Mais de monstros, Jairo Bouer, Renato Russo, meninos e meninas

Continuando o diálogo que se estabeleceu entre eu e o Fernando Lima, amigo e correspondente do MVG, segue a troca de e-mails sobre a coluna de Jairo Bouer, dos meninos que se decepcionaram com a homossexualidade de Renato Russo durante a projeção de “Somos tão Jovens”, filme que pincel a vida desse grande poeta, artista e compositor.

Achei bastante rica a troca de reflexões e pontos de vista. Deixo aqui o registro para quem se interessar:

Pensamentos de Fernando Lima

Oi MVG,

Bem, não vi o filme, mas claro, gosto do Renato Russo e da Legião Urbana.

Como sempre, ressalto que minhas opiniões são de um leigo em Psicologia e temas afins….rs

Não sei se vivemos um período de exaltação do gay, diria que estamos, como você falou, com o holofote mais voltado para nós. Contudo, muitas vezes não para exaltar, mas para apontar o dedo para nós e afirmar como somos desagradáveis insistindo em existir.

Acompanho os programas de debates da Rádio Trianon, no horário do almoço, pois meus pais gostam muito desse tipo de coisa, o que tem me permitido dar umas boas “cutucadas” neles, pois sempre, inequivocamente, tenho frontalmente e explicitamente me colocado a favor da nossa comunidade, em todas as ocasiões. Minhas colocações têm deixado a cozinha num silêncio quase incômodo…

Nesses debates vira e mexe alguém diz que não aguenta mais ouvir falar dessas coisas de gays, pois isso só interessa a uma parcela mínima da população, etc. e tal, você conhece a ladainha. Acho que tem muito hetero cheio de ouvir falar qualquer coisa sobre nós.

Sabe, creio que a cultura nacional, leia-se a alma brasileira, tem essa tendência de abordar um tema, durante algum tempo, até a exaustão, para se convencer de que realmente o país está preocupado, que algo tem de ser feito, para depois tudo cair no esquecimento, e nada de concreto acontecer. Pois o que importa mesmo por aqui é o jogo de futebol, a cervejinha e o pagode, baile funk ou qualquer outra coisa do gênero.

Assim, fala-se atualmente muito sobre os gays e suas questões, sua agenda, mas quais os desdobramentos? O papo anda tão cansativo, que até gays já estão ficando de saco cheio de toda essa conversa fiada. Talvez seja isso que você esteja sentindo.

Fica um apontando para o outro: seu evangélico retrógrado ! seu ativista gay depravado!

E, fora a decisão do Supremo a nosso favor, e do Barbosa no CNJ ontem (que texto legal o dele!!) obrigando os cartórios a celebrar o casamento gay (o partido do Feliciano já vai questionar a decisão do CNJ no Supremo…) em termos da sociedade em geral, o que tem mudado?

Sei que essas coisas são lentas, mas quase todos os dias, sem querer, alguém me lembra que sou gay por um comentário ofensivo ou alguma piada cretina sobre nós.

Acho que nesse sentido, você é privilegiado por circular em um meio onde pode nem se lembrar de que é gay. Mas, para a maioria de nós, a situação é beeemmm diferente.

No caso do texto do Jairo, você fala que é normal um jovem hetero se decepcionar quando descobre que seu ídolo é gay. Para mim, aí está o problema, não deveria ser.

Identificar-se com algum cantor, ator, etc. não deveria ter relação com a questão da orientação sexual ou de gênero, mas exclusivamente com a qualidade de sua arte.

Ele está reproduzindo, o comportamento esperado, moldado pela família/sociedade e que pode, em muitos casos, deixar de ser uma simples questão de autoafirmação e passar a ser bullying contra jovens gays, para se convencer de quanto ele é machão. Por isso não vejo os comentários daqueles rapazes como algo assim tão inocente.

Veja o comentário de um jovem gay no blog, ele não gostou nada da história…

Creio que por conta de todo esse falatório sobre gays, a violência contra nós tem recrudescido. Veja o caso recente lá no Rio, daquele cara que provocou um gay na calçada, não pôde com o cara, porque o nosso brother era fortão, e voltou depois, passou com o carro por cima dele e o matou.

Só para terminar, você fala que ser gay é só um detalhe.

Insisto num enfoque diferente: acho que é algo que molda todo o nosso ser, da mesma forma que a visão de mundo de um homem é diferente da de uma mulher, o grande espectro de personalidades gays traz consigo um matiz bastante variado de percepções do mundo que nos cerca e da maneira como interagimos com ele e com as pessoas que nos são próximas

Será que falei muita besteira? Rsrsr

Se tiver tempo, escreva com mais frequência, gosto de trocar idéias com você.

Abraços,

Fernando Lima

Argumentos de MVG

Oi amigo Fernando,

tem sobrado umas brechas entre muito trabalho em 2013!

Começo nossa nova discussão levantando a questão: o que faz um gay se assumir ou viver encaramujado?

Nesse primeiro ponto acredito que existam dois grupos maiores: um que deposita mais energia nos impulsos internos e outros que depositam essa energia nos impulsos externos. Creio que essa ideia se aplique sobre diversas questões relacionadas à insegurança, não somente às do âmbito da sexualidade.

O gay enrustido, ou encaramujado, ou no armário é aquele que, enquanto enrustido, deposita a energia maior nos impulsos externos ou alheios a si e a sua essência. Teme diversos repúdios externos relacionados à rejeição:

– da família e parentes;

– de amigos;

– de colegas de trabalho;

– do desconhecido na rua, do garçom do bar, do balconista;

– dos relatos e casos narrados em jornais;

– da instituição que é a igreja;

– da história relatada durante os anos até o presente momento;

– da sociedade no geral;

– (…).

O gay que se assume é aquele que sente os impulsos internos, as energias internas maiores do que as externas. Teme diversas situações relacionadas à devaneios que vem de dentro:

– ficarei eternamente sozinho?;

– terei que viver uma assexualidade?;

– terei que ser parcial para pais, familiares e amigos?;

– terei que fingir eternamente uma heterossexualidade?;

– me obrigarei a casar com uma mulher, ter filhos e seguir a cartilha?;

– nunca poderei exercer minha plenitude, conquistá-la para ser total e em paz comigo mesmo?;

– (…).

Ambos grupos sofrem influências internas e externas. As questões internas em detrimento aos movimentos externos são de certa forma analisados por todos gays, por todas as pessoas nas mais diversas questões de convívio, da vida. Mas para alguns, a pressão externa é mais forte e esses suprimem. Para outros, as questões internas são tão poderosas e necessárias de sair do plano da dúvida que, em diversas medidas, ocultas ou assumidas, se “paga” pra ver.

Entre um extremo e outro existem infinitas nuances, com diversos nomes e definições que sabemos, assim como sabemos da bipolaridade instituida pela sociedade entre ser gay e ser heterossexual.

A partir daí vem uma segunda questão: o que faz a sociedade mudar e absorver novos conceitos que antes eram periféricos à maioria?

Primeiramente, sobre os relatos de agressões e repúdios que você sempre utiliza para embasar seus argumentos, penso assim: atitudes radicais normalmente geram atitudes radicais. E isso está no âmbito superior das humanidades e não das sexualidades. A bomba em Boston, que gerou feridos e mortos, causou a morte de um dos assassinos e uma pressão ofensiva contra aquele que sobreviveu e seus colaboradores. Um insulto no campo de futebol normalmente gera outro insulto; vemos isso com certa frequência. Os surtos radicais de Steve Jobs em seu primeiro tempo na Apple gerou seu afastamento e mágoa por anos. E ainda hoje, o confrontamento entre diferenças sexuais, em alguns casos, também vêm à tona com agressividade ou radicalidade.

Do campo das humanidades (ou psicologia de botequim – rs), os valores expressados em “hiper-egos” normalmente são duros pois ativa o “hiper-ego” do outro.

Voltando à questão da sexualidade, continuo a me questionar: até quando vamos ficar nos justificando das malezas de nossa condição homossexual, culpando e apontando para o externo como o “monstro” imbatível, histórico e destruidor, no momento em que a sociedade efetivamente vai mudar quando cada gay se apresentar como tal? Falamos, falamos, falamos, mas esquecemos que somos a sociedade. Não quero depender do movimento e dos seus líderes. Conquistei meu espaço pelas minhas próprias atitudes. O “movimento” não deixa de ser também um monstro com muitas caras e interesses que muitas vezes não condizem aos meus, grande turma que também tem sua parcela radical e ofensiva. O movimento é um partido, como o PT nos anos 80 que era nitidamente formado pelas alas radical e moderada (eu lembro disso e você também).

Eu preferi começar a me assumir com 23 anos pelos meus impulsos internos que eram muito mais intensos do que a possível “realidade” externa. Talvez um pouco de ingenuidade? Talvez se eu fosse mais informado naquela época sobre os “monstros” contra os gays eu ainda faria parte do grupo dos enrustidos? Talvez a minha ignorância e impulsividade abençoaram as minhas decisões naquele período? Talvez eu estivesse cagando e andando para o histórico documentado, para a reatividade dos meus pais e amigos? Sim para um pouco de tudo isso.

O fato é que hoje, aquele jovem de 23 anos, gay, sedento por sexo, por beijos babados, por pintos e gozo, chupadas, estocadas, pela vontade de namorar e conhecer o micro universo gay evoluiu com a sua própria homossexualidade a ponto de enxergá-la como um simples detalhe hoje, aos 36 anos! E desculpe se pareci arrogante. Minha vivência como gay me fez chegar nesse status, que não coloco nem como superior nem inferior. É simplesmente o que eu sinto ou que consigo traduzir. Consegui – enfrentando todo esse monstro social – chegar num ponto de vida, autonomia e emancipação que a minha sexualidade naturalmente virou um detalhe, quase desapercebido e que nos últimos anos faço esforço para recordar.

E quer saber: tem muito gay assumido que deve achar super sem graça não se sentir gay. Durante muito tempo da nossa vida a gente perde tempo se achando o máximo em ser gay depois que a gente percebe que dá pra respirar muito bem como tal! Rs

Minhas questões já não estão mais relacionadas a habilidade na cama, ao tamanho do pinto, a ser ativo ou passivo, a possíveis metamorfoses caso me assuma, às experiências no meio gay, aos esteriótipos, as diferenças de idade no meio, aos tipos de som, às roupas, a ser ou não ser “estiloso”, aos lugares que vou mais gostar, a possibilidade de dois homens entrarem juntos no motel, poder viajar, reservarem uma pousada com cama de casal, ao gay afeminado, barbies, drogados, junks, loucos, garotos de programa, travecos, drag queens, a dificuldade de conseguir um namorado, ao ciúme das amizades gays, à dubiedade sobre os valores das amizades que podem se misturar, à carências por estar sozinho, à sociedade que ainda me “empurra para dentro de mim”, ao deslumbre por ser flertado, a bipolaridade gay, à experiência de chegar em alguém, a tomar uma bota, a ser retribuído, a terminar um relacionamento pelo desgate, a terminar um relacionamento ainda apaixonado, a perdição do entretenimento promíscuo, ao sexo casual, a amar um companheiro, ao casamento, a autoafirmação gay generalizada.

Depois que se realiza tudo isso e se satisfaz, o que sobra? Para onde se vai? Como se encara a tal da homossexualidade / sociedade / convívio / diversidade? Dou inúmeras dicas no Blog MVG e sei que a enorme maioria vai demorar décadas para chegar nesse ponto do trajeto. Se é que vai se querer chegar nesse ponto pois, muitas das experiências no meio do caminho são extasiantes, e outras tantas nos parecem suficientes quando se realizam uma única vez. Talvez eu tenha encontrado o meu suficiente por um tempo. E confesso querer que esse suficiente dure por muitos anos pois a luz anda batendo em outros aspectos mais importantes da minha vida. Voltar a ter necessidades por assuntos que já superei, como a minha indentidade gay e a relação com o meio, me parece ser retrocesso (digo a mim, eu comigo mesmo – rs!).

Sair do armário foi algo vivido, real e realizado, que teve sim “noites sombrias”, angústias, ataques, rejeições, tristezas alheias, choros, repúdios, traumas, culpas, decepções, sofrimentos no meio do peito, mas que hoje gratificantemente se pulverizaram, ou são sentimentos diminutos para quem são essenciais para meu equilíbrio: meus pais, meu irmão, meu namorado, meus amigos que ficaram depois que mudei tanto e as pessoas que seguem comigo na empresa.

No fim, amigo Fernando, se dependermos das estatísticas do mundo, assumimos consequentemente nosso autismo. Meu pai é um pouco assim: acredita tanto nas estatísticas do mundo que está ficando “surdo” e voltado para dentro.

O que me conforta é acreditar muito no clichê: “tudo tem seu tempo”. E tem mesmo.

O mundo se forma da maneira que a gente acredita e essa é a maior fé que carrego comigo. Eu preferi acreditar do jeito que venho me expressando. Até agora não me arrependi.

Não vejo problema nenhum em um punhado de aborrescentes se decepcionarem pela sexualidade do Renato Russo. Insisto: a mim isso não é preconceito, mas um tipo de choque ao se deparar com uma imperfeição do objeto idealizado. O ser idealizado é idealizado não por seus feitos apenas, mas por tudo que é. Não gostaria que o John Lennon fosse gay, e olha que teve a oportunidade com o Brian Epstein no começo dos Beatles. Muito melhor o John Lennon hétero, casado com a Yoko e “canonizado” na noite que chegavam em seu apartamento, 1980. Ídolo tem que ser pefeito sim, em tudo, mesmo fazendo merda. Caso contrário, precisa ter outro nome que não ídolo. Quando surge uma primeira decepção com um ídolo é sinal que esse idealizado pode deixar de ser. Quando um ídolo faz merdas na vida e você continua gostando, não se decepciona, a aura permanece firme.

Forte abraço e aguardo seus comentários,

MVG.

2 comentários Adicione o seu

  1. Antes de ler ao post eu estava meio chateado, bolado pois sentia que por algum motivo meus comentários não recebiam atenção e eram passados para o lado e que todo o meu trabalho de publicar a minha opinião era meio que em vão.
    Então eu pensei: “Foda-se se as pessoas não leem meus comentários! Vou continuar comentado! Ao menos terei a plena consciência de que não deixei algo passar sem a minha opinião, de que não fiquei calado, fui lá e falei, gritei e fiz de tudo para chamar atenção! Não perceberam? Fodam-se, vou continuar comentando!”. (Usando de toda a minha energia de meu extremismo jovem).

    Apesar dessa minha revolta, comecei a ler o post meio que com aquela sensação “Aaa, não espero muito do post”. Talvez quando não esperamos muito de uma coisa nos impressionemos fácil, ou não.

    E não é que eu me impressionei (até demais)? A medida que eu ia lendo o post, vinha o pensamento “Meu deus, como foi glorioso esse blog ter aparecido em minha vida! A cada dia me impressiono cada vez mais com o mvg!”.
    Talvez esse impressionismo todo seja só por causa de você mvg, mexer com algo que abala todas as minhas estruturas: O tempo.
    Toda vez que você começa com as letras e palavras “23 anos”, já sei que no final do post, estarei parado olhando para a tela, pensando: “Esse cara é demais mano! Consegue mexer em todos os meus valores com apenas um post!”.

    E dessa vez você mexeu de um jeito que entrei em uma Katharsis INTENSA ao ler alguns trechos: “Minhas questões já não estão mais relacionadas…” (e todo esse parágrafo, que foi o que eu mais me “encantei” ao lê-lo), “O fato é que hoje, aquele jovem de 23 anos, gay, sedento por sexo, por beijos babados, por PINTOS e GOZO, CHUPADAS, ESTOCADAS, pela vontade de namorar…” (Vai com calma MVG!), e etc etc etc…..

    Você mexe com algo muito simbólico (por minha parte), pois você se vê no passado e tira conclusões perfeitas deles, conclusões do tipo: “Pois é cara… Minha jovialidade já foi e hoje estou mais maduro para enfrentar a vida”. Conclusões que mostram que “todos tem o seu tempo”, cada um tem um momento para a sua vida.
    E o mais legal é que ler alguns momentos citados por você só me trazem aquele grande sorriso de identificação, do tipo “Poxa… E não é que eu estou passando por isso?”.

    Talvez seja esse o motivo para eu adorar tanto esse blog! Acho que até hoje não me arrependo de ter chegado aqui e dito: “MVG, sou seu fã cara!”, e posso até completar “MVG, você é um dos exemplos de vida que irei seguir”.
    Só não chegarei a adorá-lo tanto, pois isso já seria um dos ídolos de Bacon, e os ídolos atrasam a mente humana, ou seja, vai contra os meus conceitos!
    A vida continua e preciso me conhecer, preciso saber quem eu sou.

    Em fim, só o que posso dizer: “Muito obrigado por me oferecer esses meus momentos de Karthasis, meus momentos de extremismo, momentos de filosofar, em fim, por me oferecer esses momentos que me ajudam cada vez mais a entender a minha vida gay de cada um.”

    Em fim, sou apenas um aborrescente em aprendizado.

    (Momento de pulos e alegrias quando vejo a palavra “Aborrescente” no texto! xD)

    1. minhavidagay disse:

      Oi amigo CR,
      Tudo bem?

      Antes de mais nada quero mostrar minha opinião sobre sua questão de eu não interagir em seus comentários (falo por mim). Não tenho feito em vários, que chegam por aqui ou por e-mail. Mas na medida do possível leio todos, ou vou lendo para não acumular. O que tem faltado é tempo para escrever e tempo para administrar o blog.

      Mas são fases. Tem horas que o Blog se encaixa bem na minha rotina e tem horas que não. Já dei mais atenção para ele em outros tempos e agora estou mais tranquilo. E creio que isso sejam momentos, quando há inspiração para preenche-lo e me aproximar de leitores e quando não.

      E muito obrigado pela admiração. Fico bastante feliz por isso.

      Abs,
      MVG

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