Gays e os problemas da auto afirmação

Não há como negar que em diferentes tempos da vida a baixa auto estima vira uma questão por mais orgulhosos ou discretos que sejam os gays. Assumidos ou “armariados” a vida exige da gente em tantos aspectos que é bastante difícil colocar a própria estima no lugar a todo momento.

Nunca a sociedade moderna, mesmo aos mais endinheirados, cobrou tanto para sermos “alguma coisa” e, ao mesmo tempo, nos oferece tantos fragmentos de milhões de possibilidades. A mim, é definitivamente claro que as mais novas gerações que passam a assumir a vida adulta depois dos 21 anos tem uma necessidade absoluta de viver de auto afirmação. Quando eu circundava essa idade não era diferente, ou era muito parecido.

O Facebook hoje é um dos mais evidentes termômetros desses aspectos da busca da auto estima e da necessidade intensa da auto afirmação: precisamos mostrar as fotos das viagens nacionais e internacionais que fazemos, precisamos dar check in nos bares, baladas, restaurantes e esquinas que frequentamos, precisamos contabilizar amigos e precisamos evidenciar uma constante felicidade. Exemplos documentados digitalmente dessa necessidade de nos auto afirmar.

Gente, ficamos chateados quando um post não é curtido! Tem gente que entra em depressão com isso!

A auto afirmação e as questões de auto estima não deixam de caminhar juntas.

Para quem ainda não assistiu, o seriado “Girls” retrata de uma maneira nua e crua a realidade de jovens de 20 a 30 anos numa busca intensa de possibilidades e do encontro de si mesmo. Vale bastante a pena ver porque é nua e crua, mesmo.

No contexto dos gays não seria diferente. O que se soma é que precisamos achar nossos caminhos para tornar aceito e recíproco a nossa sexualidade já que, por mais que a mesma sociedade moderna nos encare de maneira mais descontraída ou menos proibitiva, ser gay não é seguir o fluxo da heterossexualidade (regra) e, implicitamente, não ser hétero, ou ser a exceção, envolve dezenas de valores sociais e culturais que ressoam dentro da gente. Buscando simplificar a ideia, acabamos sendo o patinho rosa em meio a dezenas de patinhos brancos da mesma ninhada. Temos que saber nos virar!

Muitas vezes as pessoas reclamam da necessidade mais intensa que o gay tem de se auto afirmar. Eu mesmo já teci comentários críticos ou avessos a esses comportamentos, o que não quer dizer que não penso sobre essa questão de maneira mais profunda.

E a profundidade me parece estar aí: permeia esse fluxo atual de muita auto afirmação geral e, para dificultar, somos viados!

Confesso que me cansa conviver diariamente com amigos ou colegas que precisam inserir a homossexualidade na personalidade, na ideologia e na forma que se apresenta ao mundo, fomentando o tão comentado esteriótipo da bicha. Mas será que somos responsáveis ou culpados pelas coisas acontecerem assim? Temos realmente o direito de julgar a bichinha pelos trejeitos e por escarrar a própria sexualidade enquanto fala? Acredito que não e fico chateado quando agimos com repulsa pois não usamos o tempo e os neurônios para avaliar com mais profundidade os contextos. Contextos como esse que apresento hoje no Blog Minha Vida Gay.

Muitos projetam o repúdio pelo simples fato de temer ser algo parecido.

O mais curioso é que a auto afirmação não se restringe apenas aos adolescentes e jovens. Muitos adultos que continuam adolescentes seguem a mesma onda.

Auto afirmar não deixa de ser a necessidade de repetir e relembrar a nós mesmos aqueles fatos, assuntos e situações que nos trazem felicidade ou empolgação, que reflete a parte da gente que gostamos, que gostaríamos que fosse compreendida ou absorvida pelo outro.

Seria bom se essas necessidades não fossem para sempre. As vezes me parece que a auto afirmação é sintoma de um medo de se tornar adulto, ficar chato ou sério.

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Nesse fluxo vou me auto afirmar um pouquinho: o Blog MVG atingiu mais de 1000 views em um dia! O que mostra que muita gente gosta das coisas que falo. :P

Agradecido! :D

3 comentários Adicione o seu

  1. Ali disse:

    Ótimo post!!
    Penso que a questão tem muito mais a ver com as pessoas não se encaixarem dentro da “ditadura da felicidade” do que seja uma questão de auto-estima propriamente e que afeta a TODOS atualmente.

    Precisamos estar sempre sorrindo,mesmo que isso não signifique uma felicidade interna nossa.
    Precisamos sempre dizer um “muito obrigado” para uma pessoa grosseira que nos destratou.
    Precisamos defender as baleias,sermos vegetarianos para não matarmos as pobres vacas etc…

    Sendo que no nosso inconsciente,queremos que tudo isso vá pra p@#$&
    Entende? hehe

    E as redes sociais,principalmente o Facebook,são a demonstração perfeita desse tipo de hipocrisia hoje em dia.

    Mesmo se você postar na sua timeline que você está com câncer,sempre vão haver pessoas pra “curtirem” isso,sabe?! rsrs

    Tem no youtube um video de uma palestra do Luiz Felipe Pondé sobre a “Tirania da Felicidade” que vale muito a pena ser assistido.
    Sintetiza muito bem esse pensamento.

    Quanto ao ponto de vista do gay se auto-afirmar perante a sociedade heterossexualizada…

    Eu penso que isso não deixa de ser um “mecanismo de defesa” do gay,não para se auto-afirmar ou se aparecer,mas sim para se defender dessa heterossexualização imposta pela sociedade,uma “diferenciação proposital” seria o termo correto.

    É algo tão primitivo e bestial essas atitudes de defesa de um grupo de indivíduos que eu já nem me surpreendo mais.As tribos urbanas agem dessa maneira,os punks,metaleiros,emos etc…
    Com os gays que são também um grupo,não seria diferente.

    Se a maioria desses gays que precisam sempre se auto-afirmar,como você disse,agissem de uma maneira mais individualista, eu duvidaria muito que eles precisassem continuar fazendo isso ou justificando que são esse tal tipo de pessoa portanto fazem tipo tal de sexo…

    Abraços!

  2. Wicked disse:

    Ok, ok que quando a coisa vira uma necessidade de se autoafirmar pra Deus e o mundo fica uma coisa doentia e não acaba bem.

    Mas dá uma sensação de alívio, não?, ter pessoas que pensem como a gente. Uma pensamento postado no Twitter ou num blog, por exemplo, e se sentir ouvido quando te dão um RT ou um comentário gostando do que escreveu. Só que aí é elogio, mas e a crítica e não aceita-la?

    De um tempo pra cá, acho que autoafirmação é medo. O medo de não ser gostado por alguém. E quando autoafirmação é muito da elevada, é o medo de não ser gostado por qualquer um, querer ser gostado por todos [o que é impossível]. Daí eu acho que entra a autoestima, porque se você tem uma coisa boa com você, se dá valor a mais pra você do que pros outros, você não tem necessidade de se autoafirmar. Você já tem você, e bola pra frente. Os outros gostar são só um bônus.

  3. Renata disse:

    Gente, a solução é simples…parem de usar esta chatice de facebook…Vocês têm que viver para os outros ou para você? Quem cuida da sua carreira? Quem procura melhores oportunidades na vida? Então, facebook é um festival de encenação sem fim…É fácil, não uso e não usarei esta besteira! Simples assim!

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