Vida gay – Lembranças de uma paquera

Paixão pelo outro precisa de reciprocidade? Nem sempre, eis o meu relato.

Volto a falar de 2009, ano que vivi as experiências do céu ao inferno, para depois me encontrar no céu de novo. Foi um período da máxima intensidade individual, das buscas pelos prazeres carnais, sociais e de ostentação que a minha vida gay me permitia na época.

O cenário na ocasião era o Sonique, aos domingos, no Café com Vodka promovido pelo Duda Hering. De certa maneira, a “nata” gay de São Paulo (ou pelo menos os bem vestidos) se reunia todos os finais de semana por lá, a grande maioria numa expectativa de não ter que começar a semana de carreira solo.

Sou do tipo de pessoa que, na grande maioria das vezes que namorei, fui adquirindo um interesse pela pessoa, ou, o envolvimento foi se construindo. Claro que naquele ano repleto de exposição de quarta a domingo, me pegava várias vezes atraído por tipos físicos. Mas, tipos físicos, é coisa de tesão. A coisa da paixão a primeira vista, de colocar num pedestal, é algo muito difícil comigo, talvez, por “já ter rodado bastante” ou pela maneira que entendo os indivíduos e o mundo que neles está contido.

Cada pessoa, a mim, é um mundo. Mundo as vezes repleto de névoas e camadas e outros mais nítidos e transparentes. E raríssimas foram as vezes que a aparência me encantou a ponto de me sentir disposto a tomar alguma atitude que não fosse o sexual. Misógino ou não, o encanto acontece depois que cultivo alguma intimidade quando o assunto é relacionamento.

Foi num domingo no Sonique que troquei olhares com um menino, o “Perna”. Já havíamos nos reparado uma vez, ou duas talvez, no Sonique e na Lôca. Mas foi no Café com Vodka que rolou uma aproximação. Confesso que não me lembro como trocamos celular, nem como nos adicionamos nos respectivos Facebook’s. Do dia que conversamos pela primeira vez no Sonique, minha memória me leva direto ao dia que o convidei para jantar no Chakras, na Melo Alves.

Foi uma paixão arrebatadora, a primeira vista e que não me induzia ao sexo como das outras vezes. Me encantava olhar nos olhos, ouvir a voz e esperar pelo momento certo para roubar um beijo com muito abraço.

Estava com bastante medo daquele sentimento ou de expô-lo e não ser correspondido. Como eu, 33 anos na época, que já tinha vivido a experiência do casamento gay, dono de empresa e emancipado financeiramente, poderia me encontrar naquele estado juvenil, da coisa da paixão adolescente gay?!

Naquele contexto, vinha a mim as palavras de algum filósofo, pensador ou guru: “a paixão ou o afeto que você tem pelo outro é seu e está desprovido de reciprocidade ou julgamento alheio. Se você sente-se apaixonado, sinta-se um afortunado e não espere que o outro corresponda. Exponha e viva essa emoção pois isso alimenta a sua alma” – algo do tipo.

O jantar foi excelente e, embora nunca tivéssemos conversado atentamente antes, ficamos umas três horas falando sobre amenidades, vida, universo, Osho e tudo mais. Em resumo, fluiu tudo bem.

Havia anos que não me sentia envolvido por alguém daquela maneira, se é que tinha vivido uma paixão assim por um homem, de súbito sem “desvendar os mundos”. Mas deixei a história fluir e, ponderando meus pensamentos e vontades, ele estava de carona no meu carro e tentei roubar o beijo. Ele infelizmente negou!

Aquilo me deu um gelo e senti o poder do orgulho querendo me dominar. Foi estranho lidar com aquela rejeição e ao mesmo tempo confuso. Não sabia como reagir diante da negação que me parecia improvável, quando notei que provável somente no meu mundo!

Mas “mantive a linha” e continuamos a falar. O gelo foi suficiente para arrebatar minha paixão, do jeito que veio, foi. Começamos a construir uma amizade, de ir ao teatro juntos, cinema, mais restaurentes e obviamente não podia deixar de levá-lo no Bar da Dida (rs).

Momento traquinagem do ego: lembro o dia que sentamos na Dida depois de um outro jantar. Nisso, juntou-se a nós dois outros amigos. O Perna tinha ido embora mais cedo e logo em seguida um dos amigos fala assim – “onde você conheceu esse menino? Que interessante!”. E em seguida meu outro amigo, o Tablito, complementa fazendo meu marketing pessoal – “o MVG é um sedutor!” – rs

Sedução que ficou na amizade. Nesse fluxo conheci um ex-namorado do Perna que logo agregou na turma e virou motivo de querer de alguns amigos (rs). Chegamos a brincar juntos em algumas baladas e até num dia 25 de dezembro nos cruzamos na frente da Lôca. O ex do Perna acabou mais próximo do que imaginava. Fomos uma vez na “falecida” 269 e uma outra vez, bêbados, acabamos roubando uns beijos. Nada sério, tudo meio na brincadeira e nessas ações “involuntárias” que acontecem as vezes entre gays.

Veio meu namoro e lembro do Perna reclamar pela minha ausência. A paquera e o interesse aconteceram, mas estávamos num ritmo totalmente diferente. Depois entendi com mais clareza seus sinais, que antes estavam meio ofuscados pela minha fixação.

No final, meu entusiasmo foi autêntico. O “normal” seria eu conter minhas vontades, aquelas que me encatavam, e tentar reprimir com a razão para conseguir medir alguma coisa. Mas não assumir, não ter verbalizado e não ter mostrado meu interesse tiraria a espontaneidade do que eu estava sentindo.

Naquele ano, espontaneidade e a realização de desejos individuais independentemente do julgamento alheio eram as máximas. Foi assim também com a paixão que tive pelo Perna.

1 comentário Adicione o seu

  1. Caio disse:

    É verdade, paixões (sentimentais) são bem diferentes das paixões (carnais) ou meras atrações físicas. Até pouco tempo atrás eu mesmo me confundia com elas. Não sabia se o que eu estava vendo me atraia somente para uma vez ou para um possível continuidade, até poder finalmente entender essa diferença. Foi quando conheci um garoto até então um pouco diferente do que eu sonhava (é sempre assim né rsrsrsrs) e acabei gostando dele de verdade e no fim por motivo óbvio não fui correspondido por ele ser hétero. No começo não tive a plena confirmação que ele não curtia homens, mas a forma como ele me tratava e por eu estar tão vulnerável em relação aos meus sentimentos, meu corpo incluindo cérebro entendeu isso como um sinal que ali poderia surgir uma relação amorosa.

    Quando eu o o conheci identifiquei que era um sentimento verdadeiro, pois não me imaginava apenas fazendo sexo com ele, mas estar abraçado fazendo carinho, dormindo junto, indo ao cinema e compartilhando momentos. No fim das contas, apesar de não ter rolado e eu ter me afastado dele para esfriar o clima, aprendi a diferenciar uma paixão da outra e agora sei que posso sentir isso por outro cara quando der a sorte de aparecer um e eu estiver disposto a namorar, o que não estou agora.

    A última vez que isso aconteceu foi quando eu tinha 10 anos. Sempre via no colégio um garotinho de 8 anos da segunda série branquinho de olhos azuis, tão bonitinho e sempre no momento do intervalo eu ficava de longe admirando-o.Sempre queria estar por perto, mas não tinha como chegar ate ele e tentar me aproximar, era muito tímido, pelo menos para uma amizade, afinal naquela época eu nem sabia o que era namoro, muito menos um namoro gay. Até que um dia por coincidência nos encontramos no banheiro e conversamos rapidamente na hora da saída, eu até sabia o nome dele, pois ouvia ele conversando com os amigos. Que eu me lembre foi só esta vez e depois o ano acabou e nunca mais o vi. Pelo nosso papo de uns 2 minutos, percebi que ele era bem bacana e gentil, mas não deu né…

    Me lembrei dessa história quando tinha 18 quando já me entendia como homossexual e pude ver por contra própria que já era gay desde muito cedo. Agora espero poder gostar assim de alguém num futuro próximo, deve ser tão bom, principalmente para quem ainda não vivenciou na prática apenas imagina como seja…

    Abraço MGV, boa semana!

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