Minha Vida Gay – Lincoln, um X da questão

Voltei há algumas horas do cinema, quando reunimos eu, meu namorado e sua família. Resolvemos assistir “Lincoln”, produção que está concorrendo ao Oscar em 12 categorias e deve, pelo menos, levar metade.

Normalmente os filmes são feitos em média de 40 a 60 diálogos. Lincoln passa dos 100 e não posso dizer que é um filme fácil de digerir. A principal dificuldade que senti logo no começo foi entender e aceitar que os Republicanos por volta de 1860 eram os caras mais libertários, que vislumbravam um Estados Unidos desenvolvido, livre das tradições da escravidão. Os Democratas pareciam ser os retrógrados, mais dependentes do modelo que colocava os negros como algo abaixo do ser humano naquela época.

Eis um filme para se assistir mais de uma vez, quando se tem paciência para tal estilo que – avesso ao modelo clássico de Steven Spielberg – tem pouquíssimas cenas de ação e tecnologia 3D que nos prenderiam aos assentos.

Questionamos com grande recorrência os modelos sociais brasileiros, a questão da regra da heterossexualidade e das dificuldades comuns que aquele gay que quer viver uma vida aberta e desenvolta têm quando se entende como gay.

Os problemas do Brasil, desse nosso país tão querido, mas tão contrastante, está bem longe de se resumir apenas no que diz respeito à aceitação da homossexualidade de maneira mais natural e tolerante. Esse nosso país, quando diz-se um Brasil da diversidade, subentende-se um país das diferenças. É porque “diversidade” é uma palavra normalmente regada de um sentido rico, belo ou nobre. “Diferença” é o sinônimo mais pejorativo, que divide, nos torna desigual e nos separa. Vendemos a tal da diversidade para o mundo, mas vivemos diariamente as diferenças.

Aqui nessa terra, cuja história começa de maneira exploratória, sem planejamento e quase como uma desculpa tropical para a vinda de nossos reis portugueses que para cá escorregaram, o sentido de pátria, do gostar do que somos e de um senso coletivo caminha em passos curtos. Preferimos notar o diferente – para inclusive nos colocar numa posição subjetiva de superioridade – do que assimilar as singularidades. E esse jeito vem desde a formação dessa nação.

Os Estados Unidos, que hoje é alvo constante de retalhação por parte dos intelectuais modernos, começou diferente. Bem diferente.

Pense num presidente visionário – Abraham Lincoln – que teve dois mandatos seguidos em meados de 1800 e que percebeu que se os EUA continuasse com o modelo de escravidão estaria assinando o contrato da desevolução, da letargia e da exploração tão evidente da região sul daquele país. Apontamos o dedo para a terra do Tio Sam hoje, vangloriando os feitos europeus (porque quem é descolado, culto e moderno vai hoje fazer picnic em Paris) e colocando a potência americana como a “vilã” sócio-cultural do mundo, do abuso de poder sob o Oriente.

Mas será que é só isso?

Quem assiste Lincoln desprovido do peso cult-intelecto-tupiniquim percebe que os caras lá de cima, da América do Norte, tinham um senso de patriotismo que nos falta. Reconheciam aquela terra como deles e percebiam, desde a formação da União (Estados Unidos da América) que sem o próprio conceito de união, de nada adiantaria brigar para uma sociedade forte.

União. Aqui no Brasil essa palavra não tem muito contexto. Entendemos bem a vertente da união familiar, da tradição vinda predominantemente dos italianos, espanhóis e portugueses, e numa “segunda categoria”, dos negros, índios e orientais. Dessa união familiar, entendemos ou percebemos os apegos religiosos, frutos indissociáveis de nossa origem latina. Mas união da nação, do senso de pátria, da massa coletiva que se desenvolve junta, nos falta e muito.

Nesse contexto, faz até sentido a homossexualidade ser periférica em nosso país. Não vivenciamos um senso de batalha, nunca entramos em guerra e não reconhecemos um sentido maior de valorizar o que é nosso ou o que somos pelas entranhas. Digo entranhas porque países como os EUA, as nações europeias e até mesmo o Japão, tiveram que lidar com as próprias entranhas e tiveram a vida literalmente devastada pela sede de poder territorial causado pelo outro. Para bem ou para o mal, conflitos como esses, seja da guerra civil americana, da segunda guerra mundial ou do ataque a Hiroshima e Nagasaki fizeram esses povos entenderem melhor a responsabilidade que um tem pelo outro, a responsabilidade que se deve ter pela terra e pela nação. Brasileiro pensa mesmo em nação? A princípio não sabe nem direito o que é isso…

Nos falta um senso de coletividade. Copiamos muito bem os americanos quando o assunto é o consumo, McDonald’s, grandes shopping centers. Copiamos a estética, os produtos e aquela sensação de primeira classe. Mas no âmago do desenvolvimento, vivemos predominantemente com a mente de latinos dando audiência para novelas.

Lembramos que somos uma classe, um grupo grande e existente quando um gay é apedrejado numa das esquinas da Avenida Paulista ou quando alguém (heterossexual) contesta nossos direitos. Depois disso, normalmente, viramos as costas e partimos para as nossas obrigações individuais alegando que a vida já é muito difícil para pensar no senso comum.

Eis o nosso drama: gays, latinos e com praticamente nenhum senso de pátria. Por que os EUA é uma potência e uma referência mundial? Me desculpe os intelectualóides, mas os americanos fizeram desde o princípio por merecimento.

Estou longe de ser um fã desses gringos. Acho particularmente a bandeira dos EUA feia e contexto sua cultura exacerbada de consumo. Mas eles não são o que são à toa.

A dúvida é quando nós, brasileiros, vamos começar…

7 comentários Adicione o seu

  1. Enzo disse:

    Também assisti o filme, amei (o melhor do Spielberg pra mim) e mesmo não gostando muito dos norte americanos, tenho que admitir que seu espirito nacionalista e sua força para conquistar falta a nós brasileiros.l

  2. Carlos Rodrigues disse:

    Deixando meu recado:

    – MVG, amei sua crítica quanto ao filme ( gosto de ser bastante crítico em relação ao cinema).
    Ainda não assisti o filme, mas pretendo assistir (já que pertence a um dos diretores que eu gosto: Spielberg).
    O que mais gostei foi o fato de você comparar o que o filme mostra com a nossa atual situação.

    Não vou comentar muito, até por que ainda não assisti o filme! Deixo esse meu comentário pra depois, faço um repost com minha crítica. Mas só se quiser ^^!

    1. minhavidagay disse:

      Por favor! Faça sim :)

  3. Luis Augusto disse:

    Já faz um tempinho desde o meu último comentário, mas mesmo assim li todos os posts anteriores. Gostaria muito de ver esse filme, adoro o gênero drama e seus similares; mas não tenho condições no momento. Pensando bem agora, há quase 2 anos foi a última vez que entrei numa sala de cinema.
    Assim como você não sou nenhum fã dos Estados Unidos; existem muitos hábitos da cultura americana que não aprecio(mesmo assim a respeito), entretanto o senso patriótico e de união da população estadunidense é um aspecto de sua cultura que admiro muito e que almejo que a nação brasileira possua no futuro. Beijos, tenha uma boa noite.

  4. Caio disse:

    Nossa acabei de ler uma outra matéria sobre o filme em outro site gay, mas não falava muito dessa sua abordagem de misturar o patriotismo, com cultura, com evolução social, guerras civis e tal, e sim que o Lincoln era possivelmente gay rsrs, apesar do filme não abordar essa parte da vida dele.

    Concordo com você. Já faz tempo que conversei isso nas aulas de história, em que os colegas sempre diziam que para haver uma mudança profunda na sociedade brasileira precisaríamos passar por uma guerra, ou por momentos de radicalismos para então criar um rumo parecido com os dos países em isso aconteceu.

    O Brasil está empacado no seu desenvolvimento social, as vezes tende até retroceder, mas quem sabe de migalha em migalha, mesmo que demore mais do que deveria a gente não chega lá né? Só espero que não chegue o tal ponto do conformismo…”ah se pelo menos não piorar, já esta bom”

    Até mais.

  5. Dodi RJ disse:

    Valeu pelo resumo do filme, vou tomar suas sugestões antes de assistir.

    De fato… Um povo que não reconhece seus direitos. “Brasil, deitado eternamente em berço esplêndido”. Não existe povo, existem classes que se sustentam às custas de dívidas e cultura de corrupção. Pessoas que com o pouco que lhes é concedido de informação e educação, se confortam com o controle da televisão nacional e apegos religiosos, uma mistura inconfundível de alegria em meio ao caos. Pessoas que acordam cedo, que suam em filas e trens lotados, com baixa qualidade de vida e perspectiva de ter um final de semana regado a um churrasco, não se juntam para coibir absurdos, medo de perder sua fonte de renda honesta, medo ou falta de tempo para entenderem que podem gerenciar suas próprias vidas, de terem seus próprios conceitos e não serem manipulados… O povo brasileiro parece ter medo de “descubram” que perdeu sua dignidade, coisa que os políticos já perderam, desde a criação do país.
    Sem mais…

    Abs

  6. Dodi RJ disse:

    de que…

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