Vida gay – Diálogo entre pais e filhos


Meu filho é gay. E agora?

Sob as influências de alguns e-mails de leitores, relatos gays e na busca de ampliar os temas no Blog Minha Vida Gay, resolvi começar um “diálogo” com as mães e pais de filhos gays que se iniciou efetivamente com o post anterior no qual apresento vídeos interessantes e relativamente esclarecedores sobre a inclusão de filhos gays perante o núcleo familiar.

Apesar de não ser pai (ainda), sou filho e com 35 anos entendo que a minha visão de mundo e olhar para as relações começam a se aproximar do ponto de vista de um (por que não?) futuro pai.

Para iniciar esse post, dedicado a mãe e o pai de um filho gay, conto aqui um pouco da minha história familiar:

Nasci numa família católica porém não praticante. As questões relacionadas a religião eram colocadas basicamente no meu cotidiano no Colégio Pio XII (colégio de freiras americanas), durante a pré-escola e o ginásio, e não necessariamente dentro de casa. Minha família não reservava e nunca reservou um espaço sagrado para a Bíblia dentro do lar.

Apesar do patriarcalismo predominante, de pais nascidos na década de 50 (geração Baby Boomer), as bases e valores de minha educação foram transmitidas pela minha mãe que – como professora de português e inglês – deu um tempo para o trabalho durante o período de oito anos – após meu nascimento e na sequência, o nascimento do meu irmão.

Minha mãe

Diferente de “amiga”, minha mãe sempre foi bastante companheira. Lembro bem das horas que ficávamos juntos, cada um lendo ou vendo assuntos de seus respectivos interesses, na banca que existia em frente do Estádio do Morumbi. Era parada certa com boa frequência quando voltávamos do Pio XII.

Por parte de minha mãe, com grande influência do meu avô paterno que morava em casa, minha educação permitia desenvolver livremente meu espírito de curiosidade. Meu vô morava na parte de cima do sobrado que ficava no fundo de casa e, na parte de baixo, mantinha sua profissão de marceneiro, ofício que aprendera aos 17 anos quando chegou em terras brasilis. Aprendi a martelar madeira e a martelar o dedo. Aprendi a mexer com cola e usar o serrote.

Vez ou outra meu avô voltava da feira com pintinhos. Não era difícil ter um galinheiro de madeira e aprender a alimentar os frangos com quirela em plena São Paulo que, na década de 80, era bem menos urbana do que hoje.

Nesse contexto, minha mãe avidamente permitia toda essa interação, de usar o serrote na minha tentativa de construir robôs, do martelar o dedo, de cuidar dos pintinhos que viraram galinha e – vez ou outra – infestavam o quintal de pulgas que vinham das pombas!

Apesar do nojo, minha mãe me deixava criar minhocas no meu pequeno grande mundo do quintal. Meu pai trazia do Makro potes de pé de moleque que viravam viveiros para minhocas, guarus, lagartas que virariam borboletas e girinos que virariam sapos. Ficava hipnotizado com o processo de metamorfose desses dois últimos bichos, sem sequer imaginar a “metamorfose” que aconteceria comigo! (rs)

O contexto era São Paulo, próximo ao estádio do Morumbi, mas assim tive minha vida no interior, interior do meu mundo. Mamãe permitia tudo isso e mais um pouco, assim como permite até hoje. Apesar dessa autonomia, sem querer falava da necessidade de reconhecer meus limites e nunca ir além se – de repente – eu pudesse me machucar.

Minha mãe me ensinava a olhar para fora.

Meu pai

Ao contrário de minha mãe que nasceu numa família de sete filhos em Pindamonhangaba, meu pai nasceu em São Paulo e teve apenas um irmão.

A grande referência que tenho dele, na minha infância, é de alguém que acordava sempre muito cedo e voltava bastante tarde, rotina que a grande maioria dos homens cultivavam naquela época para sustentar a casa. Sobrava alguns 10 minutos quando ele se deitava para contar a mim e a meu irmão a história do “Yu e do Ma”, personagens que havia inventado em nossa homenagem. 10 minutos até meu pai adormecer pelo cansaço de sua rotina.

Nos finais de semana aprendia a andar de bicicleta e empinar pipa. Mas tinha uma coisa muito chata que vinha do meu pai: quando eu caia da bicicleta e me machucava eu levava bronca! “Pare de chorar!”, “Levanta daí”, “Já está estragando a bicicleta de novo?!”. E quando empinava pipa e o fio arrebentava era a mesma coisa: bronca! rs

Lembro do talento do meu pai com a história das pipas. Lembro do dia que ele fez uma pipa gigante, do ponto de vista de quem era miúdo como eu, colorida, de formato estrelar. Era uma verdadeira obra prima! Um verdadeiro talento que iluminava os olhos de um jovem admirador.

Levamos a pipa na USP e, num primeiro sopro ela voou longe! Mas não durou muito. A linha era fina para seu tamanho e arrebentou. Longe como voou também partiu. Meu pai ficou triste, mas tristeza a ele sempre vinha na forma de irritação e mau humor! Assim, por seus motivos também levei bronca! rs

Por outro lado, meu pai percebia que eu gostava de desenhar. Investia, comprava canetas, giz pastel e papel canson. De repente ele percebeu que eu tinha “ouvido” para tocar piano. Comprou um dos melhores teclados Yamaha para a época e me colocou num conservatório. Toco até hoje com muita satisfação.

Quando meu pai notava essas minhas aptidões não media esforços para contribuir. Não faz muito tempo atrás, quando comprei meu piano digital da Roland (sonho máximo de consumo na época – rs), no dia seguinte ele voltava do centro de São Paulo com o kit de caixas de som, da mesma marca, apropriada para o piano. Babei!

E foi assim também quando eu resolvi ter meu primeiro Macintosh da Apple. Foi um G3, lindo, bacanudo e potente. Estava lá meu pai me ajudando para poder criar e produzir em cima daquele baita micro!

Meu pai me ensinava a olhar para dentro.

Meu irmão

Curioso (ou nem tanto assim) que meu irmão foi, é e será sempre heterossexual. Mesmos valores familiares, mesma educação, mesmo colégio Pio XII, mesmos pais, mas com tantas diferenças. Meu irmão era mais introspectivo e mais tímido (de primeira vista, quem poderia ser gay era ele! rs). Adorava quadrinhos da turma da Mônica, que depois virou X-Men e personagens da Marvel. Gostava de Lego e de tanto querer entender as historinhas dos gibis – com a ajuda de minha mãe – começou a aprender a ler antes de entrar na escola.

Fui do NES e do Super NES. Já meu irmão dominava o Playstation, jogava compulsivamente RPG com nossos vizinhos e essa coisa de “Live Action” faz parte do universo dele!

Enquanto eu ficava “todo santo ano” de recuperação, meu irmão – incrivelmente – passava com as melhores notas. Na infância e na juventude, para passar de ano, eu sempre debruçava nos livros e sofria! Meu irmão, bem ao contrário de mim, não estudava nada, levava lá as broncas de minha mãe por isso e – incrivelmente de novo – apreendia todas as informações na própria aula!

Enquanto eu fazia ESPM, último suspiro que me sobrava (rs), meu irmão passou na Unicamp. Saiu mais cedo da casa dos meus pais por causa disso e seguiu direto para o Rio de Janeiro depois de passar num bom concurso público.

Eu

Resolvi aos 23 anos virar empresário. Nesse mesmo período assumi minha sexualidade (a mim acima de tudo) e não demorou muito para começar um primeiro namoro que durou quase dois anos.

Essa coisa de “virar empresário” encheu meu pai de preocupação do tipo: “você não é capaz de tocar uma empresa”. (Traduzindo: “não acha que levar um negócio próprio é penoso? Fui funcionário público a vida toda e não tenho nenhuma referência para te passar!”).

Com a minha mãe foi mais ou menos assim: “tem vontade? Vai te fazer feliz? Então batalhe e corra atrás. Sei que não tem como dizer não para você, por isso fica por sua conta. Tudo que você quis até hoje você conseguiu. Tenha fé e vou rezar para que dê tudo certo”.

Para meu pai sempre foi muito difícil entender a importância de “me deixar voar”. Em seu ponto de vista eu sempre “voei” demais e era um “porra louca” – adjetivo que ele utilizou inúmeras vezes para se referir a mim (rs).  Realmente, “comedido” nunca foi um adjetivo que poderiam pronunciar para nomear a minha personalidade. Enquanto minha mãe notava esse meu jeito com graça e positividade, meu pai se enchia de medo. De um tipo de medo de eu sempre tendenciar a ir além do que ele faria, seguir caminhos ou ter opiniões que ele não teria, me intrometer onde a ele eu não deveria. E tudo isso era muito difícil para meu pai. Foi difícil ele aceitar que eu sairia de casa contra a sua vontade. Foi difícil ele perceber que minhas aptidões profissionais apontariam para caminhos diferentes. Foi difícil de aceitar que eu não tinha nada de funcionário público e, autonomia, era a palavra que mais brilhava.

Autonomia para meu pai que foi funcionário público? Essa dimensão não fazia parte de sua realidade.

Hoje noto minha mãe colhendo todas as certezas, confianças e fé que ela creditava em mim. Hoje, apesar de muita dificuldade (rs), o medo do meu pai se transformou em orgulho, satisfação e paz. Nunca fomos todos tão amigos e unidos. Nunca tivemos tanta autonomia para mostrar pontos de vista e – por mais que meu pai goste de ter a palavra final (assim como eu – rs) – chegamos sempre num acordo.

——————

Mas qual a relação com a homossexualidade do meu filho? Como esse texto do Blog MVG vai me ajudar?

Na relação entre pais e filhos são essas histórias, dentre tantas outras histórias de crescimento mútuo, que valem realmente a pena preservar.

8 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Oi, legal este post. Eu tenho um irão tbm e adoro ele. Você poderia dizer mais sobre a relação de vc e seu irmão. Se ouve um fase em que vocês eram bem amigos, brincavam juntos ou não. Como é a relação de vcs hj. Também gostaria de saber como vc começou o empreendedorismo tao novo? Tipo para abrir sua empresa vc fez financiamento ou juntou dinheiro de seus trabalhos anteriores?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Nick!

      Minha infância foi bem unida com meu irmão. Apesar de personalidades diferentes brincávamos juntos sempre. Claro que na época existia aquela coisa do irmão mais velho e do irmão mais novo. Hoje somos bastante camaradas apesar da distância.

      Como comecei o empreendedorimos tão novo? Com muita coragem e cara de pau! Achava que iria conquistar o mundo…rs. Não foi financiamento e foi com alguns “trocados” que tinha para começar a empreitada rs.

      Te respondi?

      Abs,
      MVG

  2. Caio disse:

    Oi MGV, beleza? Bacana seu post, deu pra ter uma leve noção do porque você é quem é. Sua educação foi muito boa e sua vivência na juventude também, isso é ótimo, melhor seria se a maioria tivesse uma vivência parecida. Enfim, o que quero saber de você é: você disse no começo do texto que ainda não é pai, pretende ser?
    Você acha que com sua experiência, que depois de um tempo de relacionamento, filhos podem ajudar a manter o convívio entre homens (sabe quando da uma esfriada, ou passa o tempo da “paixão)?

    Eu num futuro próximo, depois de curtir um pouco a vida de solteiro quero me “aquetar” com um cara que eu goste, mas nunca desejei ter filhos desde criança, acho que não tenho jeito e não sinto nenhuma vontade. Se você também era assim, algo em você depois de mais maduro o fez pensar melhor sobre?

    Só por curiosidade rsrs

    Valeu.
    Abraços
    Caio.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio!
      Obrigado pelas considerações quanto a minha educação e família. Suas questões e colocações ajudam a enriquecer bastante o blog!

      Creio que todos os modelos de educação transmitem coisas boas. Existem vivências específicas positivas e negativas nas quais pais e filhos aprendem juntos. Acontece só que, quando alcançamos uma harmonia e maturidade na relação familiar, mesmo com as diferenças e as crises familiares, tendemos a olhar para a “parte cheia” do copo. Para mim, tive que me esforçar bastante principalmente pelos conflitos existentes com meu pai. Mas hoje posso dizer que superamos boa parte das diferenças.

      Sobre filhos “segurarem” a relação de um casal, acho que na sociedade atual nem em um relacionamento heterossexual os filhos seguram. Mesmo um casal heterossexual hoje, dependendo dos desacordos e das divergências, partem para outras histórias independentemente dos filhos. Não seria diferente entre um casal homossexual.

      De certa forma isso é bastante válido no meu ponto de vista. Antigamente, os pais “batalhavam” para manter a relação perante os filhos e a imagem que gostariam de transmitir a eles mesmo que a relação do casal estivesse pulverizada. Mas nesse contexto, numa crise de casal, normalmente um dos lados tendia a projetar nos filhos a frustração, colocando-os no rolo. Confesso que em diversas fases do relacionamento entre meus pais a crise era tanta entre eles que era inevitável eu ou meu irmão não tomarmos partido. E isso é bastante ruim. Não deveríamos nos colocar nem contra ou a favor, nem do pai nem da mãe pois em essência ambos tem valores importantes para nós.

      Assim, nos modelos de hoje, independentemente dos filhos, é o casal que precisa se acertar sem influências ou “desculpa” em cima dos filhos. Num relacionamento é normalmente natural a “coisa esfriar”, isso é de nossa natureza, seja para a mulher ou para um homem num relacionamento e afortunados são aqueles que conseguem manter o “fogo” pela vida toda.

      No final, amigo Caio, o importante de um relacionamento é viver o hoje, o presente e o “aqui e agora”. Não tem porque ser eterno se a relação não se sustenta mais. Sei que idealizamos frequentemente (inclusive eu) uma relação para sempre, forever and ever (rs). Mas será que o “forever and ever” nos traz realmente alfuma garantia?

      Quanto a querer ter filhos, é uma ideia que transita na minha cabeça, as vezes vêm, as vezes não. O que sei de fato é que primeiro de tudo tenho uma “filha”, a minha empresa, que me demanda muito tempo ainda. Gostaria de ser um pai presente, mesmo que “solteiro” e assim – se tiver condições de ter um filho um dia – eu preciso ter tempo e verba para a criação…rs. Não gostaria de educar com uma babá!

      Valeu pelas perguntas. Muito válidas! ;)

      Abs,
      MVG

  3. Peter disse:

    Poxa, que legal conhecer um pouco de sua família! Apesar das broncas de seu pai (que são normais, rs), dá pra ver como a relação de vocês durante o crescimento foi boa… E olha, por pouco não ocupo o lugar do seu irmão, já que tudo que descreveu dele, sou eu, hahaha! A exceção mesmo fica pelo final (Unicamp, concurso, RJ…). E de você, fico com o amor pelo Yamaha e Roland, hahaha!

    Abração!

    1. minhavidagay disse:

      Fala Peter!
      Tudo bem, sumido?

      Claro que o post mostra as coisas boas que ficaram e que sinto hoje pela minha família. Mas não foi um mar de rosas e temos ainda nossas questões. Mas o cenário hoje realmente é diferente do que foi ontem. Não foi (ABSOLUTAMENTE) nada fácil superar as crises e conflitos de conduta em relação aos ideais do meu pai que sempre se colocou muito influente nas minhas escolhas de vida, principalmente quando dependia materialmente e emocionalmente deles.

      Mas esse post saiu com espontaneidade, da maneira que os tenho e sinto hoje, graças a todo um exercício de superação de todos.

      Abs,
      MVG

  4. Luis Augusto disse:

    Muito legal de sua parte, contar um pouco de sua relação familiar. Gostei da maneira que você organizou seu texto, focando em cada integrante da sua família.
    O seu texto demonstra que apesar das particularidades e obstáculos que toda relação familiar tenha, essa só tende a ficar mais concreta e profunda com o passar dos anos(seja positivamente ou negativamente).
    Eu sei que já agradeci a sua ajuda antes, mas obrigado pelos conselhos novamente. Vou viver tranquilamente e dar tempo ao tempo. A partir de agora vou tentar ler seu blog sempre que for possível. Beijos e boa noite.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Luis!

      Agradecido pelos seus comentários e espero que o MVG esteja contribuindo com seu dia a dia.

      Bjo,
      MVG

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