Sou bi sim. E daí? – Relato de um bissexual

Depois de um pouco mais de 2 anos de MVG, finalmente obtive um relato bem escrito, claro e resolvido de um bissexual. É um certo motivo para comemoração já que para homossexuais e heterossexuais a bissexualidade parece mais uma confusão. Cada dia que passa minha opinião sobre a realidade da bissexualidade vai se formando. Obviamente existem sim aqueles gays que “foram” bissexuais por um período até aceitar sua sexualidade com mais maturidade. De qualquer forma, o relato abaixo serve para refletirmos mais sobre esse emaranhado que é a sexualidade. Abaixo do Relato do Thiago, deixo alguns comentários e dúvidas sobre os trechos que deixei em negrito:

Afinal, bissexualidade é uma orientação definida, transição ou confusão?
Afinal, bissexualidade é uma orientação definida, transição ou confusão?

Thiago, um depoimento de um bissexual resolvido

“Olá pessoal!

Eu sou homem bissexual, (me considero assim devido as minhas experiências afetivas e sexuais), tenho 27 anos e sempre me relacionei com qualidade sexualmente e afetivamente com ambos os sexos. Bem, a bissexualidade é um tema delicado pra muitos e principalmente para os próprios bissexuais. Eu mesmo já fui muito alvo de críticas duras quanto as minhas escolhas de relações, meus amigos gays me chamavam de mau resolvido e imaturo e outras pessoas (héteros) me diziam a mesma coisa. Cheguei a refletir por muito tempo se eu realmente não era um gay mal resolvido, demorei um pouco pra chegar numa conclusão, mas cheguei. Sim, a bissexualidade existe, e se dá em um número de variantes maior do que nas orientações homo e heterossexuais. Eu conheci homens gays que são homossexuais de forma convicta, nunca se relacionaram com mulher (ou tiveram poucas experiências) e sempre tiveram muito claramente o desejo sexual e afetivo por pessoas do mesmo sexo. Conheci homens heterossexuais que jamais pensariam em se envolver fisicamente com outro homem, mas, eu mesmo, já fui uma “exceção” para alguns deles.

Sexualidade é, como o MVG já disse, um campo imenso, estranho e desconhecido. Os padrões homo e heterossexuais não são bem definidos. Para justificar isso usamos aquela frase já clichê: “Existem gays viris e héteros delicados”. Agora pensemos qual é o padrão do bissexual? É ainda menos definido em relação aos homos e heterossexuais.

Primeiro, quero refletir sobre uma questão: existem duas formas de se envolver com uma pessoa, que podem acontecer isoladamente ou simultaneamente; são essas as formas carnal e afetiva. Essa separação clara de sexo e sentimento é uma habilidade masculina, independente de orientação sexual. Homens gays e héteros sabem bem quando estão apenas fazendo sexo e quando estão se envolvendo em sentimentos além de sexo. No caso de envolvimento emocional, este pode ocorrer sem que a busca da satisfação carnal seja um primeiro passo para ter sentimentos por alguém, nesse caso, a busca da satisfação sexual/carnal será construída com o comprometimento de uma construção de uma relação afetiva. Quando nos envolvemos apenas para satisfação da carne/sexo, não visamos uma construção de afeto com a pessoa, e volto a dizer, isso é uma habilidade masculina independente de sexualidade. Não é diferente para os bissexuais, aliás, afirmo que tal separação do que é sentimento e do que é puramente carnal é uma habilidade ainda maior dos bissexuais em relação a héteros e gays. Essa habilidade maior entre outras orientações sexuais é um dos fatores que faz o bissexual ser legítimo.

O bissexual masculino (o feminino também) quando é convicto e bem resolvido, não precisa mostrar nada pra ninguém e nem pra sociedade. Este se envolve com ambos os sexos sem preocupações secundárias, sem intenções de ganhar uma imagem para as pessoas de seu convívio, esta é sim, a postura do bissexual confuso (gay enrustido). Os bissexuais vivem suas histórias com homens e mulheres de forma sigilosa e sabem do grande preconceito que existe com a bissexualidade, tanto da parte dos homo quanto da parte dos heterossexuais. Os bi’s entendem o preconceito que sofrem com menos sofrimento, pois assim como entre homos e héteros, um tem fobia em relação ao outro por não entenderem como funciona o universo do outro, ambos, naturalmente, sentem fobia pelo universo bissexual, pois não entendem esse terceiro universo por não fazerem parte dele, que aliás é ainda mais amplo que os dois primeiros.

Os bissexuais, em suma, se relacionam afetivamente e sexualmente com ambos os sexos, mas de forma saudável sempre. Os bissexuais apreciam as diferenças entre um homem e uma mulher e sabem diferenciar bem o que é o prazer que se obtém com uma pessoa do mesmo sexo e o que é um prazer que se obtém com uma pessoa do sexo oposto. Os bissexuais de verdade, não procuram parceiros(as) pensando em atender as expectativas de terceiros, por exemplo, pra mostrar ou provar algo pra alguém, volto a dizer que essa atitude é que é típica daqueles que são homo enrustidos que se dizem bissexuais. Eu estou reforçando isso porque eu comprovo a legitimidade da bissexualidade usando a mim e outras pessoas como referências, e ao mesmo tempo, eu concordo que tem muitos gays enrustidos (homossexuais) com problemas de auto aceitação e que se rotulam como bissexuais para se sentirem confortáveis. É como se os homos com essa dificuldade almejassem de verdade serem bissexuais, e até acabam vivendo como um, porém, este grupo quando se relaciona com alguém do sexo oposto acaba trazendo frustrações pra si e pra outra pessoa, pois verdadeiramente não consegue corresponder-se sexualmente e afetivamente com alguém do outro sexo. O bissexual legítimo consegue levar verdadeiro prazer sexual a ambos os sexos, e sem precisar de entorpecentes para isso! rs

Os bissexuais, como já disse, se relacionam com ambos os sexos discretamente. Nós também somos capazes de nos envolver afetivamente com ambos os sexos e, quando nos envolvemos assim, quando estamos apaixonados por alguém, nosso corpo (enquanto centro de prazer sexual) se completa com aquela pessoa somente. Isso não significa que o bissexual mudou sua orientação sexual, que quando está numa relação se torna efetivamente homo ou hétero. Os bissexuais são capazes de serem felizes num relacionamento monogâmico sim, embora, exista a possibilidade eminente de aventuras com o outro sexo. Admito que essa última ideia sobre os bi’s esbarra no conceito sobre fidelidade e monogamia. Para os bi’s a fidelidade e monogamia ganham uma definição diferente, até porque, os bi’s entendem com total naturalidade a necessidade de contato sexual com ambos os sexos.

Tem formas diferentes de viver a bissexualidade, e em todas as formas há condições de ser feliz. Para os bi’s o que conta para um relacionamento afetivo ter sucesso não é exatamente o gênero do parceiro(a), mas sim as suas buscas internas. Quando eu falo de buscas internas, eu falo do que o indivíduo idealiza no seu íntimo com a figura que deve ser sua companhia fiel. Existem aqueles que idealizam que sua companhia deve ser do sexo oposto, por mil e um motivos, se formos nos aprofundar neste tópico, iremos falar de personalidade, formação de caráter, anseios, valores familiares e etc. Também existem aqueles bi’s que idealizam sua companhia como sendo alguém do mesmo sexo, e pelos mesmos mil e um motivos que o outro idealiza alguém do sexo oposto. E por último, podemos citar aqueles que vão realmente transitar entre um gênero e outro quando buscarem a satisfação de sua vida sentimental, e neste caso, os fatores que levam o bissexual a escolher um homem ou mulher estão mais ligados ao momento de vida do bissexual, sua maturidade e suas experiências já obtidas.

Para desmistificar a figura do bissexual como sendo um gay enrustido aí vão algumas reflexões:

1o) O que eu ganharia, se não somente a incompreensão de algumas pessoas, em assumir pra elas que me relaciono sexualmente com uma colega de trabalho?

2o) Porque eu me relacionaria afetivamente com um homem se eu não me sentisse bem e feliz ao lado dele?

3o) Porque eu me relacionaria afetivamente com mulheres mesmo depois de assumir pra minha família minha tendência homoerótica?

4o) Quase todas as mulheres que eu fiquei e fico sabem que me relaciono com homens também, mesmo assim me apaixonei por algumas delas e essas se apaixonaram por mim, não parece ser saudável e honesto?

5o) Sou ser humano igual a qualquer outro. Minha intimidade de vida sexual é minha e de quem está comigo, não interessa a ninguém qual o gênero de quem está comigo. Você acha mesmo que estou interessado que você defina se sou hetero ou homo?

Pensem!!!”

Comentários e dúvidas do MVG:

Caro Thiago,

primeiramente agradeço pelo amplo relato com a intenção de trazer mais clareza sobre a bissexualidade. Você foi o primeiro bissexual, em dois anos de MVG, a sair da caverna/armário e manifestar da maneira mais lúcida possível a sua realidade da bissexualidade. Gays, heterossexuais e até mesmo transgêneros e transexuais apresentam seus valores e conceitos de maneira mais clara para a sociedade. Vira e mexe tem um homossexual de manifestando na mídia, temos também um Laerte Coutinho (transgênero) e a alguns transexuais reconhecidos por aí. Sobre os héteros, nem precisa muitos comentários pois são a aparentemente predominância em todas as esquinas!

Como essa manifestação é inédita, tenho colocações e dúvidas para levantar e debater contigo – se quiser ajudar a ampliar ainda mais um pouco com seu ponto de vista sobre a bissexualidade – com o objetivo de esclarecimentos e até mesmo discussão de conceitos. Vamos lá:

1) Sua frase: “Primeiro, quero refletir sobre uma questão: existem duas formas de se envolver com uma pessoa, que podem acontecer isoladamente ou simultaneamente; são essas as formas carnal e afetiva. Essa separação clara de sexo e sentimento é uma habilidade masculina, independente de orientação sexual”.

Meu comentário: Meu sócio, heterossexual, depois de mais de 5 anos de namoro, passou por uma fase de redescobertas da vida solteira e hoje, já são 4 anos que vive uma “putaria” louca. Ele alega que algumas mulheres, hoje em dia, são tão carnais e só pensam em sexo como qualquer homem. Quando um cara encontra uma dessas na balada, logo já dá para perceber que a menina quer sexo. Diante dessa colocação do meu sócio, que acredito ser autêntica e representativa no cotidiano dos héteros solteiros, levanto a questão: essa coisa do homem dividir carnal e afeto não seria algo muito mais cultural/social do que a simples manifestação óbvia da genética, da coisa primitiva/primal? O fato do meu sócio relatar esses casos continuamente, da existência de mulheres que estão para o sexo e para a curtição passageira, não mostra que essa divisão da figura masculina ligada ao sexo e a figura feminina ligada a sentimentalidades é fruto, na verdade, de imposições e condições sócio-culturais e muito pouco tem a ver com a tal genética do homem?

2) Sua frase: “O bissexual masculino (o feminino também) quando é convicto e bem resolvido, não precisa mostrar nada pra ninguém e nem pra sociedade. Este se envolve com ambos os sexos sem preocupações secundárias, sem intenções de ganhar uma imagem para as pessoas de seu convívio, esta é sim, a postura do bissexual confuso (gay enrustido)”.

Meu comentário: Será que todo bissexual auto-afirmativo, que precisa mostrar para o mundo sua bissexualidade tem que ser invariavelmente um gay enrustido? Ou será que um bissexual confuso pode ser também, simplesmente, um bissexual mal resolvido?

3) Sua frase: Os bissexuais, em suma, se relacionam afetivamente e sexualmente com ambos os sexos, mas de forma saudável sempre”.

Meu comentário: eu não entendi muito bem o final dessa sua colocação “(…) de forma saudável sempre”. Essa forma saudável tem a ver com a não promiscuidade? A não traição? A não misturar um parceiro hétero e gay ao mesmo tempo?

4) Sua frase: Os bissexuais, como já disse, se relacionam com ambos os sexos discretamente. Nós também somos capazes de nos envolver afetivamente com ambos os sexos e, quando nos envolvemos assim, quando estamos apaixonados por alguém, nosso corpo (enquanto centro de prazer sexual) se completa com aquela pessoa somente”.

Meu comentário: você até chegou a comentar sobre isso no final do parágrafo dessa frase, mas reforço a questão; será que essa fidelidade não tem mais a ver com caráter, princípios e valores do indivíduo em si, acima inclusive da própria bissexualidade? Ou seja, eu não acredito que essa fidelidade de “se completar com aquela pessoa somente” seja uma característica somente de um bissexual. Pode ser sua, mas como indivíduo-bissexual, assim como pode ser minha, de um indivíduo-homossexual. O que acha?

5) Sua frase: Para os bi’s o que conta para um relacionamento afetivo ter sucesso não é exatamente o gênero do parceiro(a), mas sim as suas buscas internas. Quando eu falo de buscas internas, eu falo do que o indivíduo idealiza no seu íntimo com a figura que deve ser sua companhia fiel”.

Meu comentário: da mesma maneira como levantei acima, essa ideia do indivíduo buscar pelos valores internos, da companhia fiel, do valores de conduta, seria algo somente do bissexual ou, acima das sexualidades, do indivíduo que contém em seu caráter esses tipos de princípios? Será que todos os bissexuais são “bons moços” como você ou não existem aqueles cujos valores de corrupção, traição, promiscuidade, “devil things” também habitam essa terra?

Bem, amigo Thiago, gosto de sua retidão e de sua lucidez. Creio que tenha disso também e acho que as sexualidades “periféricas” precisam adquirir sim uma reputação de moral perante a sociedade para conquistar mais seu espaço. A melhor maneira de conquistar tudo isso é “mostrando a cara” de maneira pacífica, coerente e esclarecida. Não é diferente dos movimentos que vimos nas ruas, quando os vândalos corrompiam a identidade das passeatas causando transtornos para os manifestantes pacíficos e esclarecidos, para a mídia e para a sociedade. Mas não acho que todos nós somos tão esclarecidos e educados dessa maneira. No meio entre gays, heterossexuais, bissexuais, transexuais e transgêneros existirão sempre aqueles que remam contra e de maneira contraditória a nossa reputação social. Você é, acima de sua bissexualidade, um cara culto. Cultura nos faz ter esclarecimentos de como nos encaixar socialmente na prática por intermédio de nossa conduta consciente.

Abs,

MVG

9 comentários Adicione o seu

  1. Thiago disse:

    Olá MVG!

    Obrigado por abrir espaço no blog pra debatermos este assunto, acho mesmo importante trocarmos essas experiências, observações e opiniões sobre a conduta do bissexual enquanto individuo que se relaciona. Agradeço pelas palavras para se referir a mim, você é muito gentil, e também me parece ser um cara inteligente e ligado a boas causas, acho pessoas assim muito interessantes.

    Bem, quanto as mulheres, elas estão vivendo uma época em que a mulher tem mais liberdade para se expressar, hoje elas não tem mais aquela mentalidade antiga que dizia que mulheres de muitos parceiros não presta, que mulheres que frequentam bares ou casas noturnas não podem ser levadas a sério e etc. Acredito que foi uma sociedade muito machista e, possívelmente, ligada fortemente a conceitos religiosos, que com isso, criou essas “regras” para as mulheres serem bem vistas no meio social. Hoje, cada vez mais, as mulheres vivem uma vida dentro de um outro contexto, que não é esse antigo, machista. As mulheres entenderam com o passar do tempo e com a abertura de mente, que esse modelo de postura que a mulher tinha que ter só reprimia a mulher.

    Espero que aumente geometricamente o número de mulheres que vivam sua sexualidade com liberdade. Eu concordo que mulheres, em geral, são carnais sim e também capazes de separar sexo e sentimento. Mulheres também valorizam a qualidade do sexo que praticam, e acho muito admirável aquela mulher que se permite a bons prazeres. Acredito que, nós homens, conseguimos experimentar sentimentalidades com desejo sexual e desejo sexual somente, de forma racional, independente de sexualidade. Creio que muitas mulheres tendem a não sustentar por muito tempo uma relação com a única finalidade de sexo. Não é uma regra, parto do príncipio que cada ser humano é único, e a forma de ser de cada um é complexa e diversa.

    Quanto ao bisexual auto-afirmativo, creio que este perfil, na forma simples de entendimento, realmente exista. Acredito que naturalmente, qualquer pessoa que esteja em conflito com sua sexualidade em algum momento tenda a se auto afirmar pra si e pra todos em volta. Sexualidade, como já dissemos, é uma área da nossa mente (costumo dizer que é uma pequena porcentagem da imensidão infinita de nosso pequeno ser) e é muito complexa. Nossa sociedade não tem mentalidade aberta o suficiente, e, nem senso de respeito as diferenças do próximo. A sociedade exerce, querendo ou não, uma influência significativa na nossa formação como cidadãos e como pessoas. A sociedade é muito taxativa com esse modelo de família composta por pai, mãe e filhos, criar filhos para nos darem netos e etc. Neste e noutros modelos que a sociedade nos impõe, não tem espaço pra pessoas não heterossexuais, por essa e por muitas outras razões, muitos não héteros tem um prejuízo emocional tão grande para se descobrirem dentro de sua orientação sexual. Enfim, seja gay, trans, bi ou qualquer outra minoria, talvez a fase de se auto-afirmar pra si e pro mundo faça parte de um processo de auto-conhecimento e de auto-aceitação.

    Quando eu uso o termo “saudável”, eu quero dizer que é algo que acontece com naturalidade, e não de forma articulada. Creio que aqueles que interagem socialmente com articulacões excessivas não estão se permitindo ao melhor das relações interpessoais. Aplicando isso ao assunto que estamos discutindo, considero que aquele que se relaciona articulando o seu relacionamento amoroso não está vivendo o amor de fato, mas está criando um mundo paralelo. Parece que é o que alguns homossexuais fazem quando tentam se relacionar com alguém do sexo oposto, eles se envolvem da forma peculiar deles, e vivem como se estivessem plenos no relacionamento, e por não ser real, me parece configurar uma realidade paralela. Pelo que vejo, muitos homens casados e com filhos, não tem uma vida a dois realmente saudável em casa, e vivem a buscar aventuras fora de casa. Existem aqueles que buscam outras mulheres pra isso, e existem aqueles que buscam outros homens, e é uma parcela desses últimos que eu digo que é o perfil homossexual que vive com alguém do sexo oposto numa realidade paralela, logo, de uma forma não saudável.

    Bem, caro MVG, quando nos completamos com uma pessoa somente, significa que encontramos alguém com muitas afinidades na cama. É possível sim ter uma vida sexual feliz com uma pessoa só, desde que essa realmente atenda todas as suas expctativas e desejos. A fidelidade está sim relacionada a caráter, principalmente quando definimos moralmente a fidelidade que queremos. Acredito muito nas palavras, mas acredito ainda mais nos gestos e attitudes. Para falar de fidelidade, precisamos entender que atração física é um fenômeno natural que acontece entre seres, é inato, instintivo e é um mecanismo que funciona de forma totalmente independente do nosso emocional. É hipocrisia dizer que não nos sentimos atraídos por outras pessoas quando estamos em um relacionamento. É instintivo, todos nós sentimos atração física por semelhantes . Como cada um se disciplina quanto aos seus desejos íntimos, e como um casal lida com seus desejos comuns e individuais relacionados ao sexo é o que estabelece muitas coisas. Acho importante mantermos a lealdade acima de fidelidade propriamente dita. Quando duas pessoas se entendem como um casal com clareza, nem mesmo ocorrências de cunho sexual que envolvam terceiros abalam a estrutura da união desse casal. Estão aí os swingers que explicam isso ainda melhor, eles não consideram a troca de casal como uma traição. A melhor forma de preservarmos nosso caráter é sermos autênticos nas nossas attitudes e conduta, e usar de lealdade a quem nós amamos.

    Bem MVG, sobre sua quinta e última observação, a minha colocação “companhia fiel” não me ajudou a me expressar claramente. Rs
    Vamos lá, todos nós, seres humanos, internalizamos muitas coisas que absorvemos desde o primeiro dia de vida (talvez), durante a infância e até a fase adulta. Muito daquilo que está internalizado nos molda quanto a nossa personalidade, nossa maneira de se relacionar, de lidar com questões sentimentais e etc. Sendo assim, todos nós, no inconsciente, de alguma forma, constróe um ideal de parceiro. Esse ideal pode ser a imagem da nossa mãe, do nosso pai ou de alguém que teve uma grande representatividade em nossa vida, ou simplesmente nenhuma dessas opções. Concordo que esse processo é comum a todos os seres humanos, independentemente de orientação sexual. Acredito também que a promíscuidade, infidelidade, corrupção e outros do tipo “devil things”como você disse, são infelizmente condições da natureza humana, e estão para todos , e também, independentemente da orientação sexual.

    Bem, espero que eu esteja contribuindo de forma positiva para uma abordagem tão importante como essa. Um abraço!

    1. Gustavo disse:

      Prezado Thiago,
      não sei se ainda olha aqui as respostas aos seus comentários ou ao seu relato, mas sou novo no blog, e só vi este post agora.
      Tb sou bissexual, recém-auto-assumido, e até tenho trocado uns emails com o MVG e postado uns comentários aqui no blog… o último deles no post “Be gay or not be gay – parte 2”. Se quiser / tiver saco, dê uma olhada lá.
      Gostaria de entrar em contato com vc, pq me pareceu um cara muito lúcido e sensato em suas palavras; enfim, alguém legal pra trocar uma ideia!
      Se importa de me passar seu email, ou de o MVG me passar?
      Valeu,
      abs

  2. Caio disse:

    Eu também acho que a bissexualidade convicta exista, mas ela não é tão expressiva assim nas pessoas como parece ser. Muitos dos que se dizem bissexuais e que são homens na verdade são gays que ainda não conseguiram se aceitar completamente da forma que são. Todos os bi’s que já tive contato confessaram desejar outros homens numa intensidade maior em relação as mulheres. Aliás muitos ficam vez ou outra só “por constar”, para despistar a desconfiança da família preconceituosa, pelo momento de empolgação (na festa já bêbado dá um beijo na mina do lado e depois nem lembra), ou até mesmo nos casos que todos nós já ouvimos falar, já vimos ou ainda vamos ver: homens que se casam com mulheres para fugir do preconceito social, mas se enganam dizendo que gostam de suas esposas, ainda que precisem sempre recorrer aos encontros as escuras com outros boys. Eles se negam a dizer que só se sentem totalmente realizados com outros homens ao invés de com outras mulheres (como o MGV já disse em outros posts aqui do blog). Ou até aqueles que devido ao contexto de vida que passaram não aceitam a ideia da afetividade entre homens, apenas na satisfação sexual da qual não conseguem fugir devido aos impulsos inatos, ou seja, têm bloqueios mentais oriundos de uma época que a homoafetividade era um “crime”.

    Tenho raiva dos “metidos” a bissexuais que usam de sua pseudo orientação sexual para se dizerem mais “homens” dos que os gays e dizer que somos inferiores, que eles são “machos” e que detestam gays, como se também não fossem, a quem querem enganar?

    Além disso, ter lances casuais uns aqui e outros ali com o sexo oposto, não tornam um gay em bissexual. Se há preferências para um lado, isso já indica uma monossexualidade. Disso eu sei porque vejo com meus próprios olhos: todos os homens que se dizem bi’s dizem preferir outros homens. Não que este seja seu caso Thiago.

    Acho que a realidade tem que ser mostrada como ela é. Se isso acontecesse em todos os âmbitos da vida, inúmeros problemas acabariam.
    Por fim, vejo como importante o respeito entre todos. Mas também o respeito às preferências de cada um. Assim como não acho certo taxar como preconceituoso aquele homossexual que não curte afeminados ou ursos, ou sei lá o que, por uma preferência particular dele, também não acho certo taxar como preconceituosos homens e mulheres que não gostam de se relacionar com outros ditos bissexuais.
    Eu, particularmente, devido minha experiência não me envolveria afetivamente com um bissexual convicto, no máximo se ele for muito interessante, rolaria um lance casual. Não vou dizer nunca, mas será bem difícil.

    Abraços.

    1. Thiago disse:

      Olá Caio!

      É Caio, eu concordo mesmo com muitas coisas que você disse, aliás, tudo em relação aos pseudobissexuais quando este casam com mulheres para fugirem de preconceitos da sociedade. O fato, Caio, é que existem realmente muitos que assim o fazem, é aquela parcela de homossexuais mal resolvidos que se casam com mulheres (não são felizes com elas) e recorrem ao sexo casual com homens com alguma frequência (para fugirem da infelicidade). Creio que os bi’s que você conheceu sejam realmente aqueles que estejam ainda amadurecendo em relação a sexualidade deles, pois dizem que se sentem mais realizados com homens. Eu afirmo mais uma vez que, bissexuais não tem satisfação maior ou menor com um gênero ou outro, mas sabem apreciar o prazer que se tem com ambos os gêneros sem existir essa sensação de “faltou algo”, reconhecem que são prazeres diferentes e se correspondem bem com ambos.

      Eu também, Caio, não acho legal a postura de quem se diz bissexual como se fosse superior a homossexuais ou mais “machos”, como você disse, apesar de nunca ter conhecido ninguém que fizesse isso. Enfim, de forma alguma e sob nenhum aspecto, um ser humano é superior a outro.

      Caio, se algum dia você se envolver com um bissexual (de verdade), tenha certeza que este não tratará sua sexualidade como uma coisa muito importante e que você precisa aceitar isso antes qualquer coisa (isso é coisa de pseudobissexual). E pode ter certeza que se você for interessante a altura para um bissexual, ele poderá se envolver com você, ser fiel e te fazer muito feliz. Bissexuais são capazes de se envolver afetivamente e de se entregar dessa forma romântica que estamos acostumados a ver por aí, inclusive com pessoas do mesmo sexo.

      Caso se interesse em saber mais sobre como é a bissexualidade, acessa esses links que eu postei e verás que o número de bissexuais de ambos os sexos é bem maior do que se imagina.

      Um abraço, Caio!

  3. Carlos Rodrigues disse:

    Acho que durante esse meu curto trajeto de vida, talvez tenha conhecido realmente apenas um bissexual, ou melhor, umA bissexual.

    Você tocou parte no assunto das mulheres que vivem sua sexualidade plenamente e que se entregam ao prazer sem qualquer restrição, e todas essas características me lembraram essa maravilhosa pessoa que eu conheço.
    Basicamente, a mesma, é um misto de tudo: Namora um homem (e tem altas relações com ele), e esse mesmo casal, uma vez ou outra, tem seus prazeres com terceiros (no caso, ela com uma amiga dela, e ele com alguma outra mulher, só que no caso, ela é mais frequente).
    Apesar da mesma afirmar algumas vezes que tem uma atração maior por mulheres, eu percebo que a relação que ela tem com o namorado dela (e eu sou um grande amigo do mesmo) é muito bem resolvida. É de se apreciar ver esse casal junto a 2 anos.

    Ver alguém como você, bissexual e bem resolvido, juntando essas duas partes em uma pessoa só, é difícil de se ver.

    Quanto a ter uma relação com um bissexual: Talvez seja porque não tenha amadurecido minhas ideias quanto a isso, mas ainda não me sinto bem em me imaginar tendo uma relação amorosa com um bissexual, pois me sinto incomodado sabendo de que o mesmo sente atração, também, por mulheres. Talvez seja exagero dizer, mas pensar nesse caso me faz sentir “menos completo” para a pessoa.
    Apesar de você ter afirmado de que um bissexual bem resolvido cria um ideal que o completa, é por parte de mim que me faz sentir assim. Como disse, talvez ainda não tenha amadurecido quanto a essa parte, não tendo amadurecido acabo por me sentir assim, de que eu não vou completar o meu parceiro que é bissexual.

    Olhando essa minha “restrição”, até que me lembra um pouco uma coisa que estava pensando a um tempo atrás: Namorar um carinha que tinha desejos de ser transsexual.

    Olhando para esses dois fatos, percebo que não consigo encontrar uma resposta para a resolução da questão. Talvez, quem sabe, eu apenas consiga essa resposta convivendo com um por um acaso do destino mesmo.

    Só acho que devo resolver essas restrições, pois vai que eu me apaixono por alguém assim? É vergonhoso de minha parte eu perceber que tenho essas restrições, sendo que muitas vezes considero minha sexualidade uma coisa bem resolvida.

    Em fim, ótimo texto!

    Abraços do CR!!

  4. carlathayna disse:

    Sinceramente, sou bissexual e você ter uma vida sigilosa é um saco! Eu tenho vivido uma vida dupla literalmente: em alguns lugares sou heterossexual e em outros, lésbica.
    Namorei um homem hetero e quando disse a ele que era bi, ele concluiu que era lésbica e insistia em me rotular como “lésbica”, até me chamava de “minha lésbica linda” (se eu realmente fosse lésbica nao teria namorado com ele, incrível a capacidade cerebral dele). E contei para algumas amigas também e umas me chamam de lésbica, outras de hetero e tem uma que insiste em brigar comigo quando olho para uma garota (mesmo sem segundas intenções!), o quão difícil é para as pessoas aceitar o fato de eu gosto de homens e mulheres?
    Se os bissexuais já sofrem tanto preconceito imagina quanto aos panssexuais? Eu sinceramente odeio esse negócio de rótulos. E quando alguém pergunta minha sexualidade eu a defino como: “Eu gosto de ficar com quem me faz bem” porque de certa forma é pura verdade e por que todas não podem ter o direito de ter relações com quem faz bem? Sem julgamentos e rótulos?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Carla, tudo bem?
      A granda maioria das pessoas tem a necessidade de se assegurar dentro de conveções e modelos. Para a maioria, a bissexualidade é difícil de entender porque não está “nem lá, nem cá” dos valores convencionados.

      Os rótulos não deixam de ser recursos para se estabelecer compreensão as pessoas. Ao meu ver, nem sempre o problema está neles, mas na dificuldade das pessoas abstraírem e compreenderem que sexualidade está no campo da subjetividade.

      Boa sorte em sua vida e na “luta” de ser compreendida.

  5. sergio dos santos martins disse:

    Todos merecem respeito. A sexualidade e um universo único de caads ser humano

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