Vida gay – Um universo que conspira a favor da diversidade

Talvez pelo fato de ser gay, e muito provavelmente por isso mesmo, a gente acaba descobrindo aqui e ali novas pessoas que fazem parte desse universo da homossexualidade. A informação chega até a gente com tremenda facilidade! É cada vez mais frequente a ideia de convívio com gays, e uma constância para boa parte das pessoas do meu círculo mais próximo que, mesmo que formem um universo particular, refletem a minha realidade.

Dei alguns dias de férias do MVG para poder sossegar a cabeça e ter o controle do tempo ao meu favor, ao contrário do meu dia a dia, quando o tempo está a favor da minha empresa e de meus clientes. Como trato o “Minha Vida Gay” com boa parcela de seriedade e comprometimento, nada mais justo que dar esse tempo a ele também.

E foi nesse tempo que pude “zerar a cabeça” e não pensar em agenda ou hora marcada. Fiz um jantar pré-natal em casa, convidando meu irmão, minha futura cunhada que pouco conhecia ainda, meus pais e – obviamente – meu namorado.

Não sei se o clima conciliador e fraternal do Natal, coisa que aconteceu também na época que minha mãe assumiu a minha sexualidade, fez meu pai não ter parcimônias em comparecer dessa vez. Foi a primeiríssma vez que a família se reuniu toda, incluindo meu pai e meu namorado, meu irmão e minha futura cunhada, os dois últimos com mais dificuldade de ver pelo fato de um morar no Rio de Janeiro e a outra em Floripa.

A união se fez em minha casa e, superando seus próprios limites e seus 71 anos, meu pai fez presença – embora discreta e calada – definindo assim um jantar com os principais integrantes da minha família.

A situação que poderia ser emocionante ou definitiva para pacificar os corações inquietos não foi nada demais. Muito provavelmente porque a mim, a frequência e a sintonia que se encontram as relações importantes da minha vida já me é bastante suficiente. Em outras palavras, já existe uma paz no meu coração respeitando os limites do meu pai.

Foi a estreia da minha cobertura nova, da área externa de casa e da churrasqueira portátil que ganhei do meu namorado. Foi a estreia da família ineditamente reunida, três casais, e foi a estreia formalizada da família reunida para celebrar a vibração que se estabelece no final do ano.

Meus pais foram embora mais cedo e ficamos eu, meu namorado, meu irmão e minha futura cunhada reunidos na mesa da cozinha em papos mil, madrugada a drento, falando sobre vida, expectativas, diferenças e semelhanças entre eu e meu irmão e tudo mais.

Conversa vai, conversa vem e a espontaneidade da minha cunhada começa a trazer histórias sobre dois de seus antigos relacionamentos do passado: ambos gays, ambos – até onde se tem notícia – ainda mal resolvidos e usurpadores de mulheres! Com um deles houve muito sofrimento, foram alguns anos de relação num processo de traições com outras mulheres, algo doentio, confuso ou sofrido. Com o outro foram alguns meses que levaram a relação mais para a amizade, esse segundo ainda também indefinido.

“Fazia vistas grossas para ambos e não queria acreditar que eram gays” – minha cunhada complementa.

A mãe da minha cunhada já lançou: “deixa ver se dessa vez você não vai se confundir” – referindo-se ao meu irmão. Minha cunhada replica: “dessa vez, mãe, atirei no irmão certo!”. E realmente, passou raspando! rs

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Eis que nesse “mundo ovo”, numa festa de final de ano de amigos do meu namorado, um dos convidados era primo de primeiro grau da minha cunhada. Universos distintos: o primo é amigo de um rapaz heterossexual que divide o apartamento com meu namorado. A minha cunhada morou a vida inteira em Florianópolis.

Minha cunhada ainda não sabe, mas esse primo é também gay! Quem sabe disso são todos os amigos que compartilharam a festa e – pelo que tudo indica – a família da minha “cunha” não tem notícias a respeito (ainda).

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No ano novo cheguei na casa de praia dos pais do meu namorado depois de seis horas de trânsito! Aguardamos a visita de um casal de amigos que chegariam no dia 27, com recepção de churrasco e cervejas a vontade.

Mais conversa vai, mais conversa vem, soubemos do amigo que, o irmão de sua namorada acabava de se assumir gay também.

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Eu quero acreditar – e cada vez mais – numa sociedade brasileira assim, que leva e traga assuntos de algum conhecido, parente ou amigo que seja gay e que se possa colocar à mesa com tremenda normalidade. Gays costumam não querer virar assunto pois obviamente, quando é, costuma vir com algo pejorativo no ar. Mas nesse meu “micro mundo” tudo indica que malícias ou maldades – quando o assunto é a homossexualidade – não fazem mais parte.

Apesar de hoje ser dia 07/01/2013, dia que retomei oficialmente minha rotina de trabalho, o que incluiu o MVG pelo comprometimento que busco expressar, desejo um ano de 2013 especial aos gays que aqui frequentam. Desejo que nessa história de ser gay cada um possa subir pelo menos um degrau: aqueles gays que buscam por um amor mais íntegro e autêntico que o encontrem. Aqueles que tem medo de assumir a homossexualidade que pelo menos saiam do armário para uma pessoa íntima, aqueles que querem saber se tal amigo da escola é gay que desvendem esse mistério, aqueles que vivem em crise no relacionamento afetivo que resolvam, aqueles que estão cansados da rotina do meio LGBT e dos vícios comportamentais gays que se permitam sair do “modelão” para respirar ares novos, que um caso mal resolvido fique no passado ao invés de preencher o presente de migalhas, aqueles que se acham feios que encontrem a própria beleza tangível, aqueles que se portam como belos exemplares que vivam menos do objeto e, mesmo aqueles que estão confortáveis no padrão atual, que tenham pelo menos uma novidade positiva, seja no âmbito do trabalho, das relações familiares ou em estudos.

Embora muitas pessoas não curtam o otimismo e a positividade da vida, eu, que sou o interlocutor desse projeto denominado Blog Minha Vida Gay, acredito sem ter grandes dúvidas que é o olhar que damos a própria vida – o olhar que vem de dentro – que colore nosso cotidiano com a tinta que escolhemos. Temos essa autonomia sim, só é um pouco difícil de encontrar o tom.

Assim, deixo registrado o primeiro post do Minha Vida Gay em 2013 com a mesma positividade e as referências que ilustram veridicamente o meu universo particular, ou aqueles universos próximos a mim.

Que 358 dias sejam escritos para valerem a pena. Aqui, valer a pena se traduz em felicidade.

8 comentários Adicione o seu

  1. Sammy disse:

    Excelente post pra começar 2013! Que seja um ótimo ano para todos nós :)

    1. minhavidagay disse:

      Sim, querido Sammy! Um excelente ano para todos! :D

  2. Carlos Rodrigues disse:

    Bom, estou começando a achar que estão começando a “existir” mais gays hoje do que ontem…
    No fim, ser gay não vai ser mais uma diferença (poxa que chato, é bom ser “diferente”, reforço: Diferente entre aspas!).
    De qualquer forma, um feliz 2013.

  3. Luis Augusto disse:

    Primeiramente, feliz 2013 para você MVG. Diferentemente de você, eu não percebo essa nova realidade. Acho que pelo fato de ser ainda apenas um adolescente e nessa fase muitos homossexuais ainda estão descobrindo a sua sexualidade e a possibilidade de se assumir perante a família e os amigos é praticamente nula para a maioria de nós(eu que sou exceção).

    Outra diferença entre você e eu, é a sua experiência com a “vida gay” e o meio LGBT. Eu ao contrário não tenho nenhuma experiência em se tratando desse aspecto.

    Gostaria de fazer uma pergunta para você(acho que essa parte do meu comentário virou clichê), “A idade dos pais pode influenciar no processo de aceitação deles em relação a sexualidade de seu filho?”(Por exemplo, apesar de ter 14 anos, meu pai tem a mesma idade do seu, ou seja, 71 anos e a minha mãe 40). Beijos, tenha uma boa tarde.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis!
      “Welcome back” ao MVG! :D

      De uma maneira geral entendo que a idade dos pais podem influenciar sim na aceitação de conceitos sobre a homossexualidade. Pais mais velhos, que hoje tenham 60, 70 ou 80 anos nasceram em gerações e contextos de vida nas quais a homossexualidade era um tema muito mais tabu e restritivo. Isso é uma influência. Claro que existem exceções. Mas aqueles nascidos na década de 30, 40 ou 50 tiveram outra bagagem no que diz respeito a ser gay.

      Abs e excelente 2013,
      MVG

  4. Vic Vert disse:

    Ótimo post p começarmos o ano, o que vejo é que a vida tem a forma e a cor que a gente escolhe.

    Não há como carregar o sentimento de culpa p sempre, enfim a vida é nossa e somente nòs podemos escolher viver a felicidade a cada amanhecer!

    Parabéns pelo post e 2013 ai vou eu!

  5. Marina disse:

    Boa noite MGV!
    Acredito q apesar de ainda existir um preconceito grande em cima da homossexualidade, esse assunto realmente tem sido tratado com mais naturalidade.
    Tenho amigos gays q se assumiram como casal, e outros q continuam pulando de galho em galho… São pessoas maravilhosas, seres humanos de cárater inquestionável, bem resolvidos e assumidos…
    Contudo, para algumas pessoas ainda é muito difícil essa aceitação… Esse tipo de conversa… Acho q ainda vão alguns muitos anos, para esse assunto não ser um tabu! Os meios de comunicação aqui no Brasil já começaram a colocar em suas novelas e programações gays e lésbicas, porém várias cenas ainda são cortadas… O gay q anda de mão dada ainda é visto de forma diferente…
    Na verdade, a discriminação ainda é enorme: tudo bem ser gay/ lésbica desde q não ande de mão dada e não beije em público… Nem bitoquinha!!!
    Na minha opinião( não quer dizer q estou certa), o próprio gay se discrimina ainda…assim como o negro…, o gordo….
    Sou hetero e tenho o maior respeito por qualquer ser humano… Para mim, o ser humano é muito mais q sua orientação sexual… Todos respiramos, choramos, amamos, sofremos e damos gargalhadas…
    Todos queremos a mesma coisa: amar e sermos amados… Acredito q poucos de nossa espécie, realmente queiram ficar sozinhos nessa vida!!! Posso estar errada, mas, na verdade, acha mesmo q ninguém quer ficar sozinho !!
    Descobri o seu blog, porque estou em busca da verdade em minha vida… Te parabenizo e acho q vc trata o assunto de forma coerente e sensata…
    Desconfio q meu namorado seja gay enrustido… Estamos juntos há mais de 15 anos e temos filhos. Moramos em casas separadas. Ele sempre foi presente na cama, mas não sei não!?!? Pode ser coisa da minha cabeça, mas ele tem alguns segredos… Outra??!! Não. Conversei sobre o assunto com ele, e lógico, ele negou. Caso ele seja, acredito q nunca assumirá… Falei para ele que eu nunca deixaria de estar ao seu lado. Permaneceria do lado dele como amiga e não como mulher… Lógico, Ele demonstrou imensa chateação com minha desconfiança, disse q eu estava desrespeitando-o, etc, etc, etc…
    Fingi esquecer o assunto… Mas isso ainda me incomoda muito!!! E deve incomodar muito a ele também!!!
    Ele é uma pessoa maravilhosa…
    Gostaria apenas, que se os gays não quiserem se assumir, por favor, não enganem as mulheres e filhos.. Fiquem sozinhos ou assumam-se. Paguem terapia .Sei q deve ser difícil se assumir gay/ lésbica aqui no Brasil, mas usar outras pessoas para se manterem protegidos, é egoísmo. Não entrem na vida de outras pessoas, sabendo q mais cedo ou mais tarde, vão ferí-las, porque vão! E essas pessoas, com toda certeza te amam. Caso tenham filhos, conte a eles logo… Para existir amor e respeito, tem q existir verdade… Não se constrói nada em cima da mentira…. E a verdade sempre acaba aparecendo…
    Não existe vergonha em sermos o que somos. A vergonha está em fingirmos ser quem não somos!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Marina!

      Que belo comentário. Realmente um indivíduo não deve ter vergonha pelo que é mas pelo que finge ser.

      Agradecido pelo depoimento e por você, mulher e heterossexual, também contribuir de maneira lúcida e esclarecida no Blog MVG.

      Abs,
      MVG

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