Relato gay – Mais uma retrospectiva


Ser gay em contextos diferentes.

Do dia em que notei um sentido de atração sexual até meus 23 anos, quando assumi a homossexualidade como orientação, transitei em universos diferentes no meu processo de educação. No primário e no ginásio, estudei no Colégio Pio XII, situado no Morumbi. Colégio de freiras americanas, destinado fundalmentalmente aos burgueses da cidade.

Depois, meu colegial se estabeleceu no E.E.S.G. Andronico de Melo, escola estadual. Pude vivenciar a realidade de outro perfil de jovens brasileiros, daqueles que os pais não tinham o carro do ano, daqueles amigos que faziam todos os dias seus trajetos de ônibus e a pé e que, em sua maioria, não tinham nem se quer ido a Disney World ainda.

E por fim, e não menos importante, tive a minha graduação como bacharel em Comunicação Social pela ESPM, não menos destinado a nata social paulista como o Pio XII.

No meu processo de educação e na trajetória da minha consciência como indivíduo (quando ser gay é só uma parte), conheci os limites do ter muito pouco de um lado e, no outro extremo, do ganhar o carro do ano por ter entrado na faculdade.

Sair do Colégio Pio XII foi algo dificultoso e amedrontador. Era minha primeira referência consciente de sociedade. Eu era uma criança com 16 anos e, naquela época, a grande maioria dos jovens – meninos e meninas – não carregavam de maneira tão esclarecida ou vivida os valores da própria sexualidade. Os LP’s e as fitas K-7 do Legião Urbana, do Barão Vermelho e dos Paralamas do Sucesso saiam originalmente do forno e éramos a primeira geração de adolescentes a serem envolvidos por tais sonoridades (e pensar que Legião toca nos computadores de muitos adolescentes hoje em dia, duas ou três gerações depois). Pessoalmente, achava muito difícil digerir aquela voz cavernosa do Renato Russo e suas longas frases que ainda não traduziam os meus interesses.

A infraestrutura do Pio XII era impecável. Salas, laboratórios, quadras, campos, tudo no plural e um reconhecimento digno das freiras americanas. Estudavam por lá uma predominante classe média que esforçadamente batalhava para que os filhos tivessem um ensino de qualidade. Mas não raro haviam os filhos que chegavam com motorista, rebentos de industriários e empresários. De negros, havia apenas uma em todas as salas do mesmo ano: a “Francine”. De gays, fora eu, acabei reencontrando pelas baladas dois colegas, anos depois que assumi, e um terceiro que não está no Brasil e que sei que também faz número na comunidade.

Ao sair do Pio XII me deparei com um universo contraditório àquela realidade privada: uma instituição pública com uma estrutura infinitamente menor. Fiz parte da última geração de candidatos que prestou vestibular para escola pública. Além desse privilégio, a diretora apesar de ser da direita e Malufista, conseguia manter a ordem de maneira esplêndida. Lembro bem do dia que estouraram uma bomba de festa junina no banheiro masculino e a “Dona Daisy” foi até os limites do inferno para descobrir quem foi. Fez que fez, apertou daqui e dali e o fulano espirrou do Andronico como uma espinha madura, digna daquelas faces adolescentes entre 1993 e 1995. Naquela época, estourar bombinha dava justa causa.

Tenho consciência desde meus oito anos que meus desejos sempre depositavam a atenção nos corpos masculinos (e preferencialmente só de sunga rs). O que me salvava de passar por maiores apertos, ou sofrimentos, ou crises existenciais era aquela aura ingênua e pueril que predominava entre eu e meus amigos mais íntimos. A vibração daquela época era muito fiel ao seriado “Anos Incríveis” e não foi à toa que fez tanto sentido para aquela geração.

Mesmo no colegial, sexo era 15% de assunto que pipocava em minha mente. Apesar do ar arrogante e de indiferença que expressava por ter chegado de um colégio da burguesia – prepotência que se confirma até hoje quando esses velhos amigos vêm tirar um sarro das lembranças daquela época – a maciça maioria era virgem com 17 ou 18 anos e foda-se. Não tínhamos pressa, nem se quer a pressão do tempo e desse monte de informação que faz os jovens tão ansiosos hoje.

Foi na ESPM que o mundo começou a cobrar. A auto-afirmação rolava solta. Precisávamos nos provar que estávamos virando homens e mulheres. Precisávamos ser bons na faculdade, bons de beijo e bons na cama. Precisávamos ser tudo isso e mais: contar para todo mundo. Contabilizávamos nossos feitos depois das baladas e, assim, diante de tanta pressão e frenesi da comunidade ESPM me refugiei no meu personagem: o mais criativo da sala, nota 10 nos cursos de criação durante os quatro anos, hipponga, “filósofo” e assexuado. Não via absolutamente nenhum espaço naquele universo cheio de heterossexualidade à todo vapor. De negro, só havia um em todas as salas.

Sem querer, meus amigos da faculdade – mais íntimos da sala de aula – eram e são os que formam o topo da pirâmide. Eram, ao mesmo tempo, os lindos e as lindas da faculdade. Podiam viajar mais de uma vez para o exterior e trancavam a faculdade durante um ano para poder viver experiências na Europa. Ganhavam seus carros, gastavam com cerveja e maconha, e não dispensavam os fins de semana na casa de praia. Seus pais eram empresários milionários ou herdeiros de heranças familiares e definitivamente viviam todos inseridos na bolha de privilégios que nem passava perto dos meus amigos do Andronico de Melo.

Podiam exalar virilidade e o sexo oposto chegava para contabilizar mais um(a) na conversa do dia seguinte.

Assim, gay, me formava em meio a um universo de contrastes.

Nesse percurso estudantil, meu maior ganho, acima de tudo mesmo, foi adquirir esse olhar para as diferenças sociais, antes mesmo das minhas questões individuais, se eu gostava de meninos ou meninas.

Sou bastante afortunado por ter transitado nesses universos durante anos. O Brasil é cheio dessas dimensões paralelas e poucos são aqueles que convivem nesses mundos sem as garantias do universo particular que nos traz tanta tranquilidade. Conviver intimamente com o diferente e levar essas pessoas para toda vida assusta a maioria.

É melhor não enxergar aquilo que não faz parte do nosso nível.

5 comentários Adicione o seu

  1. Luis Augusto disse:

    Oi MVG, tudo bem? Assim como você tive( tenho e terei) a oportunidade de poder conviver em realidades socias diferentes durante o meu percusso escolar. Esse assunto posso dizer que tenho um conhecimento significativo, já estudei em 8 escolas, entre o perído da educação infantil até o término do ensino fundamental( em questão de pouco tempo, ingressarei na nona).

    Com toda essa alternância de escolas(ocasionada pelas constantes mudanças de cidade e também pela vontande de se transferir) posso afirmar que existe um grande abismo entre as escolas particulares e públicas, tanto de conteúdo das aulas como no contexto social em que os alunos se inserem. Nas instituições públicas de ensino, a infraestrutura é mais precária, alunos convivem mais diretamente com o crime e as drogas e precisam batalhar mais para conseguir o que querem. Em contrapartida, na escolas privadas a infraestrutura é mais diversificada e melhor, os problemas sociais são vivenciados mais na teória e geralmente os estudantes contam com mais apoio do corpo docente e da família.

    Outro exemplo, bom para ser citado é o meu curso de inglês(que aliás sou bolsista), a realidade dos adolescentes que lá estudam é bem distante da minha. Eles possuem a oportunidade de viajar para os Estados Unidos, ir ao show do Paul McCartney(que será dia 9 de maio, aqui na minha cidade), andar em carros bonitos e não raramente importados, comer nos melhores restaurantes, estudar nas melhores escolas; ect… Enquanto eu viajo no máximo para o interior do meu estado para visitar a minha avó, nunca fui á um show, ando a pé ou de ônibus, vou a restaurantes em ocasiões especiais e quando tem promoção e vou estudar em escola pública.

    Apesar disso tudo, não fico triste ou com raiva desse contraste; ninguém tem culpa de nascer abastado ou não. E assim como você me sinto agraciado de poder conviver com contextos diferentes, tão distantes e próximos ao mesmo tempo. Isso me dá olhares diferentes do mundo. Desculpa pelo grande texto, apenas me senti identificado com o assunto. Beijos e tenha um bom dia.

    1. PERA PERA PERA!
      TU É DE FORTALEZA?!! *O*

      1. Luis Augusto disse:

        Sim ,eu sou de Fortaleza, Carlos Rodrigues.

      2. Pô mano! Eu também sou de Fortaleza!

        Se quiser conversar depois:
        carlosrodrigues857@gmail.com

  2. É engraçado porque os tempos mudam. Apesar de já ser assumido para minha turma, e não ter passado muito dessa pressão que as pessoas faziam em cima de você, já começo a perceber que alguns de meus colegas já começam a querer falar sobre mulheres e sexo, já estão querendo namorar (já estão namorando), querendo provar a sua sexualidade para Deus e o Mundo, ou seja, já começam a querer falar sobre coisas mais íntimas da vida (eu me incluo, pois já me assumi como gay!), pessoas de apenas 16 anos e alguma minoria de 17.anos.

    É um porre ouvir essas conversas (como você havia dito), mas acredito que seja chato ouvir porque paira sobre o ar a imaturidade de alguns (Sou um pouco feminista, não gosto de ouvir héteros tratando mulheres como objetos, isso me incomoda MUITO).

    Quem sabe quando eu chegar a fazer minha faculdade (se eu demorar a me assumir, já que não quero chegar e dizer: Sou gay!), as amizades feitas comecem a exigir isso de mim? Não sei cara, só sei que é a coisa mais chata do mundo.

    Quanto a viver realidades diferentes:
    – Não posso dizer que vivi uma realidade diferente, afinal estudo na mesma escola particular desde o meu maternalzinho, ou seja, parte de toda a minha formação (que ainda não está completa) foi feita por essa escola (que no caso, falta apenas 1 ano para eu terminar meus estudos nela). Mas ela não é lá aquelas coisas, percebi seu crescimento ao longo dos meus anos de vida: Eu comecei nela quando ela era muito pequena, e estou terminando ela quando está “grande”… Só falta a fama de um “Ari de Sá” da vida.

    Mas pois é… Só percebo que algumas coisas que você falou aqui no blog, realmente acontecem com o passar do tempo.

    Abraços do CR!

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