MVG fala sobre a vida gay no geral – Parte Final


Entrevista realizada pelo leitor Caio

Caio: Por que a maioria dos gays gosta de cultuar o corpo no que tange treinar para definir bem a musculatura, ou então aqueles que não curtem isso pelo menos preferem se relacionar com caras mais sarados? Responda segundo sua visão é claro (risos).

MVG: Eu diria que o culto à estética é um dos vícios do novo século. Seriados, novelas, programas de auditório, sites, filmes e todas as produções visuais nos estimulam constantemente a entrar na “estética sarada”. Os que entram só pela moda costumam fracassar. Os que entram e conseguem relacionar o culto estético associado à saúde e bem estar continuam e existirão aqueles que negarão o modelo, um pouco por falta de força de vontade – porque se exercitar dá trabalho e comer dá prazer – e um pouco por ir contra a ordem do padrão.

Não sei se a maioria dos gays gosta desse culto à estética, mas certamente aqueles que se expõe nas ruas, nas baladas, nos bares e nos restaurantes e que cultuam uma vida social ativa vão entrar no modelo sim. Esse é um dos nossos lados animais que não repudio tanto: somos pavões machos e precisamos chacoalhar nossas caldas se estamos no “cio” e livres para copular.

O problema a mim diante tudo isso é o vício comportamental em detrimento à vontade de relacionamentos afetivos sérios que é uma questão frequente para o gay. Normalmente, quando entramos no culto estético e estimulamos o exibicionismo, acabamos viciados nisso. Se pegamos um bonito porque nos fizemos bonitos, queremos outro e depois outro e ficamos nesse ritmo.

Mesmo namorando, as pessoas podem continuar se cuidando, mantendo a estética individual no devido lugar. Mas a necessidade de se fazer aparecer, do exibicionismo e de todos os jogos que acontecem por trás da estratégia da estética vira um contrasenso aos relacionamentos sérios. Não tem jeito: ou você se exibe para os outros, ou abaixa a calda do pavão para desenvolver novos jogos no relacionamento sem perder os músculos.

Daí, entramos no campo das concessões e dos esforços que um relacionamento sério exige. Tema para vastas ideias!

Caio: Como foi sua experiência ao começar a entrar no “mundo gay”: casas noturnas, bares, áreas em geral frequentadas pelo público LGBT?

MVG: Foi uma fase auto-afirmativa muito livre e gostosa. Quando entrei no mundo gay, para fazer diferente, entrei junto com meu primeiro namoro (risos). Tudo era mais colorido, divertido e vinha uma sensação de poder/potência muito prazerosa. Batia cartão em um bar-restaurante chamado Allegro, na Consolação – do lado do Jardins. Existia uma balada recém inaugurada chamada SoGo e só dava os “bonitos” (pavões) por lá. Lá também tive a experiência de conhecer um dark room, quando me tranquei em uma das cabines com meu namorado, transamos e – quando saímos – aquele lugar parecia um formigueiro de corpos musculosos e desnudos, pintos, bundas e tudo mais que existe no “lado B” da vida gay.

Transei com meu namorado na praia, na saída de emergência de prédio, dentro do carro em ruas movimentadas, nos pegávamos dentro do cinema e, com tantas vontades, era questão de criar a situação. Viajávamos juntos para o litoral, pousadas, conhecíamos motéis, etc.

Nas noites em SP, me excitava mesmo vendo aqueles lindos Gogo Boys. Não imaginava que era possível existir tanto homem bonito por metro quadrado e com tanta coisa para mostrar (risos).

Cruzar nas casas com o Edson Cordeiro, o ex-jogar de vôlei Lilico, Ronaldo Ésper, Max Fivelinha (entre outras figuras midiáticas) era uma experiência antropológica no sentido de trazer para meu mundo real aquilo que só ficava no universo das intenções.

Daí fui notando que seria possível levar a minha homossexualidade para além das fronteiras das áreas frequentadas pelo público LGBT, para as famílias dos meus ex-namorados, para meus amigos, para dentro de casa (…). Tem gay que só se sente pleno no meio. Eu não, mas é fundamental superar as inseguranças e as limitações.

Caio: Como foi sua primeira experiência ao estar com um homem, tanto em relação ao primeiro beijo e a primeira relação sexual? Aconteceram juntos ou um depois a outra?

MVG: A melhor palavra para traduzir o primeiro beijo e a primeira transa é “estranho”. Na hora que dei o primeiro beijo de pegada forte fiquei com ânsia de vômito (risos). Daí parei, respirei, segurei a onda uns dois minutos e tasquei o segundo. A partir daí foi demais.

A primeira transa foi com a mesma pessoa. Foi uma mistura de estranheza com tesão e a gente descobre rapidinho que o negócio é liberar o instinto que a coisa funciona. Não foi a melhor transa da minha vida e foi aí que me colocaram a questão de atividade e passividade pela primeira vez. Não imaginava que teria que “optar” por essas coisas.

Tudo isso, Caio, há 14 anos atrás (risos).

Caio: Você já teve algum relacionamento aberto? Se não, já passou pelos seus pensamentos como seria e se você aceitaria?

MVG: Com um ex-namorado tive a experiência de ir ao Autorama, transar dentro do carro e deixar que as pessoas participassem pela janela; pelas frestas das janelas. Foi altamente excitante a ponto de eu ter ejaculação precoce com trinta e poucos anos (risos).

Mas depois da situação aquilo soou estranho tanto para mim quanto para meu namorado. Ele comentou em ter sentido ciúmes e eu – na verdade – me senti mal pela exposição. Gozar antes da hora, sem controle, foi péssimo! Me senti um amador (risos).

Já passou algumas vezes a ideia de abrir o relacionamento e conversei muito disso com meu namorado. A questão de aceitar depende muito de uma concordância para o conceito de relacionamento aberto, de ambas as partes, e de como dividir tesão de sentimento. Nem eu, nem ele estamos dispostos a isso no momento.

Mas, acima de tudo, se tiver que acontecer imagino que virá naturalmente. Não sei se é algo que se formaliza e combina. Mas no tema relacionamento aberto não tenho experiência nenhuma.

8 comentários Adicione o seu

  1. alexandres disse:

    Bom dia MVG, sou leitor assíduo do blog e gostei da entrevista. Você é sempre coerente e sincero. grande abraço e ótimo domingo.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Alexandres! Que bom que gostou.
      Abraço e boa tarde!

  2. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe
    comentado: Enfim, a parte final!

  3. Gustavo disse:

    Bom, tenho um amigo que conheço 2 anos e alguns meses, ele é gay e muito bem discreto exatamente igual a mim. Tenho 19 e ele 22. Mas nós 2 sempre nos respeitamos muito e nesse tempo de 2 anos e pouco, nós nos encontramos pra conversar, pra dar um passeio de bike e tudo mais, tudo bem ate ai, mas assim que nós nos conhecemos ele tinha começado a namorar um outro cara e que com o tempo se apaixonou por ele, eles discutiam mto mas tbm se amavam, por 2 anos a relaçao deles durou desse jeito, atualmente eles se separaram recentemente por mais uma vez brigas torpes, durante esse tempo todo quando eles brigavam ele ja me confessou que tinha uma enorme vontade de tentar uma relaçao comigo, porque sentia mta das vezes raiva do namorado dele pelas brigas. E agora que eles se separaram ele me disse isso denovo mas com a intençao de realmente tentar algo e como eu ja gostava dele e me sentia atraido aceitei. Ficamos 3 dias juntos e eu tive uma seria conversa com ele, disse que ele ainda estava apaixonado pelo antigo namorado e nao estava conseguindo esquece-lo e estava comigo naquele momento como uma forma de tentar esqueçer o ex namorado e eu disse que dessa forma eu nao queria, e ele mais uma vez demonstra que ainda ama o outro cara mas os 2 nao tem mais jeito juntos, sei disso pq converso com ele sempre. Eu sinto uma coisa mto forte quando estou com ele, me sinto atraido como disse antes e queria tentar uma relaçao com ele mas sem ele ficar pensando no outro cara e nao sei mas o que eu faço pra que isso nao ocorra. Ele e o namorado nao se vêem todo dia pq moram um pouco distante. Enfim queria namorar com ele mas sem que acontece interferencia de pensamentos dele no outro cara, nao sei se eu devo tentar conquistar ele agora e acabar perdendo a amizade por besteira…

    1. minhavidagay disse:

      Oi Gustavo,
      bom dia!

      Bem, seu caso não é diferente de inúmeros casos quando a gente é ou inclui um “novo elemento” numa história mal resolvida. Vamos entender o cenário da história de maneira mais imparcial possível:

      – Primeiro que o seu amigo acaba sendo o centro de tudo isso. Vive/viveu dois anos de namoro, teve crises como qualquer relacionamento e parece que não está sabendo administrar. Terminou recentemente mas está confuso/dividido;

      – Você, bem ou mal, traz influência a ele. Primeiro que você gosta dele e o quer como namorado, segundo, porque você é a “desculpa” mais próxima para ele “escapar” das dificuldades do próprio namoro (namoro, independentemente de qual seja ou em que nível esteja, sempre tem coisa para ajustar. Inclusive, resolver as divergências é também namorar);

      – A mim, esse parece ser o cenário, resumido.

      Vamos a análise agora:

      – Como você vai ter controle de não fazê-lo pensar no ex? Ele mal terminou e acho bastante difícil jogar fora 2 anos de relacionamento, deletar do HD como se fôssemos máquinas. Não acho que nesses dois anos foram apenas crises porque um relacionamento que só vive de crise não existe, assim como não existe um relacionamento de mar-de-rosas e, perceba desde agora, que você já está iniciando um relacionamento com seu amigo numa crise/conflito. Essa história nasce enrolada;

      – Se você acha que vale mesmo a pena entrar nesse rolo, como um tipo de amante (porque ele ainda gosta, tem contato com o ex e términos de relacionamento normalmente são processos) vai fundo. Mas não espere que seja simples e da maneira que você gostaria. Nessas situações é bastante importante aprender sobre concessões e dançar o jogo. Daí você pergunta – “que concessão”? E eu respondo: você quer que seu amigo esqueça o ex e se volte apenas à sua relação. Sinto muito, mas isso não existe! O que existe, caso seu amigo goste mesmo ainda do ex é todo um processo de desligamento, superação e, mesmo assim, ele ainda pode tender a voltar. Você concede a ele esse espaço correndo o risco dele voltar? Tem jogo de cintura para isso? Porque me parece que você vai precisar…

      – Você pode articular, “jogar”, insistir e querer um ideal – sem a presença do ex do amigo. Mas vai precisar aprender a lidar com a situação de maneira muito mais esperta do que hoje.

      Raras são as vezes que situações desse tipo são simples, fluidas e tranquilas de lidar. Se para duas já é difícil, imagine para três? Envolve sentimento das pessoas, envolve interesses e – na maioria das vezes – as pessoas preferem viver a própria bagunça do que resolver. Porque resolver dá bastante trabalho e exige esforço. Deixar na bagunça é deixar do jeito que está, se acomodar.

      E tudo na vida tem um preço e alguém vai acabar cobrando. E quando alguém cobrar, vão também precisar saber lidar.

      Acho bom as pessoas viverem esses rolos de vez em quando pois das duas uma: ou a pessoa vive esses rolos eternamente, o que caracteriza o indivíduo como alguém enrolado/confuso/atrapalhado mesmo, ou as pessoas vivem, superam e amadurecem. Parte para histórias diferentes.

      Veja aí onde você se encaixa em tudo isso e, o mais importante é que você seja feliz. O futuro pode ser incerto e inseguro, eis o desafio. E dá trabalho, Gustavo.

      Abs,
      MVG

      1. Gustavo disse:

        Obrigado :) Vou esperar um tempo e novamente ter uma conversa franca com ele sobre isso, caso eu perceba algum tipo de inrregularidade ou insegurança da parte relacionado pelo outro cara eu deixo como está e vou seguir minha vida e deixo que o tempo faça esse trabalho…Mais uma vez obrigado :)

  4. Caio disse:

    Olá MVG, vejo que sua explanação nas respostas às minhas perguntas ficaram muito boas. Agora já saciei algumas de minhas curiosidades (e provavelmente de vários leitores rsrs) a seu respeito e também pude ver com maior profundidade sua visão acerca de alguns temas que a mim são interessantes. Obrigado pela sinceridade e pelo espaço.

    Abraço e boa semana.

    1. minhavidagay disse:

      Eu que agradeço, Caio! Apreciei bastante a maneira que fizemos e assim fica registrado mais referências para que os usuários possam se contextualizar ou criticar.

      Abraço,
      MVG

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