Gay que não se identifica com gay

Algumas semanas atrás recebi um e-mail do “FM”, um gay com seu joviais 17 anos que comenta as dificuldades que tem por ter “estilo de vida heterossexual”, como ele mesmo comenta: “Levo uma vida de hétero e eu realmente gosto dessa vida, fora a parte que eu tenho que mentir para as outras pessoas sobre quem eu sou. Tenho vários amigos héteros (praticamente todos) e gosto muito da amizade deles, gosto de conviver do meio hétero, da parceria, da irmandade, das molecagens e essas coisas de homem, porém me sinto muito preso pelo fato de eu ter que fingir gostar de mulheres, essa é a única parte que me incomoda. Não queria ter que contar, mas mentir pra todo mundo está me fazendo mal. É uma bola de neve. Tenho medo de que quando eles souberem acabe a amizade e eu acabe ficando sozinho, até porque eu não me encaixo muito bem no meio gay”.

Ler esse breve relato lembrou quando tinha meus 23 anos e passava por situação semelhante. Naquela época, a grande maioria dos meus amigos eram homens e heterossexuais. Eram e são amigos do colegial e da faculdade, predominantemente. No período que estava decidido a assumir a minha homossexualidade calculava o número de amigos e resolvi ligar o “que se foda” se eles me aceitassem ou não. Imaginava que sair do armário, para amigos heterossexuais, faria alguns deles se afastarem e outros não. De qualquer forma, o meu discurso estava pronto e era mais ou menos assim:

“Sou gay, mas isso é somente um detalhe. Tenho apresso pela nossa amizade, nunca tendenciei a me encantar por nenhum de vocês e gostaria que a nossa amizade continuasse a mesma”. Entre nuances e outros detalhes, essa era a mensagem principal que carregava para a grande maioria de amigos, meninos e meninas, quando me assumia.

Uma das respostas que eu ouvi algumas vezes, de maneiras diferentes de se falar foi essa: “antes de tudo, você está certo disso? Porque apesar de você praticamente não falar da mulherada, não dá pinta nenhuma. Não passava pela minha cabeça essa possibilidade. Se você está certo, fico muito feliz por ter contado pra mim. Isso tende a fortalecer ainda mais a nossa amizade por ser algo tão íntimo. Fico bastante feliz por ter aberto o jogo comigo”.

Resumo da ópera: não perdi nenhum contato por me assumir gay. Perdi por outros motivos, que não foi revelar a minha sexualidade!

E foi nesse lance de “ação e reação”, cujo o ponto central do meu discurso e do discurso da maioria dos meus amigos se traduziam dessa maneira, que a intimidade valiosa, curiosa e “difícil” estava se compartilhando nas relações comigo e com meus amigos heterossexuais.

A partir daí comecei a pensar que as boas amizades, aquelas que te enxergam para além da intimidade sexual, não nos definem por essa parte pequena que somos: gays. Por aqueles que se afastam, definitivamente, não devemos nos culpar. Essa frase pode soar como um clichê, mas aquela pessoa que nos julga ou se limita pela nossa homossexualidade, definitivamente, não cabe como companheiro. Não faz nem sentido ser amigo!

Depois da revelação, o padrão de muitas conversas, até durante muitos anos – cada qual seguindo sua vida – foi questionar-me sobre o universo gay. Me sentia uma verdadeira biblioteca de conceitos “além do arco-íris”! (rs) No começo, assim como parte dos gays, a mim não existia uma identificação imediata pelo meio. Fui uma ou duas vezes nas baladas que me enchiam de preconceito por justamente me deparar com alguns dos esteriótipos mais comuns vendidos por aí. Preconceito que fui quebrando mediante algumas realidades que passei:

– Os amigos heterossexuais, bem ou mal, vão em sua maioria seguindo a cartilha social. Encontram respectivas namoradas e boa parte começam a pensar em casamento a partir dos 26 anos. Conseguíamos manter uma boa frequência de encontros, todas as semanas, enquanto esses compromissos e responsabilidades não se estabeleciam. Depois, com tempo, era casamento de um, de outro e – hoje – com filhos, família para sustentar e devoção ao trabalho para manter o lar, se os vejo uma vez por mês já é uma boa medida! Certo ou errado, amigos heterossexuais vão seguindo caminhos que tendemos não acompanhar. Para quem ainda não chegou nesse período, sugiro aproveitar os amigos! Porque a frequência de encontros tende a naturalmente diminuir a medida que os amigos heterossexuais casam. Até mesmo antes de casar, o simples fato de entrarem em namoros mais sérios acaba afastando um pouco mais;

– Paralelamente a isso, entre um namoro e outro, resolvia desvendar melhor o meio gay. Era evidente que tinha preconceito, principalmente por não me identificar com os modelos e padrões. Não era chegado a grandes loucuras e farras, ou pelo menos, reprimia algumas vontades alegando que aquilo tudo não tinha a ver comigo! Só que uma coisa é particular e real: apesar do preconceito, que me colocava a frente de barreiras para ficar a vontade em alguns ambientes do meio, eu sempre tive curiosidade para conhecer pessoas diferentes de mim, mais velhos ou mais novos, dentro e fora do meio. Tão particular que hoje – as vezes – falo mais com os pais de determinados amigos que propriamente os amigos (rs). Assim, aquelas poucas vezes de “noite GLS” se somavam em mais saídas, baladas, bares e pessoas sem necessariamente sair beijando aos montes, mas me permitindo quebrar com as barreiras e aquele desculpa de “não me identificar com o meio”. O não me identificar com o meio era uma desculpa (mesmo) para não me expor, não correr o risco de encontrar um conhecido que ainda não soubesse e não me envolver com determinadas pessoas achando que poderia me “intoxicar” e virar alguma coisa diferente de mim! (rs) E, por mais que eu fizesse do contra, em qualquer lugar é sempre possível encontrar uma ou mais pessoas que a gente se identifique, independentemente do estilo de ser, independentemente de ser no meio ou não;

– Rompido o preconceito, as barreiras e o medo de ser mais um no meio, estava eu lá curtindo algumas histórias sem glórias nem deméritos propriamente. Balada é balada em qualquer lugar do mundo!

Meus amigos heterossexuais aculumavam perguntas e eu, a medida que ia conhecendo o meio, vezes deslumbrado, vezes cansado, ia acumulando respostas, desmistificando imagens a ponto – sim – de já ter levado boa parte dos meus amigos heterossexuais em algumas boates como a “antiga” D-Edge e a saudosa Ultra Lounge, quando era na Rua da Consolação, a primeira, que hoje é um supermercado.

Não faz muito tempo atrás, e 2010 foi o último ano, que fazia todos os anos minhas festas de aniversário em casa. Iam meus amigos do colegial (heterossexuais), da faculdade (heterossexuais), ex-sócios (heterossexuais), integrantes da minha empresa (heterossexuais), ex-namorados, namorado e amigos gays. Definitivamente, as festas regadas a bebidas e comidas na faixa, foram também um exercício de diversidade, do não-preconceito e do compartilhar o mesmo espaço independentemente da sexualidade. Ao mesmo tempo que os gays aprendiam a dividir conversas com heterossexuais, os heterossexuais passavam a entender um pouco mais – de perto – a natureza de ser homossexual. Claro que no dia seguinte uma piada ou outra sobre alguém um pouco mais “solto” eram pronunciadas a mim para – inclusive – arrancar algumas risadas. Mas o que é isso, senão um atitude humana? Não sou gay que me incomodo com piada de viado e creio que não tenha nenhum amigo assim! (rs)

Assim, FM, se lhe é incômodo ficar falando de mulheres e forçando esse assunto para se identificar no grupo (sei bem o que é isso e é um tremendo de um saco!), se você não aguenta mais essa situação e acredita que – diante 10 amigos – pelo menos metade pode levar numa boa e essa quantidade lhe parece suficiente, porque não colocar a bunda para fora do armário? (rs).

Ficar simulando “curtir mulher” , “buceta” e “gostosas”, entre outros termos que os homens referenciam, eu sei, é muito chato! Eis um mal que até comentei num dos primeiros posts do MVG: “gay que não parece gay” vai sempre precisar verbalizar qual é a real se a vontade é acabar com essas situações. O “pior”, FM, é que mesmo assim eles vão continuar a falar da mulherada para o infinito e além! rs.

A diferença é que você vai poder brincar, como fiz algumas vezes e creio que irei fazer ainda muitas outras: “Meu, será que dá para falar um pouco de pinto agora?!”. Ótima tirada para liberar muitas risadas! ;)

Imagine todas essas situações e se esses comportamentos lhe soam divertidos e prazerosos, por que não assumir? Pode haver perdas imediatas, mas no final você terá mais ganhos.

Hoje faço naturalmente intersecções entre amigos heterossexuais, amigos gays, namorado, família e assim por diante. O que não representa isso senão o ato de viver e se relacionar bem? Não sou uma pessoa do tipo que coloca as pessoas em “caixinhas”, caixinhas nos amigos gays, caixinha dos amigos heterossexuais, caixinha da família e caixinha do namorado. O barato – a mim – é poder viver um pouco de tudo e tudo um pouco junto, exceto a “caixinha das pessoas do trabalho” que quando se mistura muito, perde um pouco a referência do profissional com pessoal! :P

Está aí meu toque, FM!

4 comentários Adicione o seu

  1. Você é incrível e possui um DOM lindo de se transpor e ajudar a todos esses meninos, homens e senhores que vem buscar algum tipo de orientação e identificação com você! Me assumi esse ano e tenho 26 anos. Sou seu fã e não deixo de ler seu blog e devo confessar que ele é de longe uma leitura esclarecedora e saudável pra qualquer gay independente de sua faixa etária, credo ou caixinha! rs Que nunca te falte inspiração, amor e energia nesses dedinhos mágicos! Um super abraço!
    – P.S: acho que você deveria escrever um livro! Seria um sucesso!

    1. minhavidagay disse:

      Rs… obrigado Rodolfo!
      Fico feliz por suas palavras e por saber que tenho um fã! :P

      Um abraço!
      MVG :)

  2. Wicked disse:

    Por mais que no fundo a gente ame aquelas pessoas que chamamos de amigos e também no fundo temos medo delas deixarem de nos amar pelos somos, e então fazemos o tal do sacrifício do nosso ser por um ser diferente de nós, dói muito.

    Eu refleti sobre mim, depois de ler este relato do FM e MVG da situação, que a desonestidade comigo mesmo me feria mais que perder a amizade dos meus amigos. Pelo menos assim foi o meu caso. Em vez da verdade eu tomei o caminho da “fuga”. Perdi o contato com eles propositalmente a ter de encara-los. Não recomendo ninguém essa alternativa. Quem dera eu encontrasse esse blog naquela época pra que me desse uma luz nessa questão.

    Acho válido você contar a verdade mesmo, FM. Se você pretende ter no futuro sua homossexualidade assumida, seria bom parar pra pensar que esse futuro pode ser agora mesmo, é só você dá o “start”.

  3. Ali disse:

    Muito legal e muito REAL esse texto. A sua orientação, sem comentários cara, PERFEITA!!

    Embora eu discorde de alguns temas e da maneira como são abordados, quero que saibas MVG, que sou tremendamente teu admirador.
    Você tem uma capacidade incrível de contextualizar cada situação de uma maneira singular e realista, sem precisar ser piegas ou demagógica.

    Parabéns pelo blog e pelos “serviços prestados” (rsrs) aos demais leitores ao longo do tempo.

    Sou chato em certas questões que se mostram insolúveis e improdutivas, mas também sou bastante compreensivo e mente aberta com questões que vão dignificar e beneficiar o indivíduo.

    Acho que você busca fazer o mesmo, não é?! rsrs

    Abraços.

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