“Cura Gay” – Hoje é dia de manifestação em SP


No final é que, gay ou não, somos todos culturalmente apolitizados.

Convenhamos. O MPL divulgou hoje sua retirada das manifestações, o que em alguma medida desmobiliza as passeatas. Existe uma evidente insatisfação pública pelas manifestações, os atos de vandalismo, os assaltos e a massa radical que depreda, que retira do manifesto sua legitimidade e se apodera de bens públicos para fins de violência. Oportunistas se apropriam do movimento, como os hacktivistas (Anons) liderados pelos “Anonymous”, todos mascarados e fazendo alusão ao blockbuster norteamericano “V de Vingança”.

Ao invés de se apresentar com máscaras, não lhes parece óbvio que o momento é de tirá-las todas?

No meu ponto de vista, após redução dos 20 centavos e de um ou dois comparecimentos as passeatas, a classe média paulista relaxou, pelo menos das redes sociais. Nesse ínterim o brilhante Marco Feliciano “deu entrada” em sua antológica “cura gay” e tudo indica que hoje teremos um manifesto a partir da Praça Roosevelt em São Paulo. Para que mais esse esforço?

Não temos questões muito mais primordiais e basais para resolver? Eu sou lá um gay que estou preocupado com a tal “cura gay”? Gente, por um lado Marco Feliciano é um laranja, quadrado de todos os lados e um pobre coitado que assumiu uma das comissões menos relevantes no Itamaraty. Por outro temos a plena consciência de que não existe cura para a homossexualidade! Para que, afinal, esse esforço despejado desnecessariamente num mote estapafúrdio desses? Não temos que focar em questões de maior dignidade como cidadãos?

Tenho absoluta certeza que, assim como as proporções do MPL, esse movimento contra o Feliciano reunirá uma maioria querendo curtir. Não vi um ou dois depoimentos que a passeata ontem – fora os focos de bandalheira – era uma pura micareta. Micareta é coisa que se faça em um envolvimento de transformação política? Sabemos muito bem que temos uma Parada LGBT-XYZ que é um embuste. Muitos dos leitores aqui – pelo menos aqueles que se manifestam abertamente – sabem do galinheiro que são os dias da parada gay em São Paulo. Valerá o tal manifesto “Fora Feliciano”?

Reproduzo agora um trecho de texto que postei na minha página de Facebook na quarta-feira. Gay ou cidadão, vale a reflexão:

“Ainda é tempo dessa turma toda formar uma liderança. Precisamos criar novos políticos e ter gente que pensa, planeja e executa para confrontar frente a frente a corja que está formada há anos. O problema não é a figura da Dilma, do Alckmin ou, vai saber, do Aécio Neves.

O problema é que política nunca foi nosso forte. Nosso, digo da população, das rodas de conversa, nos jantares entre famílias. E, de repente, todo mundo tem um ponto e quer resolver já, para agora, para ontem.

Os jovens querem ser médicos, designers, engenheiros, advogados e administradores. Querem ser bem sucedidos. Mas alguém aí quer ser político? O fosso entre a escassa opção de governantes e a população foi a gente que cavou. Somos culturalmente apolitizados e há décadas (e me incluo nesse bolo). Não se recicla políticos porque ninguém nunca quis pensar em política.

No grupo do Movimento, lê-se na timeline as discordâncias entre si, gente pedindo foco. Ontem foi um dia claro e histórico do descontrole. Brasileiros estavam em paz na Paulista. Mas outros brasileiros vieram com violência do centro velho. Tudo isso é o Brasil. A mim, não existe essa coisa de “infiltrados” de um lado e “essa pessoa não me representa de outro”. TUDO É BRASIL.

Formar uma nação consciente, politizada e convergente em valores não acontece num estalo. Mas o mote do movimento pode impulsionar pessoas a essa finalidade. Quem são essas pessoas? Onde elas estão?

Onde está o cérebro desse gigante? De nada adianta ter um grande “zumbi”, caminhando aleatoriamente, confuso em seus pensamentos.

Sou incapaz de dar o meu crédito como cidadão para um zumbi.

Bem ou mal, já estou contagiado pelo movimento e é isso que eu penso”.

O que os leitores do Blog MVG acham?

(Fernando Lima, faço uma “convocação” para sua opinião).

6 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel disse:

    Concordo!
    Sou da seguinte concepção: QUEM PROTESTA SOBRE TUDO, ACABA NÃO PROTESTANDO SOBRE NADA.

  2. Mateus disse:

    O problema que vejo nesse assunto “cura gay” estaria na sua administração a jovens com o “conhecimento” dos pais. Mas reconheço que não é algo que afete diretamente a maioria (apesar de eticamente errado, como reproduz o Conselho Federal de Psicologia).
    Creio que não há uma questão mais importante que outra no momento. Pensar assim é um retrocesso, quase uma ordem para parar o que vem acontecendo. Apenas seria bom que se pusessem as ideias em ordem. Afinal, não é mentira alguma que o conservadorismo está vendo com muito apreço esse movimento.

  3. Fernando disse:

    Oi MVG,

    Desculpe-me a demora em responder, mas só vi sua convocação hoje. rsrs

    Primeiramente, gostaria de deixar claro que sou totalmente favorável a este tipo de movimento, mas não ao vandalismo que em alguns momentos acabou acontecendo.

    Passei de carro pela Alameda Santos e pela Frei Caneca nas noites das manifestações e a quantidade de sacos de lixo estourados nas ruas era absurda!

    No contexto dos nossos interesses enquanto comunidade LGBT, também sou favorável à Parada Gay, apesar dos excessos. Creio até que em alguns aspectos ela é contraproducente, porque reforça estereótipos e passa para a sociedade em geral uma visão bastante distorcida do que é ser gay. Até parece que nós somos daquele jeito, mesmo em festas/eventos, que dirá no cotidiano…

    A despeito disso, creio que o fator favorável da visibilidade ainda supera os problemas.

    Quanto ao envolvimento com a Política, de fato, a sociedade brasileira é muito pouco politizada e, na comunidade LGBT, refletimos em certa medida esta triste realidade nacional.

    Há pessoas que relacionam a histórica falta de lideranças confiáveis na política nacional ao período da ditadura militar, que teria ceifado uma geração de jovens politicamente engajados e comprometidos com o progresso do país.

    Tal visão me parece ser uma meia verdade, porque se pessoas relevantes para a Cultura e Política nacionais foram assassinadas (Rubens Paiva, Vladimir Herzog) ou exiladas (Ferreira Gullar, Caetano Veloso), por outro lado, alguns que escaparam estão hoje envolvidos nas grandes falcatruas nacionais (José Dirceu, José Genoíno, etc.).

    Creio que temos uma tendência visceral de olhar somente para o próprio umbigo, algo bastante evidente também na comunidade gay, é só ver a dificuldade dos ativistas em conseguir apoio concreto para o movimento. Respeito muito o esforço de ativistas históricos do movimento LGBT como Lula Ramires e João Silvério Trevisan, que sempre relataram como é complicado tirar a nossa comunidade da letargia.

    Assim sendo, temo quando nós mesmos dizemos que há questões mais importantes para discutir. Isso me lembra a retórica dos héteros homofóbicos dizendo que ninguém está preocupado com o casamento gay, que isso não precisava ser discutido agora, que há coisas mais importantes.

    São as nossas questões, coisas que são importantes para o nosso segmento.

    Sem pressão constante e organizada os fundamentalistas religiosos, com representação significativa no Congresso Nacional vão, cada vez mais, questionar e procurar destruir as nossas pequenas conquistas.

    Precisamos muito de pessoas como Jean Wyllys, que atuam concretamente a nosso favor na Câmara dos Deputados, mas será que lhe damos o devido valor e apoio?????

    Sabemos que a Cura Gay não existe, que o Feliciano é um oportunista, e daí?
    Vamos deixar passar batido?
    Acho que não podemos, porque o efeito desse projeto é muito mais amplo e sinaliza para a sociedade em geral que há uma cura e que, portanto, nós somos doentes.

    Neste domingo uma psicóloga escreveu no Estadão um artigo falando justamente do dano que esse tipo de ideia nos causa, circulando por aí sem a devida contestação.

    Não sei qual a melhor forma, se passeata, pressão no Congresso, assinar petições no site da Avaaz, se ainda não assinou aproveite e assine:

    http://www.avaaz.org/po/petition/Nao_a_proposta_de_Cura_Gay

    mas, na minha opinião, precisamos nos posicionar sempre, organizada e contundentemente, sobre todos os assuntos que atingem a nossa comunidade.

    Abraços,

    Fernando Lima

  4. Caio disse:

    Eu concordo com a parte dos cidadãos que foram às ruas protestar contra a cura gay, mesmo que seja um projeto que dificilmente seria aprovado. Afinal é a ilustração do repúdio social frente ao governo. Lembram da petição de 1,6 milhão de assinaturas para retirar o Renan do Congresso? Então, não deu em nada, pois não ilustrou o povo nas ruas gritando com todas as forças contra o senador. Infelizmente o governo só vê aquilo que para nós já está sob a forma de um “escândalo” e para ficar bem na fita diz que atenderá o pedido que está na pauta. Mas só depois de virar “escândalo”.

    Não sei MGV, mas pelo seu texto captei nas entre linhas apenas um sentido de demonstrar que no Brasil somos apolitizados e que não se muda esta característica de forma rápida e instantânea. Porém, deu a entender que além de apontar você não enfatiza que num dado momento é preciso se começar a tão almejada mudança para que então sejamos politizados e não deixemos que a sociedade deixe de cobrar aquilo que lhe é importante. Algo como: “eu aponto o que existe, mas não enfatizo que o movimento possa ser um começo para a mudança”. Foi apenas uma impressão

    Ah, e com relação aos temas da pauta de revindicações, acho importante sim um segmento além de batalhar pelo básico (geral para todos), também lutar por seus direitos mais específicos, pois se não for este segmento, quem fará por eles? (no caso “nós”). Vejo que se ficarmos apenas dando espaço e atenção somente ao que é geral perdemos uma grande oportunidade de ganharmos mais visibilidade para resolver nossas questões. Uma demanda de melhoria não apaga a outra e as vezes se atendo a ambas, poderá haver mais eficiência no processo para alcance do resultado positivo (unir questões importantes e resolver vários problemas de uma só vez). Se não for assim, nunca teremos vez, sempre haverá algo com maior prioridade. Imagina se os ativistas “defensores do politicamente correto” não se entrometessem e também apontassem suas demandas (que são demandas de muitos, muitos que aliás cospem na bandeira que eles carregam), será que teríamos essa sociedade de hoje, menos preconceituosa?

  5. Vladimir Pacheco disse:

    O movimento LGBT focar só no feliciano e pedir pra renunciar é pedir muita perda de tempo. Poderiam focar outros pontos e outros projetos. Essa briga só mostra como os donos das ONG’s lgbt enfiam o rabo de dinheiro com as campanhas de conscientização e verba liberada na CDH e estão usando os gays da vida real pra bater não num suposto “oponente” dos gays, mas oponente ao recurso público pra essas ONG’s.

    É umas questão simples de grana.
    Não é de direitos humanos.

    Acordem!
    Essas ONG’s são como a Daniela Mercury: oportunismo barato pra ganhar dinheiro com os gays.

    Cadê que organizam pra pressionar kit gay? criminalização da homo? casamento igualitário? boletim de ocorrência de homofobia? Não fazem isso com a mesma força … pq, pq o Feliciano mexeu foi no dinheiro que ia pro bolso dos donos dessas ong’s LGBT.

    Deposita 1 milhão e os caras usam só 200 mil pra imprimir uns panfletos de “use camisinha”. O resto .. só no bolso.

    Se liga, galera. Mudem o foco do Feliciano.

  6. Vladimir Pacheco disse:

    Olha o cara comentando estratégias para o Feliciano voltar e administrar a coisa do CFP.

    A palavra cura quem fala nela é o próprio CFP. O próprio CFP está errado e mostra despreparado tratando a questão como doença. E isso aparecer num normativo só mostra o despreparo dessa autarquia ou o erro propositadamente induzido, né? Por quem? Política LGBT e não ciência Psicologia.

    http://lucianoayan.com/2013/07/04/a-arte-do-controle-de-frame-e-o-que-marco-feliciano-deve-aprender-com-o-arquivamento-do-projeto-de-liberdade-de-escolha-no-tratamento-psicologico/

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