MVG fala como foi assumir a homossexualidade para a família – Parte 5

Entrevista realizada pelo leitor Caio

Caio: Como e quando você sentiu que não seria possível mais guardar em segredo sua orientação sexual de seus familiares? Como foi a revelação aos seus pais e irmão e depois (ou antes) aos demais parentes?

MVG: Tenho pouquíssimo contato com meus parentes, o que faz entender como “parente” meu próprio núcleo familiar (pai, mãe e irmão) e que assim nunca despertou o desejo ou a necessidade de expressar minha sexualidade para tios e primos. Tenho 36 anos e meu primo mais novo e mais próximo – para você ter uma ideia – tem mais de 45 anos, mora longe e nos vemos no máximo duas vezes ao ano.

Revelar para meu pai, minha mãe e meu irmão foi, digamos, engraçado!

Para minha mãe

Estava no meu segundo namoro e meu ex havia deixado um bilhetinho para mim. O tal papel se perdeu e achávamos que tinha parado no lixo. Tudo aconteceu numa casa que meus pais tiveram no interior de São Paulo e, naquele período, levava meus amigos para passar o final de semana quando meus próprios pais não utilizavam.

No final de semana seguinte, minha mãe esteve por lá e achou o tal do bilhete! Ficou com o papel por uns 3 meses (ou até mais) até o dia que me pegou mexendo no computador – meu pai já estava dormindo – lançou o bilhete sobre a mesa e disse: “Eu gostaria de entender o que significa isso”.

Na “cartinha” havia o nome do meu ex.

Respirei profundamente e já me sentia preparado para conversar a respeito. Não havia porque mentir embora, nós gays, inventemos loucuras para escapar de uma dessas (risos).

Conversamos noite a dentro, madrugada. Houve momentos de choro, decepção e aquela velha sensação maternal de “onde foi que eu errei”. Minha mãe demorou um ano para processar toda a ideia, época que já morava com meu “ex-marido” e que era véspera de Natal, quando nos fez uma visita e a partir daquele momento sabia que ela já assumia também a minha sexualidade.

Para meu pai

Minha mãe já sabia fazia alguns meses e eu ainda morava na casa de meus pais. O computador de casa sempre foi compartilhado entre a família e, naquela época, não tinha essa coisa popular dos filhos terem seus próprios notebooks. Laptops eram bem caros naqueles anos.

Nesse sentido de compartilhamento, havia uma regra velada e natural de ninguém mexer nas pastas de ninguém. Mas não sei o que deu no meu pai (e o que deu em mim) que eu havia deixado umas fotos de “nu nada artístico” de pessoas que conhecia pelos chats da vida. Imagine que “gostoso” meu pai abrir meus arquivos e ver fotos de paus e usuários posers (risos).

Foi aí que intimou minha mãe e ficou numa insistência para investigar aquilo. Minha mãe havia mantido a discrição até então pois sabia que a reação do meu pai não teria como ser medida, ou melhor, poderia vir de qualquer forma, principalmente das piores como uma expulsão de casa. Nessas horas é até natural pensar no pior (risos).

Um dia mamãe não aguentou a pressão e chegou no meu quarto com seu avental enquanto preparava o almoço: “Filho, não tem mais como aguentar seu pai. Aproveita que ele está na cozinha e converse com ele”.

Imediatamente e sem titubear desci do meu quarto para a cozinha e falei. Falei muito enquanto ele só ouvia. Falei que para mim aquilo era certo, não haveria como mudar. Falei da aceitação de meus amigos, da minha personalidade e que estava bem e feliz do jeito que fosse. Falei que nada mudaria e falei tanto que nem mesmo lembro tudo que falei (risos).

Sua primeira frase foi curta e direta: “Bem que eu imaginei que essa coisa de publicidade, arquitetura, é tudo coisa de viado!”.

Meu pai demorou mais de 10 anos para aceitar. Hoje o noto muito mais tranquilo com todo esse assunto de homossexualidade. Algumas poucas vezes saímos todos juntos com meu namorado mas sei que a dificuldade é de meu pai lembrar que sou gay e, quando estou com meu namorado, não tem como não lembrá-lo.

Para meu irmão

Não me recordo se contei primeiramente para meu irmão ou se ele soube depois de minha mãe. O fato é que imediatamente depois de me assumir (a mim mesmo) tudo ficou mais leve, em paz e fluido. Não precisava pensar em como agir naquelas rodas de assuntos sobre mulheres e tudo mais que os amigos heterossexuais adoram.

Meu irmão morava na época em Campinas, fazia UNICAMP. Ele ligou para meu escritório para algum motivo que não me recordo, talvez apenas para bater papo e assim fizemos. Quando comecei a falar do meu cotidiano fui bastante prático e disse que era gay e que fulano de tal, que ele já havia conhecido, era meu namorado.

Lembro que na hora ele deu uma risada e falou para parar de zoar. Quando caiu sua ficha, se expressou basicamente dando risadas e até tirando um sarro de leve a medida que eu mencioanava os caras que ele havia conhecido vez ou outra e que eram ficantes. Meu irmão comentou que de fulano ele até desconfiava, que se cicrano não e – rapidamente – levou a ideia.

Numa primeira oportunidade de encontro pessoal retomamos o assunto, mas tudo permaneceu tranquilo como é até hoje.

2 comentários Adicione o seu

  1. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe
    comentado: Eis a parte 5. Só tem mais uma! kkk

  2. Colaboração disse:

    LGBT = Life Gets Better Together

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