Gays e os relacionamentos abertos


Coxinhas VS. Modernetes

Na quinta-feira da semana passada fui ao Empanadas, bar que fica em Pinheiros. Juntaram-se lá, predominantemente, amigas do meu namorado, e um ilustre visitante de BH, nascido em Goiás, e que estava por aqui de passagem.

Cheguei um pouco mais tarde para fechar meu dia de trabalho e já estavam todos a mesa com papos mil. Não precisei fazer muito esforço para perceber que o “Vini”, de Belo Horizonte, é um representante de nossa comunidade GLS. Gay, namorando e foi numa conversa com uma das meninas que percebi seu discurso:

Amiga – “Você não vai participar da festa junina em BH dessa vez?”.

Vini – “Dessa vez não porque se tudo der certo, em Junho, estarei em Nova York!” – Gesticulando com o corpo daquele jeito “Eu sou foda” ou “Eu sou mais eu” ou “Sou uma bicha phynna”.

Amiga – “Mas e seu namorado?!”.

Vini – “Ué, eu aproveito de lá e ele daqui. Recentemente ele foi para a Europa e você acha que ele não aproveitou?”.

Amiga – “Ah, sim… está certo”.

Quem vê pensa e acha que todo gay é desprendido desse jeito e trata o distanciamento dessa forma, “se estou longe, estou livre”. Alguns acham uma “maravilha” o tom moderno de ser gay na vida. Outros estranham e questionam essa postura “libertária”, “moderninha” e emancipada.

Afinal, será que esse desprendimento e “modernidade” é uma condição gay? Até onde deve ir a liberdade entre um casal gay?

Nos últimos anos, que começou na década de 70, surgiu de maneira geral esse desprendimento do indivíduo perante seu par. A roda de amigos era totalmente formada por gente de comunicação: jornalistas, designers, produtores e redatores, e predominantemente composta de mulheres com seus 28 anos (em média), “solteiras convictas”, daquelas cujo discurso padrão é: “casamento é uma institução falida”, justamente porque seus homens, até hoje, “não mandaram bem”.

Existe um grupo de pessoas críticas, que normalmente se colocam como “a maioria”, e que institucionalizam como o “moderno”, “descolado” e “atual”, os padrões mais desapegados possíveis das relações. Tão moderno e desapegado que raras são as vezes que concebem efetivamente um relacionamento! Tão lógico, mas tão conflituoso…

Para essas mulheres, a questão na mesa de bar é sempre a mesma: a dificuldade de encontrar um homem.

O Vini, jornalista, gay e com o status “namorando”, não deixa de ser um ótimo exemplar desse perfil, representando um grupo de pessoas “modernetes”, individualistas e “exemplares”, mas que quando se deparam com um casal mais “tradicional” como eu e meu namorado, se sente um pouco ameaçado e logo precisa se auto afirmar, mostrando que é feliz com a sua condição, como se precisasse, inconscientemente, colocar um limite ou gerar algum tipo de polêmica, ou até mesmo “sondar o terreno” para ver se estaríamos – eu e meu namorado – na mesma vibração.

A sociedade, nos tempos atuais, faz a ideia de ser gay como algo moderno, pra frente, da moda e descolado. Parte das pessoas vêem nesse modelo um tipo de segurança e caminho a se seguir. Mas, primeiro que esses esteriótipos me dão uma profunda preguiça quando vivenciados em excesso. Para ser gay, então, eu preciso ser permissivo e totalmente ligado nos comportamentos modernos? Preciso colocar meus valores de moral de lado para me sentir inserido no grupo? Preciso corroborar com as emoções e os fundamentos dessas mulheres que assumiram posturas aparentemente masculinas no trabalho, dentro de casa e perante os amigos e que se colocam num mundo da “masculinidade fragmentada”?

Para quem tem 28 anos ainda talvez. Para quem tem quase 36 anos…

Esse modelinho já conheço e tive contato há mais de 15 anos, quando fazia a minha faculdade de comunicação social. E de lá pra cá, para bem ou mal das pessoas que sintonizam nesse tipo de modelo, tudo me parece igual. A mim, sinceramente, me parece antigo…

Esse perfil de mulheres e gays, no meu ponto de vista fundamentado em anos de convívio com gente de comunicação, têm medo do lado tradicional e “coxinha” que existe dentro de cada um de nós. O “coxinha” é aquele outro esteriótipo de homem, boboca, pacato, de bom trabalho, certinho e engomadinho.

Mas as vistas dos modernos, nunca se questionaram porque os coxinhas, apesar de serem essa coisa de coxinha, conseguem casar, tem filhos e expõem no Facebook o álbum da sessão fotográfica do bebê com babadinho.

Convivo com amigos “coxinhas” e com os modernetes da comunicação. Influenciados ou não pela faculdade, meus amigos que fizeram administração, direito e engenharia seguem a cartilha heterossexual de maneira mais exemplar, na maioria dos casos. Os modernetes de comunicação, que incluem-se muitos gays, vivem mais solteiros, questionando as relações ou “vendendo” essa imagem de moderno, independente e atualizado. Estão, na maioria, solteiros.

Numa hora de puxar um cigarro na rua, eu e meu namorado pegamos uma amiga exemplar reclamando dos homens. Falamos do lado “coxinha” de ser que de imediato ela negou veementemente. Mas depois, não negava que algumas características que busca no “homem moderno”, é coisa do “coxinha”.

Nesse contexto todo, acho mesmo que todos os modernetes deveriam aceitar um pouco mais o lado coxinha e o mesmo diria para os coxinhas, de as vezes puxarem um pouco mais a cabeça aberta (muitas vezes desmedidamente aberta) dos moderninhos de plantão. Existe essa dualidade na diversidade, dos modernos e independentes, e dos tradicionais que seguem firmemente a cartilha.

Nem oito, nem oitenta e ainda estamos aprendendo…

6 comentários Adicione o seu

  1. Rod disse:

    Ou seja, no fundo todo mundo tem ou é um pouco de cada coisa; e toda mulher quer um coxinha pra casar e ter filhos e todo gay valoriza e quer namorar um cara que tenha um pouquinho de coxismo. que vida louca! rs

    1. minhavidagay disse:

      Oi Rod!
      Não sou super partidário do coximos, nem dos moderninhos. Realmente, acho que essa mania humana de se dividir em grupos por estilo, que inclusive envolve maneiras de se vestir, é deveras superficial. Vivemos numa geração apegada à estética e, bem ou mal, gente de comunicação aprende a reparar em detalhes.

      Abs e boa semana,
      MVG

  2. Wicked disse:

    Se o casal/pessoa está sendo feliz da maneira que ele[s] escolheu… nem importa quem é o conservador e o liberal. Mas havendo respeito com as formas de se relacionar que cada um leva é o que importa.

  3. Caio disse:

    Não posso negar que já tive um pouco receio e as vezes ainda tenho quando me pego pensando no assunto. Não sei como seria ter um relacionamento aberto com um futuro namorado. Muitos dizem que dá certo desde que seja tudo conversado e que ambos encontrem uma maneira de não perder o afeto entre si, mas outros dizem que desmancha anos de convívio harmônico, por causa de um possível apego a algum “intruso”. Sei também que é complicado manter uma relação monogâmica por muito tempo (enjoar um do outro depois de um tempo, e pela traição que geralmente acontece).

    E vejo essa necessidade partir dele e não de mim, pois não consigo me ver enjoando de alguém que eu estaria amando, pois dá para ir se adaptando e mantendo (vide papai e mamãe). O problema é que nunca sai como a gente imagina, então poderei eu ser aquele que vai querer dar o ponta pé numa possível abertura do relacionamento. Que coisa, não?

    Como diz minha irmã, não sofra por antecipação, espere acontecer….que assim seja né.

    Boa semana.

  4. Ali disse:

    Oi MVG!!

    Meu primeiro comentário do ano no blog hehe.

    Bom,se o melhor argumento para um casal adepto das relações abertas,for que com o tempo a relação monogâmica vai ficando monótona,o sexo com a mesma pessoa já não satisfaz mais etc…

    Sinto muito muito em dizer que isso é uma FUTILIDADE absurda,de uma SUPERFICIALIDADE gritante.

    Meus avós paternos foram casados durante 63 anos!!!

    Se essas dúvidas passaram pelas suas cabeças e houveram crises na relação?! Certamente que sim,mas isso não foi motivo para uma “abertura” da relação.

    Aí podemos falar também sobre moralidade,qual o tipo de moralidade que o casal vive e segue.

    Um pouco de regras e limites da relação que devem ser transpostos gradualmente,sem pressa,com muuuito diálogo pelo casal.
    Penso que cada um sair transando com estranhos,não seja algo CORRETO a fazer,seguindo um raciocínio moral.

    Vai de um cada,né?! Mas ao mesmo tempo também não é,já que um relacionamento se constitui oficialmente de duas pessoas,não de uma ou 3 ou mais rsrsrs.
    São duas pessoas para concordar ou discordar sobre o assunto,e quando 1 não quer 2 não brigam dizia aquele velho ditado.

    Abração amigo MVG.

  5. Willy Andmag disse:

    Nossa! Não sou gay estereotipado…não concebo a ideia de saber que “outro” tocou naquilo que é aparentemente “meu”. Relacionamento aberto?? Nunca! E se essa é a vontade dele, então que nos separemos, mesmo que eu sofra muito.

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