John Edgar Hoover – Um gay controverso


Há alguns meses atrás assisti “J. Edgar”, filme de Clint Eastwood, que retrata a vida de um dos “mentores” do FBI. Na sexta-feira passada vi “US vs. John Lennon”, documentário que apresenta o cenário dos Estados Unidos no final da década de 60. E em determinado momento os filmes se cruzam e, assim, pensei em traçar algumas reflexões a respeito, que envolvem o contexto da homossexualidade.

Para iniciar o post, acho importante contextualizar um pouco os leitores (até com fotos) já que apresentarei reflexões de um tempo em que a maioria dos seguidores do Blog MVG nem era ainda o espermatozóide que fecundaria os óvulos de nossas respectivas mães (nem eu era!):

Os três John’s

John Edgar Hoover

John Edgar Hoover foi o homem que configurou as bases do FBI que conhecemos hoje. Quem assistir o filme J. Edgar conhecerá um profissional de personalidade intransigente e autoritária, quase que um personagem de si já que escondia nos bastidores de sua intimidade um relacionamento gay com Clyde Tolson, seu “braço direito”. J. Edgar era compulsivo pelo trabalho e morrera sem conseguir assumir sua identidade sexual, sucumbindo no próprio personagem que havia criado. No contexto, J. Edgar era um dos braços fortes do governo Nixon, contra os movimentos pacifistas que se manifestavam no começo da década de 70.

John Sinclair

John Sinclair, as vistas de muitos, foi o “laranja”, preso por ter dado dois cigarros de maconha a um agente disfarçado. A sociedade nortemaericana na época iniciava o movimento do “peace and love” e rebatia diretamente a prisão de John Sinclair, glorificando-o. O show comício que fora idealizado pelos principais ativistas contra cultura traria resoluções para o caso.

John Lennon

John Lennon, já cansado do “modelo Beatles”, passava a se envolver com os movimentos pacifistas, pró diversidade e anti racista que culminavam naquela época. Foi assim que, com o movimento “Bed Peace” junto com Yoko Ono e com as canções “Give Peace a Chance” e “Imagine”, Lennon tornava-se o ícone mais representativo da contra cultura estabelecida naquele período.

O contexto desse post – Guerra do Vietnã

Guerra do Vietnã

Foi durante os mandatos do presidente Nixon que a Guerra do Vietnã chegava ao auge das atrocidades (começo dos anos 70). Os EUA resolvera entrar na guerra pelo fato do Vietnã do Norte ser mais favorável ao comunismo da União Soviética; era a época da Guerra Fria. De fato, muitos estudiosos e historiadores entendem hoje que a inclusão dos EUA na guerra fora uma ação tristemente arbitrária. Milhares de civis foram mutilados, assassinados e, por meio de recursos químicos e tecnológicos, os americanos detonaram casas, aldeias, florestas, lagos e rios da região da Indochina.

Nesse período, os movimentos contra cultura do “peace and love”, Black Panthers (Panteras Negras), Hippy, explodiam na América do Norte e pulverizavam-se para todo o mundo. Nunca uma sociedade teve tanta voz em prol a paz, o amor, o anti racismo e, certamente, a expressão da igualdade ao homossexual brilhava como as demais vertentes naquela fase. Foi nessa época (e um pouco depois) que nomes como Janis Joplin, Jimi Hendrix, Joe Cocker, Bob Dylan, Joan Baez e – claro – John Lennon eram pronunciados por muitos, tendo a música como a principal porta-voz dessas manifestações de paz.

A sociedade americana estava dividida. Praticamente 50% era a favor da guerra e os demais, compostos por jovens, artistas e ativistas mostravam suas caras, sons e movimentos nas ruas para que a guerra acabasse. Lennon, assim, compunha “Give Peace a Chance” como num mantra, que ecoava na forma de hino para que os soldados americanos voltassem para seu país.

John Lennon assumia sua posição pacifista perante a sociedade e o governo. Heterossexual, músico, artista e de intenções revolucionárias, passava a peitar de frente – porém ser armas – o governo liderado por Richard Nixon.

John Sinclair estava preso por causa de dois cigarros de maconha. Naquele cenário, os mesmos ativistas fizeram um grande show comício, manifestação popular e política para que Sinclair saísse imediatamente da prisão. Lennon compareceria ao evento e, diante tanto barulho, no dia seguinte, o rapaz dos dois cigarros de maconha estaria livre.

Por outro lado, tínhamos o FBI como braço direito forte de Nixon. Nada mais, nada menos que um homossexual autoritário – John E. Hoover – impôs ordem para sufocar o movimento. Atacou diretamente John Lennon, grampeando telefonemas e, num conchavo de poder, conseguiriam todos expulsar o inglês John Lennon dos EUA.

O embate entre sociedade e governo, representado nas filmagens do documentário “US vs. John Lennon“, deixa bastante claro como os norteamericanos – tão criticados e até mesmo apáticos hoje em dia – contribuíram diretamente para uma sociedade de inclusão das diferenças.

Curioso pensar que no começo da década de 70 um heterossexual foi o símbolo máximo da paz, do amor e do respeito a diversidade. Mais curioso ainda rever a história e notar que o pulso firme, da repressão, de John Edgar Hoover escondia uma dependência visceral pelo seu eterno companheiro Clyde Tolson.

Nem todos os gays são os mocinhos da história e é por isso que as vezes me incomodo com os movimentos ativistas de hoje que – vez ou outra – se colocam de maneira superficial e pouco embasada. Penso que as vezes, se é que a fórmula de movimento social nas ruas ainda tem efeito, deveríamos pensar menos em plumas e cores e atribuir convicções e postura perante um discurso e ideais, como ficam evidentes nos movimentos da década de 70. Esse é um ponto.

John E. Hoover foi um gay ao avesso. Sucumbiu em seu próprio personagem do FBI, restringiu-se a sua parcialidade, submeteu-se aos seus próprios valores de poder e visibilidade, e perdeu-se durante o tempo, deixando um lastro histórico restrito a seu território. Por outro lado, “Give Peace a Chance”, “Imagine” e a imagem de John Lennon perpetua-se todos os anos e ganha algum tipo de representação na mente das mais novas gerações globais, vinculada normalmente a paz e ao amor, esse último ideologicamente falando, acima das raças, cores e orientações.

Afinal de contas o mundo está mais esclarecido ou não? A mim está e ao contrário da lógica racional humana, devemos muito dos benefícios de uma sociedade mais preparada e receptiva à diversidade a um heterossexual chamado John Lennon e isso é história escrita e registrada. Os anos 70 realmente tiveram movimentos sociais que ajudaram a dar mais clareza para a mente humana.

O gay, daquele contexto irreversível, lutava contra a ele mesmo.

5 comentários Adicione o seu

  1. Caio disse:

    Olá MGV. Isso que você disse é verdade, em relação a controvérsia de Hoover. Não assiti o filme ainda, esta no meu computador, mas ainda não deu tempo rs.

    Bom com relação ao John, vejo que ele teve um papel fundamental para transformação da sociedade estadunidense e foi um ícone de paz para o mundo todo. Mas apenas fazendo um adeno na sua visão de quando diz com relação a um heterossexual ter impulsionado isso, também não podemos esquecer do início do movimento gay organizado que surgiu após o atentado da polícia nova iorquina no bar Stonehall em 1969 e da primeira parada do orgulho gay realizada em São Francisco em 1978, claro que revindicando mais direitos e paz aos gays, mas também compartilhando da visão de harmonia para todos. E pelo que li, na época os hips e outros simpatizantes também se juntaram pela causa. Claro que nesse período as paradas eram mais politizadas do que são hoje, ainda que várias ao redor do mundo ainda sejam, diferente daqui do Brasil, que já perdeu um pouco do foco.

    Ps: pelo que li de algumas fontes que podem ser confiáveis ou não, Lennon não era bem hétero e tinha uma quedinha pelo Paul McCartney kkkkkkkkkk

    Bjinho. Até mais.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Caio!

      Na realidade, um dos primeiros grandes empresários dos Beatles, Brian Epstein, era homossexual e tinha latente uma paixão pelo John. De fato, pelo que a gente vê em relatos e documentários autorizados, o John sabia disso mas não concebeu nenhum caso com Brian. Respeitava os homossexuais com naturalidade.

      Quanto a outros movimentos atuais que têm uma repercussão mais politizada, veja esse: PINK DOT 2012

      Bjo,
      MVG

      1. Caio disse:

        Hummmm que bacana esse PINK DOT. Exatamente porque em Cingapura o tabu da homossexualidade é pior do que no Brasil. Que ótimo terem iniciativas como esta. Espero que se espalhe pelo mundo.

        Foi um evento bem organizado e ficou da hora as luzes ao anoitecer. Não poderia ter fechado melhor do que com True Colors da Cyndi.

        Bom domingo, bjo.

  2. Luis Augusto disse:

    Boa noite MVG, tudo bem?
    Gostei muito do seu texto, consegui absorver muitas informações novas a partir dele. O que mais me chamou atenção nele, foi a ironia que ele relata. John Lennon que era heterossexual é hoje considerado um dos maiores símbolos de amor, liberdade e respeito; e também uma das pessoas mais admiradas atualmente tanto pelas gerações atuais quanto pelas antigas.

    Enquanto isso, John Edgar Hoover, um homossexual foi um dos alicerces na lutra contra os movimentos sociais daquela época.E também foi um homem autoritário e que jamais conseguiu assumir sua orientação sexual(acho que talvez nem para si mesmo).

    Na minha opinião os movimentos sociais contemporâneos visam apenas o lado político e não dão a importância necessária ao lado humano(que penso eu, é o mais importante). Queria fazer um pergunta para você. O preconceito da sociedade afeta de alguma maneira uma relação gay, seja diretamente ou indiretamente? Eu sei que essa pergunta não tem muita relação com o que você escreveu, mas você é a única pessoa que conheço que pode responder. Beijos; tenha um ótima noite.

  3. acoplador disse:

    Reblogged this on FATOS & FOTOS.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s