O retorno do amigo Beto

Quem acompanha o Blog MVG há algum tempo ou se prestou a ler os posts mais antigos, recordará do texto dedicado ao meu amigo Beto. Esse meu amigo gay “retornou” depois de seu primeiro namoro mais “consistente”, por assim dizer. Não sei ao certo se foi um ano de namoro ou quase isso porque o Beto, antes mesmo de namorar já tinha “desaparecido”. Mania estranha que sempre teve, de se afastar quando eu iniciava um namoro.

O namorador sempre fui eu. O Beto, em sua medida, sempre preferiu a carreira solo.

Em minha última “temporada solteira”, e isso faz mais de três anos, tive o tal momento de céus e infernos que vale relembrar (interessante como as passagens do texto “Do céu ao inferno. E depois no céu de novo” me parece tão antigo!). Beto, na ocasião, tornou-se meu amigo inseparável, a ponto da nano sociedade gay nos questionar – não poucas vezes – se éramos namorados.

Realmente, nos anos de amizade – mais de uma década – foi em 2009 que realmente vivíamos grudados.

Tinha dificuldades de entender alguns comportamentos do Beto e é interessante relembrar com a mente e os olhos de hoje as situações do passado que foram esquecidas.

Por que o Beto brigara feio comigo uma vez na frente do Sonique, alegando estar me esperando na fila mais de 20 minutos? Na situação, estava na casa de um outro amigo por perto, batendo papo enquanto o Beto não chegava. O Beto sempre vinha atrasado e isso nunca foi questão. Mas naquele dia ele fez questão de alardear uma discussão em alto e bom tom na frente de muitas pessoas.

Por que o Beto, na primeira viagem para Buenos Aires, precisava realizar todas as suas vontades, como uma criança chata que pretendia viver a noite a respirar o ar do dia? Por que tantas críticas desconstrutivas quando eu queria viver mais o dia e queria também a presença de nosso outro amigo que viajara conosco de última hora?

Por que o Beto, quando iniciei meu namoro, foi se afastando, negando convites para se encontrar, assim como fez em praticamente todos os momentos que eu iniciava qualquer relação?

A resposta mais óbvia seria: “Ah, ele deve ser a fim de mim”. E fiquei com essa resposta na manga durante anos para ter um tipo de conforto para justificar esses distanciamentos. Mas “estar a fim”, de fato nunca foi claro.

Lembro bem de uma conversa engraçada enquanto eu dirigia na Rua Augusta, na minha fase de céu e inferno:

MVG – “Você percebeu que a gente vive como namorados e para ser namoro mesmo só faltava beijo e sexo?”

Ele – “U-hum…”

MVG – “E não te enche um pouco a gente ficar nessa situação?”

Ele – “U-hum…”

MVG – “Então, não acha que a gente deveria dar um tempo?”

Ele – “U-hum (rs)”

MVG – “Beleza, então vamos dar um tempo…”

Ele -“NÃO! (rs)”

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Beto me aproximara de sua amiga, a “Ela” do Blog “Que Gay Sou Eu”. Pela naturalidade das coisas, de assuntos e de pensamentos, me aproximei bastante Dela nos últimos anos. Passamos o Reveillon de 2012 juntos, período em que Beto já estava bem distante, momento que eu já estava namorando. Não faltou convite para estar conosco mas, claro, recusou.

Acontece que na semana passada o Beto “retornou”, e esse é assunto tema desse post. Teve um jantar com Ela e para surpresa Dela o jantar não foi nada agradável. Beto desenterrou histórias do passado, coisa de quatro anos atrás, lançou culpas, ressentimentos e se mostrou rancoroso com atitudes ou possíveis desatitudes Dela.

Ela não entendeu nada e muito menos eu que conheço outra Ela, bem diferente que o Beto pareceu descrever.

Nisso, eu e Beto marcamos duas vezes um jantar, para colocar os papos em dia, ver como andava, rever histórias e ter uma impressão sobre seu primeiro namoro “sério”. Na primeira vez, que seria na quinta-feira passada, Beto trouxe uma desculpa. Na segunda vez que seria hoje, trouxe uma segunda desculpa e eu, na minha condição atual, 36 anos nas costas, com a necessidade de deixar compromissos agendados pela natureza da minha vida e sem saber mais lidar com essa “punheta”, respondi honestamente: “então deixa para outro momento. Essa semana está muito corrida pra mim. Abs”.

Nem me passou pela cabeça (a não ser nesse exato momento) pensar se o Beto sempre foi assim. Se ele sempre foi assim, eu mudei.

Depois dessas desatitudes do Beto, das disparidades de percepções relacionadas a nossa amiga em comum, de seus perdidos, de suas crises, e de seu desdém (e esse é o pior), percebi algo bastante importante para mim: nem as décadas de amizade garantem uma fidedignidade na relação. Talvez tenha me deparado com os olhos nítidos dessa vez; o Beto, na realidade, sempre precisou ter o controle. Sempre precisou ser o centro e como centro as coisas funcionavam bem. Fora do centro, quando incluía um ou mais amigos ou namorado o Beto não simpatizava, se afastava, negava a própria amizade em prol do próprio umbigo.

A relação com o Beto terminou quando assumi meu namoro. Talvez eu não quisesse encarar essa possibilidade até hoje. Talvez ele já tivesse essa consciência muito antes do que eu. O fato é que, assim como os relacionamentos incríveis, que começam num simples contato entre um menino de 17 anos e outro de 23, e muitas vezes acabam sem se reconhecer a pessoa que se conviveu ao lado, meu “namoro” com o Beto foi rompido, sem beijo, nem sexo.

O que vem dessa amizade a partir de agora eu não sei. Sei que “preguiça” é uma máxima.

Como lidar com uma criança de 30 anos? Não tenho essa vocação.

Muito bom para o ego do Beto, se por ventura ler esse texto. Mas para os próximos tempos e para efeitos práticos é a última vez que referencio.

7 comentários Adicione o seu

  1. Não sei porque, mas eu sempre tive um apreço pela sua relação com o Beto. Acredito que seja pelo fato de o Beto ter seus momentos de presença e seus momentos de afastamento.
    Além disso, eu sempre achei bonito esse tipo de relação que vocês tem: Uma relação de quase namoro, mas no fim amizade. E é um tipo de relação que eu gostaria de ter com um amigo gay (Blz, tenho esse tipo de relação com uma amiga “lés” que eu conheço e sou muito feliz com a nossa relação).

    Mas talvez essa idealização de que eu tinha sobre a relação de vocês (desculpe-me, mas idealizo demais as coisas) não seja verdade, ou não tenha existido. Eu acreditava que ele era o amigo que dizia “Eu estou indo por um tempo, eu volto, mas não se esqueça de mim”, ou um amigo que se vai mas volta na hora necessária, por exemplo, mas você demonstrou que não, era apenas uma pessoa que olhava muito para o seu própio Ego.

    Em fim, as pessoas são complicadas de se entender, pois nunca se sabe a próxima ação delas, ou muitas vezes nos enganamos demais, ou simplesmente não queremos reconhecer que elas são assim.

    Bom, não sei o que desejar para essa relação…. Felicidades em fim!

    Abraços do CR!!

  2. Sammy disse:

    Esse post me lembrou uma coisa que é super mal resolvida pra mim (de tantas outras rs) e vou deixar aqui registrado porque pode servir como “o outro lado”: eu sou o amigo solteiro que vê os amigos sumirem assim que começam a namorar. Nem preciso pensar muito pra lembrar de vários exemplos. Amigos que antes eram companhia frequente e de repente não conseguimos nem marcar um simples jantar. Um cinema nem pensar! A não ser que seja na presença do outro (e depende da boa vontade dele também). Tenho uma amiga há mais de 10 anos que, desde que começou a namorar há 4, eu só consigo encontrar umas duas vezes por ano. E sempre na presença do namorado, que é um chato. Outro dia finalmente consegui sair pra jantar só com ela e só porque o namorado ficou preso no escritório enrolado em tanto trabalho. Tenho uma outra amiga que só se reaproximou depois que terminou o namoro. Agora é minha grande companheira de cinema, teatro, passeios, restaurantes… Tenho um outro grande amigo que não está namorando, mas não tenho a mínima dúvida de que assim que começar a namorar vai sumir do mapa. Até porque, pelo perfil dele, ele vai querer viver o namorado 25h por dia. O pior é que além de ser super difícil marcar alguma coisa com alguém que está namorando (dependendo da relação, claro, não estou falando que é uma regra), quando enfim conseguimos sair pra conversar é pra ouvir a pessoa se gabando da relação e falando “Calma que a sua vez vai chegar também”, “Você está solteiro porque quer. E aquele cara que…”. A pessoa comprometida quer que você entre numa relação também! Talvez porque ela se sinta culpada por estar namorando e o amigo não, talvez porque seja um saco ter que aguentar um amigo solteiro carente… Sei lá… Só sei que sempre tive trauma de amigos que começam a namorar e se afastam. Mas como isso é uma constante na minha vida, só agora, depois de ler o post, comecei a pensar: será que sou eu que me afasto quando meus amigos começam a namorar? Eu sei que não dá pra querer que as coisas continuem iguais eram quando os dois eram livres, leves e soltos, mas eu sou rancoroso com essas coisas… Sinto como se o/a amigo/a tivesse me usado enquanto lhe foi conveniente e descartou assim que não viu mais a necessidade de ter um amigo porque encontrou algo mais que um amigo em outra pessoa. E só seremos lembrados nos momentos em que a relação não anda tão bem e o amigo comprometido precisa desabafar com um terceiro. Só.

    1. Gabriel disse:

      Sammy, talvez essas pessoas não possam ser chamadas de “amigos”… Não ao menos na minha concepção. Porque na amizade não se colocam vedações sobre episódios importantes da vida, ao contrário, vive-se a necessidade de compartilhar. Busco sempre agir assim com meus amigos quando estou num relacionamento.
      Afinal, os amigos chegaram antes.

      1. Sammy disse:

        Gabriel, acho que não dá pra ser tão radical assim. Tem pessoas que quando entram num relacionamento realmente mergulham e se dedicam inteiramente ao namorado, deixando os amigos meio de lado, mas não porque não consideram a amizade importante. É uma coisa de momento. Pode ser frustrante, como desabafei, mas cabe ao amigo, amigo de verdade, entender esse momento, esse distanciamento e estar ali com o ombro à disposição para quando o outro precisar. Mas felizmente a reaproximação não acontece só quando o namoro termina. Tem amigos que depois de alguns meses de ausência (ou até dois anos) acabam lembrando dos amigos que têm rs.

  3. Davi disse:

    Como envio um relato para ser postado?

  4. Gatha, ano passado eu deixei de ir pro Skol Sensations por causa de um Beto da vida, cheio de marra, controlador, diz que vai mas não vai… comecei a observar divonicamente os últimos 5 (dos mais de 10) anos q convivemos, e observei q o comportamento se repetia…
    E quer saber?
    ME DISTANCIEI LIN-DA-MEN-TE, e já reservei tudo pro SS, rs.

    Não quero parecer a individualista, nem a ~colocada~ q esquece dazamyga… mas também não quero e não sei cuidar de uma criança de 20 e muitos anos.

  5. Fernando disse:

    Sei la, mas existem pessoas q tem ciumes d amizades. E ciumes é so auto-baixa-estima. Eu ja namoro a quase 3 anos, e tenho uma amiga lesbica, solteira, de 9 anos d amizade. Nesse tempo ela saiu comigo e meu namorado so duas vezes. Esse ano ja convidei ela varias vezes para almocar na casa do meu namorado, diz que vai, e quando o dia d ir ela inventar qualquer desculpa para nao ir. Alem disso me comentou, ja algum tempo atras q eu estou chato e ” ah seu namorado e metido”. Uai, sempre tratamos bem ela. Mas cansei, e decidi nao convida-la mais, pois sempre nao vai. Cansei..

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