MVG fala sobre o que pode caracterizar ou não os gays logo na infância – Parte 3


Entrevista realizada pelo leitor Caio

Caio: Você acha que alguns indícios que ocorrem durante a infância já são decisivos para que se possam identificar pessoas homossexuais depois na adolescência ou juventude? Com isso quero dizer de uma maneira geral e também não digo simplesmente a tipos de brincadeira, como meninos brincarem de boneca e casinha e garotas de futebol e carrinhos.

MVG: Eu realmente acho, Caio, que todo indivíduo deve ter a liberdade bissexual e acho sim que logo nos primeiros anos de vida a orientação, os desejos e as escolhas serão formadas individualmente. Nesse contexto, uma grande maioria se orienta pela natural heterossexualidade mas, como bem sabemos, a Natureza faz inúmeras exceções e combinações aleatórias. Fazemos parte dessa aleatoriedade. Quem define as regras, no caso do bicho homem, é a sociedade e explico essa divisão mais abaixo.

Enquanto todos estamos dentro do ventre materno, a realidade de mundo para todos é mais semelhante, embora já existam conexões entre a mãe e o filho que são exclusivas, mas subjetivas, químicas e fechadas naquele pequeno universo da barriga.

Quando nascemos, passamos lentamente a “ligar” nosso corpo e dar vasão para nossa alma. As células, principalmente os neurônios, começam a trabalhar em detrimento ao universo externo. A partir daí tudo que somos começa a se formar a ganhar especificidade. Nossos registros genéticos passam a interagir com os registros que vêm de fora em combinações totalmente variadas e diferentes, de indivíduo para indivíduo, o que vai nos tornando pessoas exclusivas.

Alguns desses indivíduos, por intermédio do próprio código genético interagindo com o meio externo (experiências específicas com pai, mãe, irmão, cores, cheiros, tato, sabores, sons, etc.) podem sim já ter ou formar indícios de homossexualidade ou até da transexualidade – quando uma menina nasce em um corpo de um menino por exemplo – assim como da heterossexualidade. A mim, o resultado dessas interações do que somos (material genético, químico e, sim, espiritual) com a maneira que agimos e reagimos com o mundo (fenótipo), é essa variedade infinita de tipos de pessoas, inclusive de tipos de indivíduos homossexuais.

Essa formação vem até antes das definições e modelos culturais do tipo “brincadeira de menino” e “brincadeira de menina”. Esses modelos são sociais e externos e não definem propriamente a sexualidade de ninguém, embora alguns permitam-se influenciar menos ou mais para designar sexualidade. Em outras palavras, as intervenções culturais e sociais tem o papel de nos condicionar para viver em grupos com o objetivo de sobrevivência, de maneira organizada. Esse é o papel primordial, mas que nos influenciam em maior ou menor grau quando cai no tema do sexo.

Quem define a sexualidade é o próprio indivíduo, inclusive, define o quanto se permitirá que a cultura normativa e a sociedade influencie em suas escolhas, desejos e orientações. No meu caso, eu avalio muito o que a sociedade me diz antes de me deixar influenciar e, o mais importante, venho me situando socialmente, desde minha consciência como ser social, para não ter que conviver com conflitos relacionados à minha homossexualidade.

Mas veja esses casos (com base em relatos que obtive de leitores durante um pouco mais de dois anos do Blog MVG):

Exemplo 1: fulano sabe que é homossexual há 50 anos. Essa consciência é individual e particular pois corresponde a aspectos únicos, pessoais e íntimos, do desejo de envolvimento, do prazer e da afetividade. Porém, o mesmo fulano durante sua vida foi altamente temeroso com a reação social dos mais diferentes grupos de seu convívio e preferiu ser “solteirão”. Assim, mantém um tipo de fidelidade e paz consigo (permanecendo na solteirice, íntegro, sem viver uma farsa íntima) mas nunca assumiu socialmente a homossexualidade. Se fulano vira assunto para seus grupos, pode ser heterossexual, assexuado ou gay enrustido, oferecendo para a sociedade a dúvida. Nesse caso é assim que as pessoas costumam fazer naquelas famosas conversas de bar, de canto, longe da presença de fulano. É da natureza humana comentar e existir as famosas fofocas. Isso não tem como evitar.

Em outras palavras, para esse primeiro exemplo, a consciência íntima da verdade (homossexual) é camuflada socialmente. Nesses 50 anos esse indivíduo encontrou um tipo de equilíbrio se ajustando e reajustando nessa condição, mas possivelmente tendo que lidar com limiares de desconforto.

Exemplo 2: cicrano tem 50 anos mas não assume que seja homossexual embora goste de transar com homens furtivamente. Na juventude transitou entre a heterossexualidade e a homossexualidade em casos aqui e ali mas a ele – qualquer tipo de construção familiar ou exposição de homossexualidade perante seus grupos – seria algo impossível. O que tinha certo a si era um desejo muito intenso de constituir família no sentido mais normativo possível. Fazer assim representa a ele reputação social perante família, trabalho e sociedade. Isso é de representação máxima para o cicrano.

Pessoas que vivem na solteirice, na cabeça dele, é alvo para que os grupos os rotulem de gays ou assexuados e isso ofusca os valores que tem de reputação. Na intimidade, tem horas que acha que seus maiores desejos estão relacionados ao mesmo sexo, mas a “desculpa” que cai como peso é justamente o da reputação social que é assunto que não se muda.

Em outras palavras, para esse segundo exemplo, a influência social e cultural por intermédio dos valores assumidos sobre reputação é forte o suficiente para que tenha uma vida heterossexual, com filhos, família e relacionamento profissional normatizado e que mantenha potencializada sua vontade homossexual. Tende a não querer ser nomeado como gay e – em sua lógica de reputação – ser um “macho que curte outro macho” lhe parece um tanto normal, normativo, aceito se for dessa maneira pois a ele, “macho quer macho” não o tira do status. É como se o guerreiro romano pudesse transar com outro no puro exercício de reputação e masculinidade.

Exemplo 3: beltrano sabe que é homossexual há 50 anos. Na juventude transitou entre a heterossexualidade e a homossexualidade em casos aqui e ali mas a ele – o senso imposto por intermédio de sua educação das tradições (religiosa ou não) – o obrigou a construir a vida seguindo a tal da heteronormatividade.  Sobre ele, o valor de reputação não tem tanto poder assim, mas pela pressão familiar, das expectativas alheias (normalmente dos pais), do senso de respeito aos desejos paternais, construiu família e segue a cartilha. Adquiriu uma reputação social, mas muito mais impulsionado pelas expectativas dos grupos do que pelo desejo íntimo.

Como a tal reputação não lhe é alicerce imbatível (ao contrário do Exemplo 2), a reputação em si não lhe assegura: vive “surtos” de sofrimento pelas escolhas que fez e sente-se arrependido por ter envolvido esposa e fundamentalmente filhos.

Em outras palavras, para esse terceiro exemplo, existe também uma influência social, das expectativas VS. desejos íntimos e particulares.

Para concluir esse trecho da entrevista, as vertentes não-normativas vão ganhando mais espaço a medida que o sentido de reputação influencia menos os processos de socialização vinculados, no caso, à sexualidade de um indivíduo. Sabemos muito bem que as novas gerações Y e Z estão negando fortemente as atuais e tradicionais normas de reputação e esse assunto dá margem a muitas discussões sobre as tendências e reconstrução de valores culturais, políticos e econômicos que o mundo inteiro tem passado.

O fato é que os comportamentos e expectativas estão se transformando e isso é algo incontrolável.

1 comentário Adicione o seu

  1. junior38 disse:

    Republicou isso em É Difícil Ser Gay no Armárioe
    comentado: Segue a parte 3….

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