Vida Gay – Questão de consciência de si

Recentemente chegou a mim dois relatos de amigos gays, ambos com seus 20 e poucos anos e que estão desvendando suas verdades íntimas e as realidades do mundo gay. No geral, a prática costuma ser muito boa. Sempre busquei incentivar à prática, o que não quer dizer que as coisas sempre acontecem como queremos…

…um deles tem se fixado fortemente em casos do passado, fragmentos de pessoas, numa mistura de amizade e paixão, de envolvimento por um menino gay que é notoriamente perdido de si, mal resolvido, que inconscientemente brinca com meu amigo, ora assumindo uma postura de amizade, ora carente e lançando possibilidades ao ar numa tentativa de seduzí-lo.

Meu outro amigo começou a cultivar uma história de semanas com um rapaz que no verbo lançou vontades, expectativas e desejos para realizar com meu amigo. Num primeiro momento mostrou carinho, atenção e prestatividade. Num segundo momento, depois que algumas semanas, sumiu sem se pronunciar, sem uma mínima satisfação ou consideração sobre uma relação que já era entitulada de namoro.

Daí me pergunto: o que está acontecendo com as pessoas? Nesse caso, o que está acontecendo com a juventude gay?

Com quase 36 anos, que completarei em Março, posso dizer que não faço mais parte dessa juventude, o que não quer dizer que não funciono como um espectador que se relaciona na prática, seja com meus amigos pessoais, com os amigos do meu namorado e a turma que forma a minha empresa.

Parte da juventude gay, os adolescentes, os jovens que se definem como gays, me parecem perdidos. As vezes, e não falo por todos, me parece que o que lhes falta é base. Não me refiro a base financeira pois me parece que essa falta de senso, de reciprocidade ou quiçá de caráter são males que envolvem todas as classes. Me parece que para alguns falta uma base sobre as relações, sobre o convívio social, sobre bons costumes, assuntos que na prática deveriam ser ensinados repetidas vezes dentro de casa.

Ao mesmo tempo que estamos diante de jovens que são antenados em tudo, que fazem questão de ter um ou mais smartphones, que pronunciam marcas, que vivem com suas faces coladas no Youtube e orquestram os cliques nas redes sociais com maestria, talvez – e repito talvez – parte desses jovens que já não são mais adolescentes me parecem perdidos de si, sem valores, sem uma consciência do respeito que deve existir entre as pessoas. Despreparados para o mundo real, hábeis nas relações virtuais.

Fulano “usa” meu amigo de acordo com suas marés emocionais e meu amigo, ao mesmo tempo, se deixa “usar”, não concebe a possibilidade de cortar vínculos – que a mim seria tão simples e rasteiro – e de alguma maneira se alimenta de fragmentos. Sofre. Cicrano vende uma imagem envolvente para meu outro amigo, pronuncia palavras bonitas que criam expectativas, pratica gestos e, da noite para o dia, emudece. Bom que esse meu amigo, apesar dos pesares, fez o papel dele e que deveria ser do outro: encerrar o assunto de maneira honesta.

Ao meu ver, Fulano e Cicrano são vazios. E esse vazio deveria ser preenchido de senso e espírito. Fica a justificativa superficial de que “todo mundo faz isso”. Todo mundo não! Os vazios.

Já ouvi algumas vezes de pessoas que existe o Céu, o Inferno e que a Terra na verdade é o Limbo. Nessas horas essa afirmação faz até sentido e não apresento essa indignação por serem relatos de meus amigos, como os alvos da ausência de conduta alheia. A indignação existe porque fico pensando aqui comigo que as possibilidades de Fulano e Cicrano – para se tornarem pessoas vencedoras no mundo – ficam mais escassas. O mundo precisa de pessoas vencedoras.

Quando digo vencedoras, não me refiro propriamente a riqueza capital. Vencedoras de bom relacionamento com a família, que conquistam a harmonia com os pais e assim não ficam amarradas ao orgulho, rancor ou indiferença como resultados de fatos do passado. Vencedoras de uma segurança por ter um trabalho, que não gere somente o ganho mensal para o desfrute, mas que acima de tudo ofereça o prazer imprecificável pelo que se faz. Vencedoras pela transparência de amizades, que é amizade mesmo e não um fragmento de possibilidade de algo mais que não se concebe com clareza. Vencedoras por construírem um caráter, deixando de errar o que já errou para errar e acertar com o que virá pela frente. Vencedoras por perceber a vida que procuram para si e desbravam os caminhos para alcançá-la.

Emancipação é o oposto de prisão.

Prazer é o oposto de sofrimento.

Transparência é do oposto de escuridão.

Caráter é o oposto de falta de.

Vida é o oposto de morte. Mas na onda de “vampiros e zumbis”, essas pessoas justificam o estado de limbo.

Humano, posso me indignar de vez em quando.

16 comentários Adicione o seu

  1. Wander disse:

    Gostei da parte que cita sobre os vazios… Me fez refletir bastante… Tenho 20 anos e passo pela situação de ser “usado”, mas não tenho forcas para cortar a situacao… E acabo criando esperanças, expectativas e fazendo de tudo por um Fulano que não dá a mínima por mim… E infelizmente não tenho amigos próximos para desabafar ou tomar de exemplo… Preciso de ajuda…

    1. minhavidagay disse:

      Leia algumas vezes esse post e tome de exemplo. Se esforce para ser um vencedor…

  2. Carlos Rodrigues disse:

    Amei demais esse seu texto!

    Ótimo post MVG!

  3. minhavidagay disse:

    Esse post me lembrou uma vez que visitei um templo Hare Krishna em Pindamonhangaba. Naquela época, namorava um ex-namorado mais ligado à filosofias hindu-orientais, nas questões de espiritualidade e coisas e tal.

    Dizem que quando pousamos nesses lugares, no meio do mato, mantras e cantos religiosos, comida vegetariana e uma vocação natural à meditação, sempre tiramos uma lição, um pensamento, uma ideia.

    Sentindo aquela atmosfera, percebendo um universo bastante diferente do meu e avaliando os frequentadores, dos mais assíduos aos mais de passagem, a lição que tomei veio num lampejo na penúltima noite que passei por lá: “pessoas que seguem as religiões, que buscam uma luz divina para um encontro superior e que se predispõem a mudanças mais radicais de vida num tipo de idolatria ou num simples culto, na verdade, são aquelas que são as mais pecadoras. Pelo menos, se sentem as mais pecadoras. Precisam se isolar do mundo para conter a parte de si que as ‘demonificam'”.

    Na manhã seguinte estive com a Krishna Pria, uma moradora do vilarejo local recomendada por um amiga. Krishna Pria jogava tarot para alguns dos visitantes. Comentei a ela esse meu pensamento entre uma conversa e outra durante o jogo.

    Pria foi afirmativa: “não tenho dúvidas que as pessoas que se convertem, de fato, são as mais pecadoras ou que possuem um vazio dentro de si muito grande, as que tem as maiores angústias e cicatrizes abertas, daquelas que o ser humano adquire por ser o que é” – algo assim.

    1. Carlos Rodrigues disse:

      “pessoas que seguem as religiões, que buscam uma luz divina para um encontro superior e que se predispõem a mudanças mais radicais de vida num tipo de idolatria ou num simples culto, na verdade, são aquelas que são as mais pecadoras. Pelo menos, se sentem as mais pecadoras. Precisam se isolar do mundo para conter a parte de si que as ‘demonificam’”.

      PER-FEI-TO!
      MVG!! TU FALOU TUDO! Tõ de boca aberta aqui!

      Eu acho que dá parabéns é pouco pelo o que você disse!

      Buenas Noches ^^

      1. minhavidagay disse:

        Buenas e tanx! :)

  4. Luis Augusto disse:

    Na minha opinião esse estado atual de limbo que passa a juventude se reflete no sitema de educação atual(seja na escola ou dentro de casa). Hoje os jovens são criados para saberem tudo sobre o mundo que estão mas não sabem nada do mundo que são. Isso acaba influenciando para que sejam tão vazios e insensíveis.

    Eu me considero um carro em contra-mão a esse caminho. Sei que é de suma importância para qualquer pessoa ter um bom convívio com sua família e saber respeitar os sentimentos de cada um. Vivemos em sociedade, não custa tentar mudar aos poucos nossas atitudes.

    Gostaria de recomendar um livro para você, que mesmo que inderetamente, aborda esse assunto. Ele se chama: Pais brilhantes & Professores fascinantes. Não li ele todo ainda(estou na metade); mesmo assim o recomendo. Feliz aniversário de namoro para você e seu namorado(tinha esquecido de dizer isso no comentário anterior). Um abraço e tenha um bom dia.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis!
      Obrigado pela recomendação. Vou considerar.

      Abs,
      MVG

  5. Ali disse:

    Interessante esse assunto!!
    Bom,vou dar uma de “filósofo” aqui e dizer que é tudo uma questão de mundo Pós-Modernista rsrs.
    O Sociólogo Zygmunt Bauman(que eu sou muito fã) fala de um mundo onde TUDO É LÍQUIDO!!
    As pessoas,os bens materiais enfim TUDO é como se fosse água.
    Não tem forma,não tem cor,cheiro,sabor.Escorre entre os nossos dedos.
    Essa é uma analogia bastante pessimista sobre o mundo contemporâneo,um mundo onde não há certezas,o bem e o mal são relativos e etc…

    Isso está acontecendo com a maioria das sociedades capitalistas ocidentais.Está acontecendo não somente com os gays,mas com todo mundo,a preferência pela comodidade e pela procura da intransigência de conflitos,bem como você falou MVG,quando algo em uma relação(por mais insignificante que seja) não agrada,prefere-se “partir pra outra”.
    Precisa se livrar e esquivar das coisas que não lhe agradam(por mais mínimo que seja) para se ver livre de conflitos necessários.
    Uma atitude tipicamente LÍQUIDA,como disse Bauman!!

    Essa é a minha crítica aos relacionamentos modernos,seja hetero ou homo…
    PARE de tratar quem você ama ou quem está com você,como se fosse uma mercadoria,um objeto com prazo de validade!!
    Não traga o consumismo desenfreado para dentro da sua relação,não torne quem você ama como se fosse sua propriedade,um objeto que você adquire e depois quando estraga ou passa do prazo de validade não serve pra mais nada,precisa ser trocado por outro melhor!!
    O Amor não vem com crediário e nem tem prazo de garantia,minha gente.

    MVG,aqui vão algumas dicas de leitura,(como se você tivesse tempo pra ler o que um estranho te fala) kkkkkkkkkkkk
    Zygmunt Bauman,leiam esse carinha:
    1-Amor Líquido
    Sobre a fragilidade dos laços humanos.
    2-Modernidade e Holocausto.
    3-Modernidade Líquida.

    Obrigado!!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas indicações, Ali! E obrigado pelos seus
      comentários. Ao que tudo indica algumas das pessoas que se manifestam no Blog, pelo menos, não parecem tão liquidos assim.

      Eis um diferencial nesse fluido gigante, analogia tão bem colocada.

      Abs,
      MVG

  6. Ali disse:

    MVG poderia por gentileza,me informar qual é o post em que tem uma musica onde você canta junto com a sua banda?
    Não consigo achar de jeito nenhum!!
    Gostei tanto da musica e da sua voz,parabéns pelo talento garoto!!

  7. Ali disse:

    OBRIGADO!!
    Ai que musica tudo de bom MVG!!
    Não é puxa-saquismo não! rsrs
    Parabéns por ser essa pessoa Inspirada kkkkk
    Abraços!

  8. André disse:

    Oi td bem? Sempre leio seus post, e acho q ajudam e muito. Queria algumas dicas de como levantar mais, minha alto-estima q anda muito baixa nos ultimos dias. Na verdade é q eu abri o jogo com um amigo (Hetero) disse oq sentia por ele. Ele aceitou numa boa, mas ele ta morando em outro estado. E acho q a saudades dele ta mim deixando pra baixo. Se vc pode ajudar! Agradeço. Abraços.

  9. eu disse:

    olha, eu sou dessa nova juventude gay, tenho 15 anos e,sinceramente, sinto falta de referenciais solidos. A televisão e etc, nao ensinam os gays como se relacionar afetivamente, o que, na nossa idade, se fossemos heteros seria uma coisa extremamente comum. É claro que sua geração tambem nao teve contato com isso; mas, meparece que as gerações anteriores a minha eram mais seguras de si. hj em dia se fala muito sobre preconceito, homofobia mas muitas vezes nao focam no “individuo” gay e parece entao que somos um grupo homogeneo, sem particularidades. Basicamente, se fala muito sobre a causa gay, mas nao ha um referencial basico, a minha geração e bem mais insegura em relação a consciencia do proprio individuo, e isso atrapalha no que diz respeito ao relacionamento; a insegurança particular de cada um atrapalha muito.

  10. Nossa! É muito bacana saber que existem pessoas que pensam como você e que felizmente compartilham esse pensamento. Termina influenciando a conclusões agradáveis e produtivas.
    Muitas vezes me perco em reflexões, pensando que sou eu que estou errando perante a atitude de fisgar um relacionamento.
    A resposta acima que fala sobre as pessoas que tratam o amor como mercadoria ou crediário, também é muito produtiva .
    Não tenho nada a concluir, apenas elogiar (por enquanto)!
    Aguardo ansiosamente próximos posts, sobre o mesmo tema.
    Sucesso!

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