Mais sobre Revista Veja, gays, José Roberto Guzzo, cabra e espinafre

Diante das colocações de JR Guzzo – colunista da revista Veja e diretor-geral da revista Exame – muitos movimentos pró-gays se manisfetaram. Basta digitar “Parada gay, cabra e espinafre” no Google. Foram Blogs, políticos, sites, entre outros canais da “mídia alternativa”.

Obtive também manifestações desse rebordó de pessoas de dentro da Editora Abril, confirmando que essa história do JR Guzzo falar sobre “homossexualismo”, “preferência sexual”, “casamento com cabra” e “panela de teflon”, deu tom e batom, pano pra manga e pra saia.

Resolvi escrever um e-mail para o “Atendimento ao Leitor” dos canais da Abril que tenho contato e, assim, transcrevo aqui o meu recado, de gay, empresário, de formação em propaganda e marketing e assinante de revistas da Abril, incluindo a Veja.

Carta do MVG a Revista Veja:

Olá equipe editorial da Veja, tudo bem?

Pela web, ao lançar no Google o nome do JR Guzzo ou o título “Parada gay, cabra e espinafre”, e por meio de contato com profissionais que trabalham na Editora Abril, em editorias de revistas diferentes, fica evidente que o texto do Guzzo gerou diversas críticas negativas que estão se espalhando por aí, por dentro e por fora da “grande árvore”, promovendo um verdadeiro falatório ou buzz, como se diz atualmente.

Não gostaria de ser mais um reacionário, gay ativista e radical, vomitando purpurina na camisa do Guzzo como muitos gays fazem por aí na ânsia contra o repúdio ao homossexual. Mas acho pertinente ser mais um gay apresentando contrapontos às colocações do jornalista. Como assinante da Veja e da Info Exame, gay, empresário e profissional formado em propaganda e marketing, me sinto qualificado para compartilhar algumas reflexões sem os excessos e esteriótipos tão comuns no meio gay.

Começo o e-mail de trás para frente: sugiro a ele e a vocês, da Veja e a quem se interessar, que leiam meu Blog: www.minhavidagay.wordpress.com para – por exemplo – contextualizar textos sobre gays na sociedade de maneira mais imparcial quando se sabe pouco sobre o assunto. O cenário que o jornalista apresenta (ou tentou apresentar) mostra uma sociedade brasileira que não existe. Não existe um Brasil que já absorveu a homossexualidade de maneira natural tal qual a heterossexualidade. Não temos a emancipação que ele sugere. Se tivéssemos, ensinariam sobre homossexualidade nas escolas e pais lidariam com naturalidade sobre orientações sexuais dos filhos sem maiores restrições. Sabemos bem que isso não acontece e, assim, buscamos por meio de ações ativistas (ou não) abrir um pouco o nosso espaço e ganhar um pouco mais de autonomia. Alguns exigindo muitos direitos e outros nem tanto assim já que conseguem se colocar como homossexuais perante seus grupos sociais sem necessariamente erguer demasiadamente uma bandeira colorida e as vezes até exagerada como cita o Guzzo.

Sabemos muito bem que colegas de vocês, jornalistas, que trabalham na Veja, Veja São Paulo, Gloss, Capricho, Elle, entre outras editorias mais moderninhas (ou nem tanto assim), são gays e preenchem a grande árvore da Abril, cartão postal da marginal, de purpurina e trabalho, muito trabalho e – vamos combinar – pouco dinheiro, altas horas de fechamento e sem um plano de carreira a longo prazo. Seriam essas as referências que o Guzzo se apropriou, cansado de cruzar com gays nos elevadores-foguetes da Editora Abril?

É realmente um equívoco o diretor geral da Exame pronunciar-se na revista de maior tiragem do Brasil abordando um assunto que tem pouco conhecimento ou um conhecimento parcial. Até onde sei, Exame fala de negócios. Por que ele foi se meter com a viadagem? Seria um desabafo, uma monotonia na vida pessoal ou um incômodo real a respeito da frequência de gays na editora? Será que o editor-chefe da Veja não teve autoridade para vetar essa coluna por abuso de autoridade de um diretor-colunista? Ou será que corroborou com esse conteúdo estapafúrdio? Vai saber…

O que sei é que o JR Guzzo teve uma falta de tato, cuidado e respeito com os leitores gays que, fatalmente, se colocariam contra a comparações de panela de teflon, espinafre e cabra. Estamos falando também da falta de coerência e zelo para com dezenas (ou centenas) de profissionais da Abril que não carregam o status de “diretor geral da Exame, nem de colunista da Veja” e que são, sim, gays.

Em nenhum momento estou duvidando dos méritos e reputação do jornalista – José Roberto – que atingiu essa colocação. Mas será que ele, que convive diariamente com gays no ambiente de trabalho, nos corredores da Abril, nas editorias, fez valer sua postura perante colegas?

Aliás, sob esse ponto de vista, me questiono: afinal de contas, o que a Abril é ou está se tornando? O quase monopólio no mercado faz dessas coisas? Foi um despejo de frustração? O que foi isso afinal?!

Nem é necessário comentar sobre os “ismos” mal colocados e sobre “preferências” que não se opta. Aposto uma peruca para o Guzzo que dezenas de gays já o fizeram!

Como comprador de revistas da Abril me sinto um consumidor frustrado pela falta de controle de qualidade dos conteúdos. Lembrem-se: revistas vendem conteúdos.

Como profissional da área de marketing diria que o diretor geral da Exame anda confuso, falando do que não entende, dizendo o que não sabe.

Como gay, entendo que o buraco é mais em baixo: a falta de decoro vai diretamente contra um grande número de profissionais da editora Abril que labutam para preservar um nível de dinamismo e qualidade nas revistas.

Gostaria que esse texto caísse nas mãos de profissionais responsáveis. Mas realmente não sei se a hierarquia existente na Abril permitiria ou faria valer o “atendimento ao leitor”.

Vale sim o protesto e, de dentro para fora da “grande árvore” que é mídia pura, me soa mais autêntico.

Abs,
MVG

4 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Sério MGV, entendendo esse seu lado pacífico e de querer expor seu ponto de vista de maneira suave e sem “quebrar o pau”. Mas sinceramente o que esse colunista fez foi de propósito, seguindo o que eu já sinto a muito tempo: a medida que caminhamos para o progresso e a liberdade deixando as pessoas viverem suas vidas em paz, o conservadorismo também reage e cresce ameaçando essa maior abertura que estamos tendo diante da sociedade.

    Esse cara queria mesmo expor o que expos, nem sequer ligando para as consequências, então pra mim não foi um simples equívoco, ou falta de revisão nos termos. Ele só faz isso porque as pessoas deixam, é o nosso Brasilsão que no máximo aponta para as inconveniências, mas não se mexe para tentar resolver, fica de platéia vendo o circo pegar fogo.

    Como pode em linhas explícitas comparar nós (gays) pessoas normais e que buscam se realizar na vida como qualquer um, a pedófilos e zoófilos (se é que existe essa palavra). É como li em alguns comentários, se fosse um insulto aos negros (que já possuem um legislação específica contra racismo) já teriam processos em aberto e até possível punição, agora como são os “viadinhos” que estão levando na fuça, tudo bem, ninguém liga mesmo.

    Aqui no Brasil, já temos uma população besta e super discriminatória, gente ignorante que não se importa em querer conhecer o que ainda não conhece para depois julgar e vem um “jornalista influente” do mundo das revistas e reforça um conceito negativo. Ai é pra acabar mesmo, quando é que teremos respeito desse jeito?

    Por isso, nesse ponto eu discordo de você, não acredito que você um cara tão culto como aparenta ser e tão interessado em conhecer o que ainda não sabe e valoriza as opiniões assine esta revista. Não digo só por esse fato, mas por ela ser tendenciosa em suas matérias e sem credibilidade.

    Se eu fosse você cancelava já essa porcaria.

    Desculpe a sinceridade, mas essa é minha visão sobre o ocorrido.

    Abraço, Caio.

    1. minhavidagay disse:

      Tranquilo, Caio!

      Gostei de suas colocações. Acontece só que o texto do Guzzo não me afeta tanto assim. Realmente, muita coisa da Veja acaba sendo tendenciosa. Aliás, hoje em dia, fica difícil ter a imparcialidade que as mídias deveriam levar.

      Eu prefiro ser menos extremista hoje, quando mais jovem com 20 e poucos anos provavelmente me colocaria de maneira mais enfática. Mas tenho certeza que as conquistas que já obtive na vida pessoal e profissional, e até mesmo a abertura que o blog MVG tem para com seus leitores não serão impactados pelas limitações e falta de visão do Guzzo.

      Aprendi, a duras penas, que nem sempre me colocar de maneira extremamente incisiva funciona. Aliás, sou bastante enfático e incisivo em muitas atitudes perante a minha empresa e a minha vida pessoal. Mas no caso da reportagem me senti bem para não gastar energia além do que entendia necessário. Adoraria ter um bate papo cara a cara com o JR Guzzo. Acho que seria muito mais efetivo.

      Abs,
      MVG

      1. Caio disse:

        Oi MGV, não sei, sinto que talvez tenha extrapolado com você, desculpe minha intenção era atingir o tal Guzzo e não você claro rsrsrs. Você é muito bacana então espero que minhas palavras de desabafo tenham sido dirigidas a ele…..essas coisas me dão raiva e como você disse acima quando tinha seus 20 anos era um pouco assim, eu tenho 22, então dá pra relevar minha postura né kkkkkkkkk

        Você tem razão as vezes é melhor guardar as armas e não expô-las para evitar confrontos desnecessários, mas bem que esse cara merecia um castigo.

        Bom, é isso então.
        Abraço Caio.

      2. minhavidagay disse:

        Oi Caio!
        Fique tranquilo! Não levei para o pessoal e não senti que você extrapolou comigo.
        É legal, com seus 20 e poucos anos, poder exercer esse espírito crítico.

        Abs,
        MVG

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