Minha Vida Gay – Devaneios íntimos para quem quiser

Tirando o pó do Blog Minha Vida Gay…

Nas últimas semanas que antecederam meu aniversário fiquei muito mais sensorial e perceptivo às minhas questões. Tão sensorial que não seria capaz de redigir um post no Blog MVG, que depende de muita racionalidade, didática e transcrição de reflexões. Fiquei com um bode do MVG por um tempo, de ser esse “cara” sóbrio, lúcido e que consegue traduzir pensamentos numa boa medida de maneira popular. Precisei, intimamente, pensar menos e sentir mais nesse período. Precisei fragmentar um pouco essa imagem austera do “saber”, da “experiência”, da “racionalidade” e da “clareza” para me sentir um pouco mais “Clark Kent”, caindo um pouco fora desse tipo de situação meio onipotente que o Blog me coloca, ou atento/crítico demais à minha posição na minha empresa, ou responsivo ao meu namoro e às relações que formam meus ciclos sociais. Cansei de uma parte de mim e resolvi deixá-la um pouco de canto (e ainda está lá, sob observação).

Mas retomo as atividades no Blog, talvez num compasso mais lento que outrora, um dia antes do meu aniversário. Amanhã, 29 de março de 2013 completo 36 anos! /o/

Entendo que a questão da idade é algo que pega hoje para a grande maioria das pessoas. Entre os gays, em alguns casos, bate aquela sensação de que ultrapassar as casa dos 30 anos é querer enternamente viver 23 anos (+ 17, +  18, + 19…) e o tal do espírito da jovialidade não pode se apagar!

Mas será que esse tal espírito se apaga realmente quando assumimos mais idade, ou o fato de algumas situações do passado, que nos parece tão preguiçosas hoje, migram para histórias novas e novas experiências independentemente da idade?

O meu “inferno astral” – e faz alguns anos que não acreditava mais nele – veio em boa hora e sinto ter assimilado um pouco de tudo: nessas últimas três ou quatro semanas fiz uma faxina geral na alma, nos resquícios daquelas coisas que não funcionam mais dentro de mim (e não em outras pessoas) e abri espaço para poder encaixar as coisas novas que virão daqui para frente.

Do último post sobre fidelidade VS. infidelidade (um pouco dramático relendo agora), continuo no mesmo lugar que me parece saudável. Daqui, a tentação que vem hora ou outra, não vai me tirar tão cedo.

Descobri que estou muito mais paciente e sereno com bastante coisa, coisa que antes era varrida por aquele meu impulso ariano de não ter paciência e não ter serenidade suficiente para lidar com o estado que se encontrava. Em outras palavras, me sinto menos “oito ou oitenta”, embora continue acreditando que para as coisas da resiliência e da perseverança muitas vezes a gente precisa viver o extremo. Ayrton Senna, outro ariano, costumava dizer isso.

Descobri que aquele resto do tacho de mim que me impulsionava para uma vida frenética, “jovem”, ansiosa e fanfarrona – quando o meu relacionamento parecia no limite da mesmice – sucumbiu a uma nova pessoa mais persistente que está ampliando mais seus próprios limites. Estou saindo dos padrões e modus operandi que eram tão confortáveis e seguros. A briga é difícil, tenho que confessar, mas o alívio para tirar de mim aquilo que veio para a consciência e que não me sustenta mais – algo como numa crise de abstinência – é recompensador. Uma recompensa para a alma, eu diria. Minha vontade de onipotência se tornou inconsistente hoje.

Viro a curva dos 36 anos amanhã com o seguinte pensamento: valeu bastante à pena os anos-luz de auto-afirmação, do gay despojado, “moderno” e carismático que reuniu numa grande festa de aniversário mais de 50 convidados e teve a façanha de juntar, no mesmo metro quadrado, todos os ex-namorados, inclusive o meu namorado de hoje que na época era só paquera e que amanhã, pelo visto e dependendo de mim, continuará sendo meu companheiro.

Desse gay que fui me despeço por hora novamente, numa sensação que já fiz essa despedida antes, mas entendendo que modificar parte do que se é, é um longo processo.

Minha querida terapeuta bem disse: “você, na realidade, está cansado de você mesmo. Ainda mais que a sua escolha de vida de ser empresário desde os 23 anos te colocou em situações de tanta exigência e, consequentemente, maturidade”.

O meu momento, agora, é um pouco mais de descompromisso ou exigência comigo mesmo para poder rever as coisas lá de fora sem um senso crítico tão afiado, sem tanta racionalidade ou julgamento. Só que dessa vez, para poder sentir, vou tentar fazer diferente: não vou botar meu relacionamento a perder, não vou cair no sexo de sauna, nem vou chutar a bunda do namorado e me antenar em novas paixões ou inícios de relacionamentos que naturalmente nos encantam e nos tiram da racionalidade (fluida quando correspondida ou desafiadora quando negada), nem abdicar meses da minha empresa por achar que ela se tornou um peso que, ao meu prazer, posso fingir que não existe. Não serei nem “oito, nem oitenta” como já fui algumas vezes antes.

Decidi viver o novo, mesmo que com pitadas de antigo. Decidi, por exemplo, e com a minha natureza ariana (que não nego totalmente), partir durante quatro dias para o Chile – agorinha em abril – com a recompensa do meu trabalho suado no bolso, com um hotel reservado e com um namorado de acordo a ir comigo, mas sem prescrever uma bula do que se fazer. Quero colocar meus pés naquele país, sentir o cheiro e não ter ponto marcado. Quero lembrar que vou viajar somente quando chegar no aeroporto para não ter que procurar por referências ou fazer planos.

Decidi fazer o mesmo para uma tão esperada viagem para NY com meu namorado em setembro. Tirei o visto hoje e – embora meu companheiro já esteja fazendo uma longa pesquisa das “coisas que não se pode deixar de fazer em NY” vou para lá sem pensar no que fazer, a não ser caminhar por aquelas longas avenidas para sentir o que pega de desejo por lá.

E por fim, já que estou pegando gosto pelas internacionalidades das viagens (coisa que para mim nunca foi repertório, motivo de empolgação ou atrativo), decidi que, quando o balde encher de novo como encheu nesses últimos tempos, vou abrir o site da TAM e partir. De preferência com o namorado que esforçosamente precisará entender esses meus lampejos!

Nessas três semanas descobri que o gay, homem amadurecido que me propus me tornar, tomou tanto espaço aqui dentro que deixou o jovem ficar cinza. Só que dessa vez não vou culpar o namorado, a sogra, o meu trabalho ou meu pai. E não vou resgatar esse jovem numa justificativa qualquer de fim do namoro, no jogo de sedução que viria, nas amizades corriqueiras da noite e na curtição do sexo casual. Quero ter leveza por outros meios. Dessa vez, o jovem vai olhar para o homem e dizer: “a partir de agora vamos caminhar lado a lado. Nem oito anos, nem oitenta”.

5 comentários Adicione o seu

  1. Rodrigo disse:

    Nossa não tenho nem comentários para descrever seu texto.. toda vez que acesso o blog me surpreendo com os novos posts.. lhe desejo muita sorte e paz nessa nova etapa de sua vida.. e espero alcançar o mesmo comigo hehe
    Abração, se cuida.

  2. Carlos Rodrigues disse:

    Já tava com saudades MVG (não vou mentir!)!
    Bom, apenas um desabafo seu para os seu leitores né?
    De qualquer forma, sempre me impressiono por esses seus textos.

    Amanhã, tenha os seus felizes 36 anos!
    Parece que o jovem empresário de 23 anos, assumindo-se gay, está envelhecendo e quase chegando na casa dos 40.
    E lembrar que já fazem 3 anos que você criou este blog…
    É o tempo passando, tanto para você e tanto para nós seus leitores!

    Bom, que seja, tenha mais um longo tempo de vida pela frente, e que esses longos anos sejam completados com o outro homem que lhe ama!

    Felicidades MVG e uma Feliz Páscoa!

  3. Marcos disse:

    Gostei muito desse seu texto, em particular porque me identifiquei em alguns pontos, como por exemplo o fato de ser muito crítico e exigente comigo mesmo. Muito bom pra um simples desabafo rs. Você serve de exemplo pra muita gente, meus parabéns e que dê tudo certo para você! (e pra mim também eu espero, hehe)

    Muito obrigado pelo blog!

  4. Caio disse:

    Bom primeiramente, parabéns por chegar aos 36 e ter essa personalidade e maturidade. Que bacana, também sou ariano, fiz aniversário no começo da semana e olha que nossos pontos de vista são bem parecidos, portanto acho que aquele lance de astrologia tem mesmo algum fundamento rsrsrs.

    E é isso aí, curta a vida segundo esse novo olhar de maturidade, deixe-se apreciar o “daqui em diante”..não regrida a uma idade mais jovem, pois o espírito da juventude pode estar em todas as idades, só que com uma diferença a vivência do passar dos anos junto. E é claro dê um tempo a si mesmo também, pois como você mesmo disse, assumir esta postura de onipotente sempre tentando ajudar a todos com suas palavras e dar direções aos que estão perdidos desgasta e faz com que agora você precise de atenção. Novamente estamos na mesma situação: depois de nos dedicarmos aos outros e é a vez do contrário acontecer.

    Bom feriado!

  5. Parabéns! felicidades, saúde, amor, paz…

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