Vida gay – Paixões na faculdade


Recebi hoje um post de um leitor que segue a linha de outros comentários que estão bem recorrentes: homens que já se envolveram por mulheres, ficaram, namoraram e que – de súbito ou nem tanto assim – sentem algum tipo de desejo por outro homem. Vale mais esse relato do LED que está fissurado por outro homem e vive as complexidades de ver qual é. Referência boa para quem passa por situações parecidas nos corredores das faculdades, época em que os jovens costumam a viver de maneira mais franca as experiências sexuais.

Relato de LED:

De antemão gostaria de parabenizar pelo blog, ele é ótimo e serve como referência para o dia-a-dia dos leitores.

Gostaria da sua opinião, já que não tenho ninguém pra conversar a respeito, sobre uma paixão que virou minha vida do avesso.

Antes de decidir escrever, eu li muitos posts aqui a procura de esclarecimentos, e em todos eles eu pude tirar uma lição. Mas mesmo me identificando com os posts eu ainda queria escrever para receber um direcionamento específico. Então vamos lá…

Durante toda a minha vida fui hétero, já “peguei” várias mulheres que até perdi a conta e até namorei duas vezes sério (o primeiro namoro durou 7 meses e a segundo 2 anos). Esse ano conheci um cara na faculdade que mudou a minha vida. Desde o primeiro instante que eu o vi, senti algo diferente por ele, uma atração, como isso nunca me ocorrera antes, foi muito difícil para aceitar essa condição… mesmo tentando negar, eu sabia que estava começando a me apaixonar e por isso busquei uma aproximação pois queria ter algum relacionamento com ele (mesmo que seja só amizade).

Depois de conviver um tempo com ele, fui cada vez mais me apaixonando e essa paixão virou doença… já não pensava em outra coisa a não ser no dito cujo, o tempo todo eu queria estar perto dele e tudo que eu via e ouvia me fazia lembrar dele.

Ele é gay, porém muito discreto (quase ninguém sabe), e eu ainda não sei qual é a minha vontade… ainda gosto de mulheres, mas estou apaixonado por esse amigo gay, porém tenho medo de arriscar qualquer coisa com ele pois ainda nos conhecemos a pouco tempo. Além do mais, o fato dele ser gay e nós sermos amigos não significa que vai rolar alguma coisa… e se ele me ver só como amigo? Como posso decobrir se ele está afim de experimentar alguma coisa comigo?

Estou muito confuso… me ajude! (detalhe, idade influencia até quando? Pois eu tenho 20 anos e ele 34 anos)

Obrigado!

MVG:

Oi LED!

Tudo bem? Seu caso é bastante interessante e achei consistente para partilhar no Blog. Existem alguns aspectos aí que são legais você refletir:

Atração afetiva ou sexual por um homem?

O primeiro ponto que você tem que parar para pensar com atenção é se esse envolvimento é apenas sexual ou afetivo. Pelo que você relata, tem jeito de ser uma paixão e paixão tem relação com afeto, vontade de estar junto, não parar de pensar e todas as sensações que – quando estamos emocionalmente envolvidos – rola com a gente. Isso é igual para homens e mulheres quando nos apaixonamos.

Imagino que passa um monte de inseguranças e dúvidas sobre esse novo acontecimento em sua vida, afinal, na sociedade em que vivemos não esperamos acordar um dia nos sentindo envolvidos por um homem e plenamente resolvidos e satisfeitos porque é uma “normalidade social”. Assim, amigo LED, veja se você realmente está preparado para encarar essa possível realidade, de estar efetivamente envolvido por outro igual, do mesmo sexo. Você se assumindo a ele e depois demonstrando sua afetividade, não quer dizer garantia de que a amizade segure a sua onda! Quem tem que segurar a onda é você mesmo e não criar expectativas no outro. Essa responsabilidade é sua.

Você assumiria seu afeto? Assumiria seu envolvimento sexual por outro homem a você mesmo? Espero realmente que sim. Mas nem todos assumem e, as vezes, preferem reprimir. Só que a psicologia é clara: podemos optar por reprimir um sentimento ou um desejo que vivemos em determinado momento. Mas cedo ou tarde vem o que os psicólogos chamam de “retorno do reprimido” e as vontades retornam na mesma intensidade, senão mais intensas, projetadas em outras circunstâncias, objetos ou pessoas. Podemos viver eternamente reprimindo e convivendo com o retorno, ou buscar resolver que é tomar consciência, aceitar e assumir.

Quero me assumir a ele mas não sei qual será a reação

Você tem duas “etapas” pela frente. A primeira é abrir o jogo que você anda com dúvidas. Como seu histórico de vida sempre foi da heterossexualidade e essa é a sua primeiríssima experiência de um sentimento homoafetivo, não dá para categorizar que você seja gay. Tudo indica que a homossexualidade também faz parte da sua realidade. Assim, a minha dica – sabendo inclusive que o rapaz é gay e isso é meio caminho andando – é que troque uma ideia com ele dizendo que as vezes você tem dúvidas sobre sua sexualidade. Na realidade é isso mesmo que está expresso em seu relato e você pode negar ou não, mas no momento que você teve diversos casos heterossexuais e se depara pela primeira vez com um envolvimento homossexual/homoafetivo, existem questões a serem esclarecidas! Nada melhor que tentar ter com esse seu amigo uma conversa sobre o assunto. Ao que tudo indica ele é amigo e gay.

Com essa conversa, acredito que alguns passos serão dados sobre o que passa com você, sobre ele e sobre as possibilidades entre você e ele. Uma coisa é você poder ser gay ou bissexual (ou o nome que quiser dar). Outra coisa é a sua paixão platônica (platônica sim porque é vivida, idealizada e não é assumida) por seu amigo.

Na segunda etapa, depois que os primeiros assuntos estiverem mais esclarecidos, você pode ver o quanto rola um contato mais íntimo com ele. Com gays, normalmente, a coisa flui melhor sem grandes processos de flertes, paqueras ou galanteios. Imagino eu, que ele com 34 anos, já seja maduro o suficiente para entender os “sinais” de uma cantada que, as vezes, pode ser apenas com um olhar. Esse olhar você estará mais disposto a dar a partir do momento que a “primeira etapa” estiver resolvida (rs).

Esse processo de “etapa 1” e “etapa 2” podem demorar meses, dias ou horas (rs). Vai depender exclusivamente de você (em primeira instância) e do seu amigo (rs).

Nessa história não existem garantias que vá dar tudo certo. Não existem garantias que ele seja totalmente receptivo as suas dúvidas (etapa 1) mesmo sendo gay e muito menos garantias que possa rolar um “algo mais entre vocês dois” (etapa 2). Entendo que sexo seja algo mais tangível entre gays, mas afetividade – meu caro amigo LED – é algo mais difícil de se ter em troca sob todas as formas, seja no meio gay ou heterossexual. Afetividade exige um nível de naturalidade, resolução, clareza, convívio e sintonia que não surgem estalando os dedos. Normalmente é assim.

A idade influencia?

No geral não influencia. Tem gays que se relacionam apenas com pessoas da mesma idade mas, a maioria que conheço, conferem relacionamentos com diferenças de idade sim. 34 anos para 20 são 14 anos de diferença! Precisa ver se o seu pretendente curte pessoas mais novas, assunto que você pode abordar também na “etapa 1”. Posso dizer que muitos gays depois que passam dos 30 anos tem uma tendência a se envolver com homens mais novos. Não são todos, mas boa parte que conheço começam a dar mais atenção para os mais jovens (Freud ou Lacan explicam, ou eu mesmo devaneio em outro post sobre o assunto depois – rs).

No seu caso, essa dúvida sobre idade talvez seja mais fruto da sua insegurança por tudo que está passando no momento.

Assim, querido LED, o seu comentário acabou virando relato no Minha Vida Gay para enriquecer um pouco mais o Blog. Não tenho respostas exatas ao seu caso e na realidade não tenho respostas objetivas para nenhum dos casos que a mim chegam. Busquei aqui te orientar para que – acima de tudo – você organize suas ideias, a partir das reflexões primordiais ao que é menos relevante.

A minha dica é que não reprima esse desejo e deixe fluir. Não se culpe por sentir esse envolvimento por um homem nem viaje demais sobre o que as pessoas podem pensar. Veja se o terreno está seguro para você e se realmente você está certo dos sentimentos que estão acontecendo. Muitas vezes precisamos de um “bode expiatório” ou alguém para nos envolver para que possamos assumir a nossa homossexualidade.

Essa paixão (afetividade) me parece autêntica e o fato de ter acontecido com você de maneira natural, sem propósitos ou receios de julgamentos, enobrece o próprio sentimento. Isso é bem legal!

Sabendo que ele é gay e que vocês já têm uma amizade eu não perderia tempo. Mas não deixe de pensar em todos os pontos levantados aqui ao invés de ser impulsionado apenas pelas emoções. Pelo menos, nessa primeira vez, é bom dar luz a razão porque assumir esse envolvimento pode abrir brechas para que você assuma – inclusive – a sua homossexualidade e homossexualidade, como você leu em diversos textos por aqui não é compreendida ainda com a fluidez que se encontra a heterossexualidade.

Já ouvi alguns relatos de gays que só assumiriam serem gays se rolasse algo com determinado cara. Já ouvi isso em relatos no MVG e na vida real de algumas meninas (potenciais lésbicas). No meu ponto de vista, quando esse tipo de situação acontece, é que projetamos/lançamos a nossa própria sexualidade num único objeto (pessoa) e essa pessoa vira a “desculpa” para assumirmos nossa homossexualidade. Só que as vezes essa pessoa é tão inalcançável que colocamos a possibilidade de revelar a homossexualidade bem longe da gente, numa pessoa que jamais conceberia um relacionamento gay.

Mas também creio que esse não seja seu caso.

Abraço,
MVG

5 comentários Adicione o seu

  1. LED disse:

    Eu realmente não esperava que o meu caso se transformasse em um novo post do MVG. Fiquei surpreso com isso e feliz por poder ajudar os outros leitores que assim como eu buscam no blog orientar-se através de casos e situações com os quais mais se identificam.

    Tudo aquilo que você disse para mim foi de muita ajuda, como eu disse antes, eu não tenho com quem conversar a respeito, portanto precisava de uns conselhos e dicas de alguém para que essa “confusão” toda na minha cabeça se esclarecesse.

    Eu procuro me entender cada dia melhor, as vezes é difícil, mas tenho buscado esses tipos de ajudas online, com pessoas que passaram ou passam pela mesma situação que a minha e acredite estou encarando isso com muito mais naturalidade atualmente, principalmente agora, depois de ler o que você escreveu.

    Vou buscar seguir seus conselhos e dar início as etapas o mais rápido possível, farei de tudo para que da minha parte ocorra bem. Afinal um momento como esse, onde uma paixão completamente afetiva que surgiu do nada, não pode ser desprezada! É um sentimento bonito, verdadeiro, e eu não quero deixar isso passar sem que ele saiba disso.

    Muito obrigado e torça por mim! (rs)

  2. Jack disse:

    Quase idêntica essa historia a minha… porém ocorre o inverso, eu tenho 33 incompleto e ele deve ter no maximo 22. Essa paixão aconteceu de encontro de olhares e está acontecendo sempre na faculdade… Não sei onde vai dar, mas a gente nao se conhece e só se flerta… Mas desejo boa sorte pra vc LED.

    1. OH muito loco isso flertes e tal … boa sorte men.

  3. Gostei muito da forma que o tema foi abordado, como o servidor do blog, que se expos de forma adequada as perguntas que foram feitas, e sobre tudo a maneira como o dialogo se encerra, parabéns pelo blog.
    E boa sorte LED, espero que tudo ocorra bem, vai com calma e converse com seu amigo aproveitando as dicas que foram passadas, que vai dar tudo certo.

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