A vida gay – Filhinhos da mamãe

O quanto os modelos de família matriarcal ou patriarcal influenciam na maneira em que nos relacionamos com as pessoas?

A grande maioria dos gays que conheço tende a ter relações mais próximas e colaborativas com suas respectivas mães ou com o gênero feminino. Será que esse tipo de identificação pode ser um padrão entre gays? Levantemos a questão do por quê ser assim quando é assim:

O olhar do matriarcalismo e o movimento feminista

Os valores de matriarcalismo tem fortes influências da cultura latina, da “grande mama” disponível e emocionalmente receptiva aos seus rebentos, aquela que acolhe, que abraça e agarra a causa do filho mesmo quando ele nem sempre tem razão. As bases da cultura brasileira, mesmo que heterogênea, incorporou fortemente essa latinidade. Não há como negar que, com algumas raras exceções de grupos de orientais, negros e descendentes de índios, ou mesmo os que carregam no sangue a mestiçagem, nossa sociedade tende a evidenciar no núcleo familiar os hábitos e valores latinos. Essa influência é predominante e normalmente independe da raça.

O post de hoje é dedicado a essa reflexão: não há dúvidas que boa parte dos brasileiros são descendentes diretos dos ancestrais romanos que disseminaram a cultura latina pela Europa e que essa colore a alma dos brasileiros. Os romanos foram os ancestrais diretos dos italianos, espanhóis e portugueses, todos, da mesma origem com seus padrões, valores e hábitos. Como essa realidade pode influenciar a vida de um gay e sua maneira de se comportar com as pessoas?

Nesse “bolo” cultural e ainda sob a influência do movimento feminista – que aconteceu mais expressivamente nas décadas de 60, 70 e 90 pelo mundo todo – as “mamas” assumiram status diferentes nos núcleos familiares. O feminismo transformou a percepção matriarcal do passado e configurou uma “nova mama” para os lares brasileiros gerando muitas variantes de comportamento: das mais tradicionais as mais despojadas.

Nesse ritmo, parou para pensar onde fica a sua mama? Pode ser japonesa ou negra. Todos nós aqui no Brasil sofremos influências diretas da latinidade!

A naturalidade da mulher em exteriorizar sentimentos

Falamos rapidamente do matriarcalismo e do movimento feminista que abriram a possibilidade da mulher assumir a posição da mãe que entendemos hoje. A mama moderna: da porta para fora de casa a mulher é muito mais atuante no mercado competitivo, e da porta para dentro, cria uma representatividade diferente da mãe perante os filhos e o marido. Muitas ações que em origem eram praticadas por “mulheres do lar” são assumidas por “homens do lar” adaptados e talentosos!

Outro ponto que nos influencia é a naturalidade que as mulheres têm em exteriorizar sentimentalidades. Não tem como negar que as mulheres latinas expressam com desempendimento suas emoções e as vezes até demais, virando motivo de “vergonha alheia”. Parece ser – no geral – tudo mais a flor da pele, tudo muito sentido e expressado. Não é a toa, senhoras e senhores, que gostamos tanto das novelas da Globo das “Floras e Carminhas”, da Hebe Camargo, e que as produções mexicanas fazem tanto sucesso por aqui. Já as mulheres cuja cultura floresceu da vertente anglo-saxã, também são preparadas desde que o mundo é mundo a liberar emoções, mas de maneira normalmente mais discreta.

Não costumamos dizer que nosso pai é mais fechado e nossa mãe é mais aberta? Abertura e fechamento não estão normalmente relacionados a conversa, intimidade e a naturalidade de expressar as emoções?

Esse fluxo aberto de emoção permitido às mulheres no geral, que é milenar e antecede até mesmo às civilizações medievais, é a brecha possível para que filhos gays, em média, tenha uma sintonia melhor com mães.

Normalmente por sermos gays e termos uma correspondência com o gênero feminino, nos parece que a abertura da homossexualidade para mães e mulheres é mais fluida. Será sempre assim?

[Nem sempre porque as “super mamas”, as vezes, acabam criando os filhos para ela, num tipo de posse e idealizando intensamente o futuro projetado para o rebento. Quando se deparam com a realidade gay do filho entram em crises absurdas, na mesma intensidade emocional que a elas sempre foi permitido exercer].

Somamos então o modelo de sentimentalidade aflorada das mães e mulheres latinas, com a emancipação adquirida pelo movimento feminista e com o prório “ser mulher” permitir uma abertura para a compreensão da diversidade, e formamos assim um cenário aparentemente mais favorável para obter a tão esperada aceitação como filhos gays.

A fundo, os pais (homens) não tem propriamente culpa de ser assim do jeito que é, fechados ou inexpressivos. Muito disso é cultural e assim foram também educados.

Patriarcalismo VS. Matriarcalismo

Afinal de contas qual o melhor modelo para o gay? A família de base pratriarcal ou a de base matriarcal? Parece lógico dizer que o modelo matriarcal propicia melhores condições para anunciar a nossa realidade gay e termos assim a aceitação. Os conceitos que reforçam essa ideia estão expressos aí em cima. Mas no meu sincero ponto de vista, ambos os modelos estão desgatados para a realidade de vida atual.

O patriarcalismo, em essência, é o modelo autoritário do homem (pai) como referência principal da família. Boa parte das vezes associamos o patriarcalismo ao machismo, da submissão da mulher perante o líder macho da casa que dita as regras e os valores da família. É mais claro para nós entender o patriarcalismo como algo “contra” a uma realidade homossexual devido aos valores machistas que embutimos na figura do pai de família patriarcal.

O matriarcalismo, em essência, é o oposto do patriarcalismo: é o modelo autoritário da mulher (mãe) como referência principal da família que dita das regras da casa.

Poder de um lado, poder de outro, no final das contas – perante os filhos – não sei até que ponto é saudável hoje ter essas referências de autoridade e submissão. Poder, no sentido de superioridade e no valor de posse que, as vezes, esses modelos tendem a alimentar, traz certamente viés na educação. Parou para pensar o quanto esses pontos podem influenciar a sua vida e refletir nos seus relacionamentos (ou ausência de)?

Cases:

Conheço um filho gay assumido nascido numa família da super mama italiana. O rapaz deve ter seus 20 e poucos anos, faz faculdade e a mãe, sem perceber, tem uma dominância tão forte pelo menino a ponto de exclamar para o pai assim: “amor, você sabe que o ‘Junior’ não come peixe com espinho! Tira pra ele e trás o prato aqui.” – nesse caso, os valores de afeto se misturam. O excesso de cuidado e de mimo vira um tipo de doença, como se o filho fosse debilitado. E não é!

Tive uma ex-sogra que era tão super-mama-pró-gay que chegava a cansar. Éramos literalmente os privilegiados da família, desde a feitura de nossos pratos preferidos à super valorização em “praça pública” e confesso que muitas vezes não queria nenhum tipo de destaque ou privilégio por ser gay.

Outro ponto que contesto do matriarcalismo é que, em alguns casos, as mamas educam seus filhos para serem os “predominantes” de seus relacionamentos afetivos e normalmente quando são filhos homens (gays ou heterossexuais). Dessa maneira, sem querer, acabam colaborando para a perpetuação do homem autoritário que tanto “condenou” em sua própria relação. Confuso não? Mas as vezes é assim mesmo que acontece!

Meu pai, apesar de tentar impor sua predominância na família, nasceu numa família evidentemente matriarcal. Meu avô que foi uma referência incrível para mim vivia num certo “limbo social” as vistas do meu pai, ao passo que a minha avó tinha o status de “rainha”.

O ideal (palavra que vem do sentido de idealizado, de ideia) é que as relações fossem mais equalizadas e que os pais (pai ou mãe) fossem cautelosos para não projetar nos filhos a frustração ou ressentimento que tem com o gênero oposto em seu próprio relacionamento. O que estou querendo dizer é que na toada do modelo latino entre homens e mulheres, muitas vezes os pais despejam as frustrações que tem com o seu marido ou esposa no filho, e esse tipo de comportamento – invariavelmente – acaba influenciando nossas próprias relações. Acaba faltando tolerância de ambas as partes.

Vivi no modelo patriarcal cujas críticas negativas nos parece mais óbvia quando somos gays. Mas hoje, com 35 anos e mais lúcido quanto as imposições e autoridade desse modelo, sei que nem um nem outro me traria apenas boas referência. No pacote, as vezes, caem as más também. Família patriarcal ou matriarcal tendem a sempre colocar um mais no altar e outro mais na sombra e, como filhos, podemos passar a vida inteira sem perceber a influência que isso nos trás, no sentido de rebaixar ou valorizar um terceiro pelo gênero.

O esforço válido, de novo, é uma busca pelo nosso próprio olhar com foco no indivíduo.

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