ou cinco (sinergia) dependendo do ponto do vista e das atitudes que tomamos nas diferentes circunstâncias da vida. Assim, a tendência dos assuntos abordados não é de chegar numa conclusão, numa definição ou num resultado. Não existem conclusões ou definições para a vida de ninguém, nem garantia de resultados esperados caso alguém resolva se assumir ou caso alguém resolva continuar no armário. Cada um é cada um certamente, mas a escolha da condição que se vive traz consequências. É sobre essa consciência que o MVG busca falar.

O que existe no Minha Vida Gay são textos que apresentam possibilidades e casos essencialmente reais, que podem servir como inspiração ou esclarecimento para um, ou não ter nenhuma identificação para outro. Não tenho a pretensão de agradar gregos ou troianos, embora uma maior reciprocidade dos mesmos – seguindo a ideia de que uma sociedade formada por pessoas mais individualistas tende a se perder em conflitos e uma sociedade mais unidade tende a se fortalecer como sociedade – é também uma ideologia pessoal. Nesse ponto, digo que nos falta clareza de identidade e não de rótulos propriamente. O olhar atento de cada leitor, cada qual com seu estilo, os comentários e os diversos relatos não deixam de ser essa aproximação de unidade.

As desculpas, que peço humildemente para alguns gays – leitores do MVG – dizem respeito ao tolerar as condições e valores de cada um. Busco fazer isso sim. Porém, no momento que o Blog Minha Vida Gay tende a manifestar o sair do armário e o respeito à diversidade como propósitos que gera efeito na sociedade, principalmente no sentido de esclarecimento das pessoas próximas a nós e na inclusão de todos os estilos, não pretendo mudar esse foco mesmo que para alguns incomode os tipos de pensamentos aqui expressos. O conflito de ideais e ideologias é natural em qualquer rede. Não seria diferente por aqui. Pensamos diferente apesar de, na essência, sermos todos bem parecidos.

Na prática, em nosso cotidiano, longe do Blog, a gente acaba – mesmo que sem querer – supervalorizando as diferenças e não as semelhanças. Coisas de ser humano que o MVG vez ou outra sugere também mudar, ou pelo menos pensar a respeito.

Importante também reforçar que todos nós, sejamos gays assumidos, enrustidos, masculinizados, afeminados, passivos, ativos, bissexuais, “confundidos” ou “indefinidos”, vivemos em contextos familiares, de pai, mãe e irmãos de maneira exclusiva e particular. Nesse ponto, quero reforçar que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” e dos contextos individuais em que se vive cultura familiar, hábitos e valores. Importante sermos bastante prudentes com as pessoas que convivemos todos os dias e prudentes com nós mesmos.

As desculpas aqui expressas não dizem respeito a fraqueza ou falta de masculinidade. Mas é um exercício de humildade, caso tenha deixado entender que privilegio alguns grupos. Busco não privilegiar nenhum estilo gay, mas privilegio totalmente e definitivamente um conceito: uma sociedade mais consciente, esclarecida e mais receptiva a todos os “tipos” gays. Mas para isso acontecer, falo muito da responsabilidade que cada um tem para tornar nossa situação melhor perante a sociedade, incluindo a maneira que enxergamos o gay e a nós mesmos. Pessoalmente, com 35 anos e com a situação de vida que tenho em relação as pessoas próximas a mim, não precisaria escrever uma linha de MVG para me assegurar da minha sexualidade e da realidade gay numa capital como São Paulo. Mas faço isso pois, além de ser um exercício de auto-conhecimento, acabo levando referências para gays que realmente estão precisando de referências. Quem está bem como está, me questiono o por quê de frequentar o Blog! rs

Não quero mover montanhas, nem pescar para os outros. Mas se posso “ajudar a ensinar a pescar” com boa vontade e prazer por que não fazer?

Já tenho feito há quase dois anos no Blog e há 12 anos na vida real mediante familiares, amigos e equipe de trabalho. E o que é o Blog MVG senão uma abertura pessoal para traduzir a ideia de que ser gay emancipado e independente dá certo? Funciona assim comigo perante grupos de amigos, dos pais, namorado, pais do namorado, pessoas do trabalho e assim por diante. Mas foram 12 anos e não 12 dias. Foram sustos, choros, discussões, lamentações, críticas, afastamentos e reaproximações. Hoje são risadas, bem estar, paz, equilíbrio e naturalidade. Se plantamos espinhos, colhemos espinhos. Se plantamos flores…

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Hoje é um dia bastante especial. Meu namorado foi para uma festa na casa da tia e dormirá na casa dos pais. Preferi levar os meus pais para um passeio no Outlet Premium na região de Campinas. O tempo ajudou muito e o dinheiro no bolso também! (rs) Como foi aniversário do “meu véio” na quinta passada, “abandonei” meu namorado e seus “trocentos” tios e primos para fazer um agrado para alguém de 71 anos de vida terrestre recém completados, desses, 60 extraterrestre (rs).

Por gostar desses passeios de carros e lugares diferentes, meu pai comentou que sempre que fizer coisas do tipo que o chamasse. Nesse momento a minha mãe estava do nosso lado, hora que todos estavam a mesa almoçando. Quando ele levantou essa ideia, logo respondi: “Tudo bem, posso chamar tranquilamente para você vir, mas na maioria das vezes estarei acompanhado” (me referindo obviamente ao meu namorado). Em seguida ele fala: “Tudo bem, me chama quando não estiver acompanhado então”.

Voltei para casa e me encontraria com o amigo “Charosk” num bar na Gay Caneca (ou Frei Boneca, como preferir). Não deu certo e chamei um amigo (hétero) aqui em casa para provar do hambúrguer caseiro que resolvi preparar. Comentei a ele da situação engraçada que tive com meu pai quando se referiu a passear comigo sempre que pudesse. Meu amigo, que conhece meu pai há anos, disse assim entre risos: “É, seu pai mudou mesmo!” (não só ele, como eu também).

Agora que abri o MVG para escrever esse post me deparei que o Blog obteve hoje o maior número de visualizações de todos os tempos num único dia: 787. Adorei! (rs).

Quando a gente é assumido e aberto a diversidade, não existe bloqueio, desculpas ou “mentirinhas” para evitar situações ou deixar de poder ir e vir na maioria das circunstâncias. Ou melhor, a gente não se condiciona a questões relacionadas a nossa sexualidade por nos sentirmos responsáveis de um “erro de padrão”, nem se acostuma com isso. A mim, foi e é fundamental ter essa autonomia e não estou dizendo que esse modelo é o que todos procuram ou todos querem, mas são situações assim que o Blog Minha Vida Gay traz aos seus leitores.

Isso é o MVG.

2 comentários Adicione o seu

  1. Todo homem precisa ter algo a que seguir, algo que lhe sirva de guia. Aquele que segue com convicção a beleza e a bondade deve sentir-se fortalecido por estas palavras.

    1. Retirei estas palavras de um antigo livro chinês, chamado I-Ching e depois de ler o seu texto, imaginei apropriado. Esse é um local, virtual, sim, mas que encontrei uma turma bacana, todos diferentes, mas todos iguais foi um slogan de uma campanha publicitária contra o racismo em Portugal no ano de 1995.

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