Minha Vida Gay – Para pais e mães de filhos gays

Tenho um filho gay. Como lidar?

Nesse fluxo de dialogar um pouco mais com os pais e mães de filhos gays, coloco a questão da homossexualidade do filho como uma característica individual. Ser gay é parte de um indivíduo e surge com a mesma naturalidade de outras características, como extroversão ou introversão, altruismo e egoismo, concentração ou dispersão, criatividade, pensamento lógico ou abstrato, bom ou mal humor, habilidade para esportes e/ou para estudos e assim por diante. Não optamos ser concentrados ou dispersos, nem de pensamento lógico ou abstrato, nem extrovertido ou introvertido. Nascemos com determinadas características e assim contruiremos a vida buscando rever valores a todo momento. Da mesma forma, não escolhemos ser gay ou heterossexual. Sexualidade é característica que compõe um indivíduo e é espontânea (não adquirida).

Como gay assumido há mais de 10 anos, nada melhor que contar um pouco da minha relação com meus pais para tentar esclarecer e levar a ideia de que, quando um filho assume que é gay para os pais, é bastante importante mães e pais encontrarem as qualidades do filho que vão além da sexualidade. Na prática, na vida e “no mundo a fora” é a nossa habilidade de viver em sociedade que vai fazer a diferença. Homossexualidade não é um demérito embora muitos pais acreditem assim.

Imagino que para alguns pais, quando se descobre que o filho é gay, parece que todas as virtudes e qualidades transmitidas na educação é “jogada no lixo”. Parafraseando novamente a Edith Modesto do Grupo de Pais de Homossexuais, “quando o filho sai do armário, os pais entram”. E entrar no armário é colocar tanto a homossexualidade como questão que esse novo fato ofusca a representação real do filho perante a família durante um tempo: “meu filho é gay e nada mais. O que faço com esse problema?”.

Acontece que tem muita coisa num indivíduo gay além de sua sexualidade. Apesar dessa afirmação parecer tão óbvia, os pais e mães que deparam com essa realidade, costumam a intensificar as sensações negativas, culpas e inseguranças e esquecem de ver o filho em sua totalidade.

Por que mães e pais sofrem tanto pela homossexualidade dos filhos?

Tentarei resumir aqui alguns dos principais motivos de mães e pais viverem o conflito de aceitação do filho gay, mediante a observação e vivência que tive com meus pais e com os pais de meus ex-namorados:

1 – É quase que inevitável enumerar como primeiro ponto a forte influência da religião nos lares das famílias brasileiras. O cristianismo e suas vertentes é ainda predominante e em seus dogmas está escrito que a homossexualidade não é algo que se deve aceitar. O que não quer dizer que em alguns lares de base cristã a homossexualidade de um filho é tolerada. Mas, no geral, famílias que levam a frente os preceitos cristãos tem forte resistência à homossexualidade e, consequentemente, a reação não é a mais amistosa quando um filho assume aos pais;

2 – O efeito da imagem perante grupos sociais como parentes e amigos é inegável. Os pais naturalmente se preocupam com “o que os outros vão pensar”. No momento que a homossexualidade é tratado de maneira alienada, periférica, esteriotipada e exclusa pela sociedade no geral, automaticamente, a sensação de inferioridade e exclusão perante amigos e parentes ressoam no imaginário dos pais quando começam a refletir sobre a situação;

3 – Para muitos, além do gay ser um tratamento pejorativo – das piadas mais banais aos xingamentos mais ofensivos – a influência do machismo, do “ser macho” e dos valores de construção de família, papel do homem, do casamento e etc, ainda está muito enraizado na cultura brasileira, em ideais de mães e pais;

4 – Ninguém ensinou para mães e pais, nem pelos avós, nem pelas escolas, que a homossexualidade é uma possibilidade natural. Vai se aprender, normalmente as duras penas, por outros meios vivendo conflitos para depois superá-los. Hoje, ainda na sociedade em que vivemos, o assunto da homossexualidade não se apresenta claramente nas instituições, sejam nos lares ou nas escolas. Pelo contrário, buscamos fugir desse tema para evitar influências (achando que a homossexualidade se adquire por influência) ou por achar que estamos livres dessa possibilidade. Evitar influências ou achar que se é livre dessa possibilidade diz respeito a falta de conhecimento e da falta de referência. Diz respeito também ao exercício do próprio preconceito que nos limita a abordar a homossexualidade (ou até mesmo a sexualidade) dentro de casa por pertencer ao “pacote tabu”;

5 – Comentei do machismo no segundo tópico, mas entendo que deva reforçar: é invegável a influência do respeito ao “macho” nos lares brasileiros. E na sociedade na qual vivemos “ser gay” é o oposto de “ser macho”. Esse tipo de equívoco é bastante comum na sociedade, até mesmo entre alguns gays. É um equívico porque um gay, mesmo afeminado, em determinadas circunstâncias pode ter atitudes ditas como másculas. Postura e deveres perante a sociedade não tem relação direta com orientação sexual;

6 – Mães e pais confundem ainda conceitos. Não existe escolha para ser gay. Assim o termo “opção sexual”, pronunciado inclusive por alguns gays ainda, é um erro conceitual. Não escolhemos por ser gay em determinada fase da vida. Voltando ao começo desse post, a homossexualidade é espontânea e é uma característica. Não adianta querer forçar o filho a mudar, a não ser que nessa “mudança” se corrobore a uma vida infeliz e limitada. Alguns gays – forçados pela intransigência, medo da rejeição e medo do enfrentamento social (pais, parentes e amigos) – corroboram com esse desejo dos pais e da sociedade e seguem a cartilha heterossexual. As consequências, normalmente promíscuas e que estimulam a traição da esposa com um homem, estão descritas em diversos posts aqui no Blog MVG;

7 – Por fim e não menos importante, ser gay nada tem a ver com “sem vergonhice” ou falta de educação. Ser gay não é uma fraqueza ou uma doença, mas pais e mães podem entender assim. A atitude extrema, como tratar como “sem vergonhice” – como se fosse um roubo, uma descompostura ou uma fraqueza – nada mais é que sintoma do medo ou de não querer lidar com essa realidade, uma resistência. Na maioria das vezes, quando repudiamos radicalmente ou colocamos algo em jogo, a fundo, estamos com medo de ter que encarar determinada situação, no caso, a homossexualidade do filho.

Mesmo alguns pais que convivem e interagem com amigos gays nem sempre reagem de maneira mais lúcida quando o “problema” surge dentro de casa. Acaba valendo o ditado: “pimenta nos olhos dos outros não arde”.

O “X” da questão, embora seja difícil e penoso na maioria das vezes para mães e pais, é não tratar a homossexualidade como problema. Não é doença, não é disturbio, não é “falta de vergonha na cara”, nem moda, nem tendência, muito menos influência de amigos.

No período que me assumia gay para meus pais, me coloquei algumas vezes no lugar deles. Me coloquei também no lugar de mães e pais de ex-namorados e, hoje, transcrevo nesse post alguns dos motivos e dificuldades que passaram.

Não é fácil. Mas quando é difícil e se supera fica melhor ainda. Aceitar um filho gay é um exercício de superação.

2 comentários Adicione o seu

  1. Luis Augusto disse:

    Primeiramente gostaria de elogiar seu blog, que é o único que conheço que trata as questões relacionadas a sexualidade de maneira séria e real. Aprecio também a maneira que você aborda os assuntos, analisando todos os pontos de vista(da sociedade, dos pais, dos amigos e da pessoa)

    Em relação ao que foi dito no texto, concordo plenamente com tudo que foi exposto. Na minha opinião a homossexualidade deveria ser enraizada na sociedade brasileira(principalmente no seio familiar) como algo natural e espontâneo; isso talvez seja o principal obstáculo para a aceitação da diversidade sexual no brasil e também no mundo. Infelizmente isso é algo que está ainda um pouco distante da nossa realidade, mas não custa sonhar(rs).

    Acho que como você vou tentar me colocar no lugar de meus pais e ver como deve estar sendo difícil esse processo de aceitação para eles. Gostaria de perguntar algo se não for muito incômodo; Houve algum momento durante o processo de aceitação deles, que te marcou? Qual foi? Por que você escolheu este? Beijos; boa noite.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis,
      vou falar de momentos marcantes quando contei para meu irmão, minha mãe e meu pai:

      Para meu pai: hoje vejo com bastante graça a sua afirmação. Mas logo depois que contei, depois de alguns minutos explicando a ele a minha realidade sexual, ele exclama assim – “bem que eu desconfiava que essa coisa de fazer publicidade, arquitetura, é tudo coisa de viado!” – rs. Foi chocante e ao mesmo tempo engraçado.

      Para minha mãe: o momento marcante foi quando, depois de um ano “afastada” por saber que eu era gay, ela veio visitar a minha casa. Estávamos em dezembro, próximo do natal, e minha mãe resolveu fazer uma visita em casa e conhecer meu “ex-marido”.

      Por fim, para meu irmão, foi no começo também. Falei com ele por telefone. Na época ele morava em Campinas e, enquanto contava, ele dava muitas gargalhadas, naquela mistura de nervosismo e de achar que eu estava brincando. Exclamou alguma vezes: “nunca pensei que você poderia ser gay!”.

      Esses foram os momentos marcantes. Nada de excepcional, mas foram momentos que me marcaram e sempre que penso a respeito, são esses momentos que lembro.

      Bjo,
      MVG

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