Namoro gay – Quando universos colidem

Namorados gays de mundos diferentes. Por que diferente assim?

De tempos em tempos “transformo” comentários ou e-mails de leitores em posts pelos casos ricos que contribuem diretamente ao Blog MVG.

Dessa vez, obtive o relato de “Romulo” que narra seu namoro gay de 4 meses e das diferenças que marcaram. Romulo termina seu comentário com uma série de questões que responderei por aqui.

Relato de Romulo:

Namorei durante 4 meses com um cara, que era digamos “enrustido” (apenas 3 amigos íntimos sabiam de sua sexualidade)… No início do namoro tudo era muito agradável, ele conseguiu conciliar sua vida comigo e com sua vida social agitada já que é bastante popular no meio da alta sociedade. Eu não o julgava porque, além de estar apaixonado, sei que a questão de “se assumir” é pessoal e deve ser tomada com cautela levando em consideração muitos requisitos, então respeitei. O que aconteceu foi que depois de mais ou menos, ele não conseguia mais conciliar muito as duas vidas, e a que mais pesou foi sua vida “SR. balada com os amigos” e eu fui ficando de segundo plano.

Eu não tenho muitos amigos, estou muito satisfeito com os que tenho, e todos sabem de mim. Durante o relacionamento tentei preservá-lo ao máximo, chegando a inclusive negar uma saída com seus amigos, no qual eu seria apresentado como uma amigo de um “curso de línguas”. Não sou o tipo mais sociável do mundo, ainda mais com um meio em que me sinto totalmente deslocado, como é o caso da alta sociedade do qual ele faz parte. Isso tudo culminou em saídas não avisadas previamente pra baladas com os amigos e mentiras, e ele mesmo terminou comigo porque disse que não tinha estrutura para levar o relacionamento adiante.

Bom, durante todo o relacionamento eu fiquei me sentindo de certa forma deslocado (e isso acabou com minha auto estima) porque eu percebo que ele é do tipo de pessoa que liga muito para status, por viver no meio rico, e eu, apesar de ser um cara bonito e simpático, não tenho nada de status a oferecer pra ele, nem tenho condições de acompanhá-lo em viagens em busca de baladas no exterior de 6 em 6 meses, nem tenho um corpo sarado que, apesar de ele não ter me dito, ele tanto cultua. Entrei no que alguns psicólogos chamam de “comparacite” com o mesmo, “ele tem isso e eu não tenho”, “ele pode ir e eu não posso, o que fazer?”, “ele mora em uma cobertura e eu moro em um bairro mais humilde”. Enfim, faz mais ou menos 3 meses, no sábado recebi a notícia de uma colega que anda no meio dele dizendo que ele “se assumiu”. Eu, que apesar de não ter superado completamente mas estava bem mais tranquilo, entrei em um novo colapso mental, “porque ele se assumiu?”, “pra quem ele se assumiu?”, “será que ele está com uma pessoa TÃO melhor do que eu pra ter feito isso?”… entrei em choque, porque achava a ideia de ele fazer isso tão remota por causa de sua ligação com status e pelo fato de uma das coisas que mais desgastarem nosso relacionamento foi o fato de ele ter sido enrustido.

ISSO TUDO é meio que pra dizer que eu sou um cara que como já disse, me considero bonito e interessante, mas tenho um GRANDE problema de baixa auto-estima, talvez pela minha criação de pais aéreos, e também por não ser rico nem nada do tipo, e isso faz com que eu seja um pouco problemático e tenha dificuldades de engatar um relacionamento (NO QUE DIZ RESPEITO À MINHA PARTE), queria fazer algumas perguntas.

Você acha que quando existem muitas divergências de personalidade, um namoro pode dar certo (pessoa baladeira x pessoa caseira; Pessoa rica x Pessoa CM; Pessoa que cultua status seja por beleza quanto econômico/fama na sociedade x Pessoa madura: Todos esses exemplos existiam no namoro). O que você acha que significa “SE ASSUMIR”? Tirando em experiências seus relacionamentos nesses anos todos de experiência que você relata como assumido e exalta tanto no blog, acha que é normal depois de 3 meses de término eu ainda pensar tanto na pessoa? O que significa superar uma pessoa pra você? Quando se está com problemas de auto-estima, acha que é melhor evitar em situações sérias de relacionamento pra evitar que a carência faça com que eu aceite muitas coisas erradas (sou uma pessoa que se apega com facilidade) ou melhor “subir na vida” primeiro, e como você citou em outro post, levar o trabalho como primeira carta do baralho pra me sentir bem comigo mesmo? E pra finalizar, o que você faria em minha situação, levando em conta que eu ainda sou meio apaixonado (não conheci ninguém novo nesses 3 meses, nem pra nada casual e morando numa cidade que não há muitos caras que me atraiam) Iria atrás dele pra saber os motivos dele ter se assumido? Tentaria esquecer? Fico grato se puder me responder, sei que você não é psicólogo mas fiz as perguntas por você ser uma pessoa experiente.

Obrigado.

MVG

Oi “Romulo”, tudo bem?

Como comentei, traria seu texto para um post pois levanta questões importantes que podem interessar a muitos leitores e colaborar com o enriquecimento do Blog MVG. Assim, vamos as suas questões:

Você acha que quando existem muitas divergências de personalidade, um namoro pode dar certo (pessoa baladeira x pessoa caseira; Pessoa rica x Pessoa pobre; Pessoa que cultua status seja por beleza quanto econômico/fama na sociedade x Pessoa madura: todos esses exemplos existiam no namoro).

Romulo, no geral por mais que o ditado diga “os opostos se atraem”, na prática não funciona tanto assim, ou melhor, nem todos os ditados correspondem à sábias palavras! Vou começar a dizer o que penso sobre a ideia “Pessoa fútil x Pessoa madura”.

Antes de mais nada, amigo Romulo, desculpe ser direto mas não sei o quanto você ainda tem uma maturidade estabelecida. Falo isso pois, quando somos maduros aceitamos nossa condição (sexual, financeira, intelectual, afetiva, familiar, etc) sem que reações externas afetem a nossa auto estima com tanta força.

As questões de classe social não deveriam ser realmente questões entre todos nós, héteros ou gays. Mas essa diferença fica realmente evidenciada em nossa sociedade brasileira que é assim, digamos, tão bipolar. Isso, quando olhamos de maneira generalizada. No específico, por que uma pessoa “rica” não pode se relacionar com uma pessoa “média”? Existem casos e casos e existe, principalmente, muito a maneira que nos enxergamos nos contextos. Você mesmo se sentia subtraído, menor, com menos condições que seu ex-namorado. Em outras palavras, você acabava super valorizando as coisas que você não tinha em detrimento ao que ele tinha e esquecia das coisas que você tem e do que você é. Em outras palavras, acho que é possível duas pessoas de classes diferentes amadurecerem e evoluírem juntas. Mas no caso, você adquiriu muitas referências negativas do seu ex-namorado se colocando “por baixo”.

Ainda nessa sua primeira pergunta, existe a questão das concessões. O exercício da concessão leva-se tempo e 4 meses de relacionamento é muito pouco para se absorver a ideia da concessão. Quando estamos dispostos ou temos a consciência disso, não é uma balada ou “hábitos de gente rica” que podem ofuscar a relação, nem a vida caseira ou “hábitos de gente humilde” que podem atrapalhar. Tudo isso é coisa da nossa cabeça normalmente e de quanto abrimos mão para cultivar um relacionamento.

O que você acha que significa “SE ASSUMIR”?

O primeiro ponto da ideia de “se assumir”, no contexto, diz respeito a aceitar a sua própria natureza sexual sem desculpas, sem mentiras ou sem a necessidade de ter que contornar situações, deixando de fazer o que gostamos ou o que gostaríamos, por sermos gays. O que não quer dizer que precisamos contar para o mundo inteiro! Fora a família, normalmente a gente sabe com quem construímos uma relação mais íntima. Para esses sim seria interessante assumir pois normalmente nos traz paz.

A própria palavra “intimidade” diz respeito as pessoas saberem do que é mais reservado ou particular. Se não assumimos, tendemos a omitir a nossa intimidade ou, não somos tão íntimos assim.

Tirando em experiências seus relacionamentos nesses anos todos de experiência que você relata como assumido e exalta tanto no blog, acha que é normal depois de 3 meses de término eu ainda pensar tanto na pessoa?

É normal pensar três meses, um ano, dois anos! Cada um tem um tempo para preservar uma imagem idealizada de uma pessoa, e isso acontece para homens e para mulheres. Claro que ficar nutrindo uma imagem não é interessante porque não existe perfeição e não deveria existir aquele sentimento de que poderíamos ter feito isso ou aquilo para não ter terminado. Mas, humanos que somos, fluimos desse jeito.

O que significa superar uma pessoa pra você?

Superar a pessoa é quando a tiramos da ideia do ideal, é quando resolvemos. Não existe ninguém perfeito, nem relacionamento perfeito, mas acabamos cultivando uma imagem fantasiosa da pessoa, a colocamos num pedestal dentro de nossa cabeça e achamos que perdemos a maior oportunidade do mundo. Porém, quem tem que ser “perfeito” somos nós mesmos e não o outro.

Quando se está com problemas de auto-estima, acha que é melhor evitar em situações sérias de relacionamento pra evitar que a carência faça com que eu aceite muitas coisas erradas (sou uma pessoa que se apega com facilidade) ou melhor “subir na vida” primeiro, e como você citou em outro post, levar o trabalho como primeira carta do baralho pra me sentir bem comigo mesmo?

Questões de auto estima todos nós temos e teremos sempre em fases diferentes da vida sobre assuntos diversos. Precisamos nos esforçar sim para superar essas questões e não torná-las um consolo que justifique o que somos. Pelo contrário, deveríamos nos tornar cada vez mais hábeis para preservar a estima própria no lugar. Um relacionamento não vai “curar” nossas questões de baixa auto estima.

Não acho que devemos evitar um relacionamento se não estamos com boa auto estima. São relações distintas pois, auto estima é individual e relacionamento tem a ver com compartilhar. Um relacionamento maduro tende a nos dar apoio para que nós mesmos busquemos melhorar a nossa auto estima, mas como disse, não é a nossa salvação. Projetamos no outro a esperança da “cura” de nossos problemas. Mas essa “cura” vem de dentro da gente mesmo.

Note também como a questão de “subir na vida” é algo seu que está diretamente relacionada a “falta de sucesso” em seu relacionamento, ou por você se sentir inferiorizado por isso. Mas será que é assim mesmo? Será que todos os “ricos” vão te olhar por baixo ou será que você se condiciona de maneira inferiorizada por achar que “ser rico” resolve todos nossos problemas?

Essa “comparacite” ficou forte dentro de você e quem pensa assim é você mesmo!

E pra finalizar, o que você faria em minha situação, levando em conta que eu ainda sou meio apaixonado (não conheci ninguém novo nesses 3 meses, nem pra nada casual e morando numa cidade que não há muitos caras que me atraiam) Iria atrás dele pra saber os motivos dele ter se assumido? Tentaria esquecer? Fico grato se puder me responder, sei que você não é psicólogo mas fiz as perguntas por você ser uma pessoa experiente.

Iria “atrás dele” se estivesse com a auto estima no lugar. Mas para isso, querido Romulo, você deve aprender a valorizar o que tem e o que você é. Não estou dizendo para se tornar um “orgulhoso nato” porque um orgulhoso nato também tem problema de baixa auto estima, só tenta não demonstrar (rs). Estou dizendo para você encontrar uma paz com aquilo que você é e, aquilo que você deseja, corra atrás.

Você entrou num modelo de comparacite negativa, se colocando abaixo, não dando luz aos aspectos positivos que essa relação poderia trazer a você. Acabou enxergando o negativo, aquilo que você acreditou que te subtraia. Todas as relações, independentemente das classes sociais, trazem para nós comparacites positivas ou negativas. Numa próxima, tente enxergar os atributos que podem te agregar na vida e não aqueles que você acha que te minimizam. Seja feliz com você mesmo e corra atrás daquilo que te fará melhor.

Existem outras pessoas no mundo. Busque outras referências e entenda que, esse conflito que vive hoje, vai te ensinar a ser alguém mais preparado amanhã. Muitas vezes queremos nos livrar rapidamente dos sofrimentos que passamos, mas esquecemos que – como humanos – são nesses momentos de conflito e de crise que temos a oportunidade de nos tornar pessoas melhores, mais preparadas e mais vividas, ou viver “eternamente” os conflitos.

Acredite: minha experiência que você cita veio principalmente dos conflitos dentro de mim que aprendi a superar.

Abs,
MVG

7 comentários Adicione o seu

  1. Romulo disse:

    Ótimos comentários querido autor do MVG. Gostaria que você tivesse levado um pouco mais em consideração também a falta de segurança que a pessoa me passava no namoro em si, como as mentiras e etc (além da minha própria falta de segurança) no qual foram citadas e de não haver previsão de aceitação da parte dele no momento em que estivemos juntos o que acabava fazendo com que eu não visse perspectivas de um namoro fora das “4 paredes” e também, o fato de que ele terminou comigo e agora, como me restou um grande trauma, mesmo que ele esteja livre eu ainda tenho minhas “cicatrizes” que poderiam me incomodar e não sei se poderia ressuscitar algum relacionamento ainda. Minha psicóloga citou em uma sessão: “talvez só o amor não seja suficiente pra que uma relação seja duradoura, também é necessário segurança de ambas as partes”. Você tem razão nos aspectos de aceitação da minha parte, e eu a reconheço, meus problemas internos são algo que eu vou ter que resolver por mim mesmo e isso não diz respeito à ninguém mais, talvez no momento eu precise de um tempo pra “amadurecer” meus fantasmas psicológicos, acho que enquanto eu não encontrar um pouco de paz interna dificilmente eu vou conseguir paz em um relacionamento ou muito menos passar essa paz para a pessoa ao meu lado. Gosto de absorver pontos de vistas de pessoas próximas e/ou experientes, como é o seu caso. Espero que possa ajudar outras pessoas que estejam passando por situações semelhantes. Obrigado pelas respostas e pela luz que você tenta passar aos leitores.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Romulo,
      obrigado pela troca de experiências!

      Não comentei nada do seu ex-namorado pois não acredito que ele esteja em foco. Poucos 4 meses, traições, mentiras, priorizar uma “vida solteira de baladas” são argumentos suficientes que mostrar a falta de maturidade e preparo do seu ex que – a mim – dispensou comentários. Acabei focando em você que recorreu pelo Blog com perguntas próprias mas que entendo que possam servir de referência para outros leitores.

      Obrigado!

      Abs,
      MVG

  2. Luis Augusto disse:

    Boa noite, MVG, tudo bem com você?
    Gostei muito do texto e das situações que ele narra. Mesmo não tendo experiência alguma em relacionamentos, ou seja, nunca namorei; acho que se uma das partes numa relação sofre de um sentimento de inferioridade e fica se comparando com o seu companheiro(a), essa tende a não dar certo.Porque a pessoa acaba vendo apenas os lados negativos do relacionamento e pensando que nunca será bom o suficiente para o outro.

    Sempre tive curiosidade em saber quais são as particularidades que existem num relacionamento amoroso entre dois homens que não há outros tipos de relação. Eu sei que todos os relacionamentos, sejam eles héteros ou homo, passam por momentos de alegria e de tristeza, mas tenho essa incógnita na minha cabeça. Você poderia responder essa pergunta, por favor? Ficaria muito grato. Beijos; tenho um bom final de dia!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis!
      Obrigado novamente por seus comentários. Realmente é interessante notar um jovem com 14 anos com reflexões tão legais!

      Olha, Luis, no meu ponto de vista não existem tantas nuances entre dois homens que se diferem de qualquer outro casal. Em relacionamentos passamos por altos e baixos, a paixão pode esfriar, pode esquentar, o amor as vezes enfraquece e depois volta, temos que aprender a fazer concessões, e temos que buscar por pessoas que tenham afinidades conosco.

      No final e no geral, assuntos de relacionamento afetivo, está mais conectado ao “ser humano” do que “ser gay” ou “ser heterossexual”.

      O que acontece entre gays – as vezes – é que não conseguimos conceber relacionamentos duradouros, que cheguem a anos de relacionamento. Muitos ficam alguns meses, até consideram como namoro, mas não passam desses meses. E meses para mim não dá tempo nem de conhecer a intimidade do outro!

      Mas, mesmo nesse ponto, muitos heterossexuais hoje em dia são asism também: não querem relacionamentos longos e priorizam muito a individualidade.

      Ok? Fique a vontade para trazer mais perguntas a medida que vierem a sua mente!

      Abs,
      MVG

  3. Luis Augusto disse:

    Desculpa pelos erros de gramática e de coesão e coerência textual que tive no comentário anterior.

  4. Romulo disse:

    Querido autor do MVG, relendo meu comentário percebi que pode ter soado como uma crítica mas ao contrário, eu só quis que você falasse um pouco da sua opinião sobre o que comentei, e queria dizer novamente que suas respostas foram muito enriquecedoras, como sempre. Acho você um cara super inteligente e agora você comentou mais um detalhe que eu queria saber de VOCÊ, por isso exaltei, obrigado.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Romulo!
      Fique tranquilo!

      Não tem como passar entonação pelos textos e em nenhum momento fiquei aborrecido com suas palavras. Mesmo sendo críticas, não vou me chatear quando acontecer.
      Sei que não foram críticas.

      Se tiver mais questões, não se iniba em trazer até o Blog para conversar e ter meus pontos de vista! :)

      Abs,
      MVG

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