21 anos

Meus sonhos raramente lembro, talvez pelo efeito de sonos profundos. Mas quando lembro, normalmente estou conversando com pessoas que, conscientemente, nunca cruzei pelas ruas. Essas pessoas falam, contam suas angústias e suas questões. Não me recordo de suas vozes, nem dos assuntos, mas algumas fisionomias ficam.

No Blog MVG, o mesmo acontece. Embora não consiga responder ou interagir com todos os comentários e e-mails, por aqui os gays, algumas mulheres e até mesmo os homens heterossexuais têm espaço, têm voz e têm meu olhar e o olhar de outros que por aqui transitam. Contam também de suas angústias, suas questões e seus pontos de vista sobre os diversos temas gays e não tão gays assim que aqui são traçados.

No meu trabalho não seria diferente. Vivo há 12 anos ou talvez 13 e não vou me esforçar agora para precisar, a relação contínua de oferecer meu olhar, meus ouvidos e a minha voz para resolver questões de outras pessoas. Meu papel, praticamente todos os dias, é de estar na “casa” de alguém para entender suas questões, oferecer ideias e didatizar soluções. Conversas que, muitas vezes, ultrapassam a simples relação de fornecedor e cliente.

Hoje estive com três pessoas. A primeira, de uma empresa de turismo com sede no centrão de São Paulo, Avenida São Luis, Praça Dom José Gaspar, concreto, asfalto e movimento. Cliente gay, por acaso, que conheço há 7 anos. A segunda e a terceira, graças ao bom Deus que me afugentou do trânsito (rs), praticamente vizinhas de rua. Uma delas, dona de alguns restaurantes em São Paulo que me ofereceu cordialmente seu almoço mineiro. A outra, para uma primeira reunião, tinha hora comigo, 15h. Chegaria bastante atrasada!

Pelo menos eu cheguei no horário marcado, dei um último trago no cigarro pós tutu de feijão e me coloquei a frente da porta do seu buffet para eventos. Perfume gostoso no ar, clima realmente tranquilo e ambiente bastante reconfortante para um pós-almoço farto das Gerais. O irmão da dona, o “Oswald”, estava lá cumprindo seu papel gerencial. 50 e poucos anos, magro, de estatura média, careca, com roupas bem vestidas, apropriadas para sua posição, e um semblante bastante simpático.

Nos acomodamos no sofá, daqueles sofás largos e espaçosos de buffets em Moema, e o meu papel de quebrar as formalidades de fornecedor não foi necessário. O Oswald olhou para mim e disse: “pensei que você tinha a minha idade! Um dia eu já tive cabelos como você!”.

Eu: “Pois é, quem trabalha com web e marketing costuma ser mais novo, mas nem tanto assim. Tenho 36 anos”.

Ele: “Ah, nessa sua idade eu era jogador de futebol de várzea (…)”.

Não entendo bem e talvez nem queira entender esses por quês, mas o “papel” que muitas vezes cumpro em meus sonhos e aqui no Minha Vida Gay também se refletem assim, curiosamente, de maneira súbita, com pessoas que conheço em instantes.

O Oswald, não demorou muito, e logo contava sobre os seus 21 anos de casamento que acabara fazia 4 anos e de como foi sua vida nos primeiros meses de separação. Falou dos choros compulsivos, do sofrimento, do tipo de depressão, da filha que se ressentia (e até mesmo das saudades do cachorro) e de como ficava dividido mas ao mesmo tempo desmotivado pelos desgastes das situações que estavam passando. O motivo foi o ciúmes possessivo e controlador de sua mulher, mesmo depois de 21 anos; cimenta a vida toda como ele mesmo afirmou quando estranhei.

Passaram a trabalhar juntos, o que piorou muito a história.

A medida que ia narrando, eu interagia sutilmente levantando questões sobre se não existia mais o amor, ou orgulho ou ressentimento. Cheguei a me pegar envergonhado por levantar questões íntimas, quando ele afirmou: “não se preocupe, estou me sentindo muito a vontade para falar com você”.

Me sentia comovido, vendo em alguns momentos um espelho a minha frente, de fases que vivi no começo do meu namoro. O possessivo talvez fosse eu? Talvez. Seria aquele homem o reflexo do meu namorado numa situação em que hipoteticamente terminássemos? Talvez.

Contive leves lágrimas que queriam marejar meus olhos. Não por pena de ver um homem de 50 e poucos anos ter que revisitar toda aquela história marcada algumas vezes, mas por ver sua capacidade incrível, humana e digna de reconstruir e se reestabelecer. Estava lá, embora um pouco melancólico, vivendo seu atual presente, com alguns fantasmas, mas na labuta, prestes a sua irmã chegar e seguir com seus afazeres.

A última questão que levantei foi se hoje ele estava em paz. E disse que sim, e quando iria complementar com suas palavras, sua irmã entrava pela porta.

A reunião de negócio foi bem sucedida, daquelas poucas oportunidades quando apresento o orçamento e o cliente aprova na hora. Literalmente na hora, com um pouco de choro, com o mínimo de desconto, mas sem a necessidade de maiores formalizações. Formalizei faz alguns minutos, apenas para registrar.

Eu não sei bem se essas vivências são coisas da tal espiritualidade, de carma ou sabe-se lá Deus o que pode ser. Não sei nem se é algo corriqueiro, do acaso, de que acontece por aí com todo mundo algumas ou muitas vezes.

O que sei e o que sinto é que não foi a última nem a primeira vez que pessoas chegam a mim dessa maneira. E de fato, não sei bem, quando acontece assim sem pedir licença, pelo imprevisível, me sinto rico na alma.

1 comentário Adicione o seu

  1. Marcos disse:

    Ótimo texto, como sempre! Corriqueiro…eu diria para alguns. Acontece de vez em quando, mas na maioria das vezes as pessoas não são muito abertas para discutir questões íntimas com “estranhos” ou têm pouca oportunidade para isso. Eu mesmo sou geralmente meio fechado, o que me chega a trazer certas dificuldades para conseguir novas amizades ou até aprofundar em algumas já existentes, apesar da minha natureza amigável. Falo dos meus problemas para poucas pessoas e pouquíssimas falam dos delas para mim (acho que não sou bom psicólogo, haha).
    O texto me lembrou um episódio no qual eu e mais uma equipe de alunos da minha escola fomos fazer trabalho voluntário animando e oferecendo comida a pessoas num hospital de câncer. Fomos duas vezes, e nenhum dos outros alunos que foram comigo eram meus amigos, apenas conhecidos. Apenas na segunda vez, com a ajuda de um dos participantes, que consegui a atenção de uma senhora da sala de espera, mãe de um paciente. Ela nos contou seus problemas, e eu me senti livre para contar alguns dos meus. Até hoje considero isso uma das poucas ocasiões em que fiz uma diferença positiva na vida das pessoas, senão a única. Me senti, como você disse, “rico na alma”. Estranho é que nesses dois dias, mal conversei com meus outros conhecidos que estavam participando, nem na ida, nem na volta, nem durante o trabalho. Não nos tornamos amigos, não compartilhamos experiências…às vezes me pergunto porque me dou melhor com pessoas aleatórias do que com algumas com as quais convivo diariamente (que bom que não sou o único!). Até com a maioria dos meus amigos ainda tenho uma certa dificuldade para me abrir, consequentemente eles também não me procuram para a mesma finalidade. Aliás, uma das minhas metas pra esse ano é melhorar isso, quero muito fazer essa diferença para as pessoas.

    (desculpa se o comentário foi meio dramático ou nada a ver)

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