Relato de um gay – Cartas de tarot

A vida é um moinho

Estamos prestes a dobrar a esquina do ano de 2013 e, nesse período, como de costume há mais de 10 anos, minha mente projeta planos, ideais e objetivos. É o tempo que tenho para tentar antever ou traçar os caminhos que quero seguir no novo ano. Coisa que todos nós, gays ou heterossexuais, deveríamos fazer.

Esse tipo de coisa até se ensina em algumas faculdades, como de administração e marketing. Porém, entre a teoria e a prática existe um fosso normalmente maior que a distância das nossas pernas. Por isso, na maioria das vezes, a sensação para mim foi de pegar impulso e pular.

Até hoje consegui, parafraseando um pouco a minha mãe que sempre disse: “O que você quis até hoje que não conseguiu?”. Realmente… paro um pouco para pensar a respeito e não me lembro de algo que quis e não tenha conseguido. A minha vida gay (e a minha vida para além disso) sempre foi de propósitos. Talvez um pouco fruto da educação, talvez um pouco da personalidade. O que não quer dizer que alguns dos propósitos valeram por ser propósitos.

Mas sabe quando a gente pensa assim – “vou fazer uma viagem ano que vem. Vou fazer um curso ou comprar tal paradinha. Vou fazer isso ou aquilo”?

E “aquilo” não se materializa porque normalmente a gente tende a deixar para depois e a coisa nunca vem. Ou a gente acha que depende de tantas circunstâncias, tempo, disposição, segurança e influências de pessoas que fica quase que um sonho.

Pois bem, já reparei que situações desse tipo, da distância do querer e do realizar, é bastante comum entre os seres humanos. E isso não é coisa de gay, nem coisa de heterossexual. É um tipo de coisa que não depende do gênero ou da raça. Reparei que meus ex-namorados sempre tinham alguma “coisinha” para se fazer na própria vida, mas que no final se deixava para depois. Notei também que com amigos é assim e, não muito diferente – as vezes – com meu irmão, por exemplo. Faz alguns anos que o ouço falar em fazer um curso diferente já que a vida de funcionário público o condiciona a uma rotina sacal. Já o ouvi falar em terapia para resolver alguns probleminhas, e isso há alguns anos também. Parece que esse ano novo ele vai tentar algo. Vai saber!

Acontece que para mim, as vezes me colocando até em um plano de anormalidade ou esquisitice, não me lembro de ter desejado algo e não ter alcançado. Desejei, inclusive, modificar os padrões viciosos no relacionamento dentro da casa dos meus pais, na época em que me incluia e depois que sai, para que houvesse um tipo de harmonia diferente, sem rusgas, frustrações e decepções. Sem minha mãe ficar numa posição de “cabo de guerra” quando eu e meu pai nos colocávamos veementemente um contra ao outro, por exemplo.

Do dia que despertou em mim esse desejo, há aproximadamente 8 anos atrás, para hoje passou-se bastante tempo. Foi um verdadeiro exercício de revisão de quem era meu pai para mim, o que eu idealizava nele e o que ele realmente poderia me oferecer em sã consciência. E no último ano colho os “louros” desse propósito.

Para chegar nessa paz – e nesse novo sentido de perceber a pessoa e amar – é importante reforçar: passaram-se aproximadamente 2.920 dias! Não foi um estalar dos dedos ou um pedido para o papai Noel que resolveu o tipo de discórdia que existia. Antigamente, pensar em meu pai era a certeza de trazer à tona um sentimento de frustração, desapontamento e ódio (que eu dizia ser indiferença). Hoje, quando ele vem a minha mente, é um homem que tem lá as suas imperfeições e dificuldades, que é humano acima de tudo, e que deve se ter carinho, amor e admiração. O “dever” aí não é uma obrigação, mas um sentimento que vem se formando fortemente longe do meu controle. E que bom que seja, assim, des-con-tro-la-do.

Nunca um homem, meu pai, foi tamanha referência na minha vida. É praticamente uma paixão que tenho cultivado hoje em dia. Não dizem que paixão e ódio caminham juntos? Pois bem, entramos no momento – e se Deus quiser até o fim da vida – do exercício da paixão. E a melhor retribuição é o seu bem estar diário, todas as vezes que nos encontramos.

Falei em Deus agora porque tive fé. Mas quem traçou o caminho e o objetivo fui eu. “Obrigado, Deus, pela fé. Mas deixa que eu faço do meu jeito!” – rs.

Esse post é quase que um parênteses de tudo que tenho escrito no Blog MVG. É um pouco mais de mim, que vem em conta gotas e, no propósito desse post, vem para um desabafo.

Eu também também tenho meus medos. E normalmente o medo dita exatamente o tamanho do fosso entre o querer e o realizar. Para mim, não seria diferente.

Cartas de tarot

Costumo dizer para a minha equipe que temos 5 prioridades básicas na vida:

1 – A família;

2 – Os amigos;

3 – O conhecimento por meio dos estudos;

4 – O relacionamento afetivo;

5 – O trabalho.

São 5 cartas que temos na mão e investindo tempo, atenção e disposição para esses 5 elementos principais, tendemos a ter uma vida de mais altos do que baixos.

Agora, como dono de empresa, eu penso da seguinte forma: a carta número 1 para mim é a do trabalho (e isso é uma preferência, é uma escolha). E a minha resposta para isso é muito simples: sem trabalho não abastecemos nem família, nem amigos, nem estudos e nem relacionamento. Longe de mim querer jogar luz no poder capital, no dinheiro em si, mas sem a dignidade do trabalho – que nos mantém inclusive a auto estima – e que consequentemente garante o dinamismo das demais “cartas”, tendemos a perder o chão.

A mim, embora clichê, sempre me fez sentido o provérbio: “o trabalho dignifica o homem”. E tenho acreditado nisso há muito tempo.

Acontece que toda virada de ano – e sinto que cada vez mais atenciosamente – a preocupação com o futuro da minha empresa, minha “filha” fica em evidência. Empresa, para quem pensa em ter, não pode estagnar. Para a sobrevivência de um negócio é necessário se debruçar, fazer um tipo de doação e posicioná-la como a carta número 1 a medida que tomamos consciência do dever que temos perante a nossa própria empresa. No geral, qualquer ser humano nessa terra que busca por um trabalho, passará a maior parte do seu tempo criando relações e vivendo dos próprios vínculos do trabalho. Por isso, a necessidade de criar um ambiente gostoso de se trabalhar sem perder o foco de objetivos, alinhados a causas e valores da própria empresa, é fundamental. Assim vou seguindo.

Estou há praticamente 12 anos levando a frente do meu negócio. Vivi a crise de 2008/2009 e descobri que existem realmente forças as vezes maiores do que a nossa própria competência e disposição. E isso dá um baque. Depois dessa grande crise, “providência” foi uma palavra que fez sentido no meu dicionário, meio parecido com os japoneses que vivem no Japão e poupam parte do seu dinheiro para conseguir se reerguer com menos dificuldades quando, por exemplo, uma bomba ou um tsunami devasta sem pedir licença. Só que atenção: japonês não é só bom para resguardar, mas para se reerguer também e talvez, a segunda ação, seja a mais representativa.

A sensação de insegurança que tenho é que o ano de 2013 virá com um comboio inteiro. E digo isso por um pouco do misticismo projetado em 21 de dezembro de 2012 e por um pouco dos objetivos de crescimento que tenho com a empresa, tornando funcionários em sócios e projetando novas responsabilidades a eles. Em 2012, numa média, trabalhei 14 horas de janeiro a setembro – 9 meses. A mim, os frutos desse empenho foram o amadurecimento de ex-funcionários, a geração de novos serviços, a integração de pessoas novas na pequena equipe e um maior lastro de relacionamentos com clientes.

Do medo, do misticismo e do macroambiente, vem essa sensação das mudanças de valores no mundo: a Europa, dos romanos e dos gregos – caras que construíram o modelo social de boa parte do mundo e que são considerados os detentores do berço da civilização – faz séculos que não sente o peso de hoje da necessidade de mudanças. Os tigres asiáticos, principalmente a China, estão se tornando mamutes. E nunca os EUA pareceu tão pálido. Brasil, país emergente, assim como pode emergir como se espera, pode submergir como a Argentina! Bem ou mal, como em 2008, o tsunami pode bater aqui. Numa crise e levando uma empresa própria, não existe chefe para dizer “faça isso e ajeite assim” ou “sinto muito, mas estamos fazendo cortes por causa da crise”. A autonomia tem esse preço!

Do medo, do racional e do universo da minha empresa vem a dúvida: “será que sou suficiente? Será que tenho capacidade de levar toda essa história para um novo grande capítulo? Será que as pessoas que estão comigo vão conseguir?”. Na hora que encosto minha cabeça no travesseiro ou quando despejo palavras no Blog MVG quase como uma psicografia, entro nessas questões.

Eis o parênteses. Tenho minhas questões e inseguranças que – embora não estejam mais relacionadas à sexualidade – me dão aquele frio na barriga e uma sensação de querer me esconder debaixo das cobertas! A diferença, queridos leitores, é que não existe chefe, pai ou mãe para ser a minha desculpa ou consolo.

A primeira carta do meu baralho pode até ser o trabalho. Mas não fosse os privilégios vindos das conquistas das demais cartas, a minha vida não seria com essa lucidez.

Eu também tenho meus medos. E o que eu faço com isso?

2 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Que bom MGV que você não tem nada que tenha desejado e não conseguido. Eu pelo contrário tenho muito ainda que não consegui rsrsrsrs.

    Percebo que você tem um jeito especial de lidar com as pessoas através de suas palavras, o que quer dizer que seu caráter humano está bem entonado em todas as suas relações e isso ajuda muito a manter uma empresa, afinal todas elas são formadas por pessoas e para que funcionem bem precisam que essas pessoas estejam alinhadas, motivadas e treinadas para executar com eficiência suas funções e gerar bons resultados. Você também é maduro o suficiente para levar um negócio a frente, creio que vai se dar bem adiante :D

    Bem quanto a mim, me enquadro direitinho nesse modelo de projetar o “querer”, mas empacar no momento de “fazer acontecer”. Estou a passos lentos tentando. Sou da geração Y quase Z, aí já vi né, a pressão das modernidades e sua própria natureza já te fazem querer ter tudo e saber tudo (ou pelo menos o máximo possível) em menos tempo. Aquele pensamento de já ter uma vida muito boa se possível até antes dos 30. E o que pesa mais ainda é minha personalidade própria, eu me cobro muito e por isso também quando não consigo me realizar por qualquer tipo de barreira que esteja no caminho a frustração é muito grande. Afinal eu penso que posso ir muito a frente, mas nem sempre estou motivado o suficiente para ir atrás.As vezes também pela demora que leva já dá aquele desânimo.

    Estou também correndo atrás de trampo, já me formei ano passado, estou cursando inglês, algo que já deveria saber desde o final do ensino médio, mas não deu para investir e agora me cobro rsrs. Estou estudando para um concurso, e preciso muito passar, vejo que vai resolver quase tudo no curto e médio prazo, justamente porque um dos motivos de passar por essa vida “chata” é a falta de dindin que possibilita ter de um tudo né….tomara que essa luz esteja no final do meu túnel

    Abraço e boa semana.

  2. Luis Augusto disse:

    Boa noite para você MVG. Mais uma vez lhe parabenizo pelo seu excelente texto e pela clareza de suas palavras.

    Pela minha pouca idade acho que não sou a pessoa mais indicada para dar conselhos a um homem que tem muito mais experiência do que eu e que está em outro patamar de vida pessoal e profissional(por exemplo, a minha vida profissional nem começou ainda).Entretanto vou tentar passar algo do pouco conhecimento que tenho da vida. Acho que a melhor forma de superar os medos é tentar se conscientizar de que são apenas pensamentos e sentimentos do momento e que na verdade não podem condizer em nada com a realidade, ou seja, ás vezes algo que tememos não é tão grandioso como pensamos.

    Outra atitude é perceber que a única pessoa que pode realmente nos livrar de um medo, somos nós mesmos; pode parecer clichê mas esse é um pensamento muito importante. Eu sei que é muito difícil e doloroso não ter alguém para ter como consolo ou como desculpa; apesar de minha pouca idade já passei por situações em que não tinha um ombro amigo para me encostar ou algo par ser o culpado pela minhas atitudes. Mesmo assim coloque em sua cabeça que precisamos em alguns momentos de nossas vidas enfrentar problemas e situações sozinhos, para crescermos como pessoas.

    MVG quero que saiba que acima de tudo você é uma pessoa muito competente(conduzir uma empresa por mais de 10 anos é uma tarefa que poucos conseguem) e que certamente é respeitado por seus funcionários e familiares como chefe e como pessoa. Desejo que você seja uma pessoa feliz em 2012,2013 e por todo percurso de sua vida. E que sua empresa consiga atingir o sucesso e se manter nele. Caso esse último não se realize, quero que saiba que a vida é feita tropeços e acertos; e que há males que veem para o bem(essa parece frase de mãe,rs).

    Esse foi a minha tentativa de responder sua pergunta que estava no final do texto(não sei até agora se ela foi retórica, rs). E de tentar ajudar alguém que me ajudou anteriormente. Apenas queria fazer uma pergunta se não for muito incômodo, Qual é o seu nome? Mil beijos e abraços(acho que exagerei, mas nesse caso tudo bem) e uma ótima noite.

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