Relato gay – Assumido, mas precisando de umas dicas

Recebi um relato interessante, de outro jovem gay, que passa por questões muito comuns a outros adolescentes gays e heterossexuais: a dificuldade de se enquadrar e se encontrar socialmente. Ser um gay fora do armário, como comentei em outros posts não quer dizer que necessariamente teremos todas nossas questões resolvidas. As vezes levamos a vida toda para resolver os principais aspectos, da relação quanto a nossa sexualidade, da relação com pais, irmãos, amigos, relações afetivas e profissionais. Da relação do bem estar como somos e perante o mundo.

Relato de Bernie:

Olá, meu nome é “Bernie” e antes de tudo, gostaria de parabenizar o blog e sua iniciativa, esse foi o blog mais completo em relação à conteúdo e compromisso com nosso ‘universo gay’ que encontrei e daqui para frente vou olhá-la sempre que possível.

Tentarei ser breve. Tenho 18 anos, moro em São Paulo. Com dezesseis anos contei à minha mãe que eu era gay e um ano mais tarde contei para minha irmã. Meu pai não mora comigo e ainda não sabe. Meus amigos mais próximos sabem e no geral, todos são héteros.

Tenho um problema sério com timidez, até hoje fiquei com apenas um garoto. Um rapaz bonito, ‘alternativo’, inclusive foi com ele que conheci a vida noturna da Rua Augusta. Confesso que quando percebi o interesse dele por mim, pensei: ‘Será que isso é realmente possível?’. No fim rolou, mas não curti muito e como foi meu primeiro ‘beijo gay’ e estava nervoso, acho que não deve ter sido bom para ele e depois disso não nos falamos mais.

Sou um rapaz realmente introvertido, fico bastante em casa, tenho aquela típica carinha de nerd que não toma sol e usa óculos. Sou bem alto, magrelo, hmmm. Pois é, não sou muito contente com minha imagem e acredito que isso influencia muito na minha permanência na solidão. Acho que é bem mais profundo do que isso: Não me identifico muito com os outros caras gays; nessas experiências que tive com algumas casas noturnas eu me senti bem deslocado, morrendo de medo daqueles caras bonitos e estilosos. Meu desejo profundo era me sentir dentro disso tudo. Acabo ficando em cima do muro: meus amigos héteros namorando, outros indo pegar a mulherada e eu querendo fazer o mesmo, do meu jeito, mas não tomo coragem.

Minha mãe aceitou tudo de uma forma muito natural. Ela trata o assunto com uma naturalidade muito maior do que eu; na verdade, quem trata o assunto como tabu sou eu. Apesar de eu já ter me assumido, percebo que ainda tenho questões de aceitação pendentes: vejo que muitas vezes sou preconceituoso com gays efeminados, por exemplo (não destrato nem difamo ninguém, normalmente tenho dificuldade para me aproximar de algum gay assim). Também sofro sempre calado as minhas decepções amorosas (porque nunca consigo me aproximar do cara que eu gosto), também não curto adicionar outros gays no facebook (não gosto disso, quando vejo o perfil de um gay que só tem outros contatos gays, para mim é como se fosse um açougue: cheio de carnes frescas para você escolher qual tem o melhor aspecto e comprar a peça). Sim, sei que sou meio ‘estranho’, acho que eu queria ter o privilégio de conhecer alguém como todo mundo conhece: nos locais do dia-a-dia e não pela net, o problema é que ninguém aparece e tem dias que a solidão aperta bastante.

Sou gay, mas vivo como ‘assexuado’: deslocado em ambos os lados. Tenho medo da minha vida passar e eu permanecer do mesmo jeito. Preciso me aceitar e começar a viver de verdade, sem medos. Só não sei como dar o primeiro passo.

Se puder atender meu pedido, ficarei muito feliz. Muito obrigado.

Blog MVG:

Olá amigo Bernie, tudo bem?

Olha, o primeiro ponto que levanto é que você alcançou um tipo de relacionamento muito importante para a grande maioria dos gays: a de ser assumido para mãe e irmã. Esse tipo de situação pode ter um processo nem sempre fluido mas o resultado final tende a ser esclarecedor e reconfortante. Isso já é um mérito seu adquirido desde seus 16 anos que você deve relevar. A grande maioria não conseguiu esse tipo de emancipação, das pessoas íntimas saberem e a relação seguir num fluxo natural e total, sem rejeições, desculpas ou imposições.

Por mais que seja repetitivo acredite: não existe um único padrão estético atraente e há pessoas dos mais diversos estilos. Qual exatamente o problema do ser estilo “nerd” ou “geek”? Aposto que alguns leitores do Blog MVG se interessam e esse estilo está em moda!

Caso você não goste do seu próprio estilo, que tal dar uma “mexida” no figurino? Cortar o cabelo de um jeito diferente ou deixar crescer, trocar a armação do óculos e comprar umas roupas diferentes que mudem um pouco seu ar? Não sou nenhum editor de moda, mas acho que todos – gays e heterossexuais – que não estejam satisfeitos com o visual podem dar uma variada, por que não? Na realidade, quando você diz dos gays “bonitos e estilosos”, você também pode ser um, caso seja do seu interesse. Lembre-se que só o fato de você ser gay tem menos rigidez para variar o visual, ou seja, corre menos o risco de sofrer o preconceito inverso, de ser um homem que gosta de se vestir bem e chamarem de “viadinho”. Viadinhos todos nós somos de vez em quando e qual o problema? rs

Nesse processo, acho bastante importante você gostar de si acima de tudo. Talvez esteja faltando um pouquinho de auto-estima e auto-confiança aí, amigo Bernie! :)

Você já faz parte “disso tudo”, querido. Você é gay, assumido, bem aceito por sua mãe e agora, no meu sincero ponto de vista, tem apenas que exercitar. Busque olhar para o espelho e gostar de você!

O post de hoje está parecendo reportagem de revista feminina do tipo Gloss (rs), mas estou me permitindo ser um pouco mais colorido hoje! rs

Quantos não são os gays que gostariam de mudar de estilo? Eu mesmo já tive moicano, já tive topete do tipo “Tin Tin” e já raspei o cabelo! As vezes faço a “linha” intelectual de óculos e as vezes uso lente de contato. Por vezes estou de regata e bermuda, e outras horas de calça jeans e camiseta.

Sei que é um pouco repetitivo aqui no Blog MVG esse tipo de recado, mas vamos direto ao ponto: o importante é buscar a felicidade individual. Um pouco de estética faz bem, um perfume que combine com você e, Bernie, se você se sente muito magro, que tal fazer uma academia ou natação? Guarde um dinheiro para fazer um pouco disso tudo se for o caso.

O que não adianta é não estar contente e não fazer nada, ou deixar um muro de orgulho subir e ficar no mesmo lugar.
Estamos falando de encontrar sua auto estima. Primeira coisa é quebrar com o preconceito de se colocar como um peixinho fora d’água, preconceito que você tem consigo mesmo.

A introversão faz parte também. Eu também me acho uma pessoa tímida embora não aparente. Nesse ponto, só a gente consegue domar a timidez, aprendendo a gostar da gente mesmo e olha só que lógico: controlando a própria timidez! rs

Agora, acima de tudo, tenha calma! Você tem apenas 18 anos de idade, dois anos assumido e tem uma longa história pela frente. O mundo não vai acabar em 21 de dezembro de 2012 e você vai poder assistir “The Hobbit” antes, caso acabe! :P

Outro ponto bacana é que você não está acomodado ou conformado como as coisas são. Os incômodos servem justamente para a gente modificar algo, para a gente tirar da frente e seguir em paz. É importante a gente sair da zona de conforto e achar que é tudo lindo como é.

Onde está a sua paz, Bernie? Está em entender que o estilo “nerd” tem seu espaço ou que você pode dar um up nesse próprio estilo? Está no fato de você ser bem alto e magro ou saber que tem um monte de gente que se interessa nesse perfil?

Já pensou que muita gente pode se sentir atraído por você, mas quem não percebe ou não dá brecha é você mesmo?

Seja “alternativo”, “estiloso” ou “nerd”, quando batalhamos para gostar de nós mesmos, os modelitos se tornam secundários e a gente percebe melhor as pessoas, os ambientes e os lugares. Você já parou para perceber os lugares e as pessoas ou até hoje só entrou na balada pensando que você não combina e se sentindo um estranho no ninho? Se você entra pra dentro num lugar aberto, não dá certo mesmo!

Quanto aos bloqueios com gays afeminados, você pelo menos tem consciência disso como descreve em seu relato. Ter a consciência é o primeiro passo para fazer diferente, se você quiser ser um gay sem preconceito com o jeito afeminado. Ser afeminado é só uma forma de se apresentar ao mundo, que quase nunca representa a pessoa na totalidade.

Dica final: seja mais aberto a si mesmo que naturalmente você será mais aberto às pessoas! Tudo isso exige esforço e exercício. Ou se conformar como é.

Abraço,

MVG

2 comentários Adicione o seu

  1. Bernie disse:

    Haha! Nossa, você respondeu o e-mail bem mais rápido do que eu imaginei. Pois é, acho que peguei a mensagem que você quis passar, talvez eu me cobre e não aceite muitas coisas em mim e isso pode acabar refletindo nas outras pessoas ao meu redor (fazendo com que eu crie barreiras). Sobre minha mãe e minha irmã, é engraçado, lembro-me que quando decidi me assumir para a minha mãe inicialmente, existia um garoto envolvido, acho que foi esse o motivo de ter sido relativamente ‘precoce’, só que no fim não rolou entre nós dois e depois eu me vi ‘arrependido’ de ter contado. Hoje eu me sinto arrependido às vezes, mas no geral, sinto-me satisfeito. Acredito bastante que o fato de minha mãe ter levado numa boa é porque ela mesmo tem muitos amigos gays e a gente mora na Frei Caneca, então é tudo mais ‘fácil’, porque querendo ou não, a gente convive com muitos gays, diariamente. Penso que talvez esse contato (distante contato, aliás) que me fez idealizar tanto ‘o que é ser gay’, talvez vendo aqueles caras bonitos, estilosos e distantes todos os dias tenha criado um ‘padrão do que é ser gay’ na minha cabeça. Fora esse post sobre meu relato, li muitos outros e fiquei feliz esta manhã quando tive um pensamento aleatório sobre ‘o que me define gay é o simples fato de eu sentir atração por outros homens’ e o resto é o que eu realmente sou (tímido, alto, nerd, bom amigo, estudioso, dorminhoco, etc.)
    Estou disposto a fazer mudanças sim, quando tiver mais dinheiro pra gastar (esse ano estou fazendo cursinho e minha mãe não está tão contente em estar pagando – porque era a minha ‘obrigação’ ter passado sem o tal do cursinho), mas eu passando no verstibular terei mais tempo e dinheiro pra gastar comigo, mas principalmente, terei tempo de me divertir mais e tentar quebrar essa casca: sairei mais e farei a experiência de entrar nas boates da vida sem nenhum sentimento de arrependimento, medo ou ‘despertencimento’. Gostaria de agradecer finalmente, por lembrar-me que ‘estou dentro disso tudo’, de verdade, essa frase me confortou bastante, afinal, se eu não me sentia ‘dentro disso tudo’ até meia hora atrás antes de ter lido o post, a culpa disso era minha e não de mais ninguém!
    Obrigado pelo post, gostei muito mesmo. Conheci o blog ontem e já sou fã :D Abraços do Bernie =D

    1. minhavidagay disse:

      Legal Bernie!
      Obrigado pelos seus comentários e espero que você avance com suas experiências!

      Abs,
      MVG

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