Fim do egocentrismo gay


A imagem que a sociedade tem do gay normalmente está relacionada ao esteriótipo, daquele homossexual que “bota pra fora” sua sexualidade e que precisa se diferenciar esteticamente e comportamentalmente para se situar.

Nós gays, costumamos pairar, durante muitos anos de nossas vidas, sobre a questão de nossa sexualidade. Mesmo depois de assumidos e convivendo com outros gays, parece que sempre – em algum jantar ou encontro – lançamos propositadamente ou espontaneamente, as diferenças ou qualidades que fazem ser o que somos. Transitamos muito tempo em um universo que fala sobre o eu, o ser gay, as questões sexuais, as relações afetivas e familiares, e buscamos constantemente válvulas de escape como o Blog MVG, outros blogs, baladas, saunas e a vida noturna gay para vivenciar o que nos caracteriza como gays.

Vivemos por longos períodos as questões sobre relacionamentos afetivos. Arriscamos nos chats, no Scruff, no Grindr, na escola, nos bares e nas baladas algum tipo de diálogo que possa ter uma pitada de algo mais para fazer valer um relacionamento mais interessante. Na grande maioria das vezes o encanto de um relacionamento a dois acaba rápido e voltamos a recorrer aos nossos amigos, numa necessidade auto afirmativa de dizer que “amigo é tudo na vida”.

Vivemos longos períodos tentando de forma tímida ou objetiva trazer a nossa realidade sexual aos parentes próximos, pais, irmãos e primos. Os gays mais velhos, com seus 35 anos para mais normalmente já desistiram disso, ou melhor, a maneira que a sua vida íntima está hoje em relação a família acaba se estabelecendo, assumido, enrustido ou naquela circunstância de que todo mundo sabe mas não se toca no assunto. Pairam aos mais jovens, até 20 e poucos anos, essas questões e outras mais.

O gay tende a querer se segregar para poder viver um tipo de liberdade em ambientes fechados e exclusivos.

Sinto em dizer, mas quem hoje tem 18 ou 48, em um curto espaço de tempo, será ultrapassado. Será daquele modelo antigo, quando se sofria, ou se questionava, ou se angustiava por ser homossexual. Que vivia conflitos, que transitava entre os valores machistas da família, dos valores da igreja, que sofria algum tipo de rejeição e penava para se enquadrar socilamente por ser homossexual.

Não vai demorar muito para os termos e conceitos “homossexual” e “heterossexual” cair no desuso. Flávio Gikovate, reconhecido psicólogo e muitas vezes controverso pelas ideias que apresenta, mostra seus estudos e novos pensamentos sobre esse tema, quando homossexualidade e heterossexualidade deixam de ser valores estabelecidos e passamos a vivenciar o sexo lúdico.

Ao revelar essa possibilidade, não apenas vivenciaremos o óbvio, de jovens transitando entre relações homo e hétero com naturalidade, com muito menos tabus e projeções sociais atuando contra. Nós, de 18 aos 48 anos vivenciaremos um tipo de conflito de geração gay, como percebo hoje quando amigos gays mais velhos, de 45 ou 50 anos reclamam que a juventude gay hoje é mais “bobinha”, não tem o fervor de escancarar sua sexualidade e fomentar o tipo gay que lhes parecem mais autêntico.

Em outras palavras, é interessante notar o seguinte: o gay que hoje tem 50 anos precisou fazer valer com mais intensidade o seu perfil, a sua homossexualidade, no contexto de tempo e sociedade em que esteve inserido quando se fez gay.

O gay com 30 ou 40 anos, não precisou impactar tanto pois a sociedade estava mais aberta; já viveu um período de menos enfrentamento.

O gay com 18 ou 20 anos hoje, vive suas crises existenciais naturais da idade, mas num contexto de mundo que já absorveu muita coisa que o gay de 50 anos provocou, apanhou e brigou para conquistar.

A partir daí, as ideias da Flávio Gikovate são as minhas. Não foi uma ou duas vezes que conversei com amigos héteros, educadores, que se mostraram partidários desse normalidade de sexo lúdico.

O texto de hoje não serve apenas como um acalanto para as angústias que vivemos, do cuidado que temos para despir nossa intimidade para não chocar ou conflitar com os valores das pessoas próximas e queridas. O post de hoje é para pensar: “se o jovem gay, muito em breve, não viver mais distinções entre homossexualidade e heterossexualidade, para que vai nos servir os produtos ou subprodutos na categoria, como as baladas e bares segregados ou o próprio movimento LGBT que muitas vezes é radical e tenta zelar pelos direitos homossexuais?”

Como será a vida gay em um contexto de mundo que ser homossexual terá pouquíssima distinção, e mais, no contexto do começo do post, para onde vai esse nosso ego-gay quando ser gay fará pouca diferença?

Estão aí, algumas das centenas de questões que se abrem numa realidade de mundo sem homossexuais e sem heterossexuais.

9 comentários Adicione o seu

  1. Luis Augusto disse:

    Oi MVG, há um tempo que você não posta, não é mesmo? Em relação ao que foi abordado no texto, concordo com a sua linha de pensamento. Acho que num futuro breve, ser heterossexual ou homossexual, não irá fazer um diferença significativa na vida de qualquer pessoa.

    Por exemplo, eu que tenho 14 anos, nunca passei por crises existencias por causa da minha orientação seuxal, pelo contrário a minha auto-aceitação foi praticamente imediata(demorei uns três dias para me aceitar como sou). Na epóca, apenas fiquei com medo do preconceito da sociedade. Hoje em dia noto que sempre existirá alguém contra qualquer grupo de minoria numa sociedade.

    Em relação ao egocentrimo gay, felizmente ele nunca se aponderou de mim, não sinto a necessidade de contar as qualidades e diferenças que fazem eu ser o que sou.Para mim a minha homossexualidade é apenas mais uma parte constituinte da minha personalidade. Para os gays entre os 18 e 48 anos(sei que você se encontra nessa categoria), sugiro que se adaptem a essa futura realidade, mas que não esqueçam o seu passado. Lembranças e situações vividas são coisas que os fazem humanos e únicos. Uma dica: não sigam “um estilo de vida gay”, mas sim a sua vida. Beijos e tenha uma boa noite, MVG!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luis,
      tudo bem?

      Talvez você já seja um exemplo que ilustra essa realidade mais aberta, da sexualidade lúdica, diferente da cisão que existe entre homossexuais e heterossexuais.

      Nesse fluxo, nada mais natural você não exaltar o egocentrismo gay pois não há porque auto afirmar tanto a sua própria sexualidade. O que vem naturalmente, o que não contradiz a regra, não precisa “explodir” para aprovação.

      Abs e boa semana!
      MVG

  2. O que eu percebi no fim das contas, é que você deixou bem claro de que: “Essa questão de nós mesmos fazer-nos de diferentes (se é que ela existe) irá deixar de existir em um tempo mais próximo.”

    Além disso, me senti um pouco incomodado com uma ideia que você passou: “Já não temos a mesma força de assumir-nos gays para a sociedade, pois hoje ela está mais aberta por consequência daqueles que se assumiram antes e enfrentaram as consequências, que de acordo com o que você passou, eram mais pesadas.”

    Poxa, concordo com você de que o peso da sociedade era maior antes do que os dias de hoje, mas ainda vivemos as mesmas angústias, por sermos quem somos, que vocês já viveram. Acredito que o peso do problema para alguns, pode ser maior do que os outros, mas não é assim que funciona: O peso dos problemas varia de cada pessoa, não se pode considerar que o seu problema é “mais aproblemado” do que o do outro. E esse “problema” é o MESMO entre nós: “Somos homossexuais.”

    Quanto a necessidade de se autoafirmar:
    De vez em quando eu tenho uma atitude chata de: “Não devo me esquecer de que eu sou gay”. Tenho uma certa mania de lembrar para mim mesmo de que sou gay, de que sou, digamos, “diferente”. Além disso, alguns amigos meio que “exigem” de mim uma “atitude de gay” já que sou gay.

    É uma coisa meio complexa nessa minha relação, já que faço parte de uma minoria assumida, ou seja, sou só eu e mais uma pessoa assumida em minha escola (tenho certeza de que há mais alguns enrustidos). No caso, essa pessoa dá para identificar mais como um gay, e eu? Tem gente que chega pra mim e diz: “Cara… Tu não é gay mano…”

    É engraçado porque as pessoas exigem isso de mim. Não que eu queira esconder ou coisa do tipo, mas o meu jeito não condiz com o gay.

    Mas em fim, não vou sair muito do assunto. Já faz um tempinho que não posta né mvg? Mas blz cara, é sempre bom ler um de seus post’s.

  3. minhavidagay disse:

    Oi Carlos!

    Entendo bem seu ponto, de que não há como comparar problemas e questões que são individuais e intransferíveis. Mas ao mesmo tempo, não há como negar também que a sociedade hoje, pelo menos aquelas das grandes capitais, recebem o gay com muita mais naturalidade.

    Um exemplo bem claro da repressão que existia nos anos 60/70 é bem retratado no filme Milk. Já assitiu? Ser gay era proibido, além de ser considerado uma doença.

    Tente apenas imaginar a nossa realidade hoje, que você assume ter questões e dificuldades, sendo proibido e tratado como doença?

    Penso que se a sociedade hoje é mais preparada e receptiva à homossexualidade é porque historicamente, um grupo de pessoas, no mundo inteiro, e na maioria gays, brigaram.

    Não é diferente com os negros, quando o Sul dos EUA era extremista com a raça.

    “O pior problema é o próprio problema”. Entendo isso claramente. Mas se as coisas são mais palatáveis hoje para os gays é porque houveram movimentos para chegar a onde chegamos, o que incluiu mortes, conflitos e muita militância.

    Abs,
    MVG

    1. Não, pois é cara, eu não discordo disso com você! O que me incomodou foi a imagem que eu entendi que você estava passando: “Eu sou de uma época pior e por isso sou mais gay que você!” (Só frescando pra tirar a tensão da coisa).

      Não tinha ouvido falar nesse filme… Mais um filme para eu assistir em fim! Obrigado pela dica!

      Abraços do CR!

  4. Ali disse:

    Oi MVG,tudo bem?

    Bom,concordo com você quando diz que em um futuro bem próximo tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade não serão tão determinantes na vida e na construção do caráter das pessoas.
    Isso é o retrato de uma geração muito mais INDIVIDUALISTA em relação a sexualidade do que as gerações anteriores.
    O coletivismo de dizer que “gays são assim” e “heteros são assado”,já está se tornando algo defasado para a maioria da “sociedade pensante”.

    Eu já não ligo mais se alguma pessoa me julga por ser gay.Podem me acusar de qualquer coisa,de ser egoísta,de ser estúpido ou até mesmo de ser corrupto,mas eu não admito mais e nem ligo se me acusarem de ser apenas GAY!

    Coletivismo chato do ca@#$%!!
    Sempre tomando a parte pelo todo!

    Eu as vezes até me esqueço que eu sou gay,sabe?! kkk
    Veja só,como isso também já é uma prova dessa falta e desinteresse em estar sempre se auto-afirmando e querendo provar para os outros que você não faz parte do “status quo”.

    Mas eu discordo quando você diz:
    “Não vai demorar muito para os termos e conceitos “homossexual” e “heterossexual” cair no desuso.Flávio Gikovate, reconhecido psicólogo e muitas vezes controverso pelas ideias que apresenta, mostra seus estudos e novos pensamentos sobre esse tema, quando homossexualidade e heterossexualidade deixam de ser valores estabelecidos e passamos a vivenciar o sexo lúdico.
    Ao revelar essa possibilidade, não apenas vivenciaremos o óbvio, de jovens transitando entre relações homo e hétero com naturalidade, com muito menos tabus e projeções sociais atuando contra”.

    Olha,eu acho isso MUITO UTÓPICO cara!! kkkkk
    Heterossexuais,Homossexuais e todas as outras orientações sexuais,sempre existiram e vão continuar existindo.
    Não adianta negar isso com descaracterizações fantasiosas.
    É um pensamento visionário? Claro que é! Mas me parece fantasioso e utópico demais para um dia se tornar realidade e cativar as pessoas.

    Eu gosto e apoio as “gavetinhas” que as pessoas criam para tentarem organizar e categorizar certos comportamentos desconhecidos.
    Isso faz parte da condição humana.
    Acontece que certas pessoas são “organizadas” demais e outras são “desleixadas” demais,deixando as suas “gavetas” irritantemente organizadas,arrumadinhas e outros preferem arrancar suas “gavetas” e jogar tudo pela janela.

    Não sei se você vai entender a minha analogia! kkkkkk

    Concordo que o julgamento e o preconceito com relação a orientação sexual já está em declínio(embora,haja controvérsias!),e nas próximas décadas o preconceito com relação a com quem você transa ou namora vai ser a exceção e não mais a regra.
    Mas claro que não se pode agradar a todos,afinal não somos notas de 50 reais para sermos tão prestigiados hehe
    Apesar dos movimentos civis dos negros e a luta por igualdade pelas mulheres,ainda hoje existem pessoas racistas e machistas.

    Mas esses intolerantes são A EXCEÇÃO e não mais A REGRA!!
    Com o “movimento gay” é a mesma coisa!

    Precisamos nos livrar da “mentalidade de gueto” e abrirmos nossas mentes para o mundo!
    Pensarmos pra fora e não pra dentro,pensar grande e não pequeno.
    Eu não sei se isso acontece com vocês?! Mas toda vez que alguém fala sobre a “comunidade gay” ou fala do “meio gay”,isso me SUFOCA!
    Me sinto como se estivesse tendo um ataque de Claustrofobia rsrs.
    Precisamos da SOCIEDADE e não mais da COMUNIDADE!!

    Abraços!

    1. Caio disse:

      Ali, mais uma vez concordo totalmente com você. Ótimo comentário o/

  5. Gabriel disse:

    Olá MVG, boa tarde!

    Acredito que ainda não deixamos o peso estrondoso de sermos “gays”. Foi apenas em 1990 que a respeitada Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o “homossexualismo” de sua lista internacional de doenças. De lá pra cá, houve avanços significativos, obviamente, mas os vestígios do preconceito e da exclusão são notórios ainda: jovens são vítimas de violência, guetos e bolsões de convivência gay se desenvolvem no meio dos grandes centros urbanos numa espécie de subcultura, famílias inteiras vomitam suas rejeições à homossexualidade. Fiz 22 anos a alguns meses e meu processo de aceitação foi espinhoso. Leio histórias de adolescentes de 15, 17 anos que se sentem completamente perdidos em relação à aceitação de sua identidade homossexual.
    Óbvio que ocorreram avanços nesse mundo que “absorveu muita coisa que o gay de 50 anos provocou, apanhou e brigou para conquistar”. Podemos ver em programas de auditório da televisão pais e mães que dão depoimentos de como abraçaram e beijaram e acolheram seus filhos gays; vemos referências na política, na mídia, no mundo artístico que se assumiram pontualmente enquanto pessoas homossexuais. Podemos conhecer em histórias desse blog, inclusive, jovens que se assumiram tranquilamente e entenderam esse momento como apenas um simples episódio dentre outros conflitos ainda maiores dessa fase da vida.
    E, num mundo de relações cada vez mais flexíveis e tênues, acredito que esse processo de os indivíduos transitarem com naturalidade entre relações hétero e homo acontecerão factualmente. Mas o fato de relações acontecerem não significa que serão legitimadas ou reconhecidas socialmente. Uma independe de outra.
    Para mim, o “ser gay” ainda será permeado de alguma dor e superação por muito e muito tempo por várias gerações vindouras. Eu mesmo, e carrego toda consciência disso, faço do ato da minha aceitação enquanto homossexual um estandarte de vitória que diversas vezes gosto e preciso ostentar para mim mesmo: às vezes, é questão de autoestima até.
    A generalização é sempre difícil e dela quero me isentar. Sonho para meu filho um mundo onde tudo aconteça mais sutilmente, até mesmo se ele quiser se casar com alguém do mesmo sexo que nem eu: que seja mais simples que uma conta de 2+2. Mas enquanto eu sonho isso, os homens da lei estão discutindo se é válido ou não o ato civil e legal do casamento gay.
    E pra sonhar tive que me lembrar da tábua da lei: esse é o mundo de hoje e de uma breve amanhã.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s