Minha Vida Gay – Cultura exploratória

Para quem perdeu o capítulo da aula: o Brasil foi constituído por meio da cultura da exploração. “Cá vieram nossos patrícios portugueses e cá exploraram tudo e todos, retiraram nosso ouro intensamente, confundiram os índios, ceifaram as madeiras tais quais o Pau-Brasil e assim por diante, deixando nessa terra o refugo, a sola do sapato imperial do que era possível e alcançável para a época”.

Cultura Pop da Exploração

Ok, ok, ok! Prometi a mim mesmo não ser tão analítico, crítico e CHA-TO numa porção que nem mesmo eu estava aguentando nas últimas semanas. Mas o Blog MVG, em congruência com a minha maneira mais cabeção de ser, é uma das minhas válvulas de escape que até orienta (ou afugenta). Impossível – e repito im-pos-sí-vel – negar totalmente quem sou e, assim, vai aqui uma análise sobre a nossa cultura brasileira, nossos hábitos de moda e que de toda maneira influenciam os “brilhos” da vida gay.

Nossa cultura tupiniquim-latina-paga-pau as vezes me cansa. “Queria ser burro para não sofrer tanto”, como diria Raul Seixas. Mas nasci nessa terra brasilis com um senso de crítica (voraz), cresci assim e a minha aura ariana vem com força para tingir ainda mais a minha vida que se estabelece.

O brasileiro, de Abba a Zappa, tem uma péssima mania de se referenciar na produção alheia e de maneira exploratória. Não cultua, não cria vínculos, não absorve, não trás para a vida e usa, abusa e devora como se amanhã fosse o dia do último suspiro; explora e depois joga fora. Vejam o caso do Lollapalooza: em apenas três dias o povinho brasileiro (de Abba a Zappa) explorou tanto a imagem desse evento, contando tudo e registrando as mesmas fotos de tênis sujos (ou a Roda Gigante da Heineken ou a beleza do vocalista do The Killers) que em apenas três dias o tal evento, que deveria ser um aperitivo diferencial por muitos anos, já deu um tipo de preguiça, um enjôo, um tipo de mal estar de ser algo banalizado até a tampa. Duvido que dure os próximos três anos.

Nesse mesmo jeitão de ser brasileiro, a poderosa Adele já tocou tanto nas nossas rádios, na MTV e na Internet que me dá um tipo de ânsia de vômito por estar farto até a boca do estômago e as pessoas me forçarem a digerir mais ainda. A mulher é incrível, tão incrível senão mais que a sua antecessora Amy Winehouse. Mas a nossa cultura explora a coisa como se fôssemos formigas a procura de comida na véspera das chuvas. Como se amanhã o mundo acabesse em “The Walking Dead”.

É tão fácil hoje no Brasil as novidades perderem o brilho do ineditismo num instante.

Daí, se esse ano pegou nas redes socias a moda do Carnaval de Rua na Vila Madalena, ano que vem vai ter mais biba colocada que não sabe nem cantarolar o “Ô Abre Alas”, mas vai dar seus pulinhos por lá como uma perereca contida!

Nessa toada tupiniquim-exploratória, quando o Guga (Gustavo Kuerten) era o number one do tênis mundial, explodiram escolas de tênis pelo país e dava uma renca, ou penca, ou gentalha querendo virar tenista. Meses depois, quem era o Guga mesmo?

E no nosso nucleozinho gay como funciona? A mesma coisa: se vira moda camisa pólo com algum tipo de brasão bordado, aparece todo mundo na balada desse jeito, igual boneca Barbie passando por teste da qualidade. Se a moda é o xadrez, estão todos jogando damas. Se a pegada é a gola “vê”, vair ter biba com a ponta do “V” no umbigo (ou no cú). Assim, exploramos freneticamente e vamos seguindo a onda.

Se a Beyonce Knowles virou fonte de garimpo, todo mundo decora a letra, fecha os olhos, curva a cabeça para cima, fomenta o ar blasé e sente o estroboscópio pelas pálpebras dentro de uma balada.

No final, a gente pergunta para o “vizinho” do que ele realmente gosta. Ele não tem opinião formada. Não tem porque será um eterno dependente do referencial que vem de fora. E que muda a todo momento. E que raras vezes, hoje, quer dizer cultura qualificada. E que, normalmente, já é subproduto de outras vertentes. Mas quem nunca buscou construir suas próprias referências, como poderá ter algum critério para julgar o bom do ruim, o que já é subproduto ou o que carrega a aura do orginal?

O brasileiro tem uma tremenda dificuldade de tangibilizar um referencial, pegar para si, estudar e construir sobre. A impressão que dá é que gostamos de receber pronto, consumir rápido e anunciar ao mundo que estamos fazendo parte até perder a graça para se apegar a um próximo modismo. Não é esse jeito que dá cara – literalmente – para a cultura exploratória de nossos patrícios?

Daí entramos com aquele bordão humanista: “o importante é ser feliz”. Concordo que é. Mas acredito também que é graças a esse jeito brasileiro de ser que acabamos consentindo com Felicianos e Malafaias da vida. Primeiro porque “Felicianos” incomodam por criticarem diretamente a nossa “crasse”. Pimenta nos olhos, meus queridos leitores.

Depois porque – de fato – estaremos mais antenados no próximo pacote de Gagnam Style para abrir, devorar e jogar fora. Perdemos um tempo imenso com isso. Criamos valores só de passagem e queremos contabilizar “curtidas”.

Lembrei que o João Gilberto e o Tom Jobim precisaram ser aclamados pelos jazzistas americanos para virarem assunto legal por aqui. E isso foi nos anos 60. A gente é brasileiro assim já há muito tempo.

Orgulho? De merda.

12 comentários Adicione o seu

  1. Carlos Rodrigues disse:

    “Ok, ok, ok! Prometi a mim mesmo não ser tão analítico, crítico e CHA-TO numa porção que nem mesmo eu estava aguentando nas últimas semanas.”

    Na na na na! “Qué” isso MVG?
    Relaxa cara, críticas assim são as melhores de ler! Pode continuar com o seu jeito crítico, analítico e chato! Afinal, tem público para todo tipo de pessoa não é?

    Mas é verdade. Minha definição para isso é “modinha”. Sou do tipo de pessoa que odeia “modinha”.
    Eu estou na geração “aborrescente”, e acredito que seja nessa geração em que mais ocorre isso ( desconsidero a vida Adulta, afinal maturidade anda de mãos dadas com essa fase da vida, o problema é que muitos Pseudo-Adultos ainda não chegaram a essa maturidade).

    Botando um tema atual sobre modinha:
    Lembro que há um tempo atrás, a modinha da vez era ser “Emo” e “Rockeiro”. Agora é ser “Otaku” e “Rockeiro”( e infelizmente, a modinha perdurou) ao mesmo tempo, sendo que a principal característica dessa modinha é : Odiar o funk e o forró e tratá-los como nossa cultura brasileira. É impressionante que alguns chegam a um nível de “cumulice” e dizem que se pudessem, matavam todos os adoradores desse estilo de música (Lembremos da Boate Santa Catarina, quantos ignorantes adoradores dessa modinha vibraram com essa notícia achando que só tinham funkeiros lá… O que não era verdade…).
    O problema, é que os mesmos são tão ignorantes, que desconhecem totalmente a cultura brasileira, sendo que no seu mundinho, a cultura brasileira se refere a apenas Funk e Forró (Tá blz que essas músicas atuais são uma merda… Mas acho o cúmulo pessoas assim criticarem algo que não possuem conhecimento).

    Mais detalhes:
    – E olha que Funk já prestou! Funk é um tipo de música que trata de uma problemática social! É só você prestar atenção na letra da música “Eu só quero é ser feliz!” e você verá que a música faz uma crítica!
    O problema que esses modinhas são bem ignorantes e se acham os tais! Tenho ódio disso!

    Acredito que a modinha de hoje seja o seu gosto musical : Se você não gosta de Rock, você não presta! Pelo menos é assim que funciona na maioria das vezes.
    Então, quando me perguntam:
    – Que tipo de música você gosta?
    Respondo na maior sinceridade possível:
    – Não possuo gosto musical… Se for considerar o que eu realmente gosto de ouvir, são músicas que não possuem voz humana nenhuma, onde só tocam instrumentos ou efeitos sonoros remixados no PC. E sempre mostro alguns exemplos: Hans Zimmer, compositor de algumas músicas do filme Batman e A Origem, música tema do Filme “O Segredo de BrockeBack Mountain” etc…
    Gosto de músicas assim… Mas um dos motivos que eu acredito a ter passado a gostar de músicas nesse estilo, foi o fato de odiar a “modinha”.
    Já cansei de ouvir Gangnam Style, já estou cansado do Harlem Shake, já estou cansado de saber que algumas músicas só ficam famosas por terem passado em novelas (Adelle – Someone like you … Já tava com nojo dessa música) etc…

    Outra modinha da vez: A série The Walking Dead …
    E como sempre, temos aqueles modinhas que chegam ao cúmulo da “cumulice” : “HURR DURR, Queria que o mundo acabasse em um apocalipse zumbi, só assim eu mataria geral! HURR DURR”.
    Admito, eu estou vendo essa modinha, mas, antes de começar a série, eu já estava lendo a HQ.

    Mas ainda dou Graças a Deus por não aparecerem esses “modinhas” na série do Game of Thrones (Estou lendo os livros…).
    Acho que a série é um pouco inteligente demais pra esse povo tão ignorante…

    Resumindo : Odeio quando as coisas se tornam modinha…
    Mas acredito que o problema não é o fato de algo se tornar modinha… O problema é o público ignorante que curte o modinha.
    Talvez seja esse motivo por eu odiar tanto as “modinhas” da vida Aborrescente.

    ( Talvez essa não foi a minha melhor crítica, até porque já faz um tempo que não escrevo críticas. Ignore erros gramaticais. E fiz a crítica de acordo com os meus conhecimentos, que seria a modinha da Aborrescência.)

    1. Marcos disse:

      Assino embaixo, seu senso crítico faz muito bem e é uma coisa que todos deveriam ter. Eu também estou nessa geração e tenho de lidar com isso (minha irmã segue essa moda), apesar de que as pessoas com as quais convivo já estão ficando mais maduras, felizmente. Fico puto também é quando dizem que ser gay tá na moda. Sério, eu nunca entendi isso…se alguém puder me explicar, gostaria xD

      1. Carlos Rodrigues disse:

        E não é verdade?
        A coisa mais chata do mundo é você ouvir alguém dizer: “Ser gay e bissexual está na moda agora!”.
        As pessoas falam como se fosse nossa escolha gostar do sexo oposto.

        Revoltante isso!

      2. Carlos Rodrigues disse:

        Opaaa!
        Sexo oposto não!!

        Mesmo sexo!
        Claro! Óvio! Como pude escrever isso?
        xD!

  2. Renatinha disse:

    Adorei o texto… Tirando o fato de que tudo hoje em dia é motivo para tornar Hypado nos facebook da vida…rs…O Lollapalooza foi um festival bacana com bandas bacanas. Adorei quando você falou da Adele, simplesmente não consigo ouvir nada desta mulher e a música Skyfall é muitoooooo chata. Tirem uma dúvida, tirar foto de prato de comida e colocar no face ainda é cool? descolex?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Renatinha!
      Não faço ideia se tirar foto de prato é cool ou descolex. Aliás, esse termo “descolex” não faz parte da minha gramática, ahahahah. Acho que descolado é tudo aquilo que tem algo de inédito. Se não tem, não é descolado, é colado, é copiado… descolado tem a ver com diferenciado, diferente, tem a ver com o inusitado atraente. Na hora que todo mundo faz – a mim – não tem nada de hypado ou descolex.

      Bjo!

  3. Ali disse:

    Nossa,voltou com tudo amigo MVG! rsrsrs
    Olha,também concordo que na nossa sociedade atual o ineditismo e a espontaneidade já podem ser considerados RAROS.

    Pra mim,existem outros fatores sócio-culturais que contribuem para tornar tudo tão enfadonho atualmente.
    1-Cultura de Massas: Pois é,TUDO que puder ser produzido e reproduzido em massa e possa gerar ALTOS LUCRO$$,está valendo.
    Isso no âmbito econômico é bastante válido,mas no âmbito social é um desastre.Tende a transformar TODOS em uma simples massa de ávidos consumidores (igualzinho os zumbis de The Walking Dead rsrs) que compra,consome até o talo do produto e depois quando não serve pra mais nada é descartado e jogado fora.
    Já está se fazendo isso com os próprios sentimentos das pessoas,como se amor,felicidade,tristeza,saudade etc… fossem apenas moedas de troca em uma relação comercial,como se as relações interpessoais fossem como a lei da “oferta e da procura”.

    2-Fatos da Geração Facebook e outras redes sociais: Sim,hoje em dia é preciso ter algumas centenas de likes e mais de mil amigos para você conseguir ser alguém tanto dentro quanto fora da internet.É a necessidade de ser uma pessoa inteligente,corajosa,bem articulada atrás de um monitor de computador,mas na vida real é alguém completamente diferente,segue a regra do “não senhor,sim senhor”.
    De certa forma, isso representa um pouco também a hipocrisia da sociedade pós-moderna,puritana,politicamente correta,chata e brega em que vivemos atualmente.
    Me parece que é cada um por si e Deus por todos.

    3-Sem falar na mania da maioria dos brasileiros de apenas reclamar e se fazer de santo e injustiçado,mas na hora do voto só faz M#$%@.
    De ser a favor da pena de morte,dizendo a plenos pulmões que “ladrão bom,é ladrão morto” e blá blá blá.
    Sendo que,é a própria ignorância e puritanismo de grande parte da população brasileira em NÃO votar de maneira lúcida em políticos bons e decentes,que acaba gerando os marginais.
    Preferem atacar a consequência ao invés de resolver a causa.
    Preferem votar no corrupto cara de pau e fascista que defende as baleias e a natureza,aqueles defendem a moral e os bons costumes kkkkkkk.
    Não importa se o político é corrupto,desde que ele diga que vá defender e governar por seus próprios interesses,está tudo ok!

    4-Por último,não pode faltar a necessidade marcante do ser humano moderno de não querer ser “mais um multidão”,embora pouquíssimas pessoas consigam mesmo se destacar.
    É ter aquela sensação de estar fazendo algo “novo” e “inédito”,por mais que 500 pessoas já tenham feito a mesma coisa antes de você rsrs.
    É ter o ego massageado pelos amigos curtindo e comentando a suas fotos de “vida-loka” na balada junto com a “galere” kkkkkkk.

    Tudo isso,ao meu ver,contribuem para os ânimos atuais da nossa “terra mãe gentil”.

    PS: MVG,você foi no Lolapalooza?!
    Abraços!

    1. minhavidagay disse:

      Não fui não! A vibe da situação não bate com o que sou hoje.

      Abs, Ali! ;)

  4. Raphael disse:

    Finalmente consegui achar o blog de vocês. Fiquei sabendo do MGV, mas pesquisava e não o encontrava. Até key um dia… Daí estou akey!
    Não sei se faz muito sentido criticar as referências(Quando crianças e adolescentes, usamos e abusamos das referências. Mais tarde, descobrimos, muitos modismos). Parece ser o mal uso delas, o responsável por esse sentimento ruim. Por exemplo, a Adele foi muito explorada mesmuh. Mas suas músicas bouahs, sempre serão bouahs pra ken gosta. Tudo bem q, tudo demais exagera. Então, eh soh você sentir quando passar do limite, dar um tempo e, futuramente, passar a ter contato de novo. Se for bom, de verdade, assim permanecerá! Estava pensando sobre uma possível moral da hitória, porém, pensando melhor, parece mesmuh key são fases. Talvez seja possível suavizar a primeira, q tanto incomoda. Ou seja, a da superfície. Entretanto, acabar com ela, pode ser key não seja possível. Alguém me falou, uma vez, q eh através do tempo q vamos adquirindo(ou incorporando) mais a personalidade. De repente tudo tenha um motivo, e precisamos entender mais…

  5. Sidney disse:

    Adorei sua sinceridade. Dei algumas risadas em alguns trechos. Show de bola. Acho que as modinhas sempre existiram e conviveremos com elas no decorrer de nossos anos. Cada um externaliza ou não uma forma de se rebelar, dizer ao mundo que está ali e que de alguma forma é especial, único e invencível, rsrs (adolescência). Graças a Deus temos a oportunidade de amadurecer nossas atitudes e apurar o gosto pelo que faz exercitar nosso intelecto. Até que gosto da Adele sabe (aproveitando o comentário). Eu tenho uma sensibilidade para a música e minha relação com ela vem desde pequenino. Pra despertar, música! Para dormir, música! rs. Resumindo… Experimentar faz bem, até para argumentar com propriedade, lógico, se você tiver a curiosidade. Há essa altura ninguém é obrigado a . Acho que o importante, além de viver (rs), é amadurecer e saber discernir o que vai agregar valor para você e o que vai te fazer desperdiçar teu tempo. Um abraço e até a próxima. Beijão a todos!

    1. Sidney disse:

      Errata: A essa altura! hahahaha

  6. ju disse:

    Eu concordo com tudo que disse. Achei muito engraçado a forma que se expressou. Morrendo de rir com a parte da gola “V”. Acho que tenho algo de ariano tbm (dizem que o ascendente) kkkkkkkkk

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