Vida Gay – Namoro, aqui e agora

Não importa se o gay tem 15 anos ou passa dos 30, se vem de classes mais baixa, média ou alta, se é negro, mulato, branco, oriental, afeminado, masculinizado, enrustido, fora do armário ou deficiente físico. Posso até dizer que esse assunto está em pauta entre os heterossexuais também: nunca relacionamento afetivo ou namoro foi tanta questão nesse mar imenso de solteiros.

Somewhere Over the Rainbow

Já são centenas de e-mails que recebi abordando questões de relacionamento ou namoro gay, sem contar que o post “Onde eu acho um namorado? | Namoro gay” se mantém como o segundo mais lido e comentado desde o início do MVG. São pequenos dados que talvez apontem por uma necessidade latente, gritando na mente de muitos gays que – no fundo – buscam por um relacionamento afetivo mais estabelecido.

O que falta para conseguir namorar?
O que falta para conseguir namorar?

Gays de todo o Brasil podem até não assumir, mas tem a dificuldade de desenvolver um relacionamento afetivo.

Tenho notado um tipo de padrão que se perpetua desde que pulei para fora do armário. Padrão que também refletiu/reflete em mim quando estou solteiro: quando conhecemos alguém que nos interessa, muitas vezes parece que o referencial de nossa vida passa a ser a pessoa. Ficamos ansiosos para receber uma mensagem. Ficamos rapidamente depressivos se a mensagem que enviamos não é respondida. Ficamos angustiados se não há um convite para sair de novo, depois do primeiro encontro e parece que a nossa mente é dominada pela figura da pessoa. Entramos num processo de compulsão e praticamente deixamos de dar relevância para assuntos que também são importantes para a nossa vida como estudos, trabalho, família, amigos, etc.

Assim, sem querer, minamos a própria possibilidade de nos relacionar (e a culpa raramente é do outro). Fica tão desgastante a situação que, em semanas, o que deveria ser fluido e natural, fica condicionado a nossas neuroses. Preferimos, então, dizer que estamos bem sozinhos.

O fato é que, talvez, estejamos todos – ou muitos de nós – muito tempo sozinhos. Solidão que vem antes do sair do armário e que continua quando nos deparamos com o meio gay. Ficam tantos sentimentos contidos que, numa primeira possibilidade de extravasar, vem à tona um tipo de descontrole que nada tem a ver com a pessoa desejada, mas sim com o sofrimento que causamos a nós mesmos pela intensidade compulsiva para conceber uma relação.

Raras são as vezes que a pessoa nos retorna do jeito e na intensidade que queremos e, se tudo for muito intenso de ambas as partes, não me recordo de um único sucesso.

No geral temos um complexo imenso de rejeição e talvez isso não seja um problema especificamente do gay (ou pelo menos sinto um tipo de desgaste por ouvir que as coisas com o gay são assim porque enfrentamos muitas rejeições na vida). O fato, independentemente das causas, é que morremos de medo para uma entrega sincera e aberta. Na maioria das vezes essa nossa entrega a um outro homem fica condicionada a exigências inconscientes, de uma resposta ou uma receptividade na mesmíssima frequência que queremos. E assim não dá ou quase nunca dá certo.

Por essa questão de quase nunca dar certo, essa coisa de relacionamento sério, namoro, vai se tornando um desgaste por dentro. Nos frustramos, nos decepcionamos e nos enrigecemos. Preferimos nos estabelecer sozinhos porque assim nos parece haver um tipo de controle. Preferimos apenas “ciscar” ou “abanar o rabo” para ter migalhas de correspondência – um pouco aqui e um pouco ali, de um e de outro – já que, apresentar o todo, nos expõem, nos enche de incertezas, inseguranças e, novamente, neuroses.

Ao mesmo tempo, ser gay perante nosso universo social particular nos enche de fobias como bem sabemos. Muitos gays têm uma enorme dificuldade de apresentar um namorado para amigos e família. Outros, criam uma reputação tão individualista perante pais e amigos que fica difícil até abrir o mesmo espaço social para o namorado. Não são todas as pessoas que são camaradas. Muitos de nós são egocêntricos e mimados por “n” motivos, naqueles casos que mães percebem os filhos gays desde pequenos e – sem querer e na intenção da proteção – formam relações edípicas.

Por fim e não menos importante, já citei essa outra característica em outros posts: o homem, gay ou heterossexual, tem implantado no gene e na cultura uma natureza mais competitiva. É preciso muita espiritualidade e força de vontade para superar esse tipo de “instinto”, que aplicamos em amplos aspectos de nossas vidas, e deixar de aplicar quando de trata de relacionamento. Simbologias a parte, estamos falando de duas espadas que, para tornar uma boa história num conflito, não precisa de muita lenha. Gays ou homens – nos mais diferentes graus – competem beleza física, competem intelectualidade, competem o interesse alheio, competem status financeiro, competem no trabalho e querem sim, de maneira individual, despontar de alguma forma.

As vezes nos sentimos “tão bons” que o outro precisa preencher diversas lacunas para se colocar no mesmo nível. Mas nesse caso, a psicologia é clara: o que se acha tão bom e é arrogante/prepotente, na verdade da intimidade se sente fraco, pequeno.

Alguns gays, ou pelo menos as referências que a gente vê por aí que fatalmente nos contaminam, adoram fazer inveja, adoram entrar numa egotrip e precisam auto-afirmar alguma coisa do ego a todo momento. Quando o foco está no “eu”, difícil ter espaço para um namoro.

Entrar nesse bolo não é de todo mal pois, se todos funcionam nessa frequência, ninguém está percebendo as cagadas. Mas não pensem que nisso cabe um relacionamento.

7 comentários Adicione o seu

  1. Fernando Porfírio disse:

    A evolução tecnológica que tivemos nos últimos anos gerou
    mudanças comportamentais. A facilidade de locomoção, comunicação e
    de acesso a informação que temos atualmente desenvolveu no nosso
    modo de vida um imediatismo absurdo e assim, somado ao instinto
    competitivo do homem (como você mesmo disse), queremos um resultado
    rápido e satisfatório dos nossos “investimentos”. E , então,
    fazemos dos nossos relacionamentos amorosos uma filial da empresa
    em que trabalhamos ou uma réplica dos aparelhos tecnológicos que
    nos cercam: se funcionam, ótimo, caso o contrário, descartamos
    imediatamente. Será que todas as pessoas que querem namorar
    questionam o por que dessa vontade? Será que todas elas se analisam
    a ponto de enxergar de fato que tem (ou está em) condições de
    MANTER um relacionamento com todas as especificidades que este
    apresentar? Ou simplesmente vagam pela vida imitando padrões
    antigos com idealizações antigas, confirmando aquele ciclo de que
    todo o indivíduo desta sociedade deve estudar, trabalhar, namorar,
    ter uma casa própria e constituir uma família? Todo o tipo de
    relação implica troca, mas percebo que exigimos demais dos namoros.
    Queremos que o outro preencha um espaço que é de nosso interesse
    preencher, damos ao outro uma responsabilidade que é nossa: a de
    cuidar de nós mesmos. Não percebemos que o envolvimento entre duas
    pessoas (ou mais, vai saber…) acontece para somar e para que tal
    coisa aconteça é necessário vontade, tempo, dedicação,
    auto-conhecimento e afirmação, tolerância e, principalmente, “pé no
    chão”, não conheço ninguém que tenha construído algo sólido com a
    cabeça repleta de fantasias baseadas em namoros alheios, contos de
    fadas ou romances cinematográficos.

    1. minhavidagay disse:

      Muito boas suas ideias que complementam o post, Fernando.
      Obrigado! Abs, MVG

      1. Fernando Porfírio disse:

        É um assunto bem instigante. Dê uma olhada nessa entrevista do programa CBN Mix Brasil sobre o assunto: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=k3MY6UXlZgE

        Abraço.

  2. Rogério BittencourtRogério Bittencourt disse:

    Esses textos abordando a essência são simpáticos ao meu modelo mental, compreendo que não fora intenção, mas se esqueceu dos gays deficientes, pois existe uma curiosa dessexualização desses sujeitos, ou a expressão e quaisquer outras categorias, fica bem MVG.

    1. minhavidagay disse:

      Pronto, Rogério! Incluso! :)

      Abs,
      MVG

  3. Douglas disse:

    É incrível como a sociedade consegue nos influênciar, até no modo em que nos relacionamos, mas eu digo que muitos gays sentem essa carência mais por que não posem viver de forma plena, muitas vezes porque vivemos em uma certa “ditadura hétero”, e muitas vezes não podemos viver a nossa sexualidade por conta de comentários alheios. E também muitas vezes idealizamos muito, tipo há gays que só querem ficar com alguém masculinizados, e muitas vezes esquecem que alguém um pouco afeminado, também seria legal, muitas pensam em um cara saradão ou magro, e nem dão chances se o cara é um pouco gordo, resumindo, idealizam tanto a aparência quanto a personalidade.
    Costumo também pensar que tudo há o seu tempo, se tiver que aparecer alguém vai aparecer, acho que ficar só pensando nisso piora a situação.

  4. Lucas disse:

    Eu sei pq a maioria dos gays não namoram e o motivo é tão escroto quanto: afeminado. Eu fico pasmo, velho pasmo. Eu não sou tão masculo assim mas não sou super afeminado, minha familia me aceita de boa, posso levar meu namo pra conhecer todos, namorar em casa, não sou tão feio assim e mesmo assim não consigo ninguém, e o motivo? ” Sou macho e só quero macho ” :D paciência Até parece que eu nasci e falei: ” Deus, me faça fêmea. ” K

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