A realidade gay que eu gostaria

Política nunca foi meu forte embora cuidar da gestão de uma empresa, de equipe, parceiros e clientes apontam a mim para intersecções com a política. Tenho alguns “ideais gays” para a nossa sociedade cujo objetivo seria apenas um: a absorção da homossexualidade perante a sociedade, com uma naturalidade saudável ou muito próxima desse ideal.

Essa semana tivemos um toró de palpites, comentários e críticas ao texto da revista Veja, “Parada gay, cabra e espinafre”, incluindo um comentário expressivo do Deputado Jean Wyllys, interlocutor de nossa comunidade LGBT no universo político. Gostei especificamente das primeiras linhas de seu texto, da sacada esperta, na qual parafraseia a canção “Geni e o Zepelim” do Chico Buarque, música extremamente apropriada para o contexto. A coluna de JR Guzzo tenta ludibriar, falando de uma realidade atual de sociedade que aceita os gays de maneira suficiente, quase que num tipo de “abuso intelectual” por parte do diretor geral da Exame (Guzzo). As colocações do jornalista, na realidade, foram irônicas e provocativas. Mais sobre esse assunto e sobre meu ponto de vista os leitores do MVG podem encontrar em dois posts mais recentes pelo Blog.

Diante desse contexto, de uma realidade de uma sociedade que ainda exclui o homossexual – e essa é a verdade – entendo que algumas medidas seriam interessantes. Parto do pressuposto que a melhor maneira da aceitação da homossexualidade começa dentro de casa, na formação de filhos que um dia serão pais mais propensos a encarar a diversidade sexual. Na educação o processo é lento e o desenvolvimento é silencioso e quase invisível. Mas a ideia de “inclusão social” para quem trabalha no terceiro setor, setor dois e meio e com sustentabilidade, sabe bem a que estou me referindo e sabe do efeito construtivo dessa ideia.

É ideal que as escolas começassem a ensinar sobre homossexualidade nas aulas de orientação sexual, por exemplo. Atualmente a “briga” está entre uma sociedade predoninantemente heterossexualizada contra gays que nasceram nesse contexto, romperam com os próprios preconceitos e paradigmas e lançam seus ideais contra o modelo. É o meu caso.

Mas no momento que as escolas ensinam os jovens sobre a diversidade, sobre respeito e sobre a polivalência da sexualidade, esses futuros adultos passariam a entender um “terreno” que hoje se divulga muito ou se marca em cima de esteriótipos. Lembrando que lucidez, referência e conhecimento tende a naturalmente dissolver o próprio preconceito.

O “kit gay”, da maneira que foi conduzida nasceu torto e morreu rechaçado. Kits desse tipo são inanimados. Precisamos de interlocutores nas escolas, como professores que até podem carregar kits de baixo do braço como material de apoio e – de preferência – que não configurem em si um alvo de preconceito. Devem ser pessoas, de maneira ideal, que não dêem brecha para algum tipo de rótulo social pela aparência ou gestos, para que o discurso se inicie sem desculpas para a criatividade dos jovens.

Por outro lado, os gays no contexto de hoje deveriam exercer mais sobre os valores de cidadania, um tipo de pró-atividade, deixando um pouco de lado o tiroteio existente entre “gays machões VS. gays afeminados”, o exercício do individualismo e do ego de curtir a noite e beijar muito, para focar em um ou mais indivíduos próximos – e íntimos – para a orientação e o esclarecimento. Temos um certo tipo de dever de pelo menos parar para pensar na dualidade que provocamos em nossas vidas: “o bom filho apático perante os pais e putinho ou recluso durante a noite”, por exemplo. Só levamos esclarecimentos e compreendimento daqueles que vivem perto da gente se houver intersecções dessas nossas realidades. Para adquirirmos respeito precisamos apresentar a ideia que podemos ir muito além.

Entre nós, está cada vez mais conhecido a realidade de que o “tipo gay” não é o esteriótipo que sai na parada gay todos os anos. É ele e muitos outros “tipos” que não se resumem numa maneira específica de se apresentar ao mundo e para as pessoas. Homossexualidade, como bem sabemos ou deveríamos saber, não é e não deve ser o chamariz para caracterizar a nossa personalidade. Mais uma vez, somos muito mais do que gays, embora o “ser gay”, a nós, pareça estar sempre em evidência ou em questão.

Os indecisos e confundidos deveriam tomar algum tempo de suas vidas para refletir a respeito de suas dúvidas, tomar atitudes e assumir posturas mais pró-ativas de encontro à definições, com ajuda ou não de profissionais.

Claro que esse texto aqui trás ideias de maneira bem prática e entendo que os processos individuais não me dizem respeito. Mas o exercício do post de hoje é projetar um cenário ideal, coletivo, e de ajuda mútua, tendo em vista o objetivo citado acima: a absorção da homossexualidade com uma naturalidade saudável ou muito próxima desse ideal.

Teríamos ainda o apoio de algumas organizações sem fins lucrativos e políticos para dar suporte a essas frentes e alguns interlocutores midiáticos assumidos, empresários e artistas gays para uma campanha bem feita sem excessos de ativismo. Trocaríamos o carnaval da parada gay por “todos limpos” de calça jeans e camiseta, caminhando sem a euforia de caixas acústicas, sem sujeira, promiscuidade ou cachaça. Terminaríamos a parada todos de frente a um palco com intelectuais e políticos pronunciando essas ações, ao contrário do fervor da festa que mais se quantifica que qualifica. Trocaríamos um pouco da alegria e dispersão por sobriedade e atenção.

A partir daí ser gay não seria mais desculpa, culpa ou rótulo. Poderíamos nos deparar exclusivamente com as questões e desafios de qualquer indivíduo.

Por fim e não menos importante, esse post poderia se chamar “Utopia”, embora em diversos universos particulares sei que esses esclarecimentos existam, principalmente daqueles que estão buscando ou já buscaram ser os autores de suas próprias vidas, de definir os caminhos com os próprios olhos.

Servem as referências para quem quiser pensar a respeito.

6 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    É isso aí MGV. Bom, pelo que eu percebi, em alguns países do mundo essa sua ideia “utópica” esta bem próxima da realidade, pela presença de alguns fatores, como apoio governamental e cidadãos mais cultos e engajados pela causa. (Suécia, Suíça, Dinamarca, Países Baixos, Alemanhã…)

    Aqui no Brasil para haver engajamento e conhecimento apropriado sobre o tema é preciso do impulso do governo, porque a maioria é acomodada e se não tiver um belo de um empurrão não tomam a iniciativa. Quem aprova e cria as leis são nossos nojentos parlamentares e integrantes do executivo que são manipulados e impedem que nossa cidadania seja plena. Então por ai já se vê que o ponta pé inicial é barrado. E mesmo que algumas instituições educacionais, ONGs e até empresas privadas façam sua parte não terão resultados muito significativos, pois o que alcança a todos é o Estado, isso teoricamente (pq na prática sabemos como é).

    Fora que aqui as pessoas se apoiam muito na opinião de ídolos, celebridades em geral que fazem muito sucesso, tanto é que a publicidade empresarial se usa muito da imagem deles para vender. Se o país é muito fechado a inclusão dos LGBTs, fica claro que pouquíssimos astros vão querer se assumir publicamente e ajudar as pessoas a também fazer o mesmo encorajando-as, logo pela razão de temerem ser esquecidos perdendo oportunidades de trabalho (a fama tem seu preço). Então Governo e incentivo dos ídolos é fraquíssimo, portanto o povo já fica sem muitas bases mesmo.

    Com relação a educação, sinceramente na minha opinião, os professores em geral, principalmente do ensino básico deveriam tomar a iniciativa própria de ensinar as crianças e adolescentes (de acordo com suas fases de vida e idades) a saberem se respeitar, sem precisar ficar esperando o governo decidir ou não se o tal kit anti-homofobia será aprovado ou não.

    Os professores são muito acomodados, estudam um pouco aqui e ali, se formam e fica naquilo. Puxa, custa ler um pouco sobre o tema e saber agir numa situação de discriminação dessa natureza na escola. Não, eles preferem não se mobilizar. Ai vem o questionamento, precisa saber detalhes “técnicos” com relação a homossexualidade para ensinar que todos devem se respeitar e saber conviver. Basta os professores e educadores dizerem: queridos alunos nós devemos tratar com educação todas as pessoas, se vocês conhecerem algum amiguinho diferente de você, não jogue pedras saiba conviver com ele pacificamente. Dizer coisas assim, pois quando você é criança dá certo fazer assim, pelo fato de que criança não tem preconceito, e na escola ela sendo educada assim em casa vai disseminar o que aprendeu, o mesmo ocorre com cuidados ambientais por exemplo, como economizar água, energia, separar o lixo. As vezes as pessoas não fazem isso, mas as crianças as ensinam.

    Já com relação as famílias homofóbicas e machistas que ensinam seus filhos a serem o mesmo, o único jeito de impedir é contradizer essa educação desvirtuada através da própria escola já que no próprio lar não ensinam que todos devem ser respeitados, porque aí esse confronto de informações vai fazer a criança e o jovem pensar por si e ver: “será que meus pais homofóbicos têm mesmo razão, eu sinto que meu(s) colega(s) gay(s) é(são) tão bacana(s), não vou demonizá-lo(s) só porque meus pais não gostam”

    Pra mim é aí que começa a evolução do pensamento e não apenas seguir um ensinamento medíocre sem questioná-lo.

    Infelizmente, já o que Governo é tão devagar e sem iniciativa, nós precisamos correr atrás disso por conta própria. Então, aprendendo a respeitar com certeza vamos saber lidar com todas as diferenças, até mesmo entre os próprio gays mais tarde quando conheceremos a verdade sobre nós mesmos..

    Bom era mais ou menos isso que eu queria dizer, se fosse contextualizar tudo o que você disse no texto, iria me estender muito rsrs

    Bom feriado.
    Abraço.

  2. Fernando disse:

    Nossa Caio vc ia se estender, vc acha que escreveu pouco?

    Acho muito chato esses papos de militancia e politica para a classe gay, gente tem formas mais faceis de conseguir a utopica igualdade e respeito que tantos gays buscam. Temos que conquistar o respeito e a igualdade no dia-a-diia com nossas atitudes de homens inteligentes, de respeito e carater. Quem vê as imagens de uma parada gay, de um viado fazendo barraco ou de cenas de total desrespeito como muitos gays fazem por ai com outras pessoas, voce acha que uma lei, programas sociais, aulas, palestras vao resolver alguma coisa? Devemos nos tocar, agir de forma civilizada e respeitosa como muitos gays fazem, porem nao sao vistos, porque os gays barraqueiros, do fervo e das aberraçoes chamam toda a atençao mostrando o lado obscuro da homossexualidade.

  3. Allezvite disse:

    Parabéns pela lucidez e clareza de pensamento no texto. Gostaria muito de ser reconhecido menos pelo carnaval do mundo gay (como vemos constantemente nas paradas – reconheço a sua validade e importância, mas também percebo o desserviço dos excessos que acabam maculando uma causa nobre) e mais pelo que ser humano somos e pelos nossos sentimentos, acima de rótulos superficiais e simplificadores: gay-macho x gay afeminado; ativo x passivo etc.

  4. Plínio disse:

    Muito boa sua reflexão MVG, concordo sobretudo com seus comentários a respeito da Parada Gay, que perde muito de seu caráter político por ser realizada de forma a respaldar os comentários e idéias equivocadas a respeito dos homossexuais. Aliás, não imagino que conquistaremos algum respeito deste modo, que dirá direitos! Não foi assim que os negros deixaram de ser escória aos olhos dos brancos, eles não se separaram de seus valores para conquistarem seus direitos!
    Parabéns pelo seu trabalho neste blog!
    E a propósito, eu tenho uma tendência internalizada em defender e acreditar em certas realidades utópicas, acho que é por isso que leio seu blog…

    1. minhavidagay disse:

      Oi Plínio!

      Obrigado por acompanhar o MVG, nas utopias, relatos e questões que lanço por aqui.

      Abs,
      MVG

  5. fernando disse:

    basta ter respeito uns com os outros,tantos dos homosexuais para os heteros e vice versa!

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